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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Livros sobre Livros (e Bibliotecas)


Nos últimos meses li várias obras sobre o amor desmesurado pelos livros, bibliotecas e pela literatura. Obras que mostram como os livros são maravilhosos, reconfortantes e surpreendentes.


A Casa de Papel – Carlos María Domínguez

Neste minúsculo livro, Bluma Lennon é uma professora universitária que é vítima de um acidente mortal enquanto lia um poema de Emily Dickinson. O seu substituto na universidade, recebe um envelope dirigido à falecida que contém um exemplar do livro de Joseph Conrad “A Linha da Sombra”. No entanto, este exemplar tem a capa e a contracapa cheias de cimento, e quem o recebeu não resiste a procurar o remetente de tal objecto...

O amor pelos livros está patente ao longo de todo o livro: “Os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los” (página 15); “Preciso de ler todo o aparato, esclarecer o sentido de cada conceito e, por isso, dificilmente me sento a ler um livro sem vinte ao lado, às vezes para completar a interpretação de um só capítulo” (página 31) ou “Eu fodo com cada livro e, se não houver marcas, não há orgasmo” (página 35).


Jacques Bonnet – Bibliotecas Cheias de Fantasmas

Mais uma preciosidade para os amantes da leitura. Este livro está dividido em nove capítulos e o autor, com base na sua experiência pessoal, aborda temas como as bibliotecas gigantes, as bibliomanias, a arrumação dos livros e as práticas de leitura. Como a minha biblioteca já ultrapassou o milhar de exemplares, identifiquei-me com alguns dos “problemas” que o autor relata no capítulo “Arrumar e Classificar”.

Ao longo da obra deparamo-nos com inúmeras referências literárias o que nos leva a querer ler mais e melhor, descobrir coisas diferentes e alargar os nossos horizontes. A título de exemplo, no capítulo oito é feita uma alusão a um episódio de The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), a série de televisão dos anos 60, chamado "Time Enough At Last", no qual um bancário não tem tempo para se dedicar à sua actividade preferida: a leitura…


Daniel Pennac – Como Um Romance

Retrata a iniciação ao mundo da leitura, desde a infância até à idade adulta e está repleto de citações e histórias surpreendentes sobre o amor aos livros. Contém os conhecidíssimos direitos inalienáveis do leitor (no foto abaixo) e 21 razões para ler (páginas 68 e 69).


Neste tratado sobre a leitura, Pennac considera que «ler» não deve ser um trabalho forçado. O ideal é tirar o melhor partido de um livro e ler acima de tudo com gosto.

Há quem nunca tenha lido e por isso tenha vergonha, há os que já não conseguem arranjar tempo para ler e que por isso se lamentam, há os que nunca lêem romances, só livros úteis, ensaios, obras técnicas, biografias, livros de história; há os que lêem tudo, que «devoram» e, cujos olhos brilham, há os que só lêem os clássicos, meu caro senhor, «pois a melhor crítica é o crivo do tempo», há os que passam a idade madura a «reler», e os que leram o último de fulano e o último de cicrano, porque, meu caro senhor, temos de estar a par…
Mas todos, todos, em nome da necessidade de ler
” (página 66).


Zoran Zivkovic – A Biblioteca

Nesta viagem de ida ao mundo dos livros entramos em simultâneo no mundo da magia e fantasia. São 6 contos, todos com a palavra Biblioteca no início do título ao que acresce Virtual, Particular, Nocturna, Infernal, Minimal e Requintada. Aqui encontramos um escritor que descobre na sua caixa de e-mail um link para uma Biblioteca Virtual que afirma ter lá “tudo”; um homem que sempre que abre a sua caixa de correio encontra o mesmo livro (chamado “Literatura Universal”) originando problemas de arrumação na sua casa; a existência de uma biblioteca especial só com livros de todas as vidas do planeta; um indivíduo que tem de prestar contas no inferno por não ter lido nenhum livro durante toda a sua vida (claro que a terapia obrigatória é a leitura!); um livro que muda de título e conteúdo sempre que é aberto e uma pessoa avessa a edições de bolso mas que não se consegue livrar delas… Delicioso!


Jorge Luis Borges – O Livro de Areia


Este livro contém 13 contos e vou destacar apenas o último, “O Livro de Areia” pois é o único que versa sobre o mundo dos livros. A história é similar às histórias de Zivkovic, com um elemento fantástico presente: um indivíduo é convencido a comprar um livro que não tem nem a primeira nem a última página (daí a origem do título do conto, pois nem o livro nem a areia têm princípio nem fim).

Por curiosidade menciono que 31 anos antes (e em muito melhor forma), Borges na sua obra-prima “Ficções” de 1944 incluiu o famosíssimo e obrigatório conto metafísico “A Biblioteca de Babel”, retratando uma realidade em que o mundo é composto por uma infinidade de livros em que estes abarcam todas as possibilidades da realidade.


Umberto Eco – A Biblioteca


Este opúsculo, de leitura bastante rápida, baseia-se na conferência dada no dia 10 de Março de 1981, data da comemoração dos vinte e cinco anos de actividade da Biblioteca Municipal de Milão, pelo sempre provocatório e genial Umberto Eco.

Eco começa por apresentar as razões para a existência das bibliotecas (“a principal função da biblioteca é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importante para nós”) concluindo que uma Biblioteca deverá ter como principal objectivo ser um espaço convidativo à permanência, à consulta, à leitura e à pesquisa no local. Posteriormente estabelece de forma irónica várias alíneas que sustentam uma biblioteca ideal (da letra a à letra s).


Umberto Eco e Jean-Claude Carrière – A Obsessão do Fogo


A obra consiste “apenas” num diálogo sobre o papel dos livros no decurso da História, protagonizado por Umberto Eco e um escritor e cineasta francês, Jean-Claude Carrière. Li as 305 páginas do livro em menos de 48 horas, tal o seu interesse, asserção e humor.

Os autores viajam pelos livros e bibliotecas ao longo de milhares de anos, expondo e trocando pontos de vista, estórias e reflexões que os levam a meditar sobre a “idiotia” e a imbecilidade do mundo, acabando por revelar a eterna preocupação do Homem pelo fogo, principalmente em relação às bibliotecas. Uma conclusão partilhada por ambos: o livro não morrerá, sobrevirá ao e-book: “O livro é, tal como a roda, uma espécie de perfeição inultrapassável na ordem do imaginário”.