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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

As Melhores Séries de 2022


O ano foi rico em diversidade de estreias nas plataformas de streaming, do sci-fi à espionagem, das fraudes à fantasia. Com interpretações de luxo, argumentos de peso e histórias mirabolantes, estas são as séries que mais gostei de ver em 2022.



- Black Bird – Protagonizada por Taron Egerton e um assombroso Paul Walter Hauser, esta minissérie conta a história real de James Keene, carismático criminoso recrutado pelo FBI para arrancar uma confissão a Larry Hall, homem obcecado pela guerra civil norte-americana que se revelou um dos assassinos em série mais mortíferos da história dos Estados Unidos. Um dos últimos papéis do malogrado Ray Liotta.



- The Dropout – Uma história real (e inacreditável) sobre ambição e fama, e o que pode daí correr mal, “The Dropout: A História de uma Fraude” conta a história de Elizabeth Holmes (a espetacular Amanda Seyfried), fundadora da Theranos. Na tentativa de revolucionar a indústria da saúde, Elizabeth deixa a faculdade (daí o título da série) e inicia uma empresa de tecnologia que tem por objetivo criar uma máquina que, através de uma única gota de sangue, conseguisse efetuar mais de 200 análises. A banda sonora é brilhante e pode ser ouvida AQUI.

- The Bear – O título desta minissérie é a alcunha dada a Carmen Berzatto, um chef Michelin que se vê na posição de gerir a loja de sandes do irmão, depois de este falecer. É uma série caótica mas viciante, decorre numa atmosfera eletrizante, ao som de “New Noise” dos Refused, tem um elenco brilhante e capta o caos frenético que se apodera da cozinha de um restaurante durante o serviço. Os 8 (curtos) episódios devem ser degustados de enfiada…

- Pachinko – Baseada no bestseller de Min Jin Lee e adaptada por um filho de imigrantes coreanos, em “Pachinko” (uma máquina de flippers à japonesa, que aqui funciona como metáfora para a vida, ela própria uma espécie de montanha-russa diária), o espetador perde-se na belíssima fotografia deste retrato emocional e expressivo da história de todos os coreanos que foram afetados pela colonização japonesa da Coreia no séc. XX.

- Severance – Nesta espécie de comédia bizarra, tenta-se responder essencialmente a uma questão (que depois se desmultiplica): e se conseguíssemos separar a nossa vida pessoal da profissional através de consciências distintas? Independentemente dos motivos, se a tecnologia permitir separar o nosso “eu” pessoal do “eu” do trabalho, será que o fazíamos? Será que conseguíamos simplesmente esquecer oito horas do nosso dia? E, a ser possível, seria sequer ético? Onde é que encaixa aqui o nosso livre-arbítrio?

- The White Lotus (Season 2) – Depois de uma temporada inagural de sucesso, a segunda temporada repete a base satírica mas mudam os ingredientes. A exceção é Jennifer Coolidge, que volta a dar vida a Tanya McQuoid. Neste novo “White Lotus”, as personagens desembarcam na Sicília, num ambiente distópico que sufoca as suas relações interpessoais. Conduzido por um brilhantismo de autor, desta vez o enredo assenta na toxicidade e sexualidade. No desfecho, tudo corre bem porque tudo corre mal.

Wednesday – Série com gostinho especial pelo macabro e sobrenatural, spin-off da “The Addams Family”, realizada por Tim Burton e por isso ideal para os fãs da estética sombria. Jenny Ortega interpreta a protagonista da história, Wednesday, alérgica a cor e de olhar intimidante, quase desconcertante, que é expulsa da escola e enviada para onde os pais estudaram e se apaixonaram. É lá que aprende a lidar com as suas visões e é educada para ser independente e corajosa mas acaba por ser obrigada a investigar um crime e ser confrontada com algo que abomina: a amizade e o amor.


Momento impressionate da temporada: a dança de Wednesday ao som de “Goo Goo Muck”, dos Cramps, no baile do liceu. Aliás, toda a banda sonora é simplesmente arrepiante. Wednesday é um ás no violoncello e toca, por exemplo, “Winter” de Vivaldi, e uma versão da “Paint It Black”, dos Rolling Stones. 

Bad Sisters – É uma comédia negra sobre as irmãs Garvey. Desde muito cedo, as cinco irmãs tornaram-se inseparáveis devido à morte prematura dos pais. No entanto, quando uma deles, Grace, é vítima de violência doméstica pelo marido, as irmãs decidem resolver o problema com as próprias mãos, levando a consequências desastrosas.


 

- Inventing Anna – Aqui retrata-se a história verídica de Anna Sorokin (papel desempenhado na perfeição por Julia Garner), uma cidadã russa que, entre 2013 e 2017, se fez passar por uma rica herdeira nos E.U.A., enganando e vigarizando pessoas, bancos, hotéis e outras instituições, até ser finalmente presa (mas libertada no dia 5 de outubro de 2022, precisamente na semana em que vi esta minissérie). 

- The Old Man – Um ex-agente reformado da CIA, Dan Chase (Jeff Bridges) a tentar ter uma vida tranquila até que um dia sofre uma tentativa de homicídio e percebe que está a ser caçado. Assim é obrigado a procurar um esconderijo para se proteger daqueles que o querem matar e encontra-o na casa de Zoe McDonald (Amy Brenneman), uma mulher com um passado misterioso e juntos procuram à verdade sobre a caça a Chase.



- This Is Going to Hurt – comédia dramática que acompanha um grupo de doutores recém-formados num hospital londrino na área da obstetrícia e ginecologia. Esta comédia dramática proporciona um olhar divertido e honesto sobre como é trabalhar com essas especialidades da medicina e explora os efeitos emocionais que trabalhar na área da saúde causa nos seus funcionários. Crítica social e humor. É uma minissérie profundamente humana e imperdível.

- MO – É um divertido e comovente retrato da vida de um refugiado palestino nos EUA. Série criada por Mo Amer e Ramy Youssef (de outra excelente série, “Ramy”) e por isso autobiográfica: acompanha Mo e a sua família, refugiados do Iraque durante a Guerra do Golfo, no início dos anos 90, em busca da obtenção da cidadania americana.

Hacks (Season 2) – Série hilariante sobre uma comediante lendária de Las Vegas, pioneira mas ultrapassada, Deborah Vance (Jean Smart). A história explora a relação de mentoria que Deborah estabelece com Ava Daniels (Hannah Einbinder), uma jovem escritora de comédia. Nesta segunda temporada, Deborah, no crepúsculo da sua carreira, decide retornar às suas raízes e fazer espetáculos itinerantes pelos E.U.A.

Heartstopper – A novela gráfica passa para o pequeno ecrã, a história de amor de Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor), onde os dois adolescentes tentam compreender o sentimento que os une enquanto um lida com o bullying de que é alvo e o outro com incertezas quanto à sua orientação sexual. “Heartstopper” mostra que nem sempre o lado mais negro vinga nas vidas de uma imensa, e diversa, minoria, que continua estigmatizada e perseguida. A participação especial de Olivia Colman é a cereja no topo do bolo.



- Shining GirlsThriller original que combina de forma inteligente elementos sobrenaturais, terror, serial killer, muito suspense e ficção científica. Conta com um elenco encabeçado pela incomparável Elizabeth Moss, Wagner Moura e Jamie Bell. O última episódio termina com a voz de Angel Olsen numa versão de "One Too Many Mornings", original de Bob Dylan.

Menções honrosas para a minissérie The English (protagonizada por Emily Blunt), para a continuação de The Crown (Season 5), Reservation Dogs (Season 3) e Abbott Elementary (Season 2) e para o final da excelente Better Call Daul (Season 6), proveniente do universo Breaking Bad. No mundo da fantasia, além da já mencionada Wednesday é impossível não destacar as majestosas House of the Dragon e The Lord of the Rings: The Rings of Power.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

As Melhores Séries de 2021


Com 2021 a chegar ao fim, volto a fazer um balanço daquilo que mais gostei de ver na televisão e no streaming.




- Mare Of Easttown

- Maid

- The White Lotus

- Nine Perfect Strangers

- The Chair

- It’s A Sin

- The Morning Show (Season 2)

- The Great (Season 2)

- Lupin (Season 1 & 2)

- The Underground Railroad

- Only Murders In The Building (Season 1)

- The Kominsky Method (Season 3)

- Scenes From A Marriage

- Foundation

domingo, 27 de dezembro de 2020

As Melhores Séries de 2020

Thriller, drama, comédia e ficção científica. Há de tudo nesta seleção das melhores séries. Creio que nunca vi tantas séries de televisão e nunca senti que ficou tanto por ver. É impossível ver tudo. Todos os dias saem novas séries nas várias plataformas de streaming disponíveis em Portugal e foram várias as histórias interessantes que chegaram à televisão nos últimos meses. Esta é a lista (possível) das melhores séries de 2020 a que assisti:


 


1) The Unorthodox

2) Small Axe

3) Pátria

4) Curb Your Enthusiasm (Temporada 10)

5) The Crown (Season 4)

6) Normal People

7) Better Call Saul (Season 5)

8) The Queen’s Gambit

9) Ozark (Season 3)

10) Mrs. America

11) A Teacher

12) The Undoing

13) High Fidelity

14) A Very English Scandal

15) Little Fires Everywhere

16) Ramy (Season 2)

17) The Mandalorian

18) Dave

19) My Brilliant Friend (Season 2)

20) Bridgerton

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Explained (Netflix - Season 1 & 2)

Esta série bastante esclarecedora da Netflix explora vários temas, e é perfeita para quem é curioso e gosta de entender um pouco de tudo. Os episódios são muito curtos, raramente atingem os 20 minutos, aborda temas de Economia e Sociologia, como a ascensão da moeda digital, o mercado de ações, o politicamente correto e a disparidade salarial racial mas também explica, por exemplo, a razão do fracasso das dietas, o mundo da música pop coreana, os desportos eletrónicos ou a vida extraterrestre.


 

Season 1

  1. A Disparidade Salarial Racial
  2. ADN Manipulado 
  3. Monogamia
  4. K-Pop 
  5. Criptomoeda
  6. Por Que Falham As Dietas 
  7. O Mercado De Ações
  8. Desportos Eletrónicos 
  9. Vida Extraterrestre 
  10. !
  11. Criquete 
  12. Canábis
  13. Tatuagens 
  14. Astrologia
  15. Será Que Podemos Viver Para Sempre? 
  16. O Orgasmo Feminino
  17. O Politicamente Correto 
  18. Por Que São Mais Baixos Os Salários Das Mulheres
  19. A Crise Mundial Da Água
  20. Música 

Season 2 

  1. Cultos 
  2. Multimilionários 
  3. Inteligência Animal 
  4. Athleisure 
  5. Codificação 
  6. Piratas 
  7. A Próxima Pandemia 
  8. O Futuro Da Carne 
  9. Beleza 
  10. Diamantes

segunda-feira, 23 de março de 2020

Serial Killers

Há filmes e séries que só queremos ver uma vez. Aliás, há grandes filmes e séries que só queremos ver uma vez. O que separa estas obras da generalidade das criaturas audiovisuais é quase sempre o facto de equivalerem a pesadelos e fotografarem o pior da humanidade, expondo feridas e partilhando traumas.

As próximas linhas são dedicadas aos apaixonados por histórias negras que revelam as mentes perigosas e intrincadas de assassinos. São séries exigentes do ponto de vista emocional mas excelentes!


When They See Us

Baseada na história real de cinco adolescentes negros conhecidos como Central Park Five, a série segue a história de como o grupo de Harlem foi acusado injustamente de violação. A primeira parte da série passa-se num ambiente de 1989, quando foram questionados pela primeira vez sobre o assédio de uma atleta caucasiana no famoso parque de Nova Iorque. A seguir, quatro dos jovens são enviados para um centro de correcção, mas um deles, por já ter 16 anos, é enviado para uma prisão.

A série tem cerca de 5 horas e está dividida em 4 partes. A quarta parte é brutal e é dedicada quase na íntegra à tragédia de Korey Wise (Jharrel Jerome tem um desempenho soberbo) – que em 1989 se deslocou à esquadra apenas para acompanhar um amigo e acabou como o único elemento dos Five julgado como adulto, passando 12 anos da sua vida entre 3 prisões diferentes a tentar sobreviver. Além de Jharrel Jerome também há actuações brilhantes por parte de Felicity Huffman e Vera Farmiga.

É uma reflexão sobre justiça, sobre o medo e sobre abuso de poder. É terapia de choque e formação cívica. Recorda um conjunto de rapazes no lugar errado à hora errada e é a série certa no momento certo, como seriam todos os momentos para relatar uma história assim.




Manhunt: Unabomber

Esta série conta a terrível (e intrigante) história real sobre o terrorista Ted Kaczynski, que ficou conhecido como “Unabomber” por enviar bombas através do correio para as suas vítimas. Entre o final dos anos 1970 e a década de 1990 feriu 23 pessoas e matou outras três.

Manhunt: Unabomber é uma série a duas velocidades. Os últimos meses de caça ao homem, por um lado, mostrando como o FBI procurava um homem ignorante e depois encetou uma busca por um intelecto refinado, capaz de redigir o famoso manifesto enviado ao New York Times. Essa é a primeira mecha da narrativa, que avança, alternando, dois anos para o momento em que é preciso bater o homicida no seu próprio jogo - fazê-lo confessar, evitando que use o palco mediático para pregar à sociedade que considera ser povoada por carneiros dependentes das máquinas.

Com Paul Bettany como o Unabomber e Chris Noth como o agente do FBI que lidera a investigação, a série é protagonizada por Sam Worthington como Jim “Fitz” Fitzgerald, um profiler incorruptível e pioneiro.

Ted Kaczynski matava pelo correio, enviando encomendas armadilhadas. Conseguiu escapar às autoridades durante duas décadas. Visto como um eremita louco, a série inclina o prisma para ver as origens da mente criminosa, mas também a sua sofisticação.




American Crime Story – The Assassination Of Gianni Versace

No dia 15 de Julho de 1997, o estilista Gianni Versace foi assassinado com dois tiros na nuca à porta de sua casa, em Miami. Versace tinha 50 anos. O criminoso, identificado logo no primeiro episódio, Andrew Cunanan, é um serial killer homossexual de 27 anos, que vivia à custa de homens mais velhos e ricos.

A série tem nove episódios. Começa com a morte de Versace e depois anda para trás e para a frente no tempo, ora mostrando como era a vida de Cunanan e outros dos seus crimes, antes de ter morto o estilista, ora centrando-se na caça ao homem pela polícia de Miami.

Édgar Ramirez interpreta Gianni Versace, Ricky Martin personifica o seu namorado, Anthony D’Amico, Darren Criss dá corpo a Andrew Cunanan e Penélope Cruz é Donatella Versace, a irmã do estilista.





Mindhunter - Season 1

Mindhunter
é uma série inspirada na obra "Mind Hunter: Inside The FBI's Elite Serial Crime Unit" de John E. Douglas e Mark Olshaker, agentes do FBI, onde narram as suas pesquisas na área de psicologia criminal. Os seus estudos incluem, em grande parte, entrevistar assassinos em série famosos, em busca de razões para as suas acções, tentando desta forma, nos anos 70, expandir as fronteiras da ciência criminal com um perigoso mergulho no universo da psicologia do assassinato.

Apanhar assassinos em série requer astúcia e assim entrevistar assassinos para perceber o que os move é o mote desta série criada por Joe Penhall e dirigida por David Fincher, entre outros realizadores. Baseada numa história verídica, com assassinos de que já ouvimos falar, Mindhunter centra-se nos agentes Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, juntamente com a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv).

Na 2ª temporada o foco vai para a investigação de homicídios de crianças ocorridos entre 1979 e 1981, em Atlanta, Geórgia, nos EUA.

Uma série negra e tensa, sem nunca ser demasiado explícita.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Chernobyl (Minissérie)

 

“Chernobyl” é uma minissérie épica da HBO em cinco partes que dramatiza os acontecimentos do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, ocorrido a 26 de abril de 1986, que dispersou uma nuvem radioativa pela Europa, contado pelas histórias das pessoas que fizeram sacrifícios incríveis para salvar a Europa de um desastre inimaginável.

Trata-se de um quadro implacável do pior acidente da história nuclear civil e reproduz o ambiente na antiga URSS, que tentou ocultar o incidente durante várias semanas, antes de resolver evacuar a zona, ainda inabitável mais de 30 anos depois.

O personagem principal é o diretor adjunto do maior centro de pesquisas da URSS. A série concentra-se no heroísmo das personagens comuns, mas os altos dirigentes soviéticos, começando pelo líder da época Mikhail Gorbachev, são retratados como sendo carentes de valores e mentirosos.

Assistir à série é ficar com um nó na garganta do início ao fim, não só porque temos a sensação de estarmos diante de algo nunca antes visto em televisão, como também porque nos relembramos que a história contada foi inspirada em factos verídicos. Por vezes até parece que estamos a apanhar com a radiação…

As consequências de Chernobyl foram catastróficas, entre várias mortes, deformações humanas e o completo abandono da cidade de Pripyat, na Ucrânia, perto de Chernobyl, atualmente uma cidade fantasma. As partículas radioativas continuam presentes no local, e quem visita a zona sem permissão é condenado a pena de prisão. 

O vídeo de apresentação do tema “Life Is Golden” incluído no álbum de 2018 da banda britânica Suede, The Blue Hour, foi totalmente filmado em Pripyat.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Anna Burns - Milkman


Protagonizado por uma jovem de 18 anos, “Milkman”, a obra vencedora do Man Booker Prize de 2018, é uma “história de brutalidade, resistência e invasão sexual, tecida com um humor mordaz”, e embora nada seja declarado abertamente, situa-se nos anos 1970, na Irlanda do Norte, durante o conflito conhecido como “The Troubles”. Assim, para compreender esta história é fundamental recordarmos em que consistiu aquela disputa:

- de um lado, os lealistas (nacionalistas) - a maioria protestante que defende a manutenção dos laços políticos com a vizinha ilha da Grã-Bretanha, igualmente protestante, e a consequente manutenção da Irlanda do Norte no seio do Reino Unido;

- do outro lado, os integracionistas (unionistas) - a minoria católica que advoga a integração da “província” na República da Irlanda, predominantemente católica, com quem partilha o território da ilha. Exigem também a igualdade religiosa, nomeadamente a não discriminação da minoria católica no acesso a cargos públicos ou empregos.

Os católicos sentem-se, pois, uma minoria marginalizada, com direitos diminuídos face à maioria protestante. E isso alimenta um compreensível mas perigoso sentimento de revolta. Foi nesse contexto que entrou em cena o grupo paramilitar católico IRA (Irish Republican Army – Exército Republicano Irlandês). Lutou pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido, defendendo a anexação à República da Irlanda recorrendo a métodos terroristas, incluindo ataques bombistas e emboscadas com armas de fogo contra alvos protestantes – de políticos unionistas (protestantes) a representantes do governo britânico.

Escrito de uma forma muito original, “Milkman” descreve a relação entre aquela jovem - que não tem nome, ninguém no livro tem nome, todos são referidos por relações, funções ou características, incluindo todos os locais (países e cidades) - e um homem mais velho, que a assedia sexualmente – o famigerado “leiteiro” anunciado no título –, o que leva ao surgimento de um rumor, rapidamente espalhado pela cidade, de que os dois têm um caso. O boato destrói, insidioso, as relações da narradora.

A jovem é referida como a irmã do meio, e fala da família da mesma forma: a mãe, a primeira irmã, a segunda irmã, a terceira irmã, as irmãs pequenas, o primeiro cunhado, o terceiro irmão, etc. Além disso, outros personagens que são importantes na narrativa também são chamados assim, como o namorado “mais ou menos”, a amiga “há mais tempo”, o rapaz da guerra nuclear e o Coiso e Tal. Vive sempre com medo e desconfiança num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às “milícias”) são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos “do lado de lá”; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas.

Burns conduz-nos pelos pensamentos de uma jovem que se recusa a aceitar o que parece obrigatório e que não pensa em casar-se nem em constituir família. E isso faz dela uma suspeita. Desta forma, esta obra evidencia de forma brilhante o poder da maledicência e a pressão social numa comunidade muito fechada, e demonstra como os boatos e as lealdades políticas podem ser colocados ao serviço de uma persistente campanha de assédio sexual.

A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha por gostar de viver noutros séculos que a literatura lhe oferece) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Denso e sedutor, torrencial e arrebatador, "Milkman" é o grande romance sobre o desconhecido porque o leitor não sabe quem é o leiteiro, não sabe o que vai acontecer à “Irmã do Meio” e muito menos sabe sobre o fim das hostilidades militares nesta cidade não nomeada.


 

O confronto entre protestantes e católicos provocou uma violência extrema durante cerca de 30 anos e foi marcado pela manifestação de 30 de Janeiro de 1972, em Londonderry, conhecida como “Bloody Sunday” (morreram 14 manifestantes católicos, com tiros provenientes de soldados ingleses); pelos atentados entre 1972 e 1998, em Guildford, Woolwich e Birmingham, executados pelo IRA e pela morte de Louis Mountbatten, primo da rainha Elisabeth II, em 1979. Finalmente, no dia 10 de Abril de 1998 foi assinado o Acordo de Belfast (ou Acordo da Sexta-Feira Santa) que terminou com “The Troubles” e estabeleceu as bases para um governo de poder partilhado entre católicos e protestantes.

No cinema abundam obras que abordam estas décadas de conflitos e que ajudam a compreendê-los (para informação adicional clicar no nome do filme):

1. Bloody Sunday (“Domingo Sangrento”), 2002, de Paul Greengrass (sobre a tal manifestação de domingo, 30 de janeiro de 1972);

2. In the Name of the Father (“Em Nome do Pai”), 1993, de Jim Sheridan (sobre o atentado no pub de Guilford em 1974 e com o desempenho fantástico de Daniel Day-Lewis);

3. The Boxer (“O Boxeur”), 1997, de Jim Sheridan (que aqui volta a trabalhar com Daniel Day-Lewis);

4. The Devil's Own (“Perigo Íntimo”), de 1997, de Alan J. Pakula (sobre a fuga do líder do IRA Francis McGuire para Nova Iorque e que conta no elenco com Brad Pitt e Harrison Ford);

5. Michael Collins, 1996, de Neil Jordan (baseado na vida do revolucionário irlandês Michael Collins);

6. Hunger (“Fome”), 2008, de Steve McQueen (decorre em 1981, ano em que um grupo de irlandeses do IRA, liderados por Bobby Sands, iniciaram uma greve de fome na prisão);

7. Some Mother's Son (“Em Nome do Filho…”), 1996, de Terry George (luta de duas mães, sendo uma delas a mãe de Bobby Sands, pela vida dos seus filhos);

8. Shadow Dancer (“Dança das Sombras”), 2013, de James Marsh (na Belfast dos anos 90, uma mulher, membro ativo do IRA, é forçada a tornar-se informadora do MI5 para proteger o filho);

9. Fifty Dead Men Walking (“Na Senda dos Condenados”), 2008, de Kari Skogland (baseado na história real de Martin McGartland, um jovem de Belfast que é recrutado pela polícia para se infiltrar no IRA);

10. The Crying Game (“Jogo de Lágrimas”), 1992, de Neil Jordan (explora temas como o terrorismo na Irlanda, transexualidade e racismo);

11. The Wind that Shakes the Barley (“Brisa de Mudança”), 2006, de Ken Loach (sobre a independência da Irlanda, nos anos 20 do século passado, os primeiros passos do IRA e o acordo que levou à criação da Irlanda do Norte e à criação do estado irlandês);

12. Five Minutes Of Heaven (“Cinco Minutos de Paz”), 2009, de Oliver Hirschbiegel (um membro de um grupo paramilitar protestante mata um católico e 33 anos tarde há um reencontro: um procura a redenção o outro só pensa em vingança);

13. '71, 2014, de Yann Demange (imersão expressionista nas ruas de Belfast de inícios dos anos 70, quando o conflito entre protestantes unionistas e católicos independentistas está ao rubro);

14. Hidden Agenda (“Agenda Secreta”), 1990, de Ken Loach (passado na violenta Belfast dos anos 1980 destacando-se o terrorismo praticado por grupos como o IRA, mas também a resposta que lhe é dada, à margem da lei, pelas forças de segurança britânicas);

15. In America (“Na América”), 2002, de Jim Sheridan (sobre a vida de uma família irlandesa que emigra para Nova Iorque);

16. Odd Man Out (“A Casa Cercada”), 1947, de Carol Reed (história de um membro ativo do IRA que foge da prisão e decide roubar um banco para ajudar a causa);

17. Mickybo and Me, 2004, de Terry Loane (sobre a amizade entre dois meninos de 8 anos, um de uma família protestante e outro de uma família católica e juntos tornam-se grandes admiradores de famosos bandidos do faroeste);

18. A Prayer For The Dying (“Os Guerrilheiros da Sombra”), 1987, de Mike Hodges (um ex-activista deixa o IRA depois de uma crise de consciência que o leva a questionar os ideais pelos quais lutou durante toda a sua vida);

19. Cal (“Tempo de Guerra”), 1984, de Pat O'Connor (um jovem membro do IRA vive um romance com uma mulher católica que viu o seu marido, um polícia protestante, ser morto pela organização terrorista um ano antes de se conhecerem);

20. An Everlasting Piece, 2000, de Barry Levinson (comédia passada em Belfast, nos anos 80, onde um católico e um protestante, ambos barbeiros, tornam-se parceiros de negócios e começam a vender perucas com bastante sucesso).



Na televisão estreou recentemente a série Derry Girls passada na Irlanda da mesma época, uma comédia leve, que tem um tom completamente diferente de “Milkman”.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

8 Séries de Televisão

Por todo o mundo, a televisão está a reinventar-se. As séries televisivas de qualidade são consideradas um dos formatos narrativos mais interessantes da actualidade. As características principais destas séries são uma produção opulenta equiparável à cinematográfica, actores de primeira qualidade, enredos complexos e arcos narrativos que se desenvolvem ao longo de todos os episódios. As produções norte-americanas continuam a liderar nesta área. Actualmente, a Netflix já é líder destacada, conseguindo-o em apenas quatro anos no sector de produção de séries exclusivas. Apresento de seguida oito das séries de televisão que acompanhei nos dois últimos meses e que valeram bem a pena o tempo perdido (nunca ultrapassando dois a três dias por temporada).


1 - “The OA”, é precisamente uma das mais recentes séries da Netflix. Inicialmente parece que estamos perante uma nova “Stranger Things”, mas é bastante diferente. Trata-se de um drama com contornos paranormais. Composta por oito episódios, conta-nos a história de uma jovem cega que desaparece aos vinte anos e que reaparece sete anos depois. O seu nome é Prairie Johnson (Brit Marling, que eu já tinha adorado no filme “Another Earth”), conhecida pela sigla OA (“I’m the OA” - Original Angel), e a cegueira fazia parte de si quando desapareceu, mas já não faz. A visão restaurada é apenas uma das diferenças desta jovem misteriosa que nos vai enfeitiçar. Episódio a episódio, Prairie vai contando o que lhe aconteceu, e cada revelação é mais chocante e esquisita do que a anterior. Curioso também o pacto entre os dois protagonistas logo no primeiro episódio e a referência à sua origem: o magnífico Strangers On A Train, filme de 1951, realizado por Alfred Hitchcock.

2 - “Westworld”, combina ficção científica, drama, mistério e western! A criação é da HBO e cruza vários géneros com uma abordagem completamente nova da clonagem humana e das relações entre os seres humanos e a inteligência artificial. “Westworld” é a concretização da visão do Dr. Ford (Sir Anthony Hopkins), criador de tudo o que se vê no parque futurista que serve de cenário à série. Genericamente trata-se de um parque pensado para concretizar os sonhos dos mais afortunados, sem quaisquer limites. Matar, violar, torturar. Tudo está à disposição dos que entrarem neste mundo paralelo.

3 - “Black Mirror” renasceu em 2016 pela Netflix depois de duas temporadas (em 2011 e 2013, com apenas três episódios cada) desenvolvidas para o Channel 4 britânico. Logo na sua estreia, na temporada 1, primeiro episódio, The National Anthem, uma princesa inglesa é raptada e os raptores limitam-se a exigir que o primeiro ministro tenha relações sexuais com um porco! Este ano, a série regressou com a terceira temporada (6 episódios). Uma particularidade desta série é que em cada episódio há novas histórias independentes. Trata-se de ficção científica mas com muitas semelhanças com a realidade. Tudo parece (quase) normal e há apenas pequenos pormenores que fogem ao que todos conhecemos. Por vezes, até parece que a realidade já terá ultrapassado a ficção. A reflexão sobre o mundo moderno está presente, abrindo-nos os olhos para a influência da tecnologia nas nossas vidas e para o mundo assustador em que todos vivemos sem saber. A tecnologia transformou todos os aspectos da nossa vida e isso pode não ser positivo e são mesmo muitos os espelhos negros de “Black Mirror”. Para dar alguns exemplos, a série conta histórias como a de uma sociedade em que todas as pessoas são sujeitas a um sistema de ratings — em que basta a perda de uma estrela para que se perca a oportunidade de aceder a determinados serviços —, a de um jogo de realidade virtual que consegue interagir com as nossas memórias ou a de um militar cuja visão é trabalhada para que o inimigo seja visto como um monstro.

4 - “Queen Of The South” é uma série sobre narcotráfico protagonizada pela brasileira Alice Braga (sobrinha da actriz brasileira Sónia Braga) e pelo português Joaquim de Almeida (como Don Epifanio Vargas, líder do cartel Vargas e político corrupto). Enquanto não chega a terceira temporada da série Narcos da Netflix, o filão sobre o universo do narcotráfico, continua a ser explorado e tem mais um formato de ficção baseado na obra com o mesmo nome, que li recentemente, do jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, e conta a história de Teresa Mendoza, uma jovem que se vê transportada para o submundo dos cartéis de droga mexicanos.


5 - “Fleabag” é cómica, fofa, nonsense, triste e brutal. Apesar da curta duração dos seus episódios (cerca de 25 minutos) provoca um turbilhão de emoções. Fleabag (Phoebe Waller-Bridge) é uma jovem adulta que enfrenta problemas quase universais sob o ponto de vista feminino: problemas de relacionamento, conflitos familiares, frustração sexual e profissional. Uma mulher moderna que vive em Londres, a tentar curar uma ferida enquanto recusa ajuda daqueles à sua volta, mantendo a sua intimidade o mais reservada possível, mas que está constantemente em interacção com o espectador, olhando-o directamente, com comentários à parte das respectivas cenas. Por vezes, fez-me recordar Californication e mesmo Secret Diary of a Call Girl da Belle de Jour Billie Piper. Um manual de instruções para compreender a mulher que se diz moderna, não recomendado para ver em família…


6 - “The Young Pope”, é outra série hilariante onde podemos ver um papa a fumar desenfreadamente, a beber Cola Light ou a despertar com um iPhone. No início da série, Jude Law é Lenny Belardo, o futuro Papa Pio XIII (ficcional) e Diane Keaton é a Irmã Maria, que o ajudou a criar desde tenra idade num orfanato. Estamos em 1998 e será ele a tomar as rédeas do Vaticano. É um Papa jovem, muito mais jovem do que os seus antecessores, e os cardeais esperam controlá-lo a partir de dentro, fazendo dele um fantoche público enquanto continuam a reinar nos bastidores. Mas não é isto que acontece. O novo líder da Santa Sé já conseguiu o que queria, chegar ao poder, e agora vai revolucionar a Igreja como a conhecemos. O realizador italiano Paolo Sorrentino (que dirigiu o belíssimo La Grande Bellezza, em 2013) pegou na personalidade do actual Papa, Francisco, e virou-a do avesso para construir um sacerdote diferente de todos os que já conhecemos.

7 - “Medici: Masters Of Florence”, com carimbo da Netflix, dá a conhecer a dinastia Medici, a partir do século XV. O principal protagonista chama-se Cosimo e herdou o Banco dos Medici, após o seu criador, o seu pai Giovanni (Dustin Hoffman), ter sido misteriosamente envenenado em 1429. A partir de flashbacks de há 20 anos atrás, conhecemos a Florença da época e a relação entre Giovanni e os seus dois filhos, Cosimo e Lorenzo e acompanhamos a criação do primeiro grande banco europeu.

8 - “The Crown”, outra série da Netflix que retrata de forma exemplar os primeiros anos de reinado de Isabel II. A história começa em 1947, ainda no reinado do seu pai Jorge VI, quando este descobre e mantém em segredo que tem uma doença terminal. A primeira temporada termina no final da primeira década de reinado de Isabel II. Durante este período temos a possibilidade de rever algumas das datas mais importantes da sua vida e somos tentados a parar a visualização dos episódios para confirmar e investigar alguns factos na internet. Os desempenhos são notáveis, desde Clare Foy (como rainha Isabel II) a John Lithgow (como Sir Winston Churchill).




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Stranger Things (1ª temporada)

Nas últimas férias de verão, e em sessões de binge-watching, tive oportunidade de ver temporadas completas de algumas séries de televisão que não param de melhorar:

- Breaking Bad (5ª temporada), final da série simplesmente espectacular, especialmente após o cunhado de Walter White descobrir o seu segredo. Foi um final excelente, sem pontas soltas, com o personagem principal a ter o fim que mostrou merecer a partir de determinado momento;

- Game of Thrones (6ª temporada), depois da quinta temporada e dos seus desenvolvimentos impressionantes (o destino sangrento de Jon Snow, a quase morte de Daenerys ou a humilhação pública de Cersei), a temporada seguinte não desiludiu com episódios arrepiantes nunca antes vistos em televisão, como o 9º episódio – “Battle of the Bastards”;

- Vikings (4ª temporada), em que um Ragnar bastante fragilizado regressa a Kattegat, onde a suspeita da sua morte provoca uma corrida à sua sucessão. Traições e lutas de poder entre os personagens Lagertha, Kalf, Rollo e Floki;

- Narcos (2ª temporada), retrata os últimos 14 meses de vida de Pablo Escobar e começa com a sua fuga da prisão La Catedral. Wagner Moura continua soberbo.

Atualmente, estou a ver Stranger Things, mais uma série distribuída pela Netflix, com apenas 8 episódios na sua primeira temporada, e apesar de ser inferior às 4 séries acima mencionadas, recomendo vivamente. Trata-se de uma história de ficção científica, emocionante e por vezes assustadora, onde não faltam alusões à obra de Spielberg, Carpenter ou Stephen King, em que algumas pessoas desaparecem sem deixar rasto, com forças sobrenaturais, uma miúda muito, muito estranha e um "mundo invertido". Personagens bastante credíveis, ritmo, drama, realização e uma excelente Winona Ryder no papel da mãe atormentada pelo desaparecimento do seu filho. Uma das atrações desta misteriosa série, passada na fictícia cidade de Hawkins, estado de Indiana, consiste em decorrer nos anos 80, onde são evidentes os elementos culturais da década e inclui uma excelente banda sonora baseada na electrónica de Kyle Dixon & Michael Stein (dos SURVIVE) mas onde também podemos ouvir, por exemplo, Joy Division, Echo & The Bunnymen ou The Clash!


Na lista de espera para ver em breve estão Vinyl (1ª temporada), Luke Cage (1ª temporada), The Night Manager (1ª temporada) e Blindspot (2ª temporada).

domingo, 20 de dezembro de 2015

Winter Sleep (“Sono de Inverno”)

Durante a visualização deste filme aconteceu-me algo inédito e estranho. A história que me estava a ser apresentada fez-me recordar na íntegra um conto fabuloso de Anton Tchekhov, “A Minha Mulher”, que li há vários anos. No livro, Pavel Anndreievitch vive na sua casa de campo, com Natália Gavrilovna, sua mulher. Cada um vive numa parte da casa, vivendo separados há já uns anos. Natália não suporta Pavel, demonstrando-lhe um ódio que Pavel não consegue compreender. Pavel vive sozinho e angustiado sem que consiga descortinar uma única razão para o seu desconforto interior. Quando recebe uma carta anónima pedindo-lhe que faça algo pela população empobrecida de uma localidade vizinha, sente-se entusiasmado pela ideia e, formula planos para organizar uma comissão de solidariedade que angarie os fundos necessários à causa e os distribua de forma justa. Quando expõe a sua ideia à mulher, descobre que esta já estava há muito tempo empenhada no auxílio desta população, tendo inclusive a tal comissão já formada.


No filme “Sono de Inverno”, que dura mais de três horas (mas como acontece em todos os grandes filmes, mal se dá pelo tempo a passar), Pavel é Aydin, um antigo ator, dominado pelo seu ego e pelas fantasias que dissimulam o sonho frustrado de grandiosidade. Aydin gere uma estalagem nas montanhas da Anatólia que fica isolada com a chegada do Inverno, juntamente com a sua irmã recentemente divorciada e a sua jovem mulher, Nihal, muito mais nova, que oscila entre a vontade de se emancipar e a de permanecer numa situação de comodismo privilegiado. Além destas personagens, deparamo-nos com os inquilinos das propriedades desta família, alguns dos quais dominados por uma atitude de servilidade, outros por um violento ressentimento, que parece estar prestes a fazê-los entrar em confronto e rutura.

E tal como o livro citado, o filme também é intenso pois leva-nos a mergulhar em questões de fundo e universais das relações sociais e humanas, acentuando tensões e expondo dilemas e conflitos.

Numa altura em que a ano está quase a terminar, elaborei uma lista com mais alguns filmes que vi e que me proporcionaram puro entretenimento e um afastamento da realidade do quotidiano. E são eles:

- Mandariinid (Tangerinas)
- Turist (Força Maior)
- Clouds of Sils Maria (As Nuvens de Sils Maria)
- Mia Madre (Minha Mãe)
- Dark Places (Lugares Escuros)
- Que Horas Ela Volta?
- Gui Lai (Coming Home)
- Phoenix
- Bolgen (The Wave)
- Mad Max: Fury Road


No que respeita às séries de televisão continuei a seguir Homeland (a sexta temporada ainda vale a pena), Fargo e True Detective (as segundas temporadas são bem inferiores às primeiras) e claro, continuei a seguir Game of Thrones. De entre as estreias, segui Narcos (excelente), Mr Robot, Jessica Jones e Blindspot. Tudo em binge-watching

sábado, 15 de agosto de 2015

Documentário The World Wars (History Channel)

 


Excelente série documental dividida em 6 episódios com cerca de 60 minutos cada. Com pouco mais de 20 anos a separar os dois conflitos mais cataclísmicos do século XX – a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais – muitos historiadores defendem que não foram contendas individuais, mas um contínuo sangrento que começou por afetar a Europa e se estendeu ao resto do mundo.

Assim, as figuras mais icónicas da 2ª Guerra Mundial, aquelas que associamos à glória em combate ou ao terrível fascismo, estiveram elas próprias envolvidas em ambos os conflitos – primeiro, nas trincheiras de Ypres e do Somme, e, anos mais tarde, muitas vezes no mesmo local, na Batalha das Ardenas ou na invasão da Normandia.

Adolfo Hitler, Benito Mussolini, George S. Patton, Charles de Gaulle, Douglas MacArthur… Antes de serem gigantes, foram soldados de infantaria e soldados rasos na “guerra que poria termo a todas as guerras”. Esta é a história dessas três devastadoras décadas de confrontos na perspetiva dos homens que se fizeram nas trincheiras e viriam a comandar um mundo à beira do abismo.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Gomorra – A Série


Acabei de ver em apenas três dias os 12 episódios da primeira temporada da série italiana “Gomorra” baseada no livro de Roberto Saviano (que já tinha originado um filme em 2008, realizado por Matteo Garrone). Benditas boxes dos tempos modernos!

Nesta série confrontam-se dois dos clãs mais poderosos da Camorra, envolvidos no tráfico de drogas: o clã Savastano e o clã Conte. Don Pietro Savastano apoia-se em Ciro Di Marzio, seu braço direito, um homem inteligente e ambicioso, no seu filho Genny e na sua mulher Immacolata.

Sem querer desvendar a história apenas acrescento que em todos os episódios há assassinatos e violência q.b., , numa guerra sem moral entre quem se quer impor num mundo fora da lei. As interpretações são apaixonantes e cruas, as relações familiares são dramáticas e ferozes e a descrição da forma como a Camorra gere o seu território é impressionante.

No décimo segundo episódio assiste-se a uma autêntica reviravolta nos acontecimentos após a simulação e fuga de Don Pietro, a morte de Donna Immacolata e a emboscada no túnel, perspectivando uma excelente segunda temporada.

Absolutamente genial.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


Agora que o Dexter se reformou, o Brody foi enforcado pelos iranianos e os zombies e a fantasia de Westeros foram de férias, estou a seguir três novas séries que já me conquistaram: Under The Dome, Suits e The Following.

Under The Dome” reúne ficção científica e mistério, é baseada no livro homónimo do mestre Stephen King, recentemente editado em Portugal. A série acompanha a história dos habitantes da pequena cidade de Chester's Mill, no estado do Maine, que inexplicavelmente se vê sob uma cúpula enorme e transparente, mantendo a população separada do resto do planeta. O terror vivido nesta povoação isolada do mundo inclui mortes macabras servidas a sangue frio e fenómenos inexplicáveis. Mike Vogel, Rachel Lefevre e Dean Norris (conhecido de Breaking Bad), são os actores que mais se destacam.

Suits” acompanha dois jovens advogados que resolvem vários casos jurídicos com algum humor sarcástico. Harvey Specter (Gabriel Macht) é o advogado de sucesso (best closer de Nova Iorque), arrogante, ambicioso, mentiroso, astuto e insensível; Mike Ross (Patrick J. Adams) é o jovem contratado no primeiro episódio (de forma hilariante), genial, esforçado e com memória fotográfica. Estas personalidades distintas dão força à trama, que se desenvolve em torno de intrigantes casos jurídicos. Duas curiosidades: o nome da série deve-se ao facto de Specter considerar que a comunicação interpessoal varia consoante a forma como estamos vestidos e… Ross não tem qualquer licenciatura em Direito.

The Following” é um thriller policial com muito suspense que se baseia na complexa relação entre o serial killer maquiavélico Joe Carroll (James Purefoy) e o ex-agente do FBI Ryan Hardy (o sempre espectacular Kevin Bacon). Carroll inspira-se nas obras de Edgar Allan Poe (o que me obrigou a reler os seus Contos Completos) e parece ter aprendido com Michael Scofield a arte da fuga de prisões e Hardy é chamado para o tentar encontrar, pois conhece-o melhor que ninguém, tanto a nível psicológico como intelectual. Harry tinha-se reformado após capturar Carroll, por ter assassinado 14 alunas na universidade onde ensinava literatura. O problema é que após a fuga de Carroll, Hardy compreende que não está só à procura de um fugitivo mas de um culto maciço de serial killers criados e manipulados pelo assassino durante a sua estadia na prisão, criando assim uma legião de seguidores.




domingo, 9 de dezembro de 2012

Francisco Moita Flores – O Bairro da Estrela Polar


Policial à portuguesa, com textos simples, por vezes cómicos, com nomes e linguagem típicos de uma classe social baixa (muito exagerados) e com alguns personagens bem elaborados, constitui um autêntico Manual dos Janados e do Gamanço.

O autor proporciona uma visão do mundo do crime dada por prevaricadores da pior espécie, liderados por uma adolescente (Diana), levando os leitores a colocarem-se do seu lado e não dos tradicionais bons da fita (os polícias). Inevitável a recordação de Teresa Mendoza, protagonista do romance de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul.

De uma forma geral, a leitura é agradável mas por vezes o enredo chega a tornar-se enfadonho e sem grande suspense. Imperam os lugares-comuns e a previsibilidade. O desfecho da história desiludiu-me…

De lamentar a deteção de mais de uma dezena de gralhas e erros gramaticais. Exemplificando: na página 51, podemos ler “My Chermical Romance” e na página 251, “Ainda Bataman não acabara a frase…” referindo-se ao personagem Batman. Além disso, não consigo perceber como é que na sinopse do livro, que se encontra na contracapa, se faz referência a um personagem que não consta do livro, o “Paulo”, enquanto não elenca um dos principais, o Necas. Será que este é mais um daqueles livros que apenas conseguiu sair do prelo graças à celebridade do seu autor?

Na imagem seguinte pode ler-se um excerto contendo a experiência traumatizante do Bazófias na cadeia de Vale de Judeus.

Após a leitura do livro, aproveitei para visualizar a adaptação do livro ao grande ecrã. Algumas diferenças saltam à vista: a Diana (Maria João Bastos) tem um filho, matou o Dragão, envolve-se com o inspector Augusto (Paulo Pires), o que provoca a sua demissão e suicídio. Os golpes são diferentes, não se roubam 12 Mercedes, um cão chamado Caruso, uma mota avariada e obras de arte. Roubam uma igreja e cinco milhões de euros de um camião. O Batman, a Manuela e a própria Diana têm um destino diferente e surgem novos personagens: Alcabideche, Piaçaba, Lurdes e o seu marido paraquedista (Rui Unas).

Trata-se de um filme de qualidade mediana, com enfâse na ação, cenas rápidas com bastante ritmo, sem grandes diálogos, hip-hop q.b. e algumas personagens consistentes. Para o pequeno ecrã foi criada uma série com 14 episódios disponíveis na TVI Player.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Hello, Deb!!!


É inegável a melhoria da qualidade das séries de televisão nos últimos 10 anos, ao ponto dos grandes actores e actrizes colocarem de parte projectos no cinema para enveredarem por esta via, como por exemplo, Ashley Judd, Dustin Hoffman, Jessica Lange, Steve Buscemi, Ana Paquin, Christian Slater, Sean Bean, entre muitos outros. No entanto, apresentam dois pontos bastante negativos.

O primeiro está relacionado com a sua longevidade. Quando se verifica que uma série é um sucesso de audiências, há uma tendência para a prolongar, repetindo constantemente a sua fórmula até à exaustão, o que provoca a saturação do espectador. Neste caso, servem de exemplos, os diversos C.S.I., House, Heroes, Lost ou Glee.

Um segundo problema, este apenas para os espectadores mais impacientes, é a conclusão das temporadas, com reviravoltas ou revelações surpreendentes, mas mantendo o suspense e uma angustiosa expectativa sobre o que vai acontecer. Assim, o final da sexta temporada de Dexter, em que este é apanhado em flagrante pela irmã Debra a fazer aquilo que mais gosta, só vai ser desvendado lá para final do ano. Será que vai matar a irmã (adoptiva)? Será que ela vai associar-se a ele nas próximas temporadas? Ou será que vai simplesmente denunciá-lo? Outros casos são o final da segunda temporada de The Walking Dead, em que o grupo começa a dividir-se e a liderança de Rick a ser questionada ou a conclusão da também segunda temporada da estupenda Downton Abbey, em que o Mr. Bates foi preso por supostamente ter assassinado a sua ex-mulher.

Aproveito para referenciar mas quatro séries que tenho seguido e adorado: Mildred Pierce, que infelizmente é muito curta, mas mostra todo o potencial de Kate Winslet; Homeland e a história do sargento "herói/terrorista?" Brody; Spartacus – Vengeance, com um novo actor a substituir o malogrado Andy Whitfield – a série continua com sangue e sexo a rodos – e Smash, o musical do momento, baseado no projecto de um casal para criar um musical sobre a vida de Marilyn Monroe.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Glee


A segunda temporada da série Glee (do criador de Nip / Tuck) já começou e numa altura em que a palavra mais falada no país é “crise”, nada melhor do que uma série que garanta entretenimento de qualidade, combinando um enredo cómico-dramático, num contexto que envolve uma escola secundária e as paixões, intrigas, dramas, ambições e falhanços dos seus professores e alunos, incluindo a encenação de elaborados números musicais, desde clássicos pop a êxitos mais recentes. A diversidade de personagens cativa, dificultando a escolha dos preferidos, mas consigo destacar os professores Will Schuester e Sue Sylvester e os alunos Kurt e Rachel. Hilariante.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sopranos - Episódio 9 - From Where To Eternity

Anedota contada pelo Tony ao amigo Pussy, no episódio 9 da série 2:

Um homem rico e um homem pobre fazem anos de casados no mesmo dia. Cruzam-se sempre em Madison Avenue a comprar uma prenda para a mulher. O pobre pergunta:
“O que compraste para a tua mulher?”.
O rico diz, “Comprei um anel de diamantes e um Mercedes novo”.
O pobre diz: “Por que compraste duas coisas?”. O rico responde: “Se ela não gostar do anel de diamantes, pode devolvê-lo no Mercedes e continua contente”.
O rico diz ao pobre: “Que compraste à tua mulher?”. Ele responde, “Comprei-lhe um par de chinelos e um vibrador”.
O rico questiona, “Por que compraste duas coisas?”.
O pobre responde, “Se não gostar dos chinelos, que se foda”.