Shusaku Endo, falecido em 1996 foi um dos mais conceituados escritores japoneses do século XX. Nesta obra, "Silêncio", aborda um tema polémico e profundo, que tem muito a ver com a nossa história: o trabalho dos missionários portugueses no Japão, nos séculos XVI e XVII. O livro narra a história do Padre Rodrigues, um jesuíta português que partiu para o país do sol nascente procurando um outro missionário, o padre Ferreira de quem se dizia ter apostatado, ou seja, renegado a fé cristã.
A época era de intolerância; enquanto em Portugal e noutros países cristãos se perseguiam e queimavam judeus nas fogueiras da Inquisição, no Japão eram os cristãos vítimas de perseguição impiedosa por parte das autoridades locais, que pretendiam manter o povo fiel ao Xintoísmo e ao Budismo vigentes.
Mais interessados no negócios do que no cristianismo, os japoneses começaram por aceitar benevolamente a presença portuguesa, tendo os jesuítas, liderados por S. Francisco Xavier, conseguido converter milhares de japoneses. Mas no século XVII tudo se modificaria, em parte pela influência que os holandeses e ingleses (protestantes e rivais dos portugueses) moveram junto das autoridades japonesas. Inicia-se então um período de intensa e cruel perseguição, em que os padres missionários e os fiéis eram punidos com castigos arrepiantes e submetidos a torturas inacreditáveis.
No entanto, a questão fundamental não radicava apenas na falta de tolerância. A questão fundamental que Endo coloca ao narrar a incrível história do Padre Rodrigues é a incapacidade que os seres humanos revelam para enquadrar as crenças num espaço cultural próprio, sem o qual elas se revelam inférteis. Como afirma um samurai japonês, o cristianismo era como uma árvore transplantada para um terreno infértil. Impor, mesmo que por benevolência, uma determinada crença é um ato institucional, mais do que de consciência. A Igreja como Instituição nunca conseguiu compreender devidamente este fenómeno: o conceito de BEM, por mais universal que possa ser, não é compatível com normas institucionais que se pretendem universalizar.
Nessa medida, a obra de Endo não perde atualidade nos nossos dias; vemos com frequência governos atuais a tentar impor o nosso conceito de bem, de democracia e de liberdade, sem ter em conta as realidades culturais diversas com que nos deparamos. E nós, no nosso quotidiano, quantas vezes não recorremos a argumentos como estes: “isto é bom para ti”, sem ter minimamente em conta a realidade do outro? Até que ponto o nosso conceito de “bem” ou de “bom” deixa de ser uma ideia subjetiva?
Enfim, um livro que foi para mim uma excelente surpresa, pela sensibilidade que revela sobre um assunto tão complexo e intemporal. O estilo, bastante claro e acessível, faz deste livro um verdadeiro manual de tolerância universal.
No filme que Martin Scorsese adaptou ao cinema, os padres são interpretados pelos atores americanos Andrew Garfield e Adam Driver. Os dois vão ao Japão para procurar um dos seus líderes, o padre Ferreira, interpretado por Liam Neeson, que segundo rumores teria abandonado a sua fé no Japão.
Trata-se de um filme inquietante e perturbador, fiel à história e sem pretensões tendenciosas onde Scorsese faz uma reflexão radical sobre as relações entre o humano e o sagrado.
“- Bom, nesse caso, o melhor será escondermo-nos bem longe, onde o vento chora. (…)
– Onde o vento chora? O que queres dizer com isso? – A mãe costumava dizer isso. – Kya recordava-se que a mãe estava sempre a encorajá-la a explorar o pantanal. – Vai tão longe quanto puderes, até onde ouvires o vento chorar.
– Significa bem longe, no mato, onde ainda há criaturas selvagens e estas ainda se portam como tal.” (Página 120)
A narrativa retrata a história de Kya, nascida em 1945, uma menina que vive com os pais e os quatro irmãos num pântano. Aos seis anos a mãe abandona a casa, devido à violência do pai, e a partir daí a vida dela muda para sempre. Os restantes irmãos também acabam por fugir deixando-a sozinha com o pai. Este, vinha para casa às horas que lhe apetecia, geralmente bêbedo, seguido de períodos em que desaparecia durante dias. Kya tem que crescer à força, principalmente após o dia em que o pai também desaparece. Para sobreviver a pequena vende peixe, mexilhões e outras coisas para conseguir ter o que comer. Os anos passam, Kya é posta de parte pelos habitantes do vilarejo, Barkley Cove (Carolina do Norte), que a consideram um bicho do mato, uma selvagem a quem chamam a “miúda do pântano” e aos 24 anos é acusada de matar um jovem com quem teve uma relação íntima.
Os principais intervenientes nesta história são: o casal Saltos (Jumpin', no original) e Mabel, também vítimas do preconceito racial dos habitantes da vila, proprietários da loja onde Kya consegue algum proveito com as vendas que faz; Tate, o primeiro amor de Kya, que a ensina a ler e Chase Andrews, o tal jovem que apareceu morto, desportista, por quem sente mais tarde atração. Entre amores e desamores, aproximações e desilusões, Kya vai aprendendo a desconfiar até da ideia do amor romântico, acreditando que o pântano e o mundo natural (onde “o mar era tenor e as gaivotas soprano” – página 40) é a sua única e mais pura salvação.
O livro tem muito drama, intenso em sensações, pouca ação, que flutua entre o presente e o passado, mas muito bem escrito, de forma fluída e ritmada, envolvendo-nos nas descrições da natureza (fruto da experiência de Delia Owens enquanto zoóloga e cientista da vida selvagem, em África), do sofrimento e intensa solidão, do racismo (na década de 60 a discriminação com base na cor era ainda uma triste e dura realidade nos E.U.A.), da violência doméstica e alcoolismo do pai. Mostra como a personagem Kya, mesmo tendo uma vida agridoce, viu a sua sorte mudar, conseguindo superar obstáculos e sobrevivendo contra todas as expectativas, tornando-se (irrealisticamente) uma autora de renome ao publicar vários livros de Biologia. Para mim, o final da história foi bastante previsível. De lamentar o número escandaloso de erros gramaticais do livro o que é vergonhoso para a tradutora e para a editora.
O filme que adaptou a obra para o cinema estreou em Portugal em setembro. Olivia Newman realiza o drama, com Daisy Edgar-Jones, David Strathairn e Taylor John Smith nos principais papéis. A longa metragem é bastante fiel à obra original, alterando apenas a forma como se descobre o autor do crime…
A “Suite Francesa” foi escrito em segredo, quando os nazis ocuparam a França em plena Segunda Guerra Mundial. Nunca foi acabado pois a autora de origem judia, Irène Némirovsky, foi enviada para Auschwitz em 1942, onde foi morta à chegada. O manuscrito permaneceu ignorado durante quase sessenta anos, até ser redescoberto pela filha e acabou por ser publicado em 2004.
Irène Némirovsky pretendia criar um épico sobre o Holocausto. A obra seria composta por cinco volumes na sua totalidade (concebido segundo uma estrutura inspirada na quinta sinfonia de Beethoven). Concluiria apenas os dois primeiros, deixando notas manuscritas, contendo as linhas mestras para a compilação de um terceiro, pouco antes de ser deportada para Auschwitz.
A primeira parte do romance, intitulada “Tempestade em Junho” retrata, com uma lucidez espantosa, o panorama da desagregação económica francesa, como resultado da Grande Depressão dos anos 30, à escala global - uma situação que foi aproveitada pela demagogia ideológica subjacente à propaganda do partido nazi, o qual encontrou nessa fragilidade a oportunidade perfeita para dar largas aos seus objectivos expansionistas.
O local da acção, nesta primeira parte, situa-se na cidade de Paris, logo após ser declarada a guerra. Irène Némirovsky, descreve-nos alguns quadros do quotidiano doméstico em diversos lares – desde o abastado banqueiro Corbin, ao já idoso casal de classe média (funcionários bancários), os Michaud, passando pela família Péricand, situada no limiar que separa a classe média-alta da alta-baixa e pelo pretensioso escritor de massas especializado em folhetins, Gabriel Corte.
A maior parte das personagens de Némirovsky são, nesta primeira parte, não exactamente más, mas de carácter medíocre. A autora critica severamente a atitude hipócrita (colaboradores e delatores) da maior parte da população francesa.
(Fotografia de Irène Némirovsky, aos 25 anos de idade, em 1928)
Na segunda parte, “Dolce”, a história desenrola-se essencialmente em duas casas: a casa dos Angellier e a casa dos Labarie. Lucille Angellier é uma mulher que espera notícias do seu marido (a cumprir serviço militar), enquanto habita com a senhora Angellier, a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões e que procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais. A excepção é um alemão sensível, culto e educado – Bruno von Falk – que é utilizado como contraponto face a outras figuras do exército ocupante como, por exemplo, Kurt Bonnet, o tenente intérprete do Kommandantur fascinado por pintura flamenga.
Aquele facto não implica necessariamente que a autora simpatize com os alemães. Na realidade, na altura em que Némirovsky escreve estes capítulos, as pessoas ainda não têm consciência do perigo do nazismo, nem estão na posse da totalidade dos acontecimentos a nível global.
Esta edição de “Suite Francesa” (nome da partitura dedicada a Lucille e elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar) termina com as anotações da autora, para os volumes seguintes, seguida da troca de correspondência entre os membros da família e os amigos da escritora no sentido de mover influências para descobrir o seu paradeiro após ser deportada e proceder à sua libertação. Informação que só foi conseguida no pós-guerra, ao examinarem os registos do campo de concentração onde deu entrada.
O filme que adoptou esta obra ao cinema foca-se essencialmente na segunda parte do livro (“Dolce”) e na história de Lucille, com o marido ausente em combate e que se apaixona pelo “bom nazi” com quem é obrigada a partilhar a casa.
O elenco é admirável (especialmente Michelle Williams, Kristin Scott Thomas e Matthias Schoenaerts) mas, relativamente ao livro, o retrato não é tão realista, muitas personagens são esquecidas e a narração serve apenas para procurar o impacto emocional que as imagens não chegam a alcançar.
Sabendo tratar-se de uma forma viável de comercialização, o uso da língua inglesa em personagens francesas atribui o seu “quê” de artificialismo para os tempos que decorrem, enquanto o alemão é imaculado (involuntariamente dá a entender que é uma língua enraizada no Mal).
Trata-se claramente de uma situação em que o filme, que conta com a realização insípida de Saul Dibb, não consegue acompanhar a complexidade da obra original apesar dos valores de produção serem elevados.
Belíssimo filme do realizador japonês Ryûsuke Hamaguchi: do país do sol nascente, Tchekov (“O Tio Vânia”) visto pelos olhos rasgados das novas cinematografias orientais, um mergulho profundo no coração de cada um. Sem sorrisos, com palavras não verbalizadas e a condição humana e a solidão. A vida que não se repete e a amizade… Um filme a roçar a obra-prima.
Acabado de nos presentear com outra excelente longa-metragem, Wheel of Fortune and Fantasy, Drive My Car é adaptado de um conto com o mesmo nome publicado no livro de 2014 "Homens Sem Mulheres" de Haruki Murakami. Ou melhor, também se baseia no conto “Xerazade” da mesma obra, quando a esposa do protagonista lhe conta a história da lampreia…
O filme inicia-se com um longo prólogo (40 minutos), que dá conta de um acontecimento dramático que irá mudar a rotina automatizada de Yûzuke Kafufu, um conceituado autor e cenógrafo de teatro cujo universo relacional se cinge quase exclusivamente à sua mulher (uma atípica argumentista com a qual partilha um desgosto que os une numa vivência algo melancólica).
O tempo passa e voltamos a encontrá-lo dois anos mais tarde, ao volante do seu fiel e inseparável amigo de quatro rodas, um Saab 900 Turbo (no qual tem por hábito ouvir longos diálogos, verbalizados pela voz da sua amada, gravados em cassete, como forma de memorizar os textos das peças), a caminho de uma residência artista em Hiroshima, onde irá partilhar com uma audiência de atores de diversas nacionalidades o seu pouco convencional modus operandi enquanto encenador (curiosamente, no filme o Saab é vermelho e não amarelo e não é descapotável, contrariando o conto original). Aí chegado, por motivos de segurança, é confrontado com a proibição de conduzir, pelo que passará a ser transportado por uma jovem motorista enigmática e de "poucas falas" (tal como ele próprio), com a qual irá estabelecer gradualmente uma relação de confiança e partilha de emoções.
Hamaguchi é um autêntico arquiteto de palavras, que desenha um melodrama contido dotado de um arco narrativo fluido e subtil (recorrendo frequentemente a uma espécie de inteligentes jogos de espelhos entre o conteúdo das peças e a vida real), que nos expõe perante um modo diferenciado de lidar com sentimentos como a perda, o ciúme, a vingança e a culpa. Os seus "diálogos não verbais" e os subentendidos, que vão descascando as várias camadas dos seus personagens, são, igualmente, sublimes (pura poesia!). E não menos líricas se revelam as (aparentemente banais) filmagens que se cingem à condução do icónico carro encarnado pelas enormes estradas e túneis do Japão. Um autêntico deleite visual!
Ian McEwan apresenta uma prosa
habilidosa, onde nenhuma palavra ali está por acaso e os parágrafos sucedem-se
sem artifícios ou truques retóricos. Escrito na terceira pessoa, apresenta-nos uma
história com laços simples, que se tornam complexos com o desenrolar dos
acontecimentos. Os temas centrais são o confronto entre a vida pessoal e a vida
profissional, mas também entre a razão científica e o fundamentalismo religioso.
Utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma prestigiada juíza
do Supremo Tribunal como protagonista: Fiona Maye, 59 anos, especialista em Direito
de Família, e que de acordo com os seus colegas, possui “uma imparcialidade
divina e inteligência diabólica”. Tornou-se famosa devido a um caso de gémeos ao
aprovar a intervenção cirúrgica que iria separar uns irmãos siameses,
provocando o sacrifício de um deles em benefício da sobrevivência do outro.
Apesar de lidar diariamente com a
razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através das
suas sentenças, a sua vida pessoal está a passar por uma crise: arrepende-se de não ter
tido filhos e o marido, professor universitário de História, coloca-a numa
posição de escolha entre uma posição passiva sobre um caso extraconjugal com
uma colega do trabalho e o fim do casamento de 35 anos (justificando-se com as suas
necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo
trabalho).
É neste ambiente que vai parar às
suas mãos um caso de um rapaz, prestes a completar 18 anos, que precisa de uma transfusão
de sangue para o tratamento de leucemia. Este rapaz, Adam Henry, cujos pais são
Testemunhas de Jeová, não aceita aquela solução e está disposto a “morrer como
mártir” pela religião. O momento familiar complicado pelo qual Fiona está a passar
faz com que ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica
que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do
adolescente em confronto com os dogmas religiosos da sua família e assim ela decide
ir visitar o jovem Adam ao hospital. Aqui, constata que este tem uma
compreensão parcial da situação precária da sua saúde e dos riscos associados
e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes da
sua orientação religiosa. Escreve poesias que encantam a equipa médica e
despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela decidiu
não ter filhos devido à sua carreira) e carência sentimental. Para Adam, “a
religião dos meus pais era um veneno e a Fiona foi o antídoto”.
A música erudita tem um lugar de
destaque neste romance, constituindo uma válvula de escape para Fiona, uma
exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler (no seu belíssimo apartamento
tem um piano Fazioli), e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível
Adam Henry. Também se encontram referências a Bach, Schubert e Scriabin e a dois
discos: “Facing You” de Keth Jarrett e “Round Midnight” de Thelonius Monk. Fundamental também é o poema de William
Butler Yeats, “Down By the Salley Gardens”.
Para quem nunca leu nada deste
autor recomendo a leitura de “Amesterdão”, “Expiação” e “Sábado” (preferencialmente
por esta ordem).
Quanto ao filme, de 2017, que tem
como nome alternativo “My Lady” e segue quase à risca o livro com uma
realização muito segura e fiável de Richard Eyre, cenários clássicos, guarda-roupa
irrepreensível, tudo “very british” incluindo as cabeleiras dos juízes e uma
casa maravilhosamente decorada… Rigor britânico num filme jurídico denso e belo
onde a paixão da juventude, que tudo arrebata, coloca as convicções morais e
uma vida emocional esfrangalhada em enorme turbação. Quem realmente brilha são
os atores que encarnam os diferentes pólos de interesse: a sublime Emma
Thompson, mostrando na perfeição as oscilações de Fiona, entre a firmeza da sua
racionalidade e a insegurança da sua vida interior (o realizador aproveita para
abrir a porta aos sentimentos mais profundos de Fiona); Fionn Whitehead, como
Adam Henry, ao conseguir exprimir as suas angústias e desejos, os seus dramas e
ambições e a precoce mas encantadora maturidade que tanto encantou a Honourable
Mrs Justice Maye e, por fim, Stanley Tucci, ator sóbrio a deslizar naquilo
que por vezes se designa classe.
O nome original do filme, “The
Children Act” (e também do livro), é uma referência à legislação britânica, de
1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a sua
decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do
tribunal”.
Um filme que nos deixa
desassossegados e cúmplices e esse é o poder que só os grandes filmes possuem.
“A morte existe, não como o oposto da vida mas como parte dela” (página 40)
Este foi o primeiro livro de sucesso de Haruki Murakami, publicado em 1987. O título é inspirado numa canção dos Beatles, com o mesmo nome (do álbum de 1965, Rubber Soul) que descreve um caso extraconjugal de John Lennon. A canção apresenta cítaras indianas, bastante melancólicas, e é conhecida pelas suas referências à espiritualidade oriental. A história começa num aeroporto de Hamburgo, onde essa música está a passar nos altifalantes e a partir daí Toru Watanabe (o narrador do livro) começa a refletir sobre a sua vida nos anos 60.
Aos 17 anos, Toru tinha uma relação formidável com o seu melhor amigo, Kizuki que era o alicerce da sua existência, a sua melhor companhia. Numa noite, sem ninguém prever, Kizuki suicida-se. Este é o acontecimento que muda o dia-a-dia de Toru e que potencia uma alteração na forma como este encara o mundo e a vida.
Toru acaba por criar uma forte relação com Naoko, a namorada de Kizuki, por quem se apaixona. Porém, Naoko nunca ultrapassou bem a morte do seu namorado e acaba por ser institucionalizada numa espécie de sanatório moderno, meio alternativo (o sanatório é claramente uma alusão à obra-prima de Thomas Mann, “A Montanha Mágica”, de 1924).
De seguida, acompanhamos Toru na sua entrada na universidade, a lidar com todas as emoções e dúvidas típicas desta fase, e a sua difícil adaptação a esta nova realidade. Durante estes anos da faculdade, Toru conhece Midori, uma rapariga muito especial e excêntrica que se torna a sua melhor amiga.
As paixões de Toru (Naoko e Midori) representam duas forças em confronto: Naoko é a tradição, a calma, a paz. Midori é o futuro, a ambição, a excitação do progresso e do desconhecido. Entre estes dois polos, Toru procura a sua liberdade, a sua afirmação.
A famosa geração de sessenta, também no Japão, vivia numa encruzilhada: os movimentos estudantis em confronto com a geração conservadora dos pais, a geração saída da segunda guerra mundial. Este conflito de gerações (que se sentiu também na Europa) colocava em confronto aqueles que viveram a guerra e construíram a recuperação económica com base numa disciplina férrea e os filhos, protegidos pelos pais mas educados nessa disciplina, condição essencial para o grande objetivo de construir a riqueza material. Foi uma época em que o Japão adotou o modo de vida ocidental, uma época em que as pessoas ouviam Bill Evans, liam Thomas Mann e bebiam muito café.
Ao longo da obra, Murakami encara estes jovens rebeldes (com os quais Toru não se identifica) como pessoas pouco esclarecidas, para quem a rebeldia era um instrumento de afirmação, mais do que de defesa de determinados ideais. A revolta contra a guerra do Vietname ou contra o sistema universitário eram apenas argumentos para uma geração sem ideais.
Se já não bastasse a qualidade da história, Murakami impõe um verdadeiro arsenal cultural em termos de literatura, música e cinema: é uma espécie de charme a mais na literatura dele, com muitas referências musicais e literárias, que permitem ao leitor aproveitar muito além da história e das personagens. Esta é sem dúvida outra das razões pelas quais as obras deste autor me cativam tanto.
(Playlist bastante completa das referências musicais)
O livro é extraordinariamente envolvente. Todas as suas personagens são profundas e muito bem construídas. Sem o misticismo e a fantasia dos seus romances posteriores, Murakami constrói um enredo bem mais real e linear que envolve o leitor numa espécie de solidariedade para com Toru. Talvez este personagem tenha bastante de autobiográfico; no entanto, os dilemas de Toru (os amores, as opções de vida, a forma de encarar o futuro e o passado) são os dilemas de todos nós. Por isso nos revemos nele. Como diz Reiko (a voz da razão neste livro): “todos somos imperfeitos num mundo imperfeito” e, por isso, não devemos encarar os nossos dilemas com demasiada seriedade. A vida exige leveza – essa leveza do ser que Murakami transporta de forma encantadora em todos os seus livros.
A escrita é muito clara e objetiva, sem floreados nem metáforas. Em algumas partes, parece mesmo “crua”. É também um livro com uma carga sexual bastante forte mas que dá, de certa forma, veracidade à história - estamos a falar da vida de um adolescente. Aborda temáticas muito fortes como o suicídio, a transição para a vida adulta e o sentido da vida pois mostra-nos como devemos sempre continuar a lutar pela vida, mesmo quando não parece valer a pena. De sermos resilientes e de lutarmos por nós, quando todas as forças nos puxam no sentido inverso.
A adaptação do livro para cinema foi feita por Anh Hung Tran em 2010, e não há grandes surpresas: o guião é muito centrado na obra original do início ao fim, o resultado final é interessante mas tem a desvantagem habitual de muitos factos relevantes serem esquecidos. Neste caso, e como as personagens são extremamente complexas só nos detalhes que constam do livro é que percebemos melhor a personalidade de cada um deles. No entanto, o filme vale a pena ser visto também pelo desempenho Ken’ichi Matsuyama e Rinko Kikuchi, os atores que interpretam os protagonistas. A banda sonora privilegia os saudosos CAN e The Doors.
Este livro aborda sentimentos contraditórios sobre a América: o orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa (decadência). A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição.
O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta, Seymour Levov, louro (“Sueco”) abastado, objecto de uma adulação total, acrítica e idólatra, casado com uma ex-miss New Jersey, Dawn – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.
O narrador Nathan Zuckerman que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname…
Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, a quem “um dia a vida começou a rir-se dele e nunca mais parou”, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.
Merry, que se considera “a mais feia filha jamais nascida de pais atraentes”, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano, contra todo o modelo de vida capitalista, contra a pastoral burguesa. Em causa estava, por exemplo, a procura de mão-de-obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é um símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América actual. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.
Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical, Merry, para quem “a vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos”, passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. “Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?” pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga. A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria.
American Pastoral (“Uma História Americana”), de 2016, é o primeiro filme realizado por Ewan McGregor, que partilha o protagonismo com Jennifer Connelly e Dakota Fanning. Compõem a família Levov, que se desmorona quando a filha se une a grupos radicais nos Estados Unidos que protestam de forma violenta contra a Guerra do Vietname. Aqui, a transformação da sociedade americana nos anos 1960 carece de alguma força dramática presente no livro de mais de 400 páginas. No entanto, trata-se de um filme com alguma actualidade política, pois deparamo-nos com uma América de identidade dolorosamente estraçalhada, com as suas gerações separadas de modo radical. São temas e sinais com 50 anos, mas interiores ao nosso presente.
Como curiosidade cá vai um erro que detectei no minuto 37 da película, digno de pertencer ao sempre interessante site moviemistakes.com, quando durante uma conversa entre Merry e o seu pai, numa mudança de plano, a capa de um LP (ao centro) passa inexplicavelmente a contra-capa e desaparece o disco que estava à sua frente…
Gillian Flynn já me tinha deixado uma excelente impressão quando li “Em Parte Incerta” (Gone Girl). Este “Lugares Escuros” possui um enredo com vários elementos parecidos, como o clima tenso, o drama familiar e uma situação de violência extrema. Chocante e perturbador, por vezes a fazer lembrar a escrita e o ambiente criado por Stephen King nas suas obras.
O livro está dividido em diversos capítulos que estão intercalados no tempo, o que inicialmente poderá originar alguma confusão. Na atualidade (ano de 2009), a bizarra Libby Day vive assombrada com os acontecimentos de há 24 anos atrás, quando a sua mãe e as duas irmãs foram brutalmente assassinadas na casa onde viviam. Libby, na altura com 7 anos, conseguiu sobreviver mas fica com traumas que vão ajudar a moldar a sua personalidade, que a própria assume conhecer bem: anti-social, mentirosa, cleptomaníaca e preguiçosa (vive do dinheiro doado por pessoas que sentiram pena dela). Trata-se de uma personagem principal bastante imperfeita e por vezes até detestável que “partia do princípio de que tudo de mau podia acontecer, porque tudo o que havia de mau no mundo já tinha acontecido”.
Na outra linha temporal é descrita a véspera e o dia dos assassinatos de acordo com as perspectivas da mãe da Libby (Patty) e do irmão (Ben), que foi declarado culpado dos crimes e que se encontra actualmente na prisão. Ben foi acusado e condenado devido ao testemunho da sua irmã mais nova, Libby. É um personagem misterioso, revoltado e sombrio, e no decorrer de todo o livro ficamos com dúvidas sobre se foi ele mesmo o autor do massacre da sua família.
O título da obra é explicado na página 22 e está relacionado com as recordações de Libby do dia dos assassinatos : “…classifiquei essas lembranças como se fossem um lugar particularmente perigoso: um lugar escuro”. No entanto, passados tantos anos Libby já não tem realmente a certeza do que viu e ouviu naquela noite e a falta de provas físicas contra o irmão levam-na a querer descobrir o que realmente se passou.
A autora desenvolve muito bem toda a trama e o recurso narrativo de alternar entre o presente e o passado, resulta por completo pois prende o leitor de uma forma soberba. Por vezes ao ler um policial consegue-se prever o desfecho da história, mas neste caso Gillian Flynn deixa o leitor completamente baralhado sem saber em quem ou em que acreditar durante quase toda a obra. Suspeitos não faltam: Lou Cates (o pai da miúda que acusou Ben de a ter molestado), Runner Day (o egocêntrico marido de Patsy e pai das crianças, que tinha abandonado a família), Trey e Diondra (os amigos satânicos de Ben). Apenas nas últimas páginas, que são surpreendentes, é que se percebe o sucedido e por isso não vou revelar mais detalhes da história. Deixo apenas as primeiras linhas deste romance:
"O clã dos Day podia ter vivido para sempre
Mas Ben Day não regulava bem da mente
De Satanás cobiçava o negro poder
Por isso matou a família com todo o prazer
A pequena Michelle de noite ele estrangulou
A seguir foi Debby que ele esquartejou
A mãe Patty para o fim ele guardou
Com um tiro de caçadeira a cabeça ele lhe rebentou
Da chacina a bébé Libby escapou
Mas para o resto da vida com sequelas ficou.
---- Cantilena entoada no recreio das escolas por volta de 1985."
Tal como o anterior “Gone Girl”, esta obra também originou um filme, realizado por Gilles Paquet-Brenner em 2015, protagonizado pela excelente Charlize Theron (Libby) e pela deslumbrante Chloë Grace Moretz. O ambiente denso e pesado do livro é transcrito de forma exemplar para o filme, que segue de forma rigorosa o seu conteúdo.
O trigésimo livro de Philip Roth, com apenas 127 páginas, aborda a tragédia do declínio, do envelhecimento, de forma simples mas com inteligência, subtileza e mesmo alguma psicanálise. Além da questão da decadência do indivíduo também somos obrigados a meditar em temas como o suicídio, a pedofilia e a homossexualidade. As descrições sexuais explícitas também estão presentes. Ao contrário do que é habitual em Roth, não há personagens que pertençam às tradicionais famílias judaicas nem discussões em torno de qualquer religião.
Simon Axler, de 65 anos, é um actor em crise, que já não consegue desempenhar o seu papel quando sobe ao palco e se vê “… aprisionado no papel do homem privado do seu próprio ser, do seu talento e do seu lugar no mundo.” O seu talento foi “desfeito em ar leve” (palavras do seu personagem Próspero de “A Tempestade” de Shakespeare. Também representou MacBeth).
Simon é casado com Victoria, uma bailarina frustrada, que já vai no terceiro casamento e que o abandona após o seu colapso. Apesar dos pensamentos suicidas, Simon prefere contactar o seu médico e o internamento num hospital psiquiátrico. Aí permanece durante vinte e seis dias e conhece Sybil van Buren, que foi lá parar após surpreender o marido a violar a filha!
“Meses depois de Axler ter saído do hospital, o seu enteado morreu de sobredose e o casamento da bailarina desempregada com o actor desempregado acabou em divórcio e chegou ao fim mais uma dos muitos milhões de histórias de homens e mulheres em união infeliz.” Simon inicia assim um período de reclusão.
Entra então em cena Megeen, de 40 anos, filha de um casal de amigos de Simon desde o tempo da juventude (Asa e Carol Stapleford), lésbica desde os vinte e três anos mas decidida a mudar a sua orientação sexual e por isso tornam-se amantes. Megeen tinha acabado recentemente uma relação amorosa de seis anos com Priscilla e mais recentemente tivera um caso de apenas três semanas com a reitora de uma faculdade que lhe tinha arranjado o seu último emprego.
Simon apaixona-se, recupera o ânimo perdido e chega mesmo a pensar em ter um filho. Megeen corresponde, expõe os seus maiores desejos eróticos e apenas receia a opinião dos pais em relação a este romance. E mais não conto apesar de considerar que o fim, com uma referência ao conto de Anton Tchekhov, “A Gaivota”, ser um pouco previsível…
Sobre o título da obra, penso que tem a ver não só com o facto de Simon desaparecer do seu mundo, da sua incapacidade de actuar, mas também com a bailarina desempregada, a reitora obcecada ou a esposa que vê a filha ser violada pelo marido.
O livro foi adaptado ao cinema em 2014 por Barry Levinson (já premiado com um Óscar em 1988 por “Rain Man”) e Simon Axler é interpretado pelo excelente Al Pacino que logo na primeira cena olha para a sua imagem num espelho e questiona a sua capacidade de encarnar outra pessoa. Magnífico!
Existem algumas diferenças em relação ao livro. No filme por vezes a imaginação mistura-se com a realidade, ignora-se a esposa Victoria, há referências a Hemingway, há um comboio na casa do Simon, Priscilla reaparece, há uma gata Emily que leva a uma visita ao veterinário, há uma interpretação do “Rei Lear”, é dado um grande destaque a Sybil, a abordagem sexual é bastante soft e, acima de tudo, tem um final diferente e surpreendente.
Por curiosidade refiro que ainda este ano vi mais três filmes de 2014 bastante interessantes sobre actores em crise: Birdman (de Alejandro G. Iñárritu); Maps To The Stars (de David Cronenberg) e Clouds Of Sils Maria (de Olivier Assayas).
Laura Hillenbrand andou a pesquisar informação de forma meticulosa durante 7 anos para depois relatar uma incrível história verídica de forma pujante mas por vezes perturbadora. A sua leitura é agradável, óptima para quem gosta de História e biografias. Louis Zamperini é-nos apresentado desde a sua infância e idade adulta até aos seus últimos anos de vida.
Na adolescência era um rebelde, desordeiro compulsivo, fugiu de casa, praticava pequenos furtos, e as suas aventuras terminavam sempre “a correr como um louco”. Desta forma, descobriu que tinha um talento, a corrida, o que o levou aos Jogos Olímpicos de Berlin em 1936, sempre incentivado pelo irmão Pete. Ficou em 8º lugar nos 5000 metros e apertou a mão a Hitler.
Com o advento da Segunda Guerra Mundial foi obrigado a desistir do seu sonho e começou a formação para artilheiro em bombardeiros. Após várias missões no Pacífico, os motores do seu avião deixaram de funcionar e caiu no oceano. De uma tripulação de onze elementos, sobreviveram apenas três num pequeno bote. Ao fim de 42 dias, apenas dois aguentam o sofrimento: Louis e Phil. Finalmente, após 47 dias, muitas queimaduras, frio, fome e sede, lutas com tubarões, tiros de aviões inimigos, avistam uma ilha mas são recebidos por um navio militar japonês!
Iniciou-se então um período terrível, que durou cerca de dois anos, nos campos de concentração japoneses, com fome, trabalhos forçados, espancamentos diários e torturas cruéis inimagináveis, comandadas pelo atroz Watanabe, conhecido pela alcunha “O Pássaro”. A disenteria e beribéri eram doenças constantes. A certa altura a autora recorda que na Europa morria um por cada cem prisioneiros de guerra, no Japão morria um por cada três prisioneiros de guerra.
Como é do conhecimento geral, com o lançamento das bombas nucleares, o Japão foi derrotado e os prisioneiros, apesar da política japonesa de matar todos os prisioneiros de guerra caso houvesse um simples boato de invasão norte-americana, foram libertados e regressaram para casa em Outubro de 1945.
Como seria de esperar o período do pós-guerra foi extremamente complicado devido às recordações e aos traumas sofridos. Zamperini foi considerado herói nacional, casou-se, começou a dar palestras mas sempre embebido em álcool e tabaco e envolveu-se em vários negócios sem obter qualquer sucesso. A sua situação só melhorou quando em 1949 encontrou na religião uma forma de perdoar e recomeçar a sua vida.
Tal como na obra anterior da autora, "Seabiscuit", também foi realizado um filme baseado em “Invencível”. Foi em 2014 que Angelina Jolie adaptou esta história de um homem levado ao limite do humanamente suportável. Apesar de não ter ficado desapontado esperava um pouco mais do filme. Em termos sonoros, visuais e de fotografia, está excelente, mas o desenvolvimento da história torna o filme longo e pouco dinâmico. Em termos globais, Angelina Jolie segue à risca o conteúdo do livro e consegue imprimir à história uma parte significativa do que está patente no livro.
A “Crónica do Rei Pasmado” tem como cenário a Espanha do séc. XVII, época dominada fortemente pela Inquisição. Trata-se de uma sátira brilhante e mordaz em que Ballester, numa narrativa bastante humorada, expõe a hipocrisia que germina nas classes detentoras de poder, expondo características psicológicas e comportamentos, descarnando personagens que vão desde os altos cargos do clérigo (aqui destacaria especialmente o ambicioso e implacável padre Villaescusa) às simples “marafonas”.
Esta estória, onde se encontram disseminadas numerosas piscadelas de olho à História, inicia-se com uma visita do ingénuo e inseguro Rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal, na altura com 20 anos, “às meninas”, ajudado pelo amigo, conde Peña Andrada. Deslumbrado com a visão da meretriz Marfisa totalmente nua, com a perfeição das suas curvas e após “4 cópulas e um fracasso”, que constituem o “limite que os teólogos põem aos exageros da carne”, mete na cabeça que há-de observar a nudez da Rainha (Isabel de Bourbon) e não se inibe de manifestar publicamente esse desejo.
Ora, os severos costumes impostos pela Inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento íntimo com a Rainha e assim a Igreja imediatamente salta em defesa do pudor, da reserva e dos bons costumes, e dá-se uma feroz luta pelo poder entre aqueles que lhe estão próximos, o que origina posições antagónicas. Por um lado, os súbditos que defendem que o Rei não podia ver a esposa nua: “O homem pode aceder à mulher com fins de procriação e, se os seus humores lhe exigirem, para os acalmar, mas nunca com intenções levianas, como seria a de contemplar nua a própria esposa” (página 44); “Acha que a Graça do Senhor se manifesta no coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contra natura?” (página 67). Numa posição contrária, assume-se que o Rei tem toda a legitimidade para observar a nudez da esposa “…porque de camisas de noite cumpridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas” (página 50).
Adicionalmente e em relação ao primeiro grupo mencionado desenvolve-se a ideia de que, ao deixar-se o Rei levar a sua avante, será o povo inocente que pagará pelos seus pecados e por isso a Espanha perderá a guerra que está a travar nos Países Baixos e, de igual modo, a frota oriunda das Índias não chegará em segurança ao porto de Cádis.
O Santo Tribunal da Inquisição entra em cena, são criadas quatro comissões para solucionar o problema (o que mostra que isto de criar comissões já é um fenómeno bastante antigo), aparece um padre jesuíta português, a prostituta Marfisa é perseguida por “suspeitas de endemoninhamento”, encontramos uma Rainha com uma camisa de noite recomendada pelos clérigos por conter a expressão “Vade Retro Satanás” e um primeiro-ministro Valido que considera que “deitar com judias é melhor que queimá-las” e a quem no trono interessa um Rei fragilizado, sem voz activa. Até ao final assiste-se a muitos debates teológicos, querelas populares e intrigas palacianas num ambiente onde o “cheiro a enxofre corrobora a presença do Diabo”.
Tive curiosidade em assistir à versão cinematográfica do filme (El Rey Pasmado, de 1991), realizada por Imanol Oribe, e constatei que se trata de uma fiel reprodução de toda a obra embora em jeito de peça teatral onde, tal como acontece com o livro, se saboreia uma linguagem colhida directamente da época. Além disso, observa-se uma minuciosa reconstituição dos objetos, traquejos e vestimentas bem como a transposição da ideologia existente no período histórico considerado. Conta com a participação do português Joaquim de Almeida entre diversos actores espanhóis. Não resisto a mencionar o pormenor delicioso relacionado com a cara aparvalhada do Rei, cujo actor no filme (Gabino Diego) é incrivelmente semelhante ao retrato do Rei Filipe IV, feito em 1623 pelo precursor do impressionismo Diego Velázquez e que abaixo se reproduz.
Também não resisto a comentar a primeira cena do filme: um padre observa no telescópio corpos celestes e, para sua surpresa, vê corpos femininos, nus, girando no espaço e em volta do que se supõe ser o Sol. Tal visão enuncia a transformação que sucederá ao final da trama. Esta cena diz respeito à descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como dizia a Igreja.
O filme mostra que no confronto das duas formas de se interpretar a realidade, a dogmática e a científica, a grande maioria das personagens retratadas demonstra ter consciência da não relação entre o pecado do rei e a derrota de uma batalha.
Acabei de ler o sexto e último livro publicado em Portugal pelo escritor norueguês Jo Nesbø, sem dúvida um dos meus escritores de policiais preferido da actualidade. Os cinco títulos dedicados ao inspector Harry Hole desenvolvem histórias bastante intensas, repletas de suspense e acção e por vezes de uma violência atroz. São policiais cheios de personagens cativantes, com um enredo construído de forma magistral, ao qual se juntam várias pitadas de mistério, que nos levam a ficar agarradíssimos à história. Harry Hole, com quem facilmente se cria empatia, trabalha na força policial de Oslo, tem poucos amigos e métodos muito pouco ortodoxos…
“Caçadores de Cabeças” (“Hodejegerne”, 2008) é igualmente um policial, mas independente da série do inspector Harry Hole. Neste caso, o “herói” chama-se Roger Brown, e o seu emprego é procurar talentos para colocar em empresas de sucesso. Mas é também um sedutor ladrão de obras de arte. E mais não conto... Foi adaptado ao cinema em 2011 de uma forma que não envergonha o autor da obra: diversão inteligente e elegante com bons actores, num nível de produção industrial que nada fica a dever à dos países anglo-saxónicos.
De lamentar a impossibilidade de ler toda a bibliografia relativa a Harry Hole por ordem cronológica de publicação, especialmente tendo em conta a continuidade de certos factos e histórias por vários volumes. Das 10 obras que já foram publicadas na Noruega, apenas cinco foram publicadas em Portugal (do terceiro ao sétimo volume), com a agravante de não serem publicadas por essa ordem (LeYa, como é que isto se explica?):
Filho de uma bibliotecária, Jo Nesbø além de escritor, também é economista, ex-jogador de futebol profissional, compositor e músico de uma banda de pop/rock chamada Di Derre. Por curiosidade tentei ouvir a sua discografia mas não consegui chegar ao fim: a língua norueguesa não me cativou e a parte instrumental não prima pela originalidade…
Esta obra foi publicada em 1962, muito tempo antes de Gabriel García Márquez se tornar um escritor reconhecido internacionalmente e vinte anos antes de ganhar o Nobel da Literatura. Como habitualmente transporta-nos para tempos incertos e locais mágicos, com bastante humor negro e profunda desgraça dos personagens que caracterizam a sua obra, num relato em tom neutro mas com uma fina ironia. No entanto, não alcança a perfeição de “Amor em Tempos de Cólera” ou “Cem Anos de Solidão”.
A história decorre numa pequena vila perdida algures na América do Sul, em permanente convulsão social e política, onde são apresentados personagens que gravitam à volta do Estado, na figura do alcaide, ou da Igreja, representada pelo padre Ángel. As lutas pelo poder, as disputas políticas, a solidão e os boatos e o que eles são capazes de fazer no indivíduo e na sociedade são temas recorrentes nesta obra.
A trama desenrola-se à volta dos pasquins que misteriosamente são colocados porta a porta, durante a madrugada (daí o título da obra) e que deixam as pessoas assustadas com o que poderá ser denunciado. Estes panfletos anónimos apontam amantes, filhos bastardos, traições amorosas e políticas, segredos de família e outros mexericos da vila. Apesar de não se saber se os pasquins estão a dizer a verdade, os moradores passam a temer a sua publicação e assim geram um medo irracional. Logo no início do livro um dos visados por um pasquim, César Montero, é informado da infidelidade da esposa e por isso mata a tiro o suposto amante, Pastor.
Ao longo da obra desfilam vários personagens consistentes e marcantes como a viúva Montiel, o juiz Arcadio, o dr. Giraldo, o dentista, o barbeiro, o sr. Carmichael, a Trinidad, Don Sabas e a família Asís, num ambiente de muito calor, chuvas torrenciais, com muitos ratos na igreja, com censura dos filmes do cinema, dores de dentes e um estado de sítio. Curioso sem dúvida é o cruzamento com personagens de outras obras do escritor como a Mamã Grande e o coronel Aureliano Buendía e ainda a referência ao lugar de Macondo… Outro pormenor delicioso é a descrição da origem da palavra pasquim (afixação de panfletos numa estátua da cidade de Roma chamada Pasquino). O desfecho da história desiludiu-me o que veio a deteriorar a imagem global com que fiquei deste livro.
Ruy Guerra realizou o filme “La Mala Hora” (“O Veneno da Madrugada”) em 2006, inspirado nesta obra de Gabriel García Márquez, optando por apresentar a vila num ambiente obscuro, invernal, lamacento (recriando na perfeição as imagens mentais que tinha após a leitura do livro), mas com personagens demasiado teatralizadas. É falado em português, Maria João Bastos e António Melo têm curtas aparições, a ordem cronológica dos acontecimentos é bastante alterada, verifica-se a ausência de personagens (como o Pepe Amador) e do cinema à frente da igreja e a conclusão da história também diverge do original.
As adaptações literárias para o cinema nunca são exactamente fiéis. Às vezes, é preciso reduzir a trama e deixar de lado detalhes para que os momentos mais importantes caibam nos minutos do filme ou mesmo para que não sejam censurados. Por isso e de uma maneira geral, prefiro sempre o livro. Nos três exemplos que acabei de ler e ver (sempre por esta ordem) gostei imenso tanto do livro como do filme, pois ambos são deliciosos de se ler e assistir. São histórias que divertem quem lê e ao mesmo tempo capazes de nos fazer repensar muitas das nossas atitudes perante os outros.
1) Truman Capote – Boneca de Luxo
Boneca de Luxo, Breakfast at Tiffany’s, no original de 1958 (há expressão inglesa que dê mais gozo pronunciar?) é um romance tocante e singelo sobre a amizade, o amor e as desilusões. Holly Golightly é uma mulher bonita, inteligente, mas viciada, boémia e mundana, que procura o luxo e a luxúria sem renegar os valores tradicionais da província e até vive com um gato. Espirituosa e ternamente vulnerável, inquieta as vidas dos que com ela se cruzam. De uma personalidade frágil e confusa, procura apenas alcançar a sua felicidade, que para ela é um estado de satisfação semelhante à sensação encontrada ao observar pela manhã as vitrines da Tiffany & Co. O narrador, que não revela o seu nome, e que conviveu com ela em Nova Iorque e por ela apelidado de “Fred” por lhe fazer lembrar o irmão, considera-a uma “exibicionista indecente” e “vil impostora”. Durante a sua estadia em Nova Iorque, pois não tem pouso certo por não ser capaz de encontrar um lugar seu, que a faça sentir em casa, é sustentada por amigos do sexo oposto e por Sally Tomato, um mafioso que vive na prisão e que semanalmente lhe passa códigos em formato de previsão do tempo para que Holly transmita aos seus companheiros que estão fora da prisão. Após Nova Iorque é sugerida a passagem de Holly (afinal, Lula Mae Barnes) pelo Brasil, Buenos Aires e algures em África.
No filme de Blake Edwards de 1961, a relação entre as personagens principais altera-se, passando de amizade apenas no livro para o amor romântico no filme. No livro o narrador chama-se Paul Varjak, há a sugestão de que Paul é homossexual e Holly, bissexual. Por isso no filme é criada uma nova personagem no intuito de retirar a homossexualidade de Paul: uma decoradora, sua amante, que o sustenta. Na cena mais caricata, Holly surge a tentar aprender a língua portuguesa com uma grafonola e um disco de 33 rotações, porque planeava fugir para o Brasil com um José da Silva Pereira mas ambos consideram ser “uma língua complicada com 4000 verbos irregulares”. Além disso, o personagem Joe Bell, proprietário de um bar que frequentam, desapareceu no filme. A queda aparatosa no cavalo depois de uma corrida louca no Central Park e a detenção de Holly na sua banheira também são esquecidos. A deslumbrante Audrey Hepburn, no papel de Holly, foi nomeada para melhor actriz e também encanta ao dar voz, na parte final do filme, à canção de Henry Mancini, “Moon River”.
2) Thomas Mann – Morte em Veneza
O amor platónico e a paixão arrebatadora pela beleza são os temas centrais desta obra, escrita de forma eloquente e profunda em 1911. Gustav von Aschenbach é um escritor alemão cinquentão que ao passar por uma crise criativa decide revisitar Veneza. No hotel Lido repara em Tadzio, um adolescente polaco de catorze anos que considera o expoente máximo da beleza. Inicialmente o seu interesse é puramente estético, ou pelo menos é o que ele diz para si mesmo. No entanto, rapidamente se apaixona pelo rapaz de forma intensa e violenta e persegue-o ousadamente pelas ruas e canais de Veneza, mas jamais estabelecem contacto directo. Como permanece indiferente aos rumores sobre uma epidemia de cólera na cidade, o fim acaba por ser previsível e inevitável.
O filme “Death In Venice” de 1971, realizado pelo italiano Luchino Visconti mantém a densidade psicológica do livro, explora eficazmente a beleza de Veneza e diverge ligeiramente da obra escrita ao iniciar-se com a chegada a Veneza sem quaisquer prolegómenos e com o protagonista a passar de escritor a músico fracassado. A tentativa de dissimular a idade com cosméticos pareceu-me bastante exagerada, ficando Gustav com um aspecto patético, apesar de servir para acentuar a irrealidade.
3) F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby
Esta obra de 1925 passa-se em Nova Iorque (Long Island) durante o Verão de 1922 e conta a história do milionário excêntrico que subiu na vida a pulso, Jay Gatsby (mas nasceu James Gatz), conhecido pelas festas animadas que dava na sua mansão. Os Estados Unidos vivem um período de prosperidade sem precedentes. Vivia-se a era dourada do jazz em toda a sua decadência e excessos, num mundo de aparências. Quem nos conta a história é o seu novo vizinho, Nick Carraway, um jovem comerciante de Midwest, que se torna amigo de Gatsby. Apesar de idolatrarem os ricos e o glamour da época, ambos não se conformavam com o materialismo sem limites e a falta de moral e cultura, que traziam consigo uma certa decadência, o que resulta numa crítica ao sonho americano. A fortuna de Gatsby é motivo de rumores, nenhum dos inúmeros convidados que Nick conhece nas festas de Gatsby conhece muito bem o passado do anfitrião e há suspeitas de actividades ilegais. Nick também visita Tom Buchanan, outro “novo-rico”, um antigo atleta universitário abastado, marido de Daisy, que é prima de Nick. Mais tarde, Nick descobre que o milionário só mantinha estas festas na esperança de que Daisy, seu amor há cinco anos, fosse a uma delas por acaso. No desenrolar da história deparamos com Jordan Baker, George Wilson, dono de uma garagem, a sua mulher Myrtle (mas também amante de Tom), um atropelamento mortal com um carro amarelo, uns óculos gigantes, um assassinato, um suicídio e um funeral com três pessoas.
O argumento do filme de 2013 é bastante fiel ao livro. Tobey Maguire é Nick Carraway, Leonardo DiCaprio é Jay Gatsby e Carey Mulligan é Daisy Buchanan. Como o realizador é Baz Luhrmann há uma preocupação com a banda sonora (The XX, Jack White, Lana Del Rey e Florence + The Machine, entre outros) e com a caracterização dos anos 20 nova-iorquinos ("Roaring Twenties") e as suas exuberantes festas, o que resulta num sentido estético aprimorado com cenários sumptuosos.
Este é o décimo primeiro livro que leio de Philip Roth, e seria uma tarefa muito ingrata escolher aquele que me tocou mais profundamente. Para mim, Philip Roth é definitivamente um dos maiores escritores norte-americanos vivos.
Nesta história curta mas ampla nas reflexões que possibilita, é feita uma análise ao amor e erotismo na terceira idade. Passa-se em Nova Iorque e é narrada (a um ouvinte não identificado) por David Kepesh, sexagenário de cabelos brancos, professor universitário, crítico cultural da televisão (sobre o que há de melhor para ver, ouvir e ler) mas também divorciado, pai ausente de um único filho e a viver de modo indecoroso a liberdade sexual conquistada com a revolução cultural dos anos 60 pois considera-se muito vulnerável à beleza feminina. No fundo trata-se de um ser humano que não aceita a sua incoerência e que por isso se vulgariza numa consistência oca.
Kepesh, que sente a velhice aproximar-se e a morte a rondar, tem por hábito seleccionar uma aluna no primeiro dia de aulas para com ela ter um caso no final do ano lectivo. Aos 62 anos, a escolha recai sobre a bela Consuela Castillo, de 24 anos, de origem cubana. Apesar de se tratar de uma relação sem qualquer compromisso formal nem obrigações com o sexo oposto, que o satisfaz sexualmente de forma plena (apesar da quase crueldade que é sentir desejo por alguém tão mais novo), Kepesh vê a sua vida desmoronar-se pois torna-se uma vítima dos mais básicos instintos de posse e ciúme e assim despojou-se do seu realismo e pragmatismo e não pensava noutra coisa que não perder a sua amante. Um ano e meio após o seu início, a estudante seduzida termina a relação pois Kepesh não é capaz de enfrentar a família da sua amante no dia de celebrar o fim da sua licenciatura.
O tempo passa. A passagem do tempo torna Kepesh naquilo em que todos nós nos tornaremos: um animal moribundo. A relação conflituosa com o filho Kenny, que leva uma vida falsamente moral, continua (não faltando uma alusão aos “Irmãos Karamazov”), tal como os encontros com a eterna amante Carolyn e os desabafos com o seu amigo George, que acaba por falecer vítima de uma trombose. Continua a coleccionar namoradas, até que Consuela, já com 32 anos, volta-lhe a telefonar novamente, numa noite de passagem de ano, a pedir para terem uma conversa.
As referências culturais abundam, passando por diversos compositores de música clássica, por um manuscrito de Kafka (que impressionou Consuela), por uma ópera de Puccini, pelo Monte Rushmore, pelo relógio criado em 1812 para medir o andamento musical (metrónomo), pelas pinturas de Balthus, por um quadro de Velázquez (“As Meninas”, reproduzido na imagem abaixo) e um de Amedeo Modigliani (“Le Grand Nu”). Este último constava do postal ilustrado que Kepesh recebeu de Consuelo seis meses após terem terminado a relação e também consta da capa da edição que acabei de ler. Uma curiosidade: o título “The Dying Animal” foi retirado do poema “Death” de William Butler Yeats.
E termino com duas citações para aperitivo de tão lauta refeição:
A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. Aqui não resisti a consultar o original: "The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open."
Será que os homens, uma vez excluído o sexo, continuariam a achar as mulheres assim tão encantadoras?
A adaptação ao cinema pela espanhola Isabel Coixet não me desiludiu. Pelo contrário, o seu filme de 2008, Elegy (“Elegia”) consiste numa adaptação inteligente da obra de Roth, baseada na portentosa interpretação de Ben Kingsley (o eterno Gandhi no papel de David Kepesh) e de Penélope Cruz (Consuela Castillo), com todo o esplendor da sua sensualidade (aqui comparada à figura do quadro "La Maja Vestida" de Goya). Com poucas alterações ao original (até o episódio do tampão é recordado!) e com uma ternura, graça irónica e intensidade erótica, “Elegia” explora o poder que a beleza tem em cegar, revelar e transformar as pessoas…
“Pantaleão e as visitadoras” é um romance divertido, cómico, que se lê por puro prazer, narrado por meio de cartas, memorandos, programas de rádio e relatórios militares cheios de bom humor e de ironia, intercalados com discursos que se cruzam de uma forma no mínimo invulgar, pois Vargas Llosa brinca com os diálogos misturando simultaneamente diferentes conversas. No início, o leitor desprevenido estranha este tipo de escrita que é acompanhada com um sorriso constante nos lábios e por algumas valentes gargalhadas. Aqui, a prostituição, o fanatismo religioso e o funcionamento de grandes instituições, como o Exército, entrelaçam-se para justificar acções levadas ao extremo. No fundo trata-se sobretudo de uma crítica à burocracia e à hipocrisia da máquina militar, à falsa moral de uns e outros, à facilidade com que um pseudo guia religioso arrebanha as massas e ao poder da comunicação social.
Na história apresentada como verídica e passada no final da década de 50, o dedicado capitão do exército peruano Pantaleão Pantoja é chamado a desempenhar uma função original e secreta em Iquitos: criar um corpo de visitadoras (eufemismo para prostitutas) que se desloque aos vários estabelecimentos militares dispersos pelo Peru para prestar os seus serviços, evitando desta forma os abusos e as violações dos militares à população civil e… até aos animais! Pantaleão era a pessoa ideal para realizar tal empreitada: não gostava de sair à noite, não apreciava bebidas alcoólicas, nunca tinha entrado num bordel e era tido como eficiente e organizado.
O SVGPFS – Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteira e Similares – torna-se um sucesso absoluto, o número de visitadoras cresce exponencialmente, e até a Marinha, os oficiais e a população civil solicitam os serviços das visitadoras. Em termos logísticos também se verifica um aumento significativo dos seus meios de transporte (barcos e aviões). Em oposição ao sucesso “profissional”, a vida familiar do capitão complica-se, é abandonado pela mulher e pela filha recém-nascida e apaixona-se por uma visitadora, a belíssima “Brasileira”, a “involuntária semeadora de tragédias”, personagem que será fulcral para o desenvolvimento da história. Relevante será também a infiltração de uma seita religiosa no país, que crucifica de início pequenos animais e depois pessoas.
Acrescento mais alguns pontos de interesse: o radialista corrupto “Sinchi”; os relatórios estatísticos e os questionários criados por Pantaleão; a formalidade dos textos militares; o nome das visitadoras; a Casa de Ferro de Eiffel; a “Eva” e o “Dalila”; o óleo de golfinho e o hino criado pelas visitadoras, com o refrão:
Servir, servir, servir
O Exército da Nação
Servir, servir, servir
Com muita dedicação
Quando um barco que transportava as visitadoras é atacado, os agressores tentam fazer-se passar por elementos da seita religiosa e crucificam a “Brasileira”, morta pelos soldados que tinham sido avisados do ataque. No seu enterro, Pantita discursa e assume a sua condição de militar, até então guardada em segredo, e o escândalo daí resultante leva ao encerramento do serviço, à sua mudança para uma zona fria e ao reencontro com a mulher e a filha.
Acrescento apenas que me desagradou a colossal quantidade de gralhas que detectei nesta edição da Dom Quixote, aceitável no comunicado da ex-visitadora Maclóvia mas pouco desculpáveis nas restantes situações.
"Pantaleão e as visitadoras" foi adaptado ao cinema no Peru em 1999 por Francisco J. Lombardi. Apesar do gozo proporcionado pela sua visualização, o filme perde em autenticidade, facto previsível dada a dificuldade natural de transpor para o cinema a escrita única de Llosa. As principais diferenças detectadas foram: a acção decorre no final da década de 90, com telemóveis e computadores; não aparecem certas personagens como a Dona Leonor ou o China; não há qualquer referência à seita religiosa ou ao hino das visitadoras; a criação de um uniforme para as visitadoras; a “Brasileira” passa a “Colombiana”; a filha Gladys agora chama-se Marina e, talvez mais importante, o filme centra-se na relação entre Pantoja e a “Colombiana”.
Li numa tarde as 107 páginas deste romance que nos faz ter esperança que podemos amar alguém mesmo na velhice. O título poderá ter surpreendido e mesmo afastado muitos leitores desprevenidos desta história de amor sublime, de um ancião reformado que ao completar noventa anos, decide dar um presente a si mesmo: uma noite de amor com uma virgem.
Durante a sua vida, habituara-se à solidão e ao sexo com prostitutas: “Até aos 50 anos eram 514 mulheres com quem tinha estado pelo menos uma vez” – página 18, na imagem seguinte. Nunca amara, o relacionamento mais longo, puramente sexual, fora com uma empregada que, no auge da decrepitude, ainda limpava a sua casa. Pois este homem, conhecido como sábio, professor, há décadas fora noivo de uma mulher bem mais jovem, a quem deixou no altar no dia do casamento e, por isso, mais tarde fugiria com outro homem. Em dado momento, ele diz que o sexo o impedira de amar (“As putas não me deixaram tempo para ser casado”).
E mais não conto, leiam o livro. Ou vejam o filme de 2011, realizado por Henning Carlsen, que é uma reprodução bastante fiel do livro, em que se mantém a forma delicada de descrever esta história muito bem construída.
Policial à portuguesa, com textos simples, por vezes cómicos, com nomes e linguagem típicos de uma classe social baixa (muito exagerados) e com alguns personagens bem elaborados, constitui um autêntico Manual dos Janados e do Gamanço.
O autor proporciona uma visão do mundo do crime dada por prevaricadores da pior espécie, liderados por uma adolescente (Diana), levando os leitores a colocarem-se do seu lado e não dos tradicionais bons da fita (os polícias). Inevitável a recordação de Teresa Mendoza, protagonista do romance de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul.
De uma forma geral, a leitura é agradável mas por vezes o enredo chega a tornar-se enfadonho e sem grande suspense. Imperam os lugares-comuns e a previsibilidade. O desfecho da história desiludiu-me…
De lamentar a deteção de mais de uma dezena de gralhas e erros gramaticais. Exemplificando: na página 51, podemos ler “My Chermical Romance” e na página 251, “Ainda Bataman não acabara a frase…” referindo-se ao personagem Batman. Além disso, não consigo perceber como é que na sinopse do livro, que se encontra na contracapa, se faz referência a um personagem que não consta do livro, o “Paulo”, enquanto não elenca um dos principais, o Necas. Será que este é mais um daqueles livros que apenas conseguiu sair do prelo graças à celebridade do seu autor?
Na imagem seguinte pode ler-se um excerto contendo a experiência traumatizante do Bazófias na cadeia de Vale de Judeus.
Após a leitura do livro, aproveitei para visualizar a adaptação do livro ao grande ecrã. Algumas diferenças saltam à vista: a Diana (Maria João Bastos) tem um filho, matou o Dragão, envolve-se com o inspector Augusto (Paulo Pires), o que provoca a sua demissão e suicídio. Os golpes são diferentes, não se roubam 12 Mercedes, um cão chamado Caruso, uma mota avariada e obras de arte. Roubam uma igreja e cinco milhões de euros de um camião. O Batman, a Manuela e a própria Diana têm um destino diferente e surgem novos personagens: Alcabideche, Piaçaba, Lurdes e o seu marido paraquedista (Rui Unas).
Trata-se de um filme de qualidade mediana, com enfâse na ação, cenas rápidas com bastante ritmo, sem grandes diálogos, hip-hop q.b. e algumas personagens consistentes. Para o pequeno ecrã foi criada uma série com 14 episódios disponíveis na TVI Player.
Recentemente li três livros que serviram de base à realização de outros tantos filmes. Na minha opinião resultaram em boas adaptações ao cinema. E desta vez optei por em primeiro lugar ler o livro e depois ver o filme. Já tenho feito o contrário. Ainda não tenho a certeza sobre qual a melhor metodologia a seguir. Continuo a pensar que depende…
Em relação a Painted Veil (O Véu Pintado), de Somerset Maugham, com os excelentes Edward Norton e Naomi Watts, detectei várias diferenças: no livro a acção passa-se em Hong Kong e no filme em Xangai; no filme há uma perseguição pelos nacionalistas chineses e existe uma relação mais próxima do casal, que tem um filho de 5 anos chamado Walter; a frase “foi o cão que morreu”, essencial no livro, desaparece no filme e, finalmente, na parte final do filme, o regresso a Charles Townsend é ignorado, ou seja, é eliminada a sensação de promiscuidade e arrependimento sentida no livro. Emocionante mesmo e a não perder é a parte final do filme com um excerto de “A La Claire Fontaine”, canção tradicional francesa.
Já a adaptação de Jane Eyre, de Charlotte Bronte, realizada por Cary Fukunaga e com Mia Wasikowska (belíssima), Michael Fassbender e Judi Dench mantém-se um pouco mais fiel à obra em que se baseia mas apresenta algumas diferenças: é Mrs. Fairfax quem revela onde se encontra Rochester após o incêndio, este não perde a mão no incêndio e não é reconhecida a relação familiar entre Jane Eyre e os 3 primos.
A terceira obra, Bel-Ami, de Guy de Maupassant, original de 1885, regressou ao cinema este ano e também conta com actores de peso: Robert “Twilight” Pattinson, Uma Thurman (que parece cada vez mais bela) e Kristin Scott Thomas. Aqui procurou-se seguir com rigor a obra original, apesar da troca do nome Walter por Rousset e do casal Walter ter uma e não duas filhas, e baseia-se na personagem de George Duroy, jovem sedutor e ambicioso que percorre os bares de Paris, na década de 1890, utilizando o seu charme para conquistar mulheres da alta sociedade e melhorar a sua situação social.
Em jeito de conclusão, adorei a leitura dos três clássicos, tal como a visualização dos filmes a que deram origem. Na minha opinião quem quer detalhes, deve procurar os livros pois é impossível os filmes oferecê-los em cerca de duas horas…
As últimas obras que li foram duas biografias, género de literatura narrativa de uma vida real que sempre me entusiasmou, tanto em livro como em filme. Os dois homenageados foram Egas Moniz e Salazar.
Sobre o primeiro, trata-se de uma das mais fascinantes personalidades médicas do século XX, nascido em 1874 e o primeiro português a receber o Prémio Nobel da Medicina (em 1949). Escrita por outro médico, utiliza inúmeras referências a outras obras e correspondência pessoal de Egas Moniz para apresentar todo o percurso deste visionário do seu tempo.
A curiosidade em conhecer mais detalhadamente a vida do político António de Oliveira Salazar, que governou Portugal durante aproximadamente 36 anos, levou-me à obra do investigador português a lecionar atualmente na Irlanda. Em complemento também assisti ao filme “Salazar, A Vida Privada” de Jorge Queiroga.