terça-feira, 29 de abril de 2014

Khaled Hosseini - Mil Sóis Resplandecentes


O passado continha apenas uma sabedoria: o amor era um erro perigoso, e a sua cúmplice, a esperança, uma ilusão traiçoeira”.

Este livro, marcante e inesquecível, confirma a certeza de que os livros ensinam, educam e nos fazem empreender as mais ousadas viagens. Por alguns momentos tive de interromper a sua leitura, revoltado devido à sua carga dramática com partes terrivelmente chocantes. Está escrito de uma forma acessível que nos toca com palavras profundas e ironicamente belas. Um vislumbre sobre a intolerância e a força da tradição, sobre o que foi ser mulher e mãe no Afeganistão, sobre uma amizade linda entre duas mulheres afegãs, a maneira como elas suportavam tudo tendo uma à outra, e que também aborda docemente a maternidade e por isso também é um livro de amor, esperança e perseverança.

Conta a história de duas mulheres afegãs Mariam e Laila, de duas gerações distintas, cuja vida se cruza (chegam a ser esposas do mesmo marido) no meio das convulsões que afectaram o país no último quarto do século XX e início do século XXI. Ao mesmo tempo a história do país que elas habitam, o Afeganistão, é apresentada: a transição da monarquia para a república com Daoud Khan, o domínio comunista (desde o golpe de Estado de Abril de 1978 a 1992), a invasão soviética (de 1980 a 1988), a entrada dos mujahidin no poder em 1992, mantendo-se conflitos permanentes entre etnias rivais (hazaras, uzbeques, pastunes e tajiques) e diferentes líderes (Ismail Khan, Rabbani, Massoud - que morreu dois dias antes da terça-feira 11/09/2001 - e Dostum), a chegada dos talibans em Setembro de 1996 que se mantiveram no poder até 2003, altura em que o novo presidente Karzai passou a governar.

O livro divide-se em 4 partes. A primeira é dedicada a Mariam, uma menina cuja maior alegria na sua vida tinha o seu apogeu às quintas-feiras, quando o seu pai Jalil a vinha visitar por alguns minutos. Filha ilegítima de um homem rico que tinha três esposas legítimas e nove filhos, cedo conheceu o inferno quando após o suicídio de sua mãe Nana (com apenas 14 anos) foi dada pelo seu próprio pai, em casamento a um homem de 45 anos, de seu nome Rashid, e foi levada da sua pacífica Herat para a capital Cabul.

A segunda parte é dedicada à bela e inteligente Laila que perde os pais aos 9 anos quando se preparavam para deixar Cabul em direcção ao Paquistão e a casa é atingida por um rocket. A solução passou por casar com o marido de Mariam, após ter sido (mal) informada de que o seu amor da juventude Tariq teria morrido.

Na terceira parte as duas mulheres vivem em conjunto com o marido Rashid, um árabe tacanho com mentalidade pré-histórica que vê o ser feminino como objecto cujo único propósito é o de servirem o homem, dar filhos e serem um saco-de-boxe quando as coisas não correm como ele gostaria. Com dezanove anos de diferença, origens, objectivos e visões da vida também diferentes para ambas, no início não se relacionam e até se evitam na mesma casa, mas depois as vicissitudes da vida fazem com que se unam e se defendam conforme possam do marido, um homem violentíssimo. Estabelecem assim uma relação quase de mãe-filha e durante anos suportam os seus maus tratos e o seu único objectivo é conseguirem sobreviver diariamente, especialmente após a malograda tentativa de fuga para o Paquistão. Mariam não conseguiu gerar um filho a Rashid tendo abortado nas diversas tentativas e Laila, a preferida de Rashid, teve uma menina – Aziza – para desgosto de Rashid, apesar de o pai ser Tariq. À segunda acertou na pretensão do marido e gerou o filho Zalmai, através de uma cesariana sem anestesia!

A descrição das barbaridades que as mulheres sofreram devido aos talibans são impressionantes e as regras estabeleciam que se saíssem de casa sozinhas seriam espancadas, não podiam usar jóias, cosméticos nem roupa elegante ou pintar as unhas. Também não podiam frequentar a escola ou trabalhar, nem podiam rir ou mostrar o rosto em público, cruzar o olhar com um homem, falar a não ser que lhe dirijam a palavra. Em caso de adultério seriam apedrejadas até à morte. “Mariam ouviu falar de mulheres que se suicidavam com medo de serem violadas, e de homens que, em nome da honra, matavam as esposas e as filhas se estas tivessem sido violadas pelos militares”.

Nesta altura a fome aumentou de forme acentuada. Mariam vê-se forçada a recorrer ao pai mas fica a saber que já tinha morrido em 1987. Aziza tem de ir para um orfanato. “Morrer de fome tornou-se de súbito uma possibilidade real. Alguns optaram por não esperar por ela. Mariam ouviu falar de uma vizinha viúva que arranjara um pouco de pão seco, o misturara com veneno de ratos, e o dera a comer aos seus sete filhos. Guardara para ela a porção maior”. “Até o homem mordido pela cobra consegue dormir, mas o faminto não”.

Na quarta parte conclui-se a trama que aqui não vou desvendar para manter o interesse de quem pretenda ler o livro. Destaco contudo mais alguns episódios: as referências a “O Velho e o Mar” de Hemingway; o vocabulário farsi abundantemente utilizado (como salaam; shahid; jihad; harami; kolba ou nikka); os seixos; o passeio pelos budas gigantes de Bamiyan (na imagem abaixo), mais tardes destruídos pelos talibans; o filme Pinóquio da Disney; a televisão e cassetes piratas e o poema persa de Saeb-e-Tabrizi dedicado a Cabul que explica o título,

Não se podem contar as luzes que brilham sobre os seus telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
Que se escondem por trás dos seus muros.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

domingo, 20 de abril de 2014

Li o livro, vi o filme


As adaptações literárias para o cinema nunca são exactamente fiéis. Às vezes, é preciso reduzir a trama e deixar de lado detalhes para que os momentos mais importantes caibam nos minutos do filme ou mesmo para que não sejam censurados. Por isso e de uma maneira geral, prefiro sempre o livro. Nos três exemplos que acabei de ler e ver (sempre por esta ordem) gostei imenso tanto do livro como do filme, pois ambos são deliciosos de se ler e assistir. São histórias que divertem quem lê e ao mesmo tempo capazes de nos fazer repensar muitas das nossas atitudes perante os outros.

1) Truman Capote – Boneca de Luxo

Boneca de Luxo, Breakfast at Tiffany’s, no original de 1958 (há expressão inglesa que dê mais gozo pronunciar?) é um romance tocante e singelo sobre a amizade, o amor e as desilusões. Holly Golightly é uma mulher bonita, inteligente, mas viciada, boémia e mundana, que procura o luxo e a luxúria sem renegar os valores tradicionais da província e até vive com um gato. Espirituosa e ternamente vulnerável, inquieta as vidas dos que com ela se cruzam. De uma personalidade frágil e confusa, procura apenas alcançar a sua felicidade, que para ela é um estado de satisfação semelhante à sensação encontrada ao observar pela manhã as vitrines da Tiffany & Co. O narrador, que não revela o seu nome, e que conviveu com ela em Nova Iorque e por ela apelidado de “Fred” por lhe fazer lembrar o irmão, considera-a uma “exibicionista indecente” e “vil impostora”. Durante a sua estadia em Nova Iorque, pois não tem pouso certo por não ser capaz de encontrar um lugar seu, que a faça sentir em casa, é sustentada por amigos do sexo oposto e por Sally Tomato, um mafioso que vive na prisão e que semanalmente lhe passa códigos em formato de previsão do tempo para que Holly transmita aos seus companheiros que estão fora da prisão. Após Nova Iorque é sugerida a passagem de Holly (afinal, Lula Mae Barnes) pelo Brasil, Buenos Aires e algures em África.

No filme de Blake Edwards de 1961, a relação entre as personagens principais altera-se, passando de amizade apenas no livro para o amor romântico no filme. No livro o narrador chama-se Paul Varjak, há a sugestão de que Paul é homossexual e Holly, bissexual. Por isso no filme é criada uma nova personagem no intuito de retirar a homossexualidade de Paul: uma decoradora, sua amante, que o sustenta. Na cena mais caricata, Holly surge a tentar aprender a língua portuguesa com uma grafonola e um disco de 33 rotações, porque planeava fugir para o Brasil com um José da Silva Pereira mas ambos consideram ser “uma língua complicada com 4000 verbos irregulares”. Além disso, o personagem Joe Bell, proprietário de um bar que frequentam, desapareceu no filme. A queda aparatosa no cavalo depois de uma corrida louca no Central Park e a detenção de Holly na sua banheira também são esquecidos. A deslumbrante Audrey Hepburn, no papel de Holly, foi nomeada para melhor actriz e também encanta ao dar voz, na parte final do filme, à canção de Henry Mancini, “Moon River”.


2) Thomas Mann – Morte em Veneza

O amor platónico e a paixão arrebatadora pela beleza são os temas centrais desta obra, escrita de forma eloquente e profunda em 1911. Gustav von Aschenbach é um escritor alemão cinquentão que ao passar por uma crise criativa decide revisitar Veneza. No hotel Lido repara em Tadzio, um adolescente polaco de catorze anos que considera o expoente máximo da beleza. Inicialmente o seu interesse é puramente estético, ou pelo menos é o que ele diz para si mesmo. No entanto, rapidamente se apaixona pelo rapaz de forma intensa e violenta e persegue-o ousadamente pelas ruas e canais de Veneza, mas jamais estabelecem contacto directo. Como permanece indiferente aos rumores sobre uma epidemia de cólera na cidade, o fim acaba por ser previsível e inevitável.

O filme “Death In Venice” de 1971, realizado pelo italiano Luchino Visconti mantém a densidade psicológica do livro, explora eficazmente a beleza de Veneza e diverge ligeiramente da obra escrita ao iniciar-se com a chegada a Veneza sem quaisquer prolegómenos e com o protagonista a passar de escritor a músico fracassado. A tentativa de dissimular a idade com cosméticos pareceu-me bastante exagerada, ficando Gustav com um aspecto patético, apesar de servir para acentuar a irrealidade.


3) F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby

Esta obra de 1925 passa-se em Nova Iorque (Long Island) durante o Verão de 1922 e conta a história do milionário excêntrico que subiu na vida a pulso, Jay Gatsby (mas nasceu James Gatz), conhecido pelas festas animadas que dava na sua mansão. Os Estados Unidos vivem um período de prosperidade sem precedentes. Vivia-se a era dourada do jazz em toda a sua decadência e excessos, num mundo de aparências. Quem nos conta a história é o seu novo vizinho, Nick Carraway, um jovem comerciante de Midwest, que se torna amigo de Gatsby. Apesar de idolatrarem os ricos e o glamour da época, ambos não se conformavam com o materialismo sem limites e a falta de moral e cultura, que traziam consigo uma certa decadência, o que resulta numa crítica ao sonho americano. A fortuna de Gatsby é motivo de rumores, nenhum dos inúmeros convidados que Nick conhece nas festas de Gatsby conhece muito bem o passado do anfitrião e há suspeitas de actividades ilegais. Nick também visita Tom Buchanan, outro “novo-rico”, um antigo atleta universitário abastado, marido de Daisy, que é prima de Nick. Mais tarde, Nick descobre que o milionário só mantinha estas festas na esperança de que Daisy, seu amor há cinco anos, fosse a uma delas por acaso. No desenrolar da história deparamos com Jordan Baker, George Wilson, dono de uma garagem, a sua mulher Myrtle (mas também amante de Tom), um atropelamento mortal com um carro amarelo, uns óculos gigantes, um assassinato, um suicídio e um funeral com três pessoas.

O argumento do filme de 2013 é bastante fiel ao livro. Tobey Maguire é Nick Carraway, Leonardo DiCaprio é Jay Gatsby e Carey Mulligan é Daisy Buchanan. Como o realizador é Baz Luhrmann há uma preocupação com a banda sonora (The XX, Jack White, Lana Del Rey e Florence + The Machine, entre outros) e com a caracterização dos anos 20 nova-iorquinos ("Roaring Twenties") e as suas exuberantes festas, o que resulta num sentido estético aprimorado com cenários sumptuosos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

RIP Gabriel García Márquez (1927-2014)


Portugal está condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo.”

G. G. Márquez, 1975

terça-feira, 15 de abril de 2014

Philip Roth – O Animal Moribundo


Este é o décimo primeiro livro que leio de Philip Roth, e seria uma tarefa muito ingrata escolher aquele que me tocou mais profundamente. Para mim, Philip Roth é definitivamente um dos maiores escritores norte-americanos vivos.

Nesta história curta mas ampla nas reflexões que possibilita, é feita uma análise ao amor e erotismo na terceira idade. Passa-se em Nova Iorque e é narrada (a um ouvinte não identificado) por David Kepesh, sexagenário de cabelos brancos, professor universitário, crítico cultural da televisão (sobre o que há de melhor para ver, ouvir e ler) mas também divorciado, pai ausente de um único filho e a viver de modo indecoroso a liberdade sexual conquistada com a revolução cultural dos anos 60 pois considera-se muito vulnerável à beleza feminina. No fundo trata-se de um ser humano que não aceita a sua incoerência e que por isso se vulgariza numa consistência oca.

Kepesh, que sente a velhice aproximar-se e a morte a rondar, tem por hábito seleccionar uma aluna no primeiro dia de aulas para com ela ter um caso no final do ano lectivo. Aos 62 anos, a escolha recai sobre a bela Consuela Castillo, de 24 anos, de origem cubana. Apesar de se tratar de uma relação sem qualquer compromisso formal nem obrigações com o sexo oposto, que o satisfaz sexualmente de forma plena (apesar da quase crueldade que é sentir desejo por alguém tão mais novo), Kepesh vê a sua vida desmoronar-se pois torna-se uma vítima dos mais básicos instintos de posse e ciúme e assim despojou-se do seu realismo e pragmatismo e não pensava noutra coisa que não perder a sua amante. Um ano e meio após o seu início, a estudante seduzida termina a relação pois Kepesh não é capaz de enfrentar a família da sua amante no dia de celebrar o fim da sua licenciatura.

O tempo passa. A passagem do tempo torna Kepesh naquilo em que todos nós nos tornaremos: um animal moribundo. A relação conflituosa com o filho Kenny, que leva uma vida falsamente moral, continua (não faltando uma alusão aos “Irmãos Karamazov”), tal como os encontros com a eterna amante Carolyn e os desabafos com o seu amigo George, que acaba por falecer vítima de uma trombose. Continua a coleccionar namoradas, até que Consuela, já com 32 anos, volta-lhe a telefonar novamente, numa noite de passagem de ano, a pedir para terem uma conversa.

As referências culturais abundam, passando por diversos compositores de música clássica, por um manuscrito de Kafka (que impressionou Consuela), por uma ópera de Puccini, pelo Monte Rushmore, pelo relógio criado em 1812 para medir o andamento musical (metrónomo), pelas pinturas de Balthus, por um quadro de Velázquez (“As Meninas”, reproduzido na imagem abaixo) e um de Amedeo Modigliani (“Le Grand Nu”). Este último constava do postal ilustrado que Kepesh recebeu de Consuelo seis meses após terem terminado a relação e também consta da capa da edição que acabei de ler. Uma curiosidade: o título “The Dying Animal” foi retirado do poema “Death” de William Butler Yeats.


E termino com duas citações para aperitivo de tão lauta refeição:

A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. Aqui não resisti a consultar o original: "The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open."

Será que os homens, uma vez excluído o sexo, continuariam a achar as mulheres assim tão encantadoras?

A adaptação ao cinema pela espanhola Isabel Coixet não me desiludiu. Pelo contrário, o seu filme de 2008, Elegy (“Elegia”) consiste numa adaptação inteligente da obra de Roth, baseada na portentosa interpretação de Ben Kingsley (o eterno Gandhi no papel de David Kepesh) e de Penélope Cruz (Consuela Castillo), com todo o esplendor da sua sensualidade (aqui comparada à figura do quadro "La Maja Vestida" de Goya). Com poucas alterações ao original (até o episódio do tampão é recordado!) e com uma ternura, graça irónica e intensidade erótica, “Elegia” explora o poder que a beleza tem em cegar, revelar e transformar as pessoas…



sábado, 12 de abril de 2014

Peter Hook (Casa das Artes, V. N. de Famalicão, 11/04)



O baixista da mítica banda de Manchester revisitou os álbuns de estúdio “Unknown Pleasures” (1979) e “Closer” (1980). Na primeira parte, o público, na sua maioria com mais de três décadas de idade, foi brindado com sete temas dos mais electrónicos New Order, como “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”, num cenário onde se vislumbravam duas gigantescas lonas de pano ilustradas com as capas dos álbums de rock melancólico e depressivo dos Joy Division.

Apesar da voz debilitada e nos antípodas de um vocalista carismático, a actuação enérgica e autoritária de Peter Hook agradou-me pois fui ao concerto sem outra expectativa que não fosse recordar música que marcou, e de que maneira, a minha adolescência.

No total foram mais de duas horas e meia animadíssimas, num ambiente de misticismo e revivalismo e não obstante os três intervalos (a t-shirt do Batman, oferecida ao público no final, não conseguia esconder os 58 anos do performer!), houve uma dança delirante com um fã, um desfecho estonteante com “Transmission” e “Love Will Tear Us Apart” e muito moche mas também alguma desilusão com a ausência da “Atmosphere”.





quarta-feira, 2 de abril de 2014

Leituras de Abril


Eis a minha selecção de títulos para ler durante o mês de Abril:

- Khaled Hosseini - Mil Sóis Resplandecentes
- Philip Roth - O Animal Moribundo
- Nelson Algren - Vidas Perdidas - A Walk On The Wild Side
- Manuel Jorge Marmelo - Uma Mentira Mil Vezes Repetida
- A. M. Dean - Bibliotecário

sábado, 22 de março de 2014

Richard Zimler - A Sentinela


Este livro de escrita fluida e realista, presenteia-nos com um enredo muito interessante e invulgar e com um ritmo narrativo por vezes impressionante. Muito diferente das obras anteriores, Zimler aqui num registo próximo do policial, em que a personagem principal é um inspector da Polícia Judiciária oriundo do Colorado, EUA, que tenta desvendar um assassinato mas acaba por tropeçar também em abusos sexuais de menores de natureza brutal (e por isso é duro de ler, pela impotência perante descrições atrozes) e casos de subornos envolvendo altas personalidades de Portugal. Aliás, em relação a este último aspecto, o autor caracteriza o estado actual do nosso país de uma forma crua e real, chegando ao ponto de fazer referência a alguns casos sobejamente conhecidos, não se inibindo de expor a corrupção e os abusos de poder nas altas esferas políticas.

Monroe, o tal inspector, vive assombrado pelo seu passado. Vítima de violência física e psicológica na sua infância por parte do pai e sentindo-se abandonado pela mãe desde os 14 anos (quando esta morreu num acidente de viação), tem no irmão Ernie (que atravessa um calvário ainda maior) um companheiro nesta revolta pessoal pelo sofrimento que o acompanha desde a infância. Por isso a componente psicológica é fulcral, e aumenta quando se toma conhecimento de que o distúrbio de personalidade múltipla acompanha-o desde os 8 anos, altura em que Gabriel (“G”) – a Sentinela - lhe surgiu pela primeira vez. G será uma presença constante na sua vida e constituirá uma valiosa ajuda na resolução de casos. Desta forma a trama intercala a postura de homem de família, bom colega e bom profissional, para subitamente acordar o seu lado mais revoltado e cruel (G). Esta combinação de dor com cenas mais calmas de puro amor familiar e filial aumenta a complexidade da personagem sendo estes retrocessos da acção até à infância dos dois irmãos, descritos de forma pungente. A necessidade de ternura e afecto chegam a ser um pouco exagerados:

O absurdo de acenar aos meus filhos mesmo quando estavam a poucos metros de mim nunca deixou de dar a sensação de ter penetrado num mundo de ternura onde só podem acontecer coisas boas.”

"Ser pai é para mim uma constante surpresa. Provavelmente porque tudo parece passar demasiado depressa."

O assassinato do empresário Coutinho, o tráfico de influências, os abusos de menores (“a crueldade nunca sai de moda”), os dois suicídios, a vida familiar, a cidade de Lisboa como pano de fundo, o Black Canyon no Colorado, os anúncios de publicidade do Jorge, as angústias do protagonista, a homossexualidade, o Om (ॐ), os pequenos poemas Haikus, os dois tiros (na perna e ombro), sucedem-se e o final seria inesperado se se tratasse de um vulgar policial…

As referências encontradas ao longo da obra vão desde a literatura (Philip Roth e “Casei Com Um Comunista”; poemas de Pablo Neruda; Isabel Allende; Dickson Carr; Raymond Chandler; “Queimada” de P.C. Cast + Kristin Cast; o livro “Deaf People in Hitler's Europe”), à música (P.J. Harvey; The Killers; Carlos Gardel; Bing Crosby; The Shirelles; The Chordettes; Andrew’s Sisters e o álbum Lungs de Florence + The Machine, especialmente a canção Dog Days Are Over e o seu primeiro verso: Happiness hit her like a train on a track - a felicidade atingiu-a como se fosse um comboio descontrolado) a figuras da sociedade e do mundo de negócios (com nomes de 4 ministros do actual governo, Mariza, Fernando Gomes, Américo Amorim, Paula Rego, Júlio Almeida, Carlos Botelho, Miguel Relvas e Isaltino Morais).

Para memória futura:

Porque obrigar uma pessoa a escolher entre aqueles que ama é a melhor forma de a destruir.”

“- Portugal… - disse ele, abrindo os braços como se para abraçar o país inteiro – é o país onde as regras não passam de sugestões!”

O nosso sistema de filtragem está gravemente avariado: em vez de rejeitar as pessoas mais corruptas, o aparelho político permite-lhes subir até ao topo.”

segunda-feira, 10 de março de 2014

Angel Olsen – Burn Your Fire For No Witness


Ao segundo álbum, a cantora/compositora de indie folk Angel Olsen é já um caso sério. Ao ouvirmos este disco de natureza melancólica, sem esforço e quase sem darmos conta entramos no mundo de uma perfeccionista cuja música aparentemente simples e transparente, se torna verdadeiramente cativante. E o que aqui podemos ouvir são 11 canções perfeitamente esculpidas, eficazes e de texturas ricas, valorizadas pela infinidade de recursos melódicos e frescura que imprimem.
 
Hi-five / So am I! / All of your life / Stuck inside / I’m stuck too / I’m stuck with you / I do

sábado, 8 de março de 2014

Philip Roth - O Complexo de Portnoy


Aparentemente a ideia de um livro que se baseia unicamente num monólogo, em que o protagonista (Alexander Portnoy) se dirige ao seu psiquiatra (Dr. Spielvogel), relatando um universo neurótico, dificilmente poderia resultar numa história profunda, absorvente e divertida. Mas é disto que se trata nesta obra de um dos meus autores contemporâneos favoritos. Mais uma vez é impressionante o seu nível de maturidade da escrita, o seu grau de lucidez nas leituras da realidade e o traquejo na arte da construção do romance.

No sofá do seu psiquiatra Portnoy divaga sobre a religião, pai, mãe, irmã, cunhado, masturbação, relações, adolescência, vida adulta e Nova Iorque. E fala e fala e não sabemos onde quer chegar, mas não se consegue parar de ler! Não tanto pela curiosidade do que acontece pois a obra não está arquitectada de modo a que o leitor alimente expectativas em relação ao final, mas acima de tudo porque o modo como Philip Roth escreve é altamente viciante.

Assim este romance pouco convencional, publicado em 1969 (em Portugal só em 2010!), constituiu um escândalo na altura pelo seu hiper-sexualismo, que para alguns poderá resultar numa leitura incómoda (para comprovar basta ler o título do segundo e quarto capítulos que não vou aqui reproduzir) mas também pelo forte ataque à cultura judaica (e à cultura familiar), mesmo tendo em conta que o autor também é judeu.

O narrador parte da infância e chega à idade de 33 anos, fazendo no entanto algumas deslocações no tempo na sua narrativa. Num registo que nos remete para um filme de Woody Allen, logo no primeiro parágrafo, Portnoy chama à mãe, que é omnipresente e ainda controla a sua vida, que o alerta para os perigos das raparigas não-judias, e, aqui e ali, aponta-lhe uma faca quando ele não quer comer a refeição, “a figura mais inesquecível que eu já conheci”. Por sua vez, o pai é um homem apagado, que chora muito e sofre de permanente obstipação. Metaforicamente, significa que não consegue atirar a sua merda cá para fora, pelo que a violência exercida sobre o filho cabe por exclusivo à mãe, daqui resultando a neurose narrada.

Portnoy, um génio com um QI de 158, que avançou dois graus na escola primária, advogado de sucesso, apresenta a descoberta da sua sexualidade, por vezes pouco ortodoxa, desenfreada (a única excepção é a Terra Prometida), expondo-a de forma despudorada, embrulhada num humor de levar às lágrimas (no entanto repito que poderá originar incómodo em alguns leitores dada a sua natureza incisiva e a ausência de qualquer receio de ferir por parte do autor).

Ao longo da sua vida Portnoy interessa-se sobretudo por raparigas não-judias mas recusa frontalmente o amor romântico. Nunca se satisfaz sexualmente de forma plena, nem consegue amar ninguém. Entre elas está a Macaca, uma mulher que ele engata à entrada de um táxi, com quem tem bom sexo e chega mesmo a sentir uma empatia que nunca sentira antes. A Macaca é uma espécie de namorada-troféu. Portnoy não toma a aceitação da Macaca em participar num “ménage-à-trois” como um símbolo de intimidade entre o casal. Portnoy deseja as mulheres mas, uma vez consumado o desejo, qualquer movimento delas em sua direcção é tido como uma agressão, como uma confirmação das ameaças maternais. Portnoy, simplesmente, tem demasiada mãe para poder aceitar outra mulher “dentro” dele: “A minha mãe castrou-me.” Apetece plagiar o título do primeiro capítulo e concluir que Portnoy é “A personagem mais inesquecível que eu já conheci”.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Mario Vargas Llosa - Pantaleão e as Visitadoras


Pantaleão e as visitadoras” é um romance divertido, cómico, que se lê por puro prazer, narrado por meio de cartas, memorandos, programas de rádio e relatórios militares cheios de bom humor e de ironia, intercalados com discursos que se cruzam de uma forma no mínimo invulgar, pois Vargas Llosa brinca com os diálogos misturando simultaneamente diferentes conversas. No início, o leitor desprevenido estranha este tipo de escrita que é acompanhada com um sorriso constante nos lábios e por algumas valentes gargalhadas. Aqui, a prostituição, o fanatismo religioso e o funcionamento de grandes instituições, como o Exército, entrelaçam-se para justificar acções levadas ao extremo. No fundo trata-se sobretudo de uma crítica à burocracia e à hipocrisia da máquina militar, à falsa moral de uns e outros, à facilidade com que um pseudo guia religioso arrebanha as massas e ao poder da comunicação social.

Na história apresentada como verídica e passada no final da década de 50, o dedicado capitão do exército peruano Pantaleão Pantoja é chamado a desempenhar uma função original e secreta em Iquitos: criar um corpo de visitadoras (eufemismo para prostitutas) que se desloque aos vários estabelecimentos militares dispersos pelo Peru para prestar os seus serviços, evitando desta forma os abusos e as violações dos militares à população civil e… até aos animais! Pantaleão era a pessoa ideal para realizar tal empreitada: não gostava de sair à noite, não apreciava bebidas alcoólicas, nunca tinha entrado num bordel e era tido como eficiente e organizado.

O SVGPFS – Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteira e Similares – torna-se um sucesso absoluto, o número de visitadoras cresce exponencialmente, e até a Marinha, os oficiais e a população civil solicitam os serviços das visitadoras. Em termos logísticos também se verifica um aumento significativo dos seus meios de transporte (barcos e aviões). Em oposição ao sucesso “profissional”, a vida familiar do capitão complica-se, é abandonado pela mulher e pela filha recém-nascida e apaixona-se por uma visitadora, a belíssima “Brasileira”, a “involuntária semeadora de tragédias”, personagem que será fulcral para o desenvolvimento da história. Relevante será também a infiltração de uma seita religiosa no país, que crucifica de início pequenos animais e depois pessoas.

Acrescento mais alguns pontos de interesse: o radialista corrupto “Sinchi”; os relatórios estatísticos e os questionários criados por Pantaleão; a formalidade dos textos militares; o nome das visitadoras; a Casa de Ferro de Eiffel; a “Eva” e o “Dalila”; o óleo de golfinho e o hino criado pelas visitadoras, com o refrão:

Servir, servir, servir
O Exército da Nação
Servir, servir, servir
Com muita dedicação


Quando um barco que transportava as visitadoras é atacado, os agressores tentam fazer-se passar por elementos da seita religiosa e crucificam a “Brasileira”, morta pelos soldados que tinham sido avisados do ataque. No seu enterro, Pantita discursa e assume a sua condição de militar, até então guardada em segredo, e o escândalo daí resultante leva ao encerramento do serviço, à sua mudança para uma zona fria e ao reencontro com a mulher e a filha.

Acrescento apenas que me desagradou a colossal quantidade de gralhas que detectei nesta edição da Dom Quixote, aceitável no comunicado da ex-visitadora Maclóvia mas pouco desculpáveis nas restantes situações.

"Pantaleão e as visitadoras" foi adaptado ao cinema no Peru em 1999 por Francisco J. Lombardi. Apesar do gozo proporcionado pela sua visualização, o filme perde em autenticidade, facto previsível dada a dificuldade natural de transpor para o cinema a escrita única de Llosa. As principais diferenças detectadas foram: a acção decorre no final da década de 90, com telemóveis e computadores; não aparecem certas personagens como a Dona Leonor ou o China; não há qualquer referência à seita religiosa ou ao hino das visitadoras; a criação de um uniforme para as visitadoras; a “Brasileira” passa a “Colombiana”; a filha Gladys agora chama-se Marina e, talvez mais importante, o filme centra-se na relação entre Pantoja e a “Colombiana”.

sábado, 1 de março de 2014

Money - The Shadow Of Heaven


Eis o disco que ainda não me cansei de ouvir nos últimos tempos, a fazer lembrar os bons velhos tempos, pré-mp3 e mesmo pré-CD, em que se descobria um bom álbum e passavam-se semanas e mesmo meses a ouvi-lo de forma consecutiva, muitas vezes gravado nas “extintas” cassetes de áudio para não deteriorar o vinil original. Assim aconteceu por exemplo com “The Queen Is Dead” dos Smiths; “Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me” dos Cure; o álbum de estreia dos Stone Roses; o “Nevermind” dos Nirvana e “Different Class” dos Pulp, entre muitos outros.

Neste disco de estreia, os Money, oriundos de Manchester, apresentam um conjunto de canções intrigante mas muito convincente que dão à sua música um carácter quase religioso, desconcertante e de uma tristeza intensa, fazendo lembrar os caminhos trilhados por Joy Division, The Cure ou Nick Cave no passado, ou mais recentemente, os Arcade Fire.

Embora por vezes escape para explorações mais livres, a predominância de ambientes sonoros guiados por rifes de guitarra melódicos e pela voz misteriosa do vocalista Jamie Lee, eleva a dimensão épica de cada uma das canções do disco.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Antonio Garrido - O Leitor de Cadáveres


Com uma capa e tema cativantes, este “O Leitor de Cadáveres” está muito bem arquitectado, com uma excelente pesquisa histórica onde se mistura ficção e realidade proporcionando um retrato duro e cruel da china imperial.

É uma espécie de policial histórico, cheio de ritmo, suspense e emoções, com mistério, intriga, crimes para solucionar e muitas reviravoltas. Baseia-se numa personagem histórica real do século XII, Song Cí, de origem chinesa, considerado o primeiro médico legista da História, que publicou o primeiro tratado da ciência forense de que há memória.

Na primeira parte do livro, Cí, de 20 anos, é apresentado como um rapaz humilde, lutador, culto e inteligente que é confrontado com uma série de adversidades indissociáveis da época: a morte das suas duas irmãs mais novas; a condenação à morte do seu irmão Lu e consequente execução; a morte dos pais após uma explosão na sua habitação; a excomunhão da sua aldeia e o título de fugitivo; vítima de assalto e envenenamento por uma flor – Aroma de Pêssego – ficando sem o barco que estava à sua responsabilidade e sem a sua irmã; pobreza extrema vivida com a irmã quando chegou à cidade de Lin’an; participação no mortal “desafio do dragão” pela segunda vez na sua vida; assunção de que o seu pai foi condenado por corrupção (e por isso não pode obter o seu Certificado de Habilitações); a morte trágica da irmã Terceira; problemas com o seu colega de quarto Astúcia Cinzenta na academia Ming e o cruzamento com o adivinho Xu, vigarista cruel, numa cidade onde abundam os “vadios, mendigos, assassinos, fura-vidas, bonecreiros e charlatães.”

Na segunda parte, Cí é-nos apresentado como "O Leitor de Cadáveres", onde se destaca a sua obsessão pelos estudos, pela busca do conhecimento, uma vontade constante de aprender e, acima de tudo, o desejo de inovar na sua “arte”, de criar métodos e técnicas que marcaram os primeiros passos numa ciência preponderante na actualidade. Destaco a forma como soluciona um assassinato à frente do mestre Ming, envergonhando o seu melhor aluno (Astúcia Cinzenta), o ingresso na academia Ming e a posterior chegada ao palácio Imperial, a convite do próprio Imperador! E mais não conto… Apenas acrescento que, na minha opinião, existe uma pequena falha: o autor termina o texto sem fazer qualquer alusão ao destino de Astúcia Cinzenta.

Algumas curiosidades: a doença de Cí; os costumes da época (como o luto de três anos pela morte de um dos pais e o consequente abandono da vida pública) por vezes difíceis de aceitar; a referência à vida sexual desta época com termos como o “talo de jade” e a “caverna do prazer”, incluindo abertamente o tema da homossexualidade; a punição de qualquer falha com pesados castigos físicos; a referência à primeira arma de fogo (handgun) e o nome das personagens (Lu, Terceira, Cereja, Shang, Aroma de Pêssego, Feng, Kao, Bo, Bao Pao, Senhor do Arroz, Coração Suave, Astúcia Cinzenta, Suave Golfinho, Mestre Ming, Ningzong, Xu e a nushi Íris Azul), que é justificado na Nota de Autor que consta no final da obra, onde também disserta sobre o que é um romance histórico. O livro termina com um pequeno glossário e uma resenha biográfica do “verdadeiro” Song Cí.

Antonio Garrido através de uma leitura simples leva-nos a tentar compreender como as pessoas viviam nessa época, como se comportavam, como se vestiam, o que comiam, recheando assim a narrativa com dados que trazem realismo à acção. Consegue prender o leitor com tanta força que é difícil largar o livro antes de chegar a ultima página, o que facilitou a leitura compulsiva destas 500 páginas em 5 dias, sempre com os sentidos pregados ao livro. Fascinante!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ricardo Adolfo – Mizé - Antes Galdéria do que Normal e Remediada


E se de repente a sua esposa, com quem está casado há quatro anos, aparecesse a protagonizar um filme porno que alugou no clube de vídeo do seu bairro para ver em conjunto com os seus melhores amigos? Este é o tema desta obra de Ricardo Afonso, agradável e divertida, mas sem grandes pretensões literárias.

Mizé é uma mulher com uma insatisfação material gigantesca e para quem as pessoas “dividem-se entre aquelas que faziam pela vida e as outras que deixavam que a vida fizesse por elas” e que antes de casar “deixou óptimas recordações em vários bancos de trás” (aliás foi nesse local que lhe foi feito o pedido de casamento após uma sessão de sexo). Enquanto não concretiza o seu sonho de ser uma famosa vedeta internacional (e de aumentar o tamanho das suas mamas), torna-se cabeleireira e casa-se com Palha, um ingénuo vendedor de batatas fritas que sonhava ter a mulher mais atraente do mundo. Quando Palha descobre o tal filme porno, no livro designado por “filme de putas”, parte numa busca ao mundo da pornografia para saber toda a verdade obscura do passado da sua mulher. Cheio de dúvidas e com problemas no emprego e no seu grupo de amigos, Palha vê lentamente a vida que conhecia desmoronar-se.

Apesar do prazer obtido com a leitura muito bem escrita desta sátira à classe baixa portuguesa, e da excelente capa da fotógrafa Ellen von Unwerth (que me fez recordar a capa do álbum de 1998 dos Pulp – “This is Hardcore”), não apreciei particularmente algumas incoerências gramaticais e o calão excessivo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


Agora que o Dexter se reformou, o Brody foi enforcado pelos iranianos e os zombies e a fantasia de Westeros foram de férias, estou a seguir três novas séries que já me conquistaram: Under The Dome, Suits e The Following.

Under The Dome” reúne ficção científica e mistério, é baseada no livro homónimo do mestre Stephen King, recentemente editado em Portugal. A série acompanha a história dos habitantes da pequena cidade de Chester's Mill, no estado do Maine, que inexplicavelmente se vê sob uma cúpula enorme e transparente, mantendo a população separada do resto do planeta. O terror vivido nesta povoação isolada do mundo inclui mortes macabras servidas a sangue frio e fenómenos inexplicáveis. Mike Vogel, Rachel Lefevre e Dean Norris (conhecido de Breaking Bad), são os actores que mais se destacam.

Suits” acompanha dois jovens advogados que resolvem vários casos jurídicos com algum humor sarcástico. Harvey Specter (Gabriel Macht) é o advogado de sucesso (best closer de Nova Iorque), arrogante, ambicioso, mentiroso, astuto e insensível; Mike Ross (Patrick J. Adams) é o jovem contratado no primeiro episódio (de forma hilariante), genial, esforçado e com memória fotográfica. Estas personalidades distintas dão força à trama, que se desenvolve em torno de intrigantes casos jurídicos. Duas curiosidades: o nome da série deve-se ao facto de Specter considerar que a comunicação interpessoal varia consoante a forma como estamos vestidos e… Ross não tem qualquer licenciatura em Direito.

The Following” é um thriller policial com muito suspense que se baseia na complexa relação entre o serial killer maquiavélico Joe Carroll (James Purefoy) e o ex-agente do FBI Ryan Hardy (o sempre espectacular Kevin Bacon). Carroll inspira-se nas obras de Edgar Allan Poe (o que me obrigou a reler os seus Contos Completos) e parece ter aprendido com Michael Scofield a arte da fuga de prisões e Hardy é chamado para o tentar encontrar, pois conhece-o melhor que ninguém, tanto a nível psicológico como intelectual. Harry tinha-se reformado após capturar Carroll, por ter assassinado 14 alunas na universidade onde ensinava literatura. O problema é que após a fuga de Carroll, Hardy compreende que não está só à procura de um fugitivo mas de um culto maciço de serial killers criados e manipulados pelo assassino durante a sua estadia na prisão, criando assim uma legião de seguidores.




sábado, 28 de dezembro de 2013

As Minhas Melhores Leituras de 2013


1. Afonso Cruz - Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas
2. Haruki Murakami - O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo
3. Hilary Mantel - O Livro Negro
4. Carlos Ruiz Zafón - Marina
5. Gillian Flynn - Em Parte Incerta
6. Timur Vermes - Ele Está de Volta
7. Mario Vargas Llosa - O Herói Discreto
8. David Foster Wallace - Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer
9. Joel Dicker - A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert
10. Sam Savage - Firmin
11. Jø Nesbo - O Boneco de Neve
12. Agatha Christie - Autobiografia

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Os Melhores Discos do Ano 2013


 

Mais uma vez tentei organizar de forma hierárquica a música que mais ouvi nos últimos doze meses. Prática hedonista mas ausente de objectividade. Ouvi essencialmente bandas já minhas conhecidas, que editaram bons discos em 2013, em vários casos repetindo excessivamente a sua fórmula de sucesso (Suede, Placebo, Tindersticks, The Strokes). 


1. Arcade Fire - Reflektor
2. Arctic Monkeys - AM
3. Savages - Silence Yourself
4. The National - Trouble Will Find Me
5. Julie Holter - Loud City Song
6. Daughter - If You Leave
7. Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City
8. David Bowie - The Next Day
9. Kanye West - Yeezus
10. Nick Cave & The Bad Seeds - Push The Sky Away

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

The Story of a Film - An Odissey – Mark Cousins


Acabei de ver um documentário riquíssimo sobre a designada sétima arte, editado muito recentemente em Portugal (o pack é constituído por 5 DVD e custou 29,90€). Perdi 15 horas mas fiquei deliciado e seguramente que o irei rever várias vezes. Está dividido em 15 capítulos de cerca de uma hora cada e foi realizado e narrado por Mark Cousins, um crítico de cinema da Irlanda do Norte.

Recomendo vivamente a todos os amantes de cinema. Trata-se de uma obra-prima, aborda os cerca de 120 anos da história do cinema e, pasme-se, evoca mais de 1000 filmes ao longo das tais 15 horas! Um autêntico curso de cinema. Cinema mudo, Hollywood, Bombaim, Nouvelle Vague, neo-realismo europeu, blockbusters americanos, etc. Há espaço para todas as temáticas cinéfilas. Deslumbrante.

Disco 1
1 - O Nascimento do Cinema (1895-1920)
2 - O Sonho de Hollywood (Anos 20)
3 - Expressionismo, Impressionismo, Surrealismo (Anos 20)

Disco 2
4 - O Aparecimento do Som (Anos 30)
5 - Cinema do Pós-Guerra (Anos 40)
6 - Sexo e Melodrama (Anos 50)

Disco 3
7 - Nova Vaga Europeia (Anos 60)
8 - Novos Realizadores, Novas Formas (Anos 60)
9 - Cinema Americano dos Anos 70

Disco 4
10 - Filmes para Mudar o Mundo (Anos 70)
11 - O Aparecimento dos Multiplex e o Mainstream Asiático (Anos 70)
12 - Luta Contra o Poder: o Protesto no Cinema (Anos 80)

Disco 5
13 - Novas Fronteiras: Cinema do Mundo na África, Ásia e América Latina (Anos 90)
14 - Independentes Americanos e Revolução Digital (Anos 90)
15 - O Cinema Hoje e o Futuro (Anos 2000)


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

5 Dias, 5 Livros


Acabei de ler cinco livros em cinco dias. São livros com pouco mais de 100 páginas cada, com histórias simples mas escritas com mestria pelos seus autores.

Mário de Carvalho – A Liberdade de Pátio
Sete contos com a escrita ímpar de Mário de Carvalho que revelam a sua imaginação exuberante. Gostei especialmente de duas histórias: a da internacionalização de uma das maravilhas culinárias de Portugal (green broth ou à inglesa “col-dou vâ-de” ou ainda “cawdoe vehdi”) e a dos quatro professores reformados que o destino uniu num jardim municipal e depois decidem aliar as suas bibliotecas.

Miguel Torga – Os Novos Contos da Montanha
Compilação de vinte e dois contos gerados e desenvolvidos na Montanha, lugar materialmente pobre, mas eticamente rico com um quotidiano onde sobressai a fome, a ignorância e o desespero. Destaco os contos “O Alma Grande”, “Fronteira”, “O Artilheiro” e “O Leproso”.

Miguel Sousa Tavares – No Teu Deserto
Livro simples, sobre saudade, nostalgia e amizade de duas pessoas que se conheceram e conviveram apenas durante uma curta viagem por terras de África. É uma história de amor, de um amor que não chegou a ser vivido, e que nos faz reflectir sobre a importância que as pessoas têm nas nossas vidas.

Anton Tchekhov – A Minha Mulher
Obra com três contos narrados de forma exemplar. “A Minha Mulher” é uma lição de vida, aborda um casamento fracassado, as suas causas e efeitos, num ambiente de fome extrema. “Um Caso Médico” está relacionado com a herdeira de uma fortuna que adoece no ambiente onde vive e “O Monge Negro”, onde um professor universitário ao mudar de ares para uma casa de campo, aviva a lenda de um monge negro.

Sérgio Cunha – Queridas Mulheres
Agora todos os homens já têm à sua disposição um Manual de Instruções da Mulher, apresentado de forma animada e galhofeira. Também inclui algumas dicas no sentido contrário, para as mulheres melhor compreenderem o sexo oposto bem como é dado um especial destaque ao desporto rei do nosso país. Hilariante.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Videoclip do Ano



O videoclip mais espectacular do ano é de um tema considerado o melhor de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone: “Like A Rolling Stone” de Bob Dylan. Apesar de ter sido lançado em 1965, foi este ano que a israelita Vania Heymann realizou um filme interactivo inovador, durante o qual podemos fazer zapping em 16 canais diferentes de televisão e em todos ouvimos os intervenientes a cantar o tema. Vão ver que vale a pena carregar AQUI e experimentar o zapping. É fabuloso!!!


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Três lisboetas e um tripeiro


Diz o 1º lisboeta:

- Eu tenho muito dinheiro. Vou comprar o BPI!

Diz o 2º lisboeta:
 
- Eu sou um magnata. Vou comprar todos os supermercados Continente e Pingo Doce!

Diz o 3º lisboeta:

- Eu sou ainda mais rico... vou comprar a Google!

O tripeiro dá uma baforada no cigarrito, engole a saliva... faz uma pausa... cospe no chão e diz:

- Num Bendo!...

domingo, 1 de dezembro de 2013

José Eduardo Agualusa - Milagrário Pessoal


A leitura deste livro constituiu uma agradável surpresa e recomendo vivamente a sua leitura, principalmente para os amantes da língua portuguesa, da história das palavras, dos neologismos, das suas profundas mutações nos deslocamentos geográficos. Aqui, o enredo são os vocábulos fascinantes da nossa língua e toda a mestiçagem cultural envolvente pois Agualusa oferece ao leitor uma polifonia multicultural de vozes. A título de exemplo leia-se na página 51 (reproduzida na imagem seguinte) as palavras raras utilizadas para efetuar uma referência às profissionais do sexo, começando logo pelas “messalinas”… Outras curiosidades encantadoras: a “língua dos pássaros”; a referência à correspondência de Camilo Castelo Branco; a bela cidade de Olinda (Pernambuco); o significado do título da obra; dezenas de palavras “esquecidas” como lupanar, solipso, onanismo, haicai, tabuísmo, prosódia e o concurso das 10 palavras preferidas. Também fiquei a saber que o poeta francês Saint-Pol-Roux colocava à entrada da porta do seu quarto: “Silêncio, poeta em trabalho”.

Claro que também encontramos uma história de amor com dois intervenientes improváveis (sendo por isso um pouco forçada, evidentemente): Lara, uma jovem estudante e ex-modelo, catalogadora de neologismos e um octogenário anarquista angolano. Quando o ancião se apaixona imagina situações e cenas que gostaria de partilhar com Lara:

Penso em todos os lugares que gostaria de visitar contigo. No que gostaria de fazer contigo – e não farei nunca:
• Ler-te alto as Ficções, de Borges.
• Rir, enquanto nadássemos entre golfinhos, no mar sem maldade de Fernando de Noronha.
• Dormir no deserto.
• Cozinhar-te um bom muzonguê, seguindo a receita que me deixou a minha mãe.
• Ensinar-te as palavras mais meigas da língua umbundo (língua mais meiga do mundo).
• Ensinar-te a flutuar no mar liso do Mussulo (Ilhéu dos Padres).
• Ensinar-te a dançar tango.
• Ouvir-te discorrer sobre a arte de caminhar dos manequins.
• Fotografar-te nua.
• Beijar os teus lábios depois de comermos juntos sorvetes de pitanga.
• Ver contigo Deus e o diabo na terra do sol, do Glauber Rocha. Aliás, ver contigo a filmografia completa do Glauber Rocha.
• Desenhar, e depois construir, a casa perfeita.
• Voar num balão sobre montanhas de Huíla e o deserto do Namibe.
• Passear de mãos dadas, no Parque Guell, em Barcelona.
• Etc., etc, tantas são as coisas que não faremos nunca
”.

E mais não adianto. Leiam o livro que vale o tempo despendido…

Para memória futura:
- “as mulheres muito bonitas desorganizam os sistemas sociais” (página 17);

- “a velhice não nos torna imunes à beleza, longe disso, o que nos impõem é certo apaziguamento” (página 18);

- “o espelho de um intelectual é a sua audiência. Uma sala cheia de alunos transforma-se, para um intelectual vaidoso, num magnífico salão de espelhos” (página 20)

Facing the sea, man is closer to God

terça-feira, 5 de novembro de 2013

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Valter Hugo Mãe – Filho de Mil Homens

 


Depois de magníficos livros como "A Máquina de Fazer Espanhóis" e, principalmente, "O Remorso de Baltazar Serapião", as expectativas eram altas para este livro de Valter Hugo Mãe (VHM). Anunciava-se o regresso às maiúsculas e o assumir de uma perspetiva mais positiva e uma escrita mais suave. Desde logo, anunciava-se o abandono de uma linha pessoal que VHM ia seguindo nas suas obras anteriores. Esse abandono de um estilo bem pessoal não me agradou mas devo dizer antes de mais nada que estamos perante um bom livro. A leitura é agradável, a escrita poética dá uma certa musicalidade ao livro e a sensibilidade do autor está sempre “à tona da água”.

Conta-se a história de um homem que, como o autor, cruza os quarenta anos de idade e questiona o sentido da sua existência, decidindo-se pela procura de algo que o complete: uma mulher e um filho. Crisóstomo, pescador, era metade. Fez 40 anos e sentiu-se só. Procurou um filho e encontrou-o: Camilo, catorze anos. Encontrou uma mulher e sorriu: Isaura (o nome mais belo que existe). Sorriu. Uma anã sem nome era infeliz. Só. Mas 15 homens, quase todos os que havia na aldeia a visitavam. E da doença e da solidão nasceu um filho. A mãe, anã, completou-se e morreu. Isaura com 16 anos cedeu ao amor carnal e começou a morrer. Conheceu um maricas e casou. Mais tarde o maricas será chamado pelo seu nome (Antonino); antes disso foi sempre renegado porque maricas não é ser gente. Um dia o maricas foge e Isaura descobre que o amor é esperar. Chora. Camilo, o filho da anã, é adotado pelo velho Alfredo. Alfredo morrerá e Camilo herda a solidão. Para Isaura “ser o que se pode é a felicidade”. Assim foi até conhecer Crisóstomo e Camilo, entretanto adotado pelo homem que fez 40 anos. Todas as metades se completaram e o maricas voltou. Antonino é acolhido pela nova família: Isaura, Crisóstomo e Camilo. A união entre os pobres, solitários deserdados da vida. Ainda havia tempo para que todos sorrissem.

Como se vê a mensagem é bonita, o enredo é interessante mas falta aqui (na minha opinião, é claro) Valter Hugo Mãe. Falta o cunho pessoal, o estilo “tsunami” a que VHM nos vinha habituando.
A solidão foi derrotada, assim como o preconceito, esse monstro devorador da vida, do qual nasce a solidão. Independentemente da qualidade inegável da obra, a palavra chave que me assoma à mente é esta: cedência.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sam Savage - Firmin




Este livro deveria ser lido atentamente por todos aqueles que não compreendem a paixão pelos livros.

Terminada a leitura, não posso deixar de admitir que, se fosse um rato como Firmin, teria devorado literalmente o livro depois de o ter “devorado” em poucas horas. Trata-se de uma fábula magnífica.

Firmin, o rato, é o mais novo de uma ninhada de treze filhos de uma ratazana bêbada. Fraco, por falta de teta disponível, é o renegado da vida.

Vítima de “biblobulimia”, Firmin alimenta-se de livros: ele lê, come e vive os livros, de todos os géneros (ao todo são referidas largas dezenas de títulos ao longo de todo o livro). Aliás, o seu lema é: “bom para comer, bom para ler”.

Vivendo numa livraria de bairro, ele observa as pessoas e vai aprendendo a viver com elas. A livraria Pembroke Books de Norman Shine (na primeira parte do livro) e a casa de Jerry Magoon (na segunda parte) são o seu refúgio – o mundo lá fora é horrível e decadente. Os livros e o sonho comandam a sua vida.

No entanto, Firmin, o devorador de livros, não consegue comunicar com os humanos, essa espécie incompreensível e egoísta. Jerry, o homem que queria consertar o mundo, escritor modesto e vagabundo no destino, é o único que o compreende, o seu único amigo. Jerry é pobre e desprezado mas é feliz.

Firmin, o rato, carrega consigo a solidão. Mas graças ao afecto (ou amizade, ou amor, tanto faz) por Jerry e pelos livros, essa solidão não deixou nunca de ser apenas uma palavra que apenas vagueou com ele pela vida. Firmin teve a coragem suficiente para vencer o medo e procurar o sonho. Foi um rato renegado mas feliz.

Um livro fantástico; uma fábula inesquecível.

Aconselho vivamente a audição, em simultâneo, da banda sonora citada na obra (com temas, por exemplo, de Cole Porter e George Gershwin) e que permitirá recriar, na perfeição, a Boston perdida de Firmin e de Sam Savage.

terça-feira, 23 de abril de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

Gabriel García Márquez – Memória das Minhas Putas Tristes


Li numa tarde as 107 páginas deste romance que nos faz ter esperança que podemos amar alguém mesmo na velhice. O título poderá ter surpreendido e mesmo afastado muitos leitores desprevenidos desta história de amor sublime, de um ancião reformado que ao completar noventa anos, decide dar um presente a si mesmo: uma noite de amor com uma virgem.

Durante a sua vida, habituara-se à solidão e ao sexo com prostitutas: “Até aos 50 anos eram 514 mulheres com quem tinha estado pelo menos uma vez” – página 18, na imagem seguinte. Nunca amara, o relacionamento mais longo, puramente sexual, fora com uma empregada que, no auge da decrepitude, ainda limpava a sua casa. Pois este homem, conhecido como sábio, professor, há décadas fora noivo de uma mulher bem mais jovem, a quem deixou no altar no dia do casamento e, por isso, mais tarde fugiria com outro homem. Em dado momento, ele diz que o sexo o impedira de amar (“As putas não me deixaram tempo para ser casado”).

E mais não conto, leiam o livro. Ou vejam o filme de 2011, realizado por Henning Carlsen, que é uma reprodução bastante fiel do livro, em que se mantém a forma delicada de descrever esta história muito bem construída.


domingo, 30 de dezembro de 2012

As Minhas Melhores Leituras de 2012


1. David Foster Wallace - A Piada Infinita
2. Henning Mankell - Um Homem Inquieto
3. Paul Auster - O Livro das Ilusões
4. David Grossman - Até Ao Fim Da Terra
5. Roberto Bolaño - Os Detectives Selvagens
6. Valter Hugo Mãe - A Máquina de Fazer Espanhóis
7. Carlos Ruiz Zafón - O Prisioneiro do Céu
8. Julian Barnes - O Sentido do Fim
9. Haruki Murakami - 1Q84 – 1, 2, 3
10. Marcello Simoni - O Mercador de Livros Malditos
11. Ian McEwan - Mel
12. Camilla Lackberg - Teia de Cinzas

domingo, 16 de dezembro de 2012

Julian Barnes - O Sentido do Fim


Começo por confessar que achei a capa deste livro e toda a edição absolutamente deslumbrante. Julian Barnes, na sua escrita acessível e delicada mas prodigiosa e absorvente, começa por apresentar de forma sucinta a vida da personagem principal Anthony Webster, invocando recordações da sua juventude nos anos sessenta e as suas implicações nos amores e na amizade. Alex e Colin eram os seus melhores amigos na escola. Com a chegada preponderante de Adrian Finn, um rapaz tímido, mas mais sério e extremamente inteligente, o trio inseparável transforma-se num quarteto, que jura manter para sempre o laço que os une. Com ânsia de livros e de sexo, estes rapazes acreditavam que as suas vidas ainda estavam a começar, sem se aperceberem que o seu futuro já estava a ser determinado. Enfim, o excesso hormonal da primeira juventude.

No final do liceu, os quatro amigos seguem rumos diferentes na sua vida mas continuam a trocar correspondência, especialmente com Adrian. Tony começa a namorar com Veronica Ford (mulher misteriosa), por quem se apaixona, mas a relação não duraria muito tempo devido a alguma frustração sexual e aos obstáculos impostos pela família de Veronica. Posteriormente, recebe uma carta do amigo Adrian a solicitar autorização para sair com Veronica. Inicialmente, Tony decide fingir que não se importa mas acaba por enviar uma resposta que levou ao fim da sua amizade com Adrian e acaba por ter mais impacto do que ele poderia imaginar.

Passam quarenta anos. Tony tem um casamento falhado com Margaret (mulher transparente), uma filha com quem mantém um relacionamento distante apesar de a amar e prestes a dar-lhe um neto e claro, está na idade da reforma. Quando está a viver uma solidão tranquila, recebe uma carta relativa à herança deixada pela mãe de Veronica, Sarah, que acabara de falecer. Estranhamente, ela deixou-lhe como herança uma pequena quantia em dinheiro e o diário de Adrian (que tinha cometido suicídio na flor da idade). Esta missiva vai-lhe despertar o passado, os conflitos e sentimentos antigos, de modo que a sua perspectiva daquele passado é completamente alterada. Nesta altura, o narrador, imobilizado por uma memória que o consome, sabe que já viveu mais do que o que tem para viver e questiona se não terá deixado a vida passar calmamente por ele enquanto assistia, acomodado, aos seus dias todos iguais. E a história termina em beleza, com um final surpreendente e arrepiante, mesmo ao cair do pano...

O Sentido do Fim” está recheado de questões filosóficas, de segredos dolorosos e é uma notável reflexão sobre a vida, o envelhecimento, a memória e o remorso. As decisões que tomamos e as suas implicações, relembrando-nos a nossa imperfeição e egoísmo. A necessidade de reviver o passado para compreender o presente. Brilhante!

Para aguçar a curiosidade deixo algumas frases e ideias interessantes que me fizeram reflectir e sorrir, nesta obra de 152 páginas, que li em pouco mais de 24 horas:

A História é essa certeza que se produz no ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação”;

A História é a mentira dos vencedores… mas é também a ilusão dos vencidos”;

O casamento é uma refeição longa e sem sabor com o pudim servido como entrada”;

Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos inventamos passados diferentes para os outros.”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Playlist – Dezembro


1 – Bat For LashesLaura
2 – António ZambujoFlagrante
3 – Alt-JBreezeblocks
4 – Peter BroderickA Tribute To Our Letter Writing Days
5 – GrimesOblivion
6 – BurnsLies
7 – Yo La TengoBefore We Run
8 – SavagesHusbands
9 – Palma VioletsBest Of Friends
10 - Jack WhiteFreedom At 21

domingo, 9 de dezembro de 2012

Francisco Moita Flores – O Bairro da Estrela Polar


Policial à portuguesa, com textos simples, por vezes cómicos, com nomes e linguagem típicos de uma classe social baixa (muito exagerados) e com alguns personagens bem elaborados, constitui um autêntico Manual dos Janados e do Gamanço.

O autor proporciona uma visão do mundo do crime dada por prevaricadores da pior espécie, liderados por uma adolescente (Diana), levando os leitores a colocarem-se do seu lado e não dos tradicionais bons da fita (os polícias). Inevitável a recordação de Teresa Mendoza, protagonista do romance de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul.

De uma forma geral, a leitura é agradável mas por vezes o enredo chega a tornar-se enfadonho e sem grande suspense. Imperam os lugares-comuns e a previsibilidade. O desfecho da história desiludiu-me…

De lamentar a deteção de mais de uma dezena de gralhas e erros gramaticais. Exemplificando: na página 51, podemos ler “My Chermical Romance” e na página 251, “Ainda Bataman não acabara a frase…” referindo-se ao personagem Batman. Além disso, não consigo perceber como é que na sinopse do livro, que se encontra na contracapa, se faz referência a um personagem que não consta do livro, o “Paulo”, enquanto não elenca um dos principais, o Necas. Será que este é mais um daqueles livros que apenas conseguiu sair do prelo graças à celebridade do seu autor?

Na imagem seguinte pode ler-se um excerto contendo a experiência traumatizante do Bazófias na cadeia de Vale de Judeus.

Após a leitura do livro, aproveitei para visualizar a adaptação do livro ao grande ecrã. Algumas diferenças saltam à vista: a Diana (Maria João Bastos) tem um filho, matou o Dragão, envolve-se com o inspector Augusto (Paulo Pires), o que provoca a sua demissão e suicídio. Os golpes são diferentes, não se roubam 12 Mercedes, um cão chamado Caruso, uma mota avariada e obras de arte. Roubam uma igreja e cinco milhões de euros de um camião. O Batman, a Manuela e a própria Diana têm um destino diferente e surgem novos personagens: Alcabideche, Piaçaba, Lurdes e o seu marido paraquedista (Rui Unas).

Trata-se de um filme de qualidade mediana, com enfâse na ação, cenas rápidas com bastante ritmo, sem grandes diálogos, hip-hop q.b. e algumas personagens consistentes. Para o pequeno ecrã foi criada uma série com 14 episódios disponíveis na TVI Player.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Babies


Este filme-documentário apresenta quatro bebés do mundo, desde o nascimento até ao primeiro ano de vida. O início da vida das crianças é apresentado nos seus países e culturas de origem - Mongólia, Namíbia, Estados Unidos (São Francisco) e Japão (Tóquio).

Quase não possui falas e não tem uma história bem definida. Apenas a observação cronológica e a evolução e descoberta dos bebés no seu primeiro ano de vida, quando ainda estão todos na fase oral.

Desta forma, somos confrontados com um bebé japonês, todo High-Tech, transportado num carrinho da marca MacLaren, com um bebé norte-americano, que necessitou de passar pela neonatologia, com um bebé africano onde abundam moscas, sujidade e, claro está, muita pobreza e, finalmente, um bebé nascido na Mongólia, onde na ausência de uma babycock, o bebé é bem atado e transportado numa mota com mais três passageiros.

Ao longo dos 80 minutos do documentário assistimos a quatro formas diferentes dos bebés tomarem banho, passear, brincar ou comer. São momentos em que aparentemente nada acontece, mas que possuem a síntese e a beleza da vida.

Quem não se derrete com crianças, dificilmente terá paciência para chegar ao fim do filme. Quem fizer parte do grupo de pessoas que gosta de observar bebés, adorará assistir a este filme.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Hyatt Bass – Centelhas



"The Embers", no seu título original (As Cinzas), primeiro romance de Hyatt Bass, aparece-nos nesta edição da Civilização Editora sob o título de "Centelhas". Esta diferença pode apelar para diferentes interpretações do livro; na verdade, o drama da família Ascher pode ser visto, como tudo na vida, sob dois prismas diversos: o catastrofista, que parece emanar do título original e o otimista que pode ser lido a partir da interpretação do título português. Um drama tão profundo como o que se narra no livro não deixa de envolver centelhas de vida, brilhos momentâneos que emergem das cinzas de vidas desfeitas. Trata-se de um livro interessantíssimo sobre coisas invulgares que acontecem em todas as famílias vulgares.

Os Ascher eram uma família feliz da classe média/alta norte-americana; Joe é dramaturgo, numa carreira com altos e baixos onde os picos não compensavam os vales mas que lhe permitiam uma vida desafogada; Laura é atriz e mãe de família dedicada; Emily é uma adolescente rebelde que vive de forma intensa os dramas familiares; mas o mundo dos Archers desaba quando Thomas morre com apenas dezassete anos.

No entanto, a morte do jovem não é o único drama. Tudo se desenrola como se este acontecimento trágico trouxesse à superfície outros dramas, entretanto calados, escondidos sob a capa vulgar de um quotidiano apressado e muitas vezes fútil.

Neste ambiente sobressai a apurada capacidade de Bass para pintar um quadro perfeito do perfil psicológico dos personagens. Na minha opinião de leitor destaca-se a figura de Joe, o chefe de família.

Joe é um homem amargurado, pelo remorso, pela culpa que o avassala no que respeita à morte de Thomas mas, ainda mais, pela sua personalidade egocêntrica e muitas vezes demasiado atenta à futilidade e ao materialismo. O drama de Joe é este: eu conheço os meus defeitos e limitações, no entanto não consigo ultrapassá-los e, pior ainda, gosto de ser assim. Dessa forma, a mente conturbada de Joe navega entre o que é, o que foi e o que gostava de ter sido.

Numa leitura mais apressada, este livro pode ser lido como um panfleto dos valores familiares tradicionais; mas é muito mais que isso: o livro problematiza e põe em causa toda a natureza das relações que estabelecemos com os outros e a dificuldade em coordenar a procura da felicidade com a necessidade de valorizar os que nos rodeiam.

O estilo é simples, direto, sem subterfúgios nem figuras de estilo desnecessárias, pelo que se lê com agrado e a bom ritmo. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Curtinha...

Mulher Para O Marido:


Mulher - Estamos casados há mais de 20 anos e nem uma jóia me compraste.

Marido - Sabia lá que vendias dessas merdas...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Li o livro, vi o filme



Recentemente li três livros que serviram de base à realização de outros tantos filmes. Na minha opinião resultaram em boas adaptações ao cinema. E desta vez optei por em primeiro lugar ler o livro e depois ver o filme. Já tenho feito o contrário. Ainda não tenho a certeza sobre qual a melhor metodologia a seguir. Continuo a pensar que depende…

Em relação a Painted Veil (O Véu Pintado), de Somerset Maugham, com os excelentes Edward Norton e Naomi Watts, detectei várias diferenças: no livro a acção passa-se em Hong Kong e no filme em Xangai; no filme há uma perseguição pelos nacionalistas chineses e existe uma relação mais próxima do casal, que tem um filho de 5 anos chamado Walter; a frase “foi o cão que morreu”, essencial no livro, desaparece no filme e, finalmente, na parte final do filme, o regresso a Charles Townsend é ignorado, ou seja, é eliminada a sensação de promiscuidade e arrependimento sentida no livro. Emocionante mesmo e a não perder é a parte final do filme com um excerto de “A La Claire Fontaine”, canção tradicional francesa.

Já a adaptação de Jane Eyre, de Charlotte Bronte, realizada por Cary Fukunaga e com Mia Wasikowska (belíssima), Michael Fassbender e Judi Dench mantém-se um pouco mais fiel à obra em que se baseia mas apresenta algumas diferenças: é Mrs. Fairfax quem revela onde se encontra Rochester após o incêndio, este não perde a mão no incêndio e não é reconhecida a relação familiar entre Jane Eyre e os 3 primos.

A terceira obra, Bel-Ami, de Guy de Maupassant, original de 1885, regressou ao cinema este ano e também conta com actores de peso: Robert “Twilight” Pattinson, Uma Thurman (que parece cada vez mais bela) e Kristin Scott Thomas. Aqui procurou-se seguir com rigor a obra original, apesar da troca do nome Walter por Rousset e do casal Walter ter uma e não duas filhas, e baseia-se na personagem de George Duroy, jovem sedutor e ambicioso que percorre os bares de Paris, na década de 1890, utilizando o seu charme para conquistar mulheres da alta sociedade e melhorar a sua situação social.

Em jeito de conclusão, adorei a leitura dos três clássicos, tal como a visualização dos filmes a que deram origem. Na minha opinião quem quer detalhes, deve procurar os livros pois é impossível os filmes oferecê-los em cerca de duas horas…

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Olá amiguinhos do papá,

Apesar de só estar previsto nascer em 24 de Agosto, não aguentei a ansiedade para conhecer os meus papás babados e cheguei no passado sábado às 23h03m, apenas com 34 semanas de gestação. Chamo-me Hugo Dinis e peso 2.030kg, por isso por enquanto ainda sou muito pequenino mas já os ouvi dizer que cada bebé é um milagre único e impossível de repetir.

Já recebi bué de presentes, como uma raquetinha de ténis e uma ficha de inscrição no FCP e o meu quartinho tá bué da fixe.

Na minha fotografia que vos envio já me estou a imaginar deitado numa praia das caraíbas a olhar para umas estrangeiras com 40 semanas…

Beijinhos

Hugo Dinis