terça-feira, 28 de julho de 2015

The Pervert's Guides

Acabei de rever dois documentários fascinantes sobre cinema realizados por Sophie Fiennes e apresentados pelo esloveno Slavoj Žižek (penso que se lê “Slavói Tchitchéqui”). Žižek é um filósofo e sociólogo, com mais de uma dezena de livros traduzidos e publicados em Portugal, o último dos quais chamado “O Islão é Charlie?” onde faz uma reflexão crítica sobre os acontecimentos que tiveram lugar em Paris a 7 de Janeiro de 2015, nos escritórios do jornal Charlie Hebdo.


The Pervert's Guide to Cinema (2006)

No primeiro filme, de 2006, analisa de forma psicanalítica e filosófica diversos filmes (cita 43 películas!) com destaque para a filmografia de Alfred Hitchcock, David Lynch, Charles Chaplin e Andrei Tarkovski. Trata-se de uma análise essencialmente pessoal, e por isso subjectiva, de alguém apaixonado pelo cinema, mas também irreverente e por vezes controverso e com um fortíssimo sotaque inglês (“and so on, and so on”). Por sua vez, o principal contributo da realizadora foi colocar Žižek nas cenas dos filmes e assim criar a ilusão de que Žižek fala a partir do interior dos próprios filmes.

Relativamente ao conteúdo do filme, Žižek começa por abordar a dicotomia entre a realidade e a ficção, depois desenvolve um tema bem Freudiano, a libido, e termina a discutir os valores simbólicos apresentados nos filmes. Achei bastante interessante a análise da casa de Norman Bates em “Psico”, com três andares e a consequente distinção entre ego, super ego e id, a tentativa de explicar os modelos de comportamento de Hollywood bem como os sonhos de David Lynch, onde a realidade e a fantasia caminham lado a lado, e a figura opressiva dos pais nos seus filmes. Também adorei ver extractos de alguns dos meus filmes preferidos e alguns personagens que já não via há algum tempo (como o Bobby Peru, de “Wild At Heart”).

Na minha opinião, o que Žižek pretende é, através de revelações psicoanalíticas, dizer que falar sobre os filmes é falar sobre nós mesmos.


The Pervert's Guide to Ideology (2012)


No segundo filme, realizado seis anos mais tarde, Žižek continua a procurar significados escondidos em filmes mas em torno do conceito de “ideologia”, destacando-se essencialmente a vida em sociedade, os regimes de governação e a religião. O número de filmes abordados é inferior (24) mas são referidos outros factores que terão influenciado a tal “ideologia”: um anúncio comercial da Coca-Cola e outro do Ovo Kinder Surpresa; a Nona Sinfonia de Beethoven (Hino à Alegria); a revolta em Londres em 2011; os atentados de Oslo (Breivik); uma música dos Rammstein; a política comercial da Starbucks; o cemitério de aviões no deserto de Mojave; a Primavera de Praga em 1968; as armas de destruição maciça no Iraque e a expressão de Sartre de 1943: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. No entanto, o principal factor é apresentado como “The Big Other”…

Estes documentários são para se ver várias vezes pois a primeira visualização pode deixar-nos um pouco perdidos no meio de tanta informação, o que me levou a consultar alguns livros sobre cinema da minha biblioteca (foto abaixo). A segunda visualização já permite compreender melhor a complexidade psicológica apresentada por Žižek. Spoiler alert: alerto para o facto de que quem não viu alguns filmes citados vai ficar a conhecer o seu final.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Futebol vs Sexo

Um homem assistia a um jogo de futebol pela televisão, mas mudava de canal a cada momento, do canal de desporto para um filme porno, que mostrava um casal em plena acção.
- "Não sei se assista ao filme, ou se veja o jogo", disse para a mulher.
- "Pelo amor de Deus, assiste ao filme..." respondeu ela. "Futebol já tu sabes jogar".

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Livros sobre Livros (e Bibliotecas)


Nos últimos meses li várias obras sobre o amor desmesurado pelos livros, bibliotecas e pela literatura. Obras que mostram como os livros são maravilhosos, reconfortantes e surpreendentes.


A Casa de Papel – Carlos María Domínguez

Neste minúsculo livro, Bluma Lennon é uma professora universitária que é vítima de um acidente mortal enquanto lia um poema de Emily Dickinson. O seu substituto na universidade, recebe um envelope dirigido à falecida que contém um exemplar do livro de Joseph Conrad “A Linha da Sombra”. No entanto, este exemplar tem a capa e a contracapa cheias de cimento, e quem o recebeu não resiste a procurar o remetente de tal objecto...

O amor pelos livros está patente ao longo de todo o livro: “Os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los” (página 15); “Preciso de ler todo o aparato, esclarecer o sentido de cada conceito e, por isso, dificilmente me sento a ler um livro sem vinte ao lado, às vezes para completar a interpretação de um só capítulo” (página 31) ou “Eu fodo com cada livro e, se não houver marcas, não há orgasmo” (página 35).


Jacques Bonnet – Bibliotecas Cheias de Fantasmas

Mais uma preciosidade para os amantes da leitura. Este livro está dividido em nove capítulos e o autor, com base na sua experiência pessoal, aborda temas como as bibliotecas gigantes, as bibliomanias, a arrumação dos livros e as práticas de leitura. Como a minha biblioteca já ultrapassou o milhar de exemplares, identifiquei-me com alguns dos “problemas” que o autor relata no capítulo “Arrumar e Classificar”.

Ao longo da obra deparamo-nos com inúmeras referências literárias o que nos leva a querer ler mais e melhor, descobrir coisas diferentes e alargar os nossos horizontes. A título de exemplo, no capítulo oito é feita uma alusão a um episódio de The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), a série de televisão dos anos 60, chamado "Time Enough At Last", no qual um bancário não tem tempo para se dedicar à sua actividade preferida: a leitura…


Daniel Pennac – Como Um Romance

Retrata a iniciação ao mundo da leitura, desde a infância até à idade adulta e está repleto de citações e histórias surpreendentes sobre o amor aos livros. Contém os conhecidíssimos direitos inalienáveis do leitor (no foto abaixo) e 21 razões para ler (páginas 68 e 69).


Neste tratado sobre a leitura, Pennac considera que «ler» não deve ser um trabalho forçado. O ideal é tirar o melhor partido de um livro e ler acima de tudo com gosto.

Há quem nunca tenha lido e por isso tenha vergonha, há os que já não conseguem arranjar tempo para ler e que por isso se lamentam, há os que nunca lêem romances, só livros úteis, ensaios, obras técnicas, biografias, livros de história; há os que lêem tudo, que «devoram» e, cujos olhos brilham, há os que só lêem os clássicos, meu caro senhor, «pois a melhor crítica é o crivo do tempo», há os que passam a idade madura a «reler», e os que leram o último de fulano e o último de cicrano, porque, meu caro senhor, temos de estar a par…
Mas todos, todos, em nome da necessidade de ler
” (página 66).


Zoran Zivkovic – A Biblioteca

Nesta viagem de ida ao mundo dos livros entramos em simultâneo no mundo da magia e fantasia. São 6 contos, todos com a palavra Biblioteca no início do título ao que acresce Virtual, Particular, Nocturna, Infernal, Minimal e Requintada. Aqui encontramos um escritor que descobre na sua caixa de e-mail um link para uma Biblioteca Virtual que afirma ter lá “tudo”; um homem que sempre que abre a sua caixa de correio encontra o mesmo livro (chamado “Literatura Universal”) originando problemas de arrumação na sua casa; a existência de uma biblioteca especial só com livros de todas as vidas do planeta; um indivíduo que tem de prestar contas no inferno por não ter lido nenhum livro durante toda a sua vida (claro que a terapia obrigatória é a leitura!); um livro que muda de título e conteúdo sempre que é aberto e uma pessoa avessa a edições de bolso mas que não se consegue livrar delas… Delicioso!


Jorge Luis Borges – O Livro de Areia


Este livro contém 13 contos e vou destacar apenas o último, “O Livro de Areia” pois é o único que versa sobre o mundo dos livros. A história é similar às histórias de Zivkovic, com um elemento fantástico presente: um indivíduo é convencido a comprar um livro que não tem nem a primeira nem a última página (daí a origem do título do conto, pois nem o livro nem a areia têm princípio nem fim).

Por curiosidade menciono que 31 anos antes (e em muito melhor forma), Borges na sua obra-prima “Ficções” de 1944 incluiu o famosíssimo e obrigatório conto metafísico “A Biblioteca de Babel”, retratando uma realidade em que o mundo é composto por uma infinidade de livros em que estes abarcam todas as possibilidades da realidade.


Umberto Eco – A Biblioteca


Este opúsculo, de leitura bastante rápida, baseia-se na conferência dada no dia 10 de Março de 1981, data da comemoração dos vinte e cinco anos de actividade da Biblioteca Municipal de Milão, pelo sempre provocatório e genial Umberto Eco.

Eco começa por apresentar as razões para a existência das bibliotecas (“a principal função da biblioteca é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importante para nós”) concluindo que uma Biblioteca deverá ter como principal objectivo ser um espaço convidativo à permanência, à consulta, à leitura e à pesquisa no local. Posteriormente estabelece de forma irónica várias alíneas que sustentam uma biblioteca ideal (da letra a à letra s).


Umberto Eco e Jean-Claude Carrière – A Obsessão do Fogo


A obra consiste “apenas” num diálogo sobre o papel dos livros no decurso da História, protagonizado por Umberto Eco e um escritor e cineasta francês, Jean-Claude Carrière. Li as 305 páginas do livro em menos de 48 horas, tal o seu interesse, asserção e humor.

Os autores viajam pelos livros e bibliotecas ao longo de milhares de anos, expondo e trocando pontos de vista, estórias e reflexões que os levam a meditar sobre a “idiotia” e a imbecilidade do mundo, acabando por revelar a eterna preocupação do Homem pelo fogo, principalmente em relação às bibliotecas. Uma conclusão partilhada por ambos: o livro não morrerá, sobrevirá ao e-book: “O livro é, tal como a roda, uma espécie de perfeição inultrapassável na ordem do imaginário”.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Gomorra – A Série


Acabei de ver em apenas três dias os 12 episódios da primeira temporada da série italiana “Gomorra” baseada no livro de Roberto Saviano (que já tinha originado um filme em 2008, realizado por Matteo Garrone). Benditas boxes dos tempos modernos!

Nesta série confrontam-se dois dos clãs mais poderosos da Camorra, envolvidos no tráfico de drogas: o clã Savastano e o clã Conte. Don Pietro Savastano apoia-se em Ciro Di Marzio, seu braço direito, um homem inteligente e ambicioso, no seu filho Genny e na sua mulher Immacolata.

Sem querer desvendar a história apenas acrescento que em todos os episódios há assassinatos e violência q.b., , numa guerra sem moral entre quem se quer impor num mundo fora da lei. As interpretações são apaixonantes e cruas, as relações familiares são dramáticas e ferozes e a descrição da forma como a Camorra gere o seu território é impressionante.

No décimo segundo episódio assiste-se a uma autêntica reviravolta nos acontecimentos após a simulação e fuga de Don Pietro, a morte de Donna Immacolata e a emboscada no túnel, perspectivando uma excelente segunda temporada.

Absolutamente genial.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Cees Nooteboom - Rituais


Esta foi a minha primeira incursão pela obra deste autor holandês. Inni Wintrop é a personagem principal que procura constantemente respostas para as diversas questões do mundo contemporâneo (principalmente sobre Deus, as religiões e o dinheiro), vivendo constantemente em insegurança, com medo, angustiado e deveras cético, pois “o epicentro da estatística parecia encontrar-se perto dele e as estatísticas eram infalíveis”.

Para ele, as convicções políticas “são uma ligeira doença da alma”. As suas crenças são postas em causa por duas pessoas que conhece ao longo da sua vida: Arnold Taads e Philip Taads (pai e filho). Aliás, o livro está dividido em três partes: em 1953 convive com o pai Arnold, em 1963 relata-se o pseudo-suicídio e em 1973 trava conhecimento com o filho Philip.

Na primeira parte, ficamos a saber que Inni, órfão, viveu num colégio interno, foi expulso de quatro escolas e entregue pela sua tia Thérèse a Arnold Taads, ateu e misantropo (gosta mais do seu cão do que das outras pessoas), durante alguns dias. O pai de Inni, que morreu em 1945 num bombardeamento, traiu a mãe com a empregada doméstica e abandonou-a. Era um homem “cujo relacionamento com o mundo tinha falhado”. Em relação a Philip, tratava-se de um monge solitário, que adoptou a reclusão como forma de vida. Sobre o suicídio apenas adianto que Inni foi traído pela mulher Zita, com um fotógrafo italiano.

A obra está carregada de referências a pintores e escritores holandeses, mas também são citados Virginia Woolf, Theodor Fontaine, Yasunari Kawabata, Kitagawa Utamaro, Jean-Paul Sartre e uma água-forte de Baccio Baldini (Sibila Líbia, na foto abaixo). Logo no início, Stendhal anuncia:

Personne n’ est, au fond, plus tolérant que moi. Je vois des raisons pour soutenir toutes les opinions; ce n’est pas que les miennes ne soient fort tranchées, mais je conçois comment un homme qui a vécu dans des circonstances contraires aux miennes a aussi des idées contraíres”.

(No fundo, ninguém é mais tolerante do que eu. Vejo razões para sustentar todas as opiniões; não porque as minhas não sejam mais nítidas, mas porque concebo que um homem que viveu em circunstâncias contrárias às minhas tenha ideias contrárias.)

A escrita é leve mas cativante e proporciona uma forma densa de pensar sobre os dilemas vitais do homem moderno sem apresentar qualquer panaceia, considerando apenas o homem como ser solitário, incomunicável e egoísta (“o homem é um triste mamífero que se penteia”). Na última página da obra é feita uma alusão a Rikyu, o maior mestre de chá de todos os tempos, que acaba por ser fundamental para a compreensão da história.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

No – El Prado

Ouvi pela primeira vez os No (anteriormente conhecidos como Black English), nos créditos finais do filme “Miss Meadows”, através do tema The Long Haul. Procurei de imediato a sua discografia que era composta apenas por um álbum editado em 2014. As influências são notórias, soam demasiado a The National, uma das minhas bandas preferidas (é incrível a semelhança da voz de Bradley Hanan Carter com a de Matt Berninger), e por isso passaram a fazer parte das minhas audições frequentes.

O disco, extremamente consistente, melancólico, com um som enquadrado no indie rock, arranca de forma certeira, com Leave The Door Wide Open onde sobressai a voz de Carter (canta “We come together / We fall apart / We make some noise inside a room and call it art”).

Tal como sucede com os The National, as músicas dos No também se adequam à sua inclusão em filmes pois conseguem aumentar o impacto emocional de qualquer cena, deixando tudo muito mais intenso e poético.


domingo, 12 de julho de 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Rui Sousa Basto – Contos do Efémero


Para mim os livros de contos são livros que se vão lendo. Neste caso, e apesar de não ser tarefa fácil, pois estamos a falar de micro-contos, muitas vezes constituídos por um único parágrafo, mantive esta regra.

De uma forma simples, o autor barcelense consegue descrever algumas situações-limite, reveladoras do frágil equilíbrio em que se baseiam as normas vigentes no nosso mundo. Aqui encontramos um escritor obrigado a resumir o seu romance de mil páginas numa única frase, a forma de identificar um líder num grupo, a dificuldade em identificar a mais velha profissão do mundo, políticos internados de urgência devido à corrupção, agentes da autoridade escrupulosos no cumprimento das leis severas mas apenas fora das horas de serviço, octogenárias que, por recusarem os sinais do tempo, não abdicam do uso de máscaras...

De uma maneira geral, estes 30 contos, apesar de efémeros, são deliciosos, devem ser lidos e relidos, surpreendem e são inesquecíveis. Os meus preferidos dão pelo nome de “O Escritor”, “Words, Words, Words”, “Anarquia”, “O Editor” e “Bibliofilia” que reproduzo de seguida:

Palenberg é um bibliófilo compulsivo. A sua biblioteca possui mais de cinquenta mil títulos. Arruma-os nas estantes com um desvelo inigualável. Limpa-os com múltiplos cuidados, dia após dia, do pó que teima em depositar-se em cada volume que repousa nas prateleiras. Ama-os como se fossem filhos seus, carne da sua carne. Todavia, entristece-se por não serem todos do mesmo tamanho – uns mais altos, outros mais baixos -, porque isso dificulta o seu alinhamento. Depois de pensar, pensar e voltar a pensar, tomou uma decisão extrema: cortou todos os livros pela altura do exemplar mais pequeno. Ainda bem que Palenberg não sabe ler.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Técnicos de Comércio


O meu sucesso como professor está no êxito dos meus alunos e nas suas realizações.

Desejo a todos as maiores felicidades pessoais, académicas e profissionais e que o futuro vos sorria.

Até sempre,

CCB

domingo, 7 de junho de 2015

Pensamento do Dia


"Um dia sem riso é um dia perdido".

Charlie Chaplin

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Humor Divino


Uma senhora de meia-idade teve um ataque de coração e foi parar ao hospital.

Na mesa de operações, quase às portas da morte, vê Deus e pergunta:

- Já está na minha altura?

Deus responde:

- Ainda não. Tens mais 43 anos, 2 meses e 8 dias de vida.

Depois de recuperar, a senhora decide ficar no Hospital e fazer uma lipoaspiração, algumas cirurgias plásticas, um facelift,... Como tinha ainda alguns anos de vida, achou que poderia ficar ainda bonita e gozar o resto dos seus dias.

Quando saiu do Hospital, ao atravessar a rua, foi atropelada por uma ambulância e morreu.

A senhora, furiosa, ao encontrar-se com Deus, pergunta-lhe:

- Então eu não tinha mais 40 anos de vida? Porque que é que não me desviaste do caminho da ambulância?

Deus responde:

- Porra! Eras tu? Nem te reconheci!!!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

50 Melhores Filmes sobre Escritores

Mais um pedido especial que adorei satisfazer: elaborar uma lista com os melhores filmes sobre escritores. Inicialmente ia conter apenas 20 películas, mas a dificuldade em os seleccionar obrigou-me a aumentá-la para, em primeiro lugar, 30 títulos e, posteriormente, acabou por ficar com 50. Aceito sugestões sobre filmes em falta…

1. Midnight in Paris (2011, Woody Allen) – Paris “by night and day” e a Belle Époque combinam de forma eficaz: arte, cultura, história, sensibilidade e nostalgia.


2. La Grande Bellezza (2013, Paolo Sorrentino) – Retrato da Roma actual, através da história de um escritor que após um único sucesso literário há decadas não voltou a escrever mais nada e rendeu-se aos luxos e prazeres de todos os géneros, como as festas glamorosas no seu apartamento com terraço mesmo ao lado do Coliseu.

3. Capote (2005, Bennett Miller) – Destaque para o desempenho notável de Philip Seymour Hoffman no papel de Truman Capote na altura em que escreveu «A Sangue Frio», o seu livro mais popular, sobre o assassinato de uma família do Kansas.

4. 84 Charing Cross Road (1987, David Hugh Jones) – Uma escritora norte-americana, entusiasta por obras raras, corresponde-se ao longo de 20 anos com um livreiro londrino (Anthony Hopkins). Baseado em factos reais.

5. Reprise (2006, Joachim Trier) – Impressionante filme norueguês onde dois amigos tentam ganhar a vida como escritores. Um deles tem um êxito estrondoso enquanto o outro é rejeitado pelas editoras por falta de talento…

6. An Angel at My Table (1990, Jane Campion) – História da escritora Janet Frame com a sua atribulada vida familiar, a passagem por hospitais psiquiátricos e finalmente a redenção como mulher e como escritora.

7. Stranger Than Fiction (2006, Marc Forster) – comédia na qual um funcionário das finanças descobre que a sua vida está a ser narrada por "alguém" (Emma Thompson), e que o seu final pode não ser o mais feliz…

8. Das Leben der Anderen (The Lives Of Others) (2006, Florian Henckel von Donnersmarck) – Filme alemão passado durante a Guerra Fria que acompanha a gradual desilusão do Capitão Gerd Wiesler, um oficial altamente credenciado da Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, cuja missão é espiar um famoso escritor e a sua esposa…

9. Providence (1977, Alain Resnais) – A história de um escritor na fase final da sua vida que luta com um cancro ao mesmo tempo que tenta finalizar o seu último romance onde mistura realidade e ficção para retratar os elementos da sua família como pessoas desprezíveis.

10. Violette (2013, Martin, Provost) – Tendo como cenário Paris, pré-Segunda Guerra Mundial, aborda a relação de duas amigas apaixonadas pela literatura: Violette Leduc e Simone de Beauvoir.

11. Deconstructing Harry (1997, Woody Allen) - Harry é um escritor que para se inspirar utiliza factos relacionados com a sua vida privada, o que vai irritar os seus entes mais queridos...

12. Smoke (1995, Wayne Wang) – A clientela de uma tabacaria em Brooklyn, inclui, entre outros, um escritor desinspirado (William Hurt) após a morte da esposa. Argumento de Paul Auster.

13. Deathtrap (1982, Sidney Lumet) – Um argumentista de sucesso da Broadway (Michael Caine), a passar por uma crise de criatividade, engendra um plano para se apoderar de uma história desenvolvida por um autor desconhecido (Christopher Reeve).

14. The Hours (2002, Stephen Daldry) – A história de como o romance “Mrs. Dalloway” (Virginia Wolf) afectou três gerações de mulheres (com as fantásticas Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore).

15. Words (2012, Brian Klugman and Lee Sternthal) – Um autor desconhecido edita um romance que se torna um êxito estrondoso. Só que não foi ele que o escreveu…


16. Before Night Falls (2000, Julian Schnabel) – Sobre a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (Javier Bardem), exilado nos Estados Unidos devido às suas obras e ao seu comportamento homossexual.

17. The Ghost Writer (2010, Roman Polanski) - Um escritor-fantasma (Ewan McGregor) aceita a tarefa de terminar de escrever as memórias do Primeiro-Ministro britânico, Adam Lang.

18. Iris (2001, Richard Eyre) – Biografia da escritora inglesa Iris Murdoch (com as sempre magníficas Judi Dench e Kate Winslet), desde os seus dias de estudante até à luta contra a doença de Alzheimer.

19. Before Sunset (2004, Richard Linklater) - Nove anos após o primeiro encontro (em "Before Sunrise"), Jesse (Ethan Hawke), que escreveu um livro a contar aquela história, encontra-se em Paris a promover esse livro e encontra Celine (Julie Delpy).

20. Limitless (2011, Neil Burger) – Um escritor com falta de criatividade experimenta uma droga que lhe aumenta significativamente a capacidade intelectual.

21. Barton Fink (1991, the Coen Brothers) – Um argumentista procura inspiração após ter sido atingido por um bloqueio de tal natureza que não consegue escrever nada.

22. Becoming Jane (2007, Julian Jarrold) - Biografia da talentosa escritora Jane Austen (Anne Hathaway), que retrata o suposto romance de Jane com Thomas Lefroy, a inspiração das suas maiores obras.

23. Misery (1990, Rob Reiner) - Após sofrer um acidente de automóvel, um escritor é salvo por uma ex-enfermeira (a fabulosa Kathy Bates), que é uma fã maníaca dos seus livros. Baseado numa obra de Stephen King.

24. The Life Of Emile Zola (1937, William Dieterle) – A ascensão de Emile Zola como escritor que vive em Paris, em 1862 com Paul Cezane e o seu envolvimento na defesa de Alfred Dreyfus, um militar condenado injustamente.

25. Sylvia (2003, Christine Jeffs) – História trágica da lendária escritora norte-americana Sylvia Plath (Gwyneth Paltrow) que foi casada com o poeta britânico Ted Hughes (Daniel Craig).

26. Ruby Sparks (2012, Jonathan Dayton and Valerie Faris) - Um jovem escritor com falta de inspiração encontra o amor criando uma personagem (Ruby) que ele acredita que o irá amar…

27. Secret Window (2004, David Koepp) – Mais um título baseado na obra de Stephen king: um escritor de sucesso envolvido numa crise criativa, vê bater à sua porta um indivíduo que afirma ser o autor de uma das suas obras.

28. Finding Neverland (2004, Marc Forster) – Este filme relata a forma como James Matthew Burrie foi buscar a inspiração para criar o famoso clássico da literatura infantil “Peter Pan”.

29. Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder) - O fracassado argumentista Joe Gillis refugia-se na casa da ex-estrela de filmes mudos Norma Desmond, fugindo de dívidas por pagar…

30. Saving Mr. Banks (2013, John Lee Hancock) – Walt Disney (Tom Hanks) demorou cerca de 20 anos a convencer a autora do livro “Mary Poppins”, P. L. Travers (Emma Thompson), para fazer um dos filmes mais cativantes da história cinematográfica.

31. Manhattan (1979, Woody Allen) - Um escritor divorciado (Woody Allen) procura uma nova vida, após a sua ex-mulher o trocar por outra mulher e, além disso, escrever um livro com detalhes muito particulares do seu relacionamento.

32. The Last Station (2009, Michael Hoffman) - História de Leo Tolstói e da sua dedicada esposa, amante, musa e secretária, Sofia (Helen Mirren), que copiou o manuscrito de “Guerra e Paz” seis vezes à mão…


33. A Man For All Seasons (1966, Fred Zinnemann) - No século XVI, Henrique VIII quer separar-se da sua primeira esposa para se casar com Ana Bolena e para isso procura obter o apoio de um fervoroso católico, Sir Thomas More.

34. The Whole Wide World (1996, Dan Ireland) – Texas, anos 30 e a relação entre o escritor Robert E. Howard (autor de “Conan, O Bárbaro”) e a professora aspirante a escritora Novalyne Price Ellis.

35. The Shining (1980, Stanley Kubrick) – Mais um filme baseado num livro do mestre do terror, Stephen King. Um escritor (Jack Nicholson) chega a um hotel isolado, com a sua mulher e um filho pequeno com o objectivo de escrever um livro.

36. Infamous (2006, Douglas McGrath) – Elenco de luxo neste filme que retrata a investigação de Truman Capote a um crime brutal ocorrido em 1959 e que inspirou o seu livro “A Sangue Frio”.

37. Henry Fool (1997, Hal Hartley) – Henry Fool é um escritor, que sonha ver o seu livro “Confissões” entrar para a história da literatura, ao mesmo tempo que incentiva o seu senhorio a escrever um poema épico…

38. Il Postino (O Carteiro de Pablo Neruda) (1994, Michael Radford) – História de um humilde carteiro que deseja aprender a fazer poesia após desenvolver uma amizade com o poeta chileno Pablo Neruda.

39. Adaptation (2002, Spike Jonze) – Um escritor (Nicholas Cage) com falta de auto-estima e alguma frustração sexual, tenta adaptar para cinema o romance “The Orchid Thief”, de Susan Orlean (Meryl Streep).

40. Following (1998, Christopher Nolan) – Um escritor londrino desempregado segue desconhecidos na rua para arranjar inspiração para o seu trabalho…

41. Wonder Boys (2000, Curtis Hanson) – Grady Tripp (Michael Douglas) é um professor universitário e um escritor com um bloqueio de criatividade, que é abandonado pela esposa e cuja amante aparece gravida…

42. Le Mépris (1963, Jean-Luc Godard) – Filme francês baseado na obra de Alberto Moravia, no qual um argumentista vai para Roma trabalhar numa adaptação de “Odisseia”, de Homero, feita pelo realizador Fritz Lang.

43. Wilde (1997, Brian Gilbert) – Biografia do escritor irlandês, Oscar Wilde, o Primeiro Homem Moderno.

44. The Magic Of Belle Isle (2012, Rob Reiner) - Monte Wildhorn (Morgan Freeman) é um escritor de sucesso, mas os seus problemas com a bebida impedem-o de continuar a sua paixão pela literatura.

45. Copie conforme (2010, Abbas Kiarostami) – História simples do encontro numa pequena aldeia no Sul da Toscana, entre um homem, um autor britânico que acabou de fazer uma apresentação do seu livro e uma mulher francesa (a encantadora Juliette Binoche), proprietária de uma galeria de arte.

46. Quills (2000, Philip Kaufman) – As memórias do Marquês de Sade escritas quando esteve preso no manicómio de Charenton, perto de Paris, durante a Revolução Francesa.

47. Finding Forrester (2000, Gus Van Sant) – Um escritor em reclusão, William Forrester (Sean Connery), tem um encontro inesperado com um jovem de 16 anos que tem uma paixão secreta pela escrita.

48. Henry & June (1990, Philip Kaufman) – Paris, 1931, e as relações entre a escritora Anaïs Nin (Maria de Medeiros) e o escritor Henry Miller e a sua esposa June (Uma Thurman).

49. Bright Star (2009, Jane Campion) – Os três últimos anos da vida do poeta John Keats, com destaque para a sua relação com Fanny Brawne.

50. Enid – TV Movie (2009, James Hawes) – Biografia da prolifica escritora britânica Enid Blyton (Helena Bonham Carter).

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Leituras de Abril




- Richard FordCanadá
- Knut HamsunFome
- Zoran ZivkovicO Grande Manuscrito
- Gabriel García MárquezViver Para Contá-la
- Alberto ManguelUma História da Leitura

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Big Eyes

Depois de nos últimos dois filmes (Frankenweenie e Dark Shadows) me ter desiludido, Tim Burton parece regressar à boa forma nesta película baseada em factos verídicos. Trata-se da história da insegura pintora Margaret Keane (a encantadora Amy Adams), uma das artistas mais rentáveis em termos comerciais dos anos 50 do século passado, muito devido aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (mais um extraordinário papel para Christoph Waltz) afirmou ser o verdadeiro autor das suas obras até à sua morte. Surpreendente é o facto de a farsa durar mais de dez anos e a própria Margaret ser conivente com a mesma. Lana Del Rey empresta a voz em “Big Eyes” e “I Can Fly”. Delicioso.

domingo, 29 de março de 2015

Sons da Primavera


- Tom OdellAnother Love
- Royal BloodLittle Monster
- Sharon Van EttenEvery Time The Sun Comes Up
- James BayHold Back The River
- Zack HemseyVengeance
- Lucy RoseOur Eyes
- The SubwaysI’m In Love And It’s Burning In My Soul
- Mini Mansions (Ft. Alex Turmner)Vertigo
- Laura Marling I Feel Your Love
- Years & YearsTake Shelter
- PeaceLost On Me
- FKA TwigsVideo Girl

quinta-feira, 26 de março de 2015

David Lodge – A Vida em Surdina


Este romance proporciona uma leitura agradável devido à fluidez linguística e à forma muito real e palpável como os assuntos são abordados. Extremamente hilariante, dada a forma ora séria ora despreocupada como o personagem encara a sua realidade, este é um livro que se lê de um fôlego sem grandes necessidades de pararmos para pensar. À semelhança de outras obras já lidas do mesmo autor, também nos faz soltar grandes gargalhadas devido à forma tão british como os personagens usam e abusam de humor e ironia e abordam as questões da sua vida e as da própria sociedade.

Desmond Bates é um recém-reformado professor universitário de linguística de 61 anos, tem uma cultura acima da média, uma mente lúcida, um sentido de humor agudo e contagiante, mas com problemas sérios de surdez que aliados à sua constante monotonia dão origem a diversas peripécias trágico-cómicas, despertando empatia no leitor. Segundo este personagem, o quadro de Goya, The Dog (1819-1823), apresentado abaixo, simboliza a surdez, que “é cómica enquanto a cegueira é trágica”.


Aliás, é impressionante a quantidade de trocadilhos e confusões geradas na comunicação, o que deve ter dificultado o trabalho da tradutora, obrigada a recorrer por diversas vezes a notas de rodapé. A título de exemplo eis algumas frases “ouvidas” por Desmond:

Pois foi, estávamos perto cacafone. Hermafrodita, mas infelizmente o purismo eu cabidela.”;

A última vez que fodi a franga tive tanto calor que passámos a maior parte do tempo nas águas furtadas”.

A narrativa varia entre a primeira e a terceira pessoa do singular e procura-se essencialmente uma dignidade para a surdez. Trata-se de uma espécie de diário, onde Desmond regista os acontecimentos que marcam os seus dias e as reflexões que os mesmos lhe suscitam. É quase um recurso terapêutico, uma forma de racionalizar e dissecar as mudanças que a sua vida tranquila sofre em consequência das crescentes dificuldades auditivas que o afligem e da reforma a que essas mesmas limitações quase o obrigaram.

No seu dia-a-dia, Desmond tem de lidar com a sua bem sucedida segunda esposa (a quem trata por “você”), com o seu obstinado pai (também surdo) e com uma estudante que o deseja como orientador numa tese de doutoramento com um tema algo invulgar (análise linguística do conteúdo de bilhetes de suicídio). É esta jovem, Alex Loom, que despoleta alguma instabilidade e inquietação na sua vida quando o convida para visitar o seu apartamento e porque para Desmond “a maneira como se trata os livros é uma mostra do seu comportamento cívico”. Quando Alex convida Desmond para a castigar, na sua casa, Desmond imagina-a na obra de Edvard Munch de 1894, Puberty, que passa a significar: “Alex à espera de Desmond para a castigar”.


Outros factos que contrastam com o humor presente em quase toda a obra são o agravar do estado de saúde do pai (o sistema de saúde britânico também é severamente criticado), o relato angustiante da visita a Auschwitz e a descrição das circunstâncias que provocaram a morte da ex-mulher. Além disso, também se encontram referências a música clássica, alguns filmes, locais de Inglaterra, desportos (golfe e ténis), diversa literatura e, claro, a descrição da vida académica, com os seus professores e, tal como no nosso país, com alunos cada vez mais problemáticos.

Como na parte final do livro Lodge assume o carácter autobiográfico da obra, ao terminar a leitura ficámos com a sensação de que todas as situações descritas terão realmente ocorrido. Além disso, obriga-nos, àqueles que não têm problemas de audição, a fazer as nossas próprias reflexões tendo em conta as questões suscitadas e a forma como foram tratadas.

sábado, 21 de março de 2015

Laura Hillenbrand - Invencível


Laura Hillenbrand andou a pesquisar informação de forma meticulosa durante 7 anos para depois relatar uma incrível história verídica de forma pujante mas por vezes perturbadora. A sua leitura é agradável, óptima para quem gosta de História e biografias. Louis Zamperini é-nos apresentado desde a sua infância e idade adulta até aos seus últimos anos de vida.

Na adolescência era um rebelde, desordeiro compulsivo, fugiu de casa, praticava pequenos furtos, e as suas aventuras terminavam sempre “a correr como um louco”. Desta forma, descobriu que tinha um talento, a corrida, o que o levou aos Jogos Olímpicos de Berlin em 1936, sempre incentivado pelo irmão Pete. Ficou em 8º lugar nos 5000 metros e apertou a mão a Hitler.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial foi obrigado a desistir do seu sonho e começou a formação para artilheiro em bombardeiros. Após várias missões no Pacífico, os motores do seu avião deixaram de funcionar e caiu no oceano. De uma tripulação de onze elementos, sobreviveram apenas três num pequeno bote. Ao fim de 42 dias, apenas dois aguentam o sofrimento: Louis e Phil. Finalmente, após 47 dias, muitas queimaduras, frio, fome e sede, lutas com tubarões, tiros de aviões inimigos, avistam uma ilha mas são recebidos por um navio militar japonês!

Iniciou-se então um período terrível, que durou cerca de dois anos, nos campos de concentração japoneses, com fome, trabalhos forçados, espancamentos diários e torturas cruéis inimagináveis, comandadas pelo atroz Watanabe, conhecido pela alcunha “O Pássaro”. A disenteria e beribéri eram doenças constantes. A certa altura a autora recorda que na Europa morria um por cada cem prisioneiros de guerra, no Japão morria um por cada três prisioneiros de guerra.

Como é do conhecimento geral, com o lançamento das bombas nucleares, o Japão foi derrotado e os prisioneiros, apesar da política japonesa de matar todos os prisioneiros de guerra caso houvesse um simples boato de invasão norte-americana, foram libertados e regressaram para casa em Outubro de 1945.

Como seria de esperar o período do pós-guerra foi extremamente complicado devido às recordações e aos traumas sofridos. Zamperini foi considerado herói nacional, casou-se, começou a dar palestras mas sempre embebido em álcool e tabaco e envolveu-se em vários negócios sem obter qualquer sucesso. A sua situação só melhorou quando em 1949 encontrou na religião uma forma de perdoar e recomeçar a sua vida.

Tal como na obra anterior da autora, "Seabiscuit", também foi realizado um filme baseado em “Invencível”. Foi em 2014 que Angelina Jolie adaptou esta história de um homem levado ao limite do humanamente suportável. Apesar de não ter ficado desapontado esperava um pouco mais do filme. Em termos sonoros, visuais e de fotografia, está excelente, mas o desenvolvimento da história torna o filme longo e pouco dinâmico. Em termos globais, Angelina Jolie segue à risca o conteúdo do livro e consegue imprimir à história uma parte significativa do que está patente no livro.

domingo, 15 de março de 2015

Belle & Sebastian – Girls In Peacetime Want To Dance


Acaba de ser lançado o nono álbum de originais de uma das bandas que sempre apreciei: Belle & Sebastian. Sem surpreenderem, apesar de apostarem mais em ritmos dançáveis e recuperarem referências retro dos anos 80, continuam a rechear os seus trabalhos com canções bonitas, impecavelmente interpretadas. É com frequência que recorro à sua discografia e à recordação do único concerto destes escoceses que tive o prazer de assistir em Junho de 2006 (fotos abaixo).



domingo, 8 de março de 2015

As Cinquenta Sombras de Grey (versão alentejana)

Quatro alentejanos costumam ir pescar há muitos anos, sempre na mesma época, montando um acampamento para o efeito. Este ano, a mulher do João bateu o pé e disse que ele não ia. Profundamente desapontado, telefonou aos companheiros e disse-lhes que, desta vez, não podia ir porque a mulher não deixava.

Dois dias depois, os outros chegaram ao local do acampamento e, muito surpreendidos, encontraram lá o João à espera deles e com a sua tenda já armada.

- Atão, João, comé que conseguisti convencer a tua patroa a deixar-te viri?

- Bêm, a minha mulheri tên estado a ler "As Cinquenta Sombras de Grey" e, ontem à nôte, depois de acabar a última página do livro, arrastô-me para o quarto. Na cama, havia algemas e cordas! Mandô-me algemá-la e amarrá-la à cama e depois disse: Agora, faz tudo o que quiseres...
E Ê ... VIM PESCARI !!!

quarta-feira, 4 de março de 2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Gonzalo Torrente Ballester - Crónica do Rei Pasmado


A “Crónica do Rei Pasmado” tem como cenário a Espanha do séc. XVII, época dominada fortemente pela Inquisição. Trata-se de uma sátira brilhante e mordaz em que Ballester, numa narrativa bastante humorada, expõe a hipocrisia que germina nas classes detentoras de poder, expondo características psicológicas e comportamentos, descarnando personagens que vão desde os altos cargos do clérigo (aqui destacaria especialmente o ambicioso e implacável padre Villaescusa) às simples “marafonas”.

Esta estória, onde se encontram disseminadas numerosas piscadelas de olho à História, inicia-se com uma visita do ingénuo e inseguro Rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal, na altura com 20 anos, “às meninas”, ajudado pelo amigo, conde Peña Andrada. Deslumbrado com a visão da meretriz Marfisa totalmente nua, com a perfeição das suas curvas e após “4 cópulas e um fracasso”, que constituem o “limite que os teólogos põem aos exageros da carne”, mete na cabeça que há-de observar a nudez da Rainha (Isabel de Bourbon) e não se inibe de manifestar publicamente esse desejo.

Ora, os severos costumes impostos pela Inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento íntimo com a Rainha e assim a Igreja imediatamente salta em defesa do pudor, da reserva e dos bons costumes, e dá-se uma feroz luta pelo poder entre aqueles que lhe estão próximos, o que origina posições antagónicas. Por um lado, os súbditos que defendem que o Rei não podia ver a esposa nua: “O homem pode aceder à mulher com fins de procriação e, se os seus humores lhe exigirem, para os acalmar, mas nunca com intenções levianas, como seria a de contemplar nua a própria esposa” (página 44); “Acha que a Graça do Senhor se manifesta no coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contra natura?” (página 67). Numa posição contrária, assume-se que o Rei tem toda a legitimidade para observar a nudez da esposa “…porque de camisas de noite cumpridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas” (página 50).

Adicionalmente e em relação ao primeiro grupo mencionado desenvolve-se a ideia de que, ao deixar-se o Rei levar a sua avante, será o povo inocente que pagará pelos seus pecados e por isso a Espanha perderá a guerra que está a travar nos Países Baixos e, de igual modo, a frota oriunda das Índias não chegará em segurança ao porto de Cádis.

O Santo Tribunal da Inquisição entra em cena, são criadas quatro comissões para solucionar o problema (o que mostra que isto de criar comissões já é um fenómeno bastante antigo), aparece um padre jesuíta português, a prostituta Marfisa é perseguida por “suspeitas de endemoninhamento”, encontramos uma Rainha com uma camisa de noite recomendada pelos clérigos por conter a expressão “Vade Retro Satanás” e um primeiro-ministro Valido que considera que “deitar com judias é melhor que queimá-las” e a quem no trono interessa um Rei fragilizado, sem voz activa. Até ao final assiste-se a muitos debates teológicos, querelas populares e intrigas palacianas num ambiente onde o “cheiro a enxofre corrobora a presença do Diabo”.


Tive curiosidade em assistir à versão cinematográfica do filme (El Rey Pasmado, de 1991), realizada por Imanol Oribe, e constatei que se trata de uma fiel reprodução de toda a obra embora em jeito de peça teatral onde, tal como acontece com o livro, se saboreia uma linguagem colhida directamente da época. Além disso, observa-se uma minuciosa reconstituição dos objetos, traquejos e vestimentas bem como a transposição da ideologia existente no período histórico considerado. Conta com a participação do português Joaquim de Almeida entre diversos actores espanhóis. Não resisto a mencionar o pormenor delicioso relacionado com a cara aparvalhada do Rei, cujo actor no filme (Gabino Diego) é incrivelmente semelhante ao retrato do Rei Filipe IV, feito em 1623 pelo precursor do impressionismo Diego Velázquez e que abaixo se reproduz.

Também não resisto a comentar a primeira cena do filme: um padre observa no telescópio corpos celestes e, para sua surpresa, vê corpos femininos, nus, girando no espaço e em volta do que se supõe ser o Sol. Tal visão enuncia a transformação que sucederá ao final da trama. Esta cena diz respeito à descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como dizia a Igreja.

O filme mostra que no confronto das duas formas de se interpretar a realidade, a dogmática e a científica, a grande maioria das personagens retratadas demonstra ter consciência da não relação entre o pecado do rei e a derrota de uma batalha.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

As Minhas Melhores Leituras de 2014


1. Donna Tartt – O Pintassilgo
2. Eleanor Catton – Os Luminares
3. José Paulo Cavalcanti Filho – Fernando Pessoa – Uma Quase-Autobiografia
4. Philip Roth – O Complexo de Portnoy
5. José Ferreira Bomtempo – No Reino das Anjos
6. John Steinbeck – A Leste do Paraíso
7. José Luís Peixoto – Galveias
8. Haruki Murakami – A Peregrinação do Rapaz Sem Cor
9. Paul Theroux – O Grande Bazar Ferroviário
10. Javier Marias – Coração Tão Branco
11. Ernest Hemingway – Por Quem Os Sinos Dobram
12. David Lodge – Um Homem de Partes

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

FNAC Weekend (Guitarras & Autógrafos)


The Legendary Tigerman – True

No último fim-de-semana visitei a FNAC em duas ocasiões. No sábado assisti à apresentação intimista daquele que considero ser o melhor álbum português de 2014: “True” do Legendary Tigerman. Paulo Furtado, que já me tinha surpreendido com o “Femina” e as suas convidadas femininas, como habitualmente nestas ocasiões esteve menos de 30 minutos em palco e limitou-se a interpretar seis temas: Love Ride; Wild Beast; Do Come Home; My Heart, Safe At Home; Twenty Flight Rock e Rainy Nights (não tocou o meu tema predilecto do disco, Is My Body Dead?). Blues-rock e lamentos folk onde abunda o tom negro são a marca deste homem-orquestra genial.



José Luís Peixoto – Galveias

No dia seguinte assisti à apresentação de “Galveias”, o novo romance de José Luís Peixoto. O nome do livro é uma homenagem à vila alentejana do concelho de Ponte de Sor, distrito de Portalegre, onde o escritor nasceu, há 40 anos, e pretende defender "a realidade do interior de Portugal, onde há problemas bastante graves". Por coincidência tinha acabado de ler na semana passada este livro, que evoca uma realidade que se encontra um pouco por todo o nosso país, mas que na minha opinião não alcança a sua obra-prima, “Livro”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sons de Outono


- Future Islands - Singles
- Sharon Van Etten - Are We There
- Perfume Genius - Too Bright
- Swans - To Be Kind
- Caribou - Our Love
- Elbow - The Take Off and Landing of Everything
- Temples - Sun Structures
- Leonard Cohen - Popular Problems
- St. Vincent - St. Vincent
- Ariel Pink - Pom Pom
- The War on Drugs - Lost in the Dream
- Banda do Mar - Banda do Mar

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

João Ricardo Pedro - O Teu Rosto Será O Último


O Teu Rosto Será O Último” é claramente o meu livro preferido dos já laureados pelo Prémio Leya (considerando “O Rastro do Jaguar”, “O Olho de Hertzog”, “Debaixo de Algum Céu” e “Uma Outra Voz”, e excluindo o recentíssimo e ainda não lido “O Meu Irmão”). É um romance com uma capa magnífica, um título apelativo, sobre a origem de destinos, repleto de questões pertinentes pensadas ao detalhe que nos levam a um número infinito de interrogações apoiado em imagens, citações e palavras fortes para descrever uma perturbadora e cruel realidade portuguesa.

O enquadramento da narrativa na História recente portuguesa (de 1934 a 1974) está enraizada num cenário muito português onde a descrição de acontecimentos, hábitos e costumes, não só lhe conferem realismo, como também permitem uma certa identificação com as personagens, nomeadamente no que diz respeito à vida no interior do país.

O enredo até é simples, por vezes deixando-nos apenas seguir superficialmente a vida de três gerações de uma família e dos que a rodeiam. Conta a história de Duarte, um jovem talentoso que se revolta contra o seu próprio talento de pianista, do seu pai António Mendes, marcado pela guerra colonial e do seu avô médico Augusto Mendes, através de pequenos contos que se vão ligando como uma manta de retalhos que nunca se completará: a obstipação do Amável, as habilidades dos ciclistas da Volta, a trombose do avô Augusto, a data da morte do gato Joseph, os olhos do gato Ezequiel, a reacção do amigo Índio ao ouvir a sonata 21 de Beethoven, os tremeliques do barbeiro Alcino, a história da caneta Mont Blanc, a “madrinha de guerra” ou a relação com a professora de canto eslovaca.

Pontos de interesse: a ligação à música (a oferta do piano, Mozart, Beethoven, Bach, Hindemith e toda a nomenclatura musical utilizada), à arte (o delicioso pormenor da misteriosa obra de 1559, “A Luta Entre o Carnaval e a Quaresma”, do pintor flamengo Pieter Bruegel - reproduzida abaixo), ao cinema (o filme She Wore a Yellow Ribbon), a magia das mais de quarenta cartas de Policarpo e um poema de Camões. No entanto, o autor da obra parece abusar de palavrões e de alguma pontuação e também não compreendo a necessidade daquela extensa e monótona lista de compras de supermercado apresentada na página 130…

João Ricardo Pedro escreve de forma simples e natural, com avanços e recuos no tempo. As descrições das personagens, dos lugares e das situações são cheias de vida, conferindo uma grande satisfação ao longo das páginas. A leitura é envolvente mas requer a atenção do leitor. Apesar de por vezes o texto parecer desconexo, com o decorrer da leitura, percebemos que (quase) tudo se vai conjugando e que o enredo se torna melancolicamente belo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Humor em Economia

Explicar o amor com as curvas da oferta e da procura


O jornal de informação financeira Financial Times, na sua edição online, apresenta um consultório eco-sentimental, uma secção de perguntas e respostas designada "Querido Economista". Num certo dia publicaram isto:

"Querido Economista: Se eu reduzir a oferta o meu preço pode subir?

Tive uma relação à distância com a minha ex-namorada durante seis meses, eu estava no Bangladesh e ela na Inglaterra. Inicialmente, era tudo maravilhoso, mas pouco depois a curva da procura da minha namorada em relação a mim parecia estar a deslocar-se lentamente para a esquerda. Paranóico, comecei então a prestar-lhe mais atenção, pelo que, desta forma, estava a deslocar a minha curva da oferta para a direita. Consequentemente, o meu preço caiu. Rompemos, mas convenci-a a voltar para mim.

Voltámos à normalidade e falávamos durante muitas horas todos os dias. Decidi então tentar mudar-me e consegui um lugar para continuar os meus estudos de Economia no Reino Unido. Entretanto ela começou a agir de forma muito estranha até que, um destes dias, me disse que já não gostava de mim e rompeu definitivamente comigo.

Continuamos a ser amigos e a falar pelo telefone de vez em quando, mas ela vai inventando desculpas que não me parecem demasiado racionais. Penso que ela está confusa e que poderia voltar para mim, se eu agir da forma certa. Devo reduzir drasticamente a oferta e esperar que, desta forma, o meu preço suba? Gosto muito dela. A minha curva da procura por ela é perfeitamente inelástica.

Anon, Bangladesh".


Esta é a resposta que recebe do seu consultor eco-sentimental:

"Estimado Anon:

Julgo que deveríamos esquecer as curvas da oferta e da procura e tratar este assunto como um problema de informação imperfeita. Antes de mudar de continente, precisas de saber o que a tua ex-namorada pensa.

Pensas que o teu comportamento desesperado foi a razão da mudança de comportamento dela – provavelmente isso nada ajudou. Mesmo que consigas salvar esta relação, se calhar a única coisa que conseguirás é lavar pratos o resto da vida.

Lembra-te que ela reduziu a procura antes de tu aumentares a oferta. Porquê? Duas hipóteses: ela estava de facto preocupada pelo tipo de relação à distância ou então encontrou alguém que prefere em relação a ti. Compara cada uma destas hipóteses com o facto de que, quando disseste que voltavas a Inglaterra, ela deixou-te. É óbvio que a vossa relação acabou. E sim, deves “reduzir drasticamente a oferta” a esta rapariga, mas não porque ainda tenhas esperança de a ter de volta”.


Não acredita que um jornal tão sério como o Financial Times publique este tipo de artigo? Pois pode verificar aqui.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Leituras de Outubro


Para este mês de Outubro seleccionei os títulos seguintes:

- Donna TarttO Pintassilgo
- Paul TherouxO Grande Bazar Ferroviário
- Julia NavarroA Bíblia de Barro
- João TordoBiografia Involuntária dos Amantes
- Amin MaaloufAs Cruzadas Vistas Pelos Árabes

Dia Mundial da Música

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Teste ao QI


Eis um estudo interessante e inédito: a comparação das notas dos exames de acesso à universidade nos Estados Unidos com os gostos musicais dos estudantes (informação retirada dos perfis do Facebook). Conclusão: quem ouve artistas como Beyoncé, Lil Wayne, T.I. ou Jay-Z ou géneros musicais como reggaeton ou pop é menos inteligente do que quem ouve Beethoven, Radiohead, Sufjan Stevens, Bob Dylan, The Beatles ou U2 (ganda Coiote).

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

No Reino da Incompetência


A propósito da BCE (Bolsa de Contratação de Escola) e de NC apetece-me citar uma passagem de Macbeth de Shakespeare: 

- “Não tenho palavras; a minha voz está na minha espada”.

sábado, 20 de setembro de 2014

Jo Nesbø


Acabei de ler o sexto e último livro publicado em Portugal pelo escritor norueguês Jo Nesbø, sem dúvida um dos meus escritores de policiais preferido da actualidade. Os cinco títulos dedicados ao inspector Harry Hole desenvolvem histórias bastante intensas, repletas de suspense e acção e por vezes de uma violência atroz. São policiais cheios de personagens cativantes, com um enredo construído de forma magistral, ao qual se juntam várias pitadas de mistério, que nos levam a ficar agarradíssimos à história. Harry Hole, com quem facilmente se cria empatia, trabalha na força policial de Oslo, tem poucos amigos e métodos muito pouco ortodoxos…

Caçadores de Cabeças” (“Hodejegerne”, 2008) é igualmente um policial, mas independente da série do inspector Harry Hole. Neste caso, o “herói” chama-se Roger Brown, e o seu emprego é procurar talentos para colocar em empresas de sucesso. Mas é também um sedutor ladrão de obras de arte. E mais não conto... Foi adaptado ao cinema em 2011 de uma forma que não envergonha o autor da obra: diversão inteligente e elegante com bons actores, num nível de produção industrial que nada fica a dever à dos países anglo-saxónicos.

De lamentar a impossibilidade de ler toda a bibliografia relativa a Harry Hole por ordem cronológica de publicação, especialmente tendo em conta a continuidade de certos factos e histórias por vários volumes. Das 10 obras que já foram publicadas na Noruega, apenas cinco foram publicadas em Portugal (do terceiro ao sétimo volume), com a agravante de não serem publicadas por essa ordem (LeYa, como é que isto se explica?):

1. Flaggermusmannen (1997)
2. Kakerlakkene (1998)
3. Rødstrupe (2000) – “O Pássaro de Peito Vermelho
4. Sorgenfri (2002) – “Vingança a Sangue-Frio
5. Marekors (2003) – “A Estrela do Diabo
6. Frelseren (2005) – “O Redentor
7. Snømannen (2007) – “O Boneco de Neve
8. Panserhjerte (2009)
9. Gjenferd (2011)
10. Politi (2013)

Filho de uma bibliotecária, Jo Nesbø além de escritor, também é economista, ex-jogador de futebol profissional, compositor e músico de uma banda de pop/rock chamada Di Derre. Por curiosidade tentei ouvir a sua discografia mas não consegui chegar ao fim: a língua norueguesa não me cativou e a parte instrumental não prima pela originalidade…

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Many Happy Returns


Ok, mais um aniversário mas continuo na minha: nunca tive outra idade senão a do coração. Obrigado Paula (pelo cake design…).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ildefonso Falcones - A Rainha Descalça


“Nunca confies na palavra de um cigano”

Depois de ter lido A Catedral do Mar (2006) e A Mão de Fátima (2009), adorei a leitura da (também) extensa obra que o espanhol Ildefonso Falcones acaba de publicar: A Rainha Descalça.

Neste magnífico romance histórico, onde sobressai essencialmente a importância da família, a amizade e a honra, fui cativado pelo tema - a raça e cultura cigana - e pelo ambiente: a acção decorre de 1748 a 1754, principalmente nas cidades de Sevilha e Madrid (mas a pequena vila alentejana de Barrancos também é palco da história). Trata-se de uma época onde subsistem a escravatura, um enorme fervor religioso e a guerra entre Espanha e Inglaterra. Além disso, o autor exibe um conhecimento profundo deste período do reinado de Fernando VI (casado com a portuguesa Maria Bárbara de Bragança) e da Inquisição e descreve com mestria todo um cenário que inclui bailes, nobres, vilões, preconceito, intolerância, miséria, crueldade, amores sofridos e vinganças.

Tudo começa em Janeiro de 1748 com o desembarque de uma mulher negra de 25 anos (Caridad) em Cádis, que deixou um passado de escravatura em Cuba, numa plantação de tabaco. O seu amo morreu durante a viagem mas concedeu-lhe a liberdade em testamento. Ao deambular por Sevilha, pois não sabe o que fazer com a sua liberdade, e após ter sido abusada sexualmente por um oleiro, o cigano Melchor Veja, contrabandista de tabaco, delicia-se a ouvi-la cantar e leva-a para o seu bairro em Triana onde lhe apresenta a sua neta de catorze anos, Milagros. De imediato uma amizade profunda é estabelecida entre as duas.

Caridad e Milagros são as personagens centrais, com maneiras de ser bem definidas e diferenciadas e por isso demorei a perceber qual era a “Rainha Descalça”. Milagros, tal como a sua mãe, é uma mulher cigana, orgulhosa, inconformada, rebelde e cheia de coragem. Caridad, escrava durante toda a sua vida, mãe de dois filhos que por circunstâncias da vida não estão ao seu lado, está habituada a ser abusada, a não olhar nos olhos de ninguém, a servidão está enraizada no seu ser.

Sempre juntas, Caridad e Milagros tornam-se confidentes e são inseparáveis. A ex-escrava passa a trabalhar com o tabaco contrabandeado por Melchor e percebe que está a desenvolver novos sentimentos pelo cigano que a acolheu.

Outras personagens da comunidade cigana vão surgindo: Ana Vega, mãe de Milagros; José Carmona, pai de Milagros; “Conde” Rafael Garcia, patriarca da família Garcia, odiada pelos Vega por terem sido responsáveis pela condenação de Melchor a 10 anos de trabalhos forçados nas galés do rei; Reyes, a “Trianeira”, mulher do “Conde”; Pedro Garcia, neto do “Conde”, futuro marido de Milagros e Alejandro Vargas, a quem o pai de Milagros prometeu casamento com a filha.

Em 1749 dá-se a grande rusga protagonizada pelo exército real, convertendo todos os ciganos em proscritos, tendo como objectivo eliminar a raça. Cerca de 130 famílias ciganas foram presas em Sevilha durante o mês de julho. Os familiares de Milagros foram todos presos. Só Milagros escapou. Caridad teve ajuda do religioso frei Joaquin, que a colocou temporariamente em casa de pescadores. Mais tarde, Milagros, Caridad e uma cigana anciã fogem para Portugal (Barrancos).

Pouco tempo depois, alguns ciganos foram libertados. Nem nas prisões os quiseram (“não valiam o que comiam”), por isso foram postos em liberdade desde que provassem que eram casados pela igreja e que seguiam os seus princípios. Ana não foi libertada por apelar constantemente à revolta das ciganas.

Contra a vontade da familia, Milagros casa com Pedro Garcia provocando a ira de Ana e Melchor. Este casamento foi muito incentivado pelo "Conde" e pela "Trianeira" pois viram na voz de Milagros uma forma de ganhar muito dinheiro. Efectivamente, Milagros começou a ter muito sucesso e em breve seria convidada para actuar em Madrid, cidade que conquistou em muito pouco tempo. No entanto, Pedro Garcia é que ficava com todo o dinheiro obtido nas actuações da mulher e com ele levava uma vida boémia, dormindo constantemente com outras mulheres.

Os acontecimentos vão-se sucedendo: a prisão de Caridad durante dois anos, o surgimento de Nicolasa, Herminia e do jovem Martín, o sucesso de Milagros nas comédias de Madrid, a perda da virgindade de Milagros da forma habitual na comunidade cigana, o sequestro de Melchor e consequente fuga, a queda em desgraça de Milagros e, finalmente, o regresso dos quatro personagens (Melchor, Caridad, Milagros e do frei Joaquin) a Triana onde se irá dar o desfecho da história.

Ildefonso Falcones revela uma capacidade extraordinária de nos transportar para outro tempo e permite-nos conhecer um pouco melhor a História de Espanha. Emociona pela descrição cruel da realidade que as pessoas viviam numa época de intolerância. No primeiro livro, apresentou-nos uma história de miséria e servidão, de um homem do povo, Arnau, na Barcelona do século XIV; no segundo livro, acompanhamos Hernando num conflito entre muçulmanos e cristãos na Espanha do século XVI e agora, neste terceiro título, descreve com minúcia a forma de viver do povo cigano, bastante diferente da forma de viver dos “gadjé”, em pleno século XVIII. “A Rainha Descalça” é a sua obra mais profunda, mais triste, mais melancólica, com uma quase total ausência de momentos de alegria e contentamento, onde aflição, mágoa e angústia, envolvem o leitor e as próprias personagens nas canções repletas de lamentos e amarguras (queixa de galé).

domingo, 20 de julho de 2014

O Informático

Um informático está numa ilha deserta há 10 anos, depois de um naufrágio.

Certo dia avista um ponto brilhante no horizonte e começa a segui-lo com o olhar.

"Não é um navio", pensa o nosso herói.

E o ponto aproxima-se. "Não é uma barcaça".

E cada vez o vulto estava mais perto! "Não é uma jangada!?!".

E eis que das águas emerge uma loiraça, com fato de mergulho!

A loiraça dirige-se a ele e pergunta:

- Há quanto tempo não fumas um cigarro?

- Há 10 anos!

Ela abre um bolso interior do seu fato impermeável e dá-lhe um cigarro.

- Meu Deus, que bem que isto me está a saber!

- Há quanto tempo não bebes um whisky?

- Há pelo menos 10 anos!!! - responde o nosso herói, ainda atarantado.

Então ela abre outro bolso interior, tira uma garrafinha de whisky e dá-lhe!

O homem bebe tudo de um trago, ainda descrente com o que lhe estava a acontecer, mas muito, muito feliz!

Então a loiraça começa a baixar o fecho principal do fato e pergunta-lhe:

- E há quanto tempo é que não te divertes a sério?

Vai o nosso homem e grita, louco de felicidade:



- Eh PÁ, tu não me digas que tens aí um portátil?!...

terça-feira, 15 de julho de 2014

Ler, Ver e Ouvir nas férias de Verão


- Jung Chang – A Imperatriz Viúva - Cixi, A Concubina Que Mudou A China
- Arturo Pérez-Reverte – O Tango da Velha Guarda
- Irvine Welsh – Porno
- Leopoldo Brizuela – Lisboa – Um Melodrama
- Henning Mankell – The Shadow Girls (Tea-Bag, na edição portuguesa)



- Rendez-Vous (Encontro), de André Téchiné
- Pas Sur La Bouche (Nos Lábios Não), de Alain Resnais
- La Meglio Gioventù (A Melhor Juventude), de Marco Tullio Giordana
- All About Eve (Eva), de Joseph L. Mankiewicz
- Jour de Fête (Há Festa na Aldeia), de Jacques Tati
- Dirty Pretty Things (Estranhos de Passagem), de Stephen Frears
- Close-Up, de Abbas Kiarostami
- Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz
- I Want To Be Famous aka Happy End (Quero Ser Famosa), de Amos Kollek



- Belle & Sebastian – Fans Only
- Rufus Wainwright – All I Want
- Ani DiFranco – Trust - Live At The 9:30 Club, Washington, DC
- Nick Cave And The Bad Seeds – God Is in The House
- Franz Ferdinand – Live
- Pavement – Slow Century
- VA – Glastonbury Anthems
- VA – Later… with Jools Holland - Cool Britannia

Os novos discos de: Beck, Lykke Li, Damon Albarn, Real Estate, The War On Drugs, Sharon Van Etten, St. Vicent, Swans, Sun Kil Moon, Pixies, Mão Morta e Capitão Fausto.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Cinema do Mundo

Para desenjoar das repetitivas e monótonas produções de Hollywood, apresento 5 filmes que de alguma forma mexeram comigo recentemente:

1.The Hunt (Jagten; A Caça), de Thomas Vinterberg – Dinamarca (2012)

Filme fantástico, sobre uma história que será o pior pesadelo para qualquer professor. Através de manipulações e popularismos enraizados, mostra-se de forma implacável o lado negro da natureza social humana, quando falsos rumores são espalhados a grande velocidade numa pequena comunidade. Aqui, o educador Lucas (brutal interpretação de Mads “Hannibal” Mikkelsen) é confrontado com uma acusação de exibição das partes íntimas por parte de uma aluna, a pequena Klara, e com a consequente revolta de toda a comunidade onde vive. Drama intenso, angustiante, com cenas bastante fortes e, claro, desconcertante para qualquer professor.




2. The Broken Circle Breakdown (Ciclo Interrompido), de Felix Van Groeningen – Bélgica (2012)

História comovente e dramática de um casal que é confrontado com o medo da perda de uma filha de 6 anos. Ele, Didier, ligado à cultura americana, cantor folk numa banda (vieram-me de imediato à memória os Mumford & Sons!) e ela, Élise, dona de uma loja de tatuagens, formam um par romântico bastante exótico, com um casamento quase surreal (reparem na mesa de bilhar, nos cortinados e nos óculos do padre). Destaque para o impressionante e furioso discurso protagonizado por Didier contra um deus inexistente, numa altura em que o destino parecia já ter derrotado o amor intenso do casal.

 



3. La Grande Bellezza (A Grande Beleza), de Paolo Sorrentino – Itália (2013)

Ambientado na cidade de Roma, explorando as suas magníficas imagens, conta a história de um escritor de 65 anos, Jap Gambardella (Toni Servillo) que apenas escreveu um único livro na sua vida, chamado “O Aparelho Humano” e que foi um grande sucesso há 40 anos atrás. Desde então tem-se limitado a usufruir da fama e privilégios conquistados, frequentando festas deslumbrantes da alta sociedade, algumas das quais no terraço do seu apartamento, com vista para o Coliseu. A certa altura do filme Jap afirma: “aos 65 anos descobri que não posso perder tempo a fazer coisas que não gostaria de fazer”. O escritor pondera voltar a escrever, especialmente quando se recorda de um amor inocente da sua juventude. Para quem não estiver preparado, o filme poderá parecer complicado e até um pouco monótono.

 



4. Rebelle (aka War Witch), de Kim Nguyen – Canadá (2012)

Filme com violência e crueldade difíceis de suportar (fez-me recordar o "Hotel Ruanda", de Terry George). Num lugar não identificado da África Central, Komona (Rachel Mwanza) é uma adolescente de 14 anos, grávida, que conta ao seu filho, ainda no ventre, a história da sua vida, desde que foi raptada pelo exército rebelde, aos 12 anos, tendo como único apoio a presença do Mágico, um jovem de 15 anos que sonha casar-se com ela. O filme é narrado de forma crua e realista por Komona. É um filme tenso mas ao mesmo tempo amoroso, quando mostra a relação do casal apaixonado. Uma curiosidade: todo o elenco nunca tinha participado em qualquer filme.

 



5. La Vie D’Adèle (Blue Is The Warmest Colour; A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2), de Abdellatif Kechiche – França (2013)

Apesar de durar 179 minutos já o vi duas vezes e ainda o voltarei a rever com toda a certeza. A principal razão será, claro, a exuberante Adèle Exarchopoulos (Léa Seydoux também cativa mas de modo diferente) e a sua transição da fase adolescente para a fase adulta. Trata-se de uma história polémica de amor e de desamor, de ilusão e desilusão. Aqui, a sexualidade, apesar de intensa, é secundária. A intimidade é que é exposta de uma forma nunca vista, inquietante, à qual é impossível ficar indiferente.