quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Remind Me Tomorrow - Sharon Van Etten
O ano ainda está no início e provavelmente está encontrado um dos melhores discos do ano: “Remind Me Tomorrow” de Sharon Van Etten.
Antes deste novo álbum, Sharon editou cinco discos, entre 2009 e 2015, álbuns essencialmente de ruptura amorosa e de coração despedaçado. Após 2015 a sua vida mudou muito: fim de relações, início de outras, um filho, digressões, pausas, representação (na série “The AO” e num episódio de “Twin Peaks”) e um curso de psicologia. Foram tempos de descoberta e mudança. Quando regressou ao estúdio, decidiu experimentar e fez um disco menos óbvio, que exige mais atenção da parte de quem o ouve. É um disco honesto e ambicioso. É um corpo coeso, mas tem uns quantos pontos chave que fazem a diferença:
“Seventeen”. É uma grande canção. Enorme. Enorme canção. Dá para tudo. Para dançar e para pensar na vida. Para nos lembrarmos de quando tínhamos 17 anos ou para chegarmos à conclusão de que não fizemos nada de jeito quando tínhamos 17 anos. E por isso canta “I wish I could show you how much you’ve grown”. Tem um piano nos acordes menores certos para chorar, é nervosa, é ansiosa, é tranquila, mas um bocado a fingir. E tem um momento em que Sharon Van Etten perde a noção dos limites da sua voz e deita tudo para fora de uma forma absolutamente arrepiante. Já o fez ao vivo, está em vídeo e é de ver, rever, repetir e repetir outra vez.
“Comeback Kid”. O primeiro single ideal. Perfeito para atirar uma de “então pensavam que já tinham visto tudo o que eu tinha para dar?”. Um misto de tanta coisa, esta cantiga. Dancing para o século XXI que gosta de bailar como faziam algumas das estrelas pop dos anos 80, mais místicas, mais góticas, o que quiserem chamar-lhe. Batida deliciosa, belo momento de inspiração.
“Jupiter 4”. É uma canção de amor, é um agradecimento por um amor em particular, pelo amor em geral. É um desejo de amor para o mundo todo, o mundo que a quiser ouvir. E é tudo isto sobre um formato maquinal e robótico, a música é fria, quase gélida, é o amor a acontecer num ambiente digital onde não há calor em lado nenhum. Mas é a mesma canção em que Sharon canta “a love so real”. Repete a frase quatro vezes no final do tema. Estas contradições ficam-lhe tão bem. É que ficam mesmo. E esta “Jupiter 4” (que é o nome de um modelo de sintetizador da marca Roland) é de uma beleza tremenda. Sharon, cantas isto tão bem, pá. Tão bem.
“I Told You Everything”. É um delicioso filme miserável. Duas pessoas num bar numa conversa difícil. Duas pessoas que têm coisas tramadas para discutir. Não sabemos qual é o tema, não sabemos o que aconteceu antes daquele momento e não sabemos como termina. Mas essa ausência de respostas torna a canção muito mais nervosa, há muito mais ansiedade naquelas poucas notas que por ali andam, meio a flutuar, meio presas ao chão. É uma forma muito densa e dramática de começar um disco, mas é uma forma perfeita de o fazer. E sabemos que uma canção é boa quando a ouvimos e ao mesmo tempo vemos as respectivas personagens à nossa frente, sem a ajuda de álcool ou de qualquer outro amigo da imaginação colorida.
“Remind Me Tomorrow” é um belíssimo caos organizado onde Sharon Van Etten persegue, agora a todo o vapor, algumas das emoções mais sombrias, mas propulsivas que sempre se vislumbraram nos limites da sua música.
sábado, 19 de janeiro de 2019
Howard Jacobson – A Questão Finkler
Este é um livro surpreendente, divertido, magnífico. Hooward Jacobson pratica a arte de brincar com coisas sérias.
Houve uma época em que Finkler, professor de filosofia, escreveu quatro livros de autoajuda e ficou rico. Finkler tornou-se mais que um finkler. Treslove queria ser como ele mas não o podia revelar, nem sequer admitir.
A partir daqui, Jacobson constrói um enredo em que o riso esconde uma reflexão poderosa sobre a identidade judaica. Nunca tão bem se escreveu uma comédia sobre coisas muito sérias. O autor coloca-nos um sorriso nos lábios ao mesmo tempo que nos faz encarar de frente o Holocausto (“lá vamos nós outra vez!”), a faixa de Gaza e, acima de tudo, a angústia de ser judeu, com todas as contradições que a história foi construindo em torno deste povo.
De espírito melancólico, Treslove, na sua juventude, apaixonou-se por novelas românticas e ópera. Não aprendeu música porque não tinha ninguém para quem tocar.
Mas é com Hephzibah, uma imponente mulher judia, uma personagem fortíssima, sobrinha-bisneta de Libor que ele veio a casar e a realizar-se, pelo menos provisoriamente. Hep era uma mulher rechonchuda – a primeira mulher saudável da vida de Julian.
Finkler, crítico mordaz do sionismo se bem que nunca prescindindo dos seus objetivos individuais, torna-se um judeu envergonhado. Pode ser-se isso sem ter vergonha de si próprio? Esta é, talvez a questão fulcral deste livro: a sua identidade como judeu e a identidade do povo judeu. Como conciliar o ser individual com o grupo ao qual ele está umbilicalmente ligado? Os judeus são vítimas da história. Mas… e a Faixa de Gaza? E os colonatos? A desunião é cada vez mais visível. Os críticos do sionismo são os envergonhados. No entanto, nem eles deixam de ser vítimas do anti-semitismo. Por outro lado, de certa forma, também eles são anti-semitas. É este mundo confuso, esta miscelânea de interesses e angústias que povoa a vida de Libor, Finkler e Treslove.
O efeito humorístico desta situação deriva, em grande parte do facto de Treslove ser uma espécie de retrato invertido de Finkler: ele é o gentio que quer ser judeu, que é atraído por uma certa melancolia própria da alma judaica e Finker é o judeu envergonhado, que procura no sucesso individual um certo triunfo sobre a realidade histórica em que está envolvido. Ambos lutam contra a sua própria identidade. Quando, finalmente, Treslove se torna judeu, encontra a angústia e a desgraça…
sábado, 5 de janeiro de 2019
Linha de Apoio ao Cliente
A experiência de ligar para uma linha de apoio está a tornar-se cada vez pior. Na última vez que liguei para um Hospital Privado demorei vários minutos até finalmente falar com alguém.
Publicidade, promoções, Já Sabia Que…?, etc. Diga sim, se é o assunto certo; caso contrário, mantenha-se em silêncio e escolha uma das seguintes opções:
1 – quer ouvir uma ladainha sobre os nossos espectaculares serviços e promoções?
2 – quer perder 15 minutos a falar com a assistente que, apesar da simpatia, nada poderá fazer porque a culpa é do sistema?
3 – quer esperar 45 minutos a ouvir “Master Of Puppets” dos Metallica em versão “pan pipes” e depois falar com outra assistente que, apesar da simpatia não conseguirá resolver nada e vai passar a chamada que nunca será feita porque a ligação vai cair?
Obrigado por ter ligado para a nossa linha de apoio. Clique. SMS – A chamada que fez não está incluída na sua mensalidade, por isso toca a desembolsar mais uns euros. É um prazer estar aqui para cobrar, perdão, para servi-lo.
E já conhecem o novo voice mail das escolas? Para escutá-lo é só carregar AQUI…
domingo, 30 de dezembro de 2018
Os Melhores Discos do Ano 2018
- Low - Double Negative
- Idles - Joy As An Act Of Resistance
- Cat Power - Wanderer
- Shame - Songs of Praise
- Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel & Casino
- Snail Mail - Lush
- Father John Misty - God’s Favorite Customer
- The Saxophones - Songs of the Saxophones
- Car Seat Headrest - Twin Fantasy
- The Breeders - All Nerve
- Spiritualized - And Nothing Hurt
- Yo La Tengo - There’s a Riot Going On
- Lucy Dacus - Historian
- Marlon Williams - Make Way for Love
- Anna Calvi - Hunter
- Iceage - Beyondless
- Kurt Vile - Bottle It in
- Wild Pink - Yolk In The Fur
- Belle & Sebastian - How To Solve Our Human Problems (Parts 1-3)
- Beach House - 7
sábado, 29 de dezembro de 2018
As Minhas Melhores Leituras de 2018
1. Yuval Noah Harari – Sapiens – De Animais A Deuses – História Breve Da Humanidade
2. Gunter Grass – Descascando A Cebola
3. Javier Marias – Berta Isla
4. Halldór Laxness – Os Peixes Também Sabem cantar
5. Jennifer Egan – A Praia De Manhattan
6. Herta Muller – Hoje Preferia Não Me Ter Encontrado
7. Arturo Pérez-Reverte – Homens Bons
8. Frank McCourt – O Professor
9. Paul Theroux – Comboio-Fantasma Para O Oriente
10. Enrique Vila-Matas – Suicídios Exemplares
11. Elena Ferrante – História De Quem Vai E De Quem Fica
12. Bruno Vieira Amaral – As Primeiras Coisas
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
sábado, 13 de outubro de 2018
Sons de Outono
1. Jarvis Cocker – Baby’s Coming Back To Me
2. Zola Jesus – Wiseblood
3. Leon Bridges – River
4. Kings Of Leon – Over
5. Wild Beasts – Plaything
6. Palma Violets – 14 + Brave New Song
7. Courage My Love – Animal Heart
8. Billie Eilish – Copycat
9. Heaven – It’s Not Enough
10. The Lumineers – Dead Sea
11. Temples – The Golden Throne
12. Jonathan Wilson – Waters Down
13. Jenny Hval – Female Vampire
14. Nick Cave & The Bad Seeds – Push The Sky Away
15. Destroyer – Chinatown
16. Jamie Woon – Night Air
17. College & Electric Youth – A Real Hero
18. Sufjan Stevens – Tonya Harding
19. Cecilia Krull – My Life Is Going On
20. La Casa de Papel – Bella Ciao
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Domingos Amaral – Enquanto Salazar Dormia
Com oitenta e cinco anos de idade, Jack Gil, espião britânico em Portugal durante a segunda guerra mundial, recorda as suas aventuras naquele período, numa Lisboa que vivia a Guerra de uma forma diferente, num autêntico ninho de espiões e contra-espiões.
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Sons de Verão
1. Marlon Williams & Aldous Harding - Nobody Gets What They Want Anymore
2. Cigarettes After Sex - Crush
3. First Aid Kit - Rebel Heart
4. Ty Segall - My Lady’s On Fire
5. Unknown Mortal Orchestra - Everyone Acts Crazy Nowadays
6. Courtney Barnett - Need A Little Time
7. Protomartyr (Ft. Kelley Deal) - Wheel Of Fortune
8. Beach House - Black Car
9. The Kills - List Of Demands (Reparations)
10. Lower Dens - Hand Of God
11. Simian Mobile Disco - Hey Sister
12. Chvrches (Ft. Matt Berninger) - My Enemy
13. Gulp - Morning Velvet Sky
14. Young Fathers - Toy
15. Superorganism - Everybody Wants To Be Famous
16. Adrianne Lenker - Symbol
17. Spiritualized - Here It Comes (The Road) Let’s Go
18. Christine And The Queens (Ft. Dâm-Funk) - Girlfriend
19. Haley Heynderickx - The Bug Collector
20. Father John Misty - God’s Favorite Customer
sexta-feira, 6 de julho de 2018
domingo, 17 de junho de 2018
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Torres – Three Futures
quarta-feira, 23 de maio de 2018
RIP Philip Roth (1933-2018)
Ontem faleceu um dos meus escritores contemporâneos
favoritos, Philip Roth (outros são, por exemplo, o também norte-americano Paul
Auster, os britânicos David Lodge e Ian McEwan e o japonês Haruki Murakami).
Philip Roth morreu aos 85 anos, publicou mais de 30 obras, a
maioria publicada em Portugal, sendo os temas recorrentes essencialmente a
cultura na América, o sexo, o anti-semitismo, a morte e a luxúria. A título de
exemplo, AQUI podem ler a minha opinião sobre três das suas obras.
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Enigmas Matemáticos
Não custa nada tentar, pois as contas de somar que surgem nestes problemas, aparentemente erradas, têm uma lógica. No primeiro enigma devemos procurar uma explicação lógica para as diversas "igualdades" e no segundo desafio encontrar o valor em falta.
Para mais enigmas é só abrir o ficheiro ao lado intitulado "Quebra-Cabeças (nº 8)", que contém mais de 250 problemas matemáticos.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Julien Baker – Turn Out The Lights
O segundo disco de Julien Baker assume a sua missão de diário confessional. Não de uma artista jovem, que o é, mas sim de uma artista madura. Tal como aconteceu em Sprained Ankle, usa as canções de Turn Out The Lights para fazer um retrato de si mesma. Um retrato duro e auto depreciativo. Ao piano ou à guitarra, com a ajuda ocasional de sopros ou cordas, Baker apresenta um conjunto de baladas onde expõe e expurga os seus fantasmas e receios num disco que transparece como honesto. Entrar aqui é aceitar os termos do contrato; ninguém vem para encontrar um escape, somente para dar de caras com a dura realidade. E no caminho encontrar canções de enorme beleza. Quem entrar depois feche a porta a apague as luzes.
quarta-feira, 25 de abril de 2018
Estupidez Humana
Fico surpreendido com as pessoas que se indignam com a estupidez dos adolescentes, como se a sua estupidez adolescente tivesse sido imaculada. Ainda mais surpreendido fico com quem se admira que os adolescentes, na sua estupidez inescapável, mas de expressão contemporânea, gravem e partilhem publicamente os exercícios imberbes a que naturalmente se dedicam.
Os indignados são provavelmente os mesmos pais que mostram online os seus filhos – de cara destapada -, praticamente desde que nascem. E são os mesmos pais que expõem diariamente a sua banal intimidade nas redes sociais. Dão um mau exemplo e estabelecem as regras para uma nova e estranha normalidade, em que não há qualquer problema na exibição pública do que devia ficar sempre na esfera privada. Ao menos para ensinar aos filhos que a estupidez na net é eterna.
terça-feira, 24 de abril de 2018
Lana Del Rey – Lust For Life
Lana Del Rey tem apurado o seu estilo de pop cinemática, conduzido pela sua voz de contralto melancólico, qual máquina do tempo que nos transporta para a altura em que os homens faziam serenatas à janela da mulher desejada e para os tempos onde a criança se divertia na rua e só era chamada para casa à hora do Jantar.
Desde Honeymoon que Del Rey arranja a caminha perfeita para a sua voz. Não há rasgos de guitarra, baixos a bombar ou instrumentação grandiosa; só uma música de cariz retro qb, com arranjos de piano e eletrónica sofisticada.
Com a mesma honestidade com que no passado escreveu sobre sexo desenfreado, drogas, álcool e várias formas de dor autoinfligida, Del Rey em Lust For Life, disco lançado em 2017, mostra-se apaziguada com as agruras da vida, como as traições - «In My Feelings», uma das melhores canções do disco, é aparentemente dedicada a um desgosto amoroso com o rapper G-Easy. «White Mustang» e «Groupie Love» são mais duas canções dolentes que serpenteiam num deserto de amor não correspondido. Da nova colaboração com A$AP Rocky e Playboi Carti surge outra canção para degustar ao entardecer com o pé na água salgada, «Summer Bummer», e os duetos com Stevie Nicks, The Weeknd e Sean Lennon são escolhidos a dedo. Lust For Life tem poucas falhas e «Love» é a introdução perfeita para um disco esperançoso, seguro, onde Del Rey celebra a força da juventude de hoje, com o romantismo de outros tempos – flores no cabelo, vestidos curtos e Fords descapotáveis dos anos 50.
A música de Del Rey reflete sobre as experiências dos jovens da sua geração (e dela própria) e, estilisticamente, apela à nostalgia pelo passado de uma América idealizada.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
domingo, 25 de março de 2018
Sons da Primavera
1. Jonathan Wilson - Loving You
2. Wolf Alice - Sadboy
3. Belle and Sebastian - We Were Beautiful
4. Wooden Shjips - Staring At The Sun
5. First Aid Kit - Fireworks
6. Shame - Angie
7. Car Seat Headrest - Beach Life-In-Death
8. Sunflower Bean - Twentytwo
9. MGMT - When You Die
10. Neko Case - Halls Of Sarah
11. Marlon Williams - Come To Me
12. The Breeders - MetaGoth
13. N.E.R.D. - Deep Down Body Thurst
14. Sufjan Stevens - Mystery of Love
15. Sharon Van Etten - Do You Realize?
16. Toy - You Make Me Forget Myself
17. Jack White - Connected by Love
18. Anna Burch - 2 Cool 2 Care
19. Andra Day (Ft. Common) - Stand Up For Something
20. Oneohtrix Point Never (Ft. Iggy Pop) - The Pure And The Damned
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Leituras do Mês
- Zoran Zivkovic – O Último Livro
- Colleen McCullough – Agridoce
- Umberto Eco – A Vertigem Das Listas
- Yuval Noah Harari – Sapiens – De Animais A Deuses – História Breve Da Humanidade
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
As Minhas Melhores Leituras de 2017
1. Ana Margarida de Carvalho – Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato
2. George Saunders – Lincoln No Bardo
3. Alberto Manguel – A Biblioteca À Noite
4. Charles Dickens – História Em Duas Cidades
5. Ildefonso Falcones – Os Herdeiros Da Terra
6. Jean-Paul Didierlaurent – O Leitor Do Comboio
7. Elena Ferrante – Crónicas Do Mal De Amor
8. Paul Theroux – Mão Morta
9. W.G. Sebald – Austerlitz
10. Charles Dickens – Os Cadernos De Pickwick
11. Kazuo Ishiguro – O Gigante Enterrado
12. Marc Rousins – Biografia Do Filme
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
Os Melhores Discos do Ano 2017
- Wolf Alice – Visions Of A Life
- Aldous Harding – Party
- The National – Sleep Well Beast
- The XX – I See You
- LCD Soundsystem – American Dream
- Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex
- Circuit Des Yeux – Reaching For Indigo
- The Horrors – V
- Courtney Barnett & Kurt Vile – Lotta Sea Lice
- ∆ (alt-j) – Relaxer
- Nadia Reid – Preservation
- Thurston Moore – Rock N Consciousness
- Broken Social Scene – Hug Of Thunder
- Arcade Fire – Everything Now
- Father John Misty – Pure Comedy
- Fever Ray – Plunge
- The War On Drugs – A Deeper Understanding
- Julie Byrne – Not Even Happiness
- Mark Lanegan Band – Gargoyle
- Alvvays – Antisocialites
domingo, 5 de novembro de 2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Sons de Outono
1. Portugal. The Man – Feel It Still
2. The XX – Lips
3. Laura Marling – Nothing Not Nearly
4. MGMT – Little Dark Age
5. Father John Misty – So I'm Growing Old On Magic Mountain
6. Marika Hackman – Boyfriend
7. Cigarettes After Sex – Opera House
8. Superorganism – Something For Your M.I.N.D.
9. Mark Lanegan – Emperor
10. Courtney Barnett & Kurt Vile – Fear Is Like A Forest
11. Young Fathers – Only God Knows
12. Noel Gallagher's High Flying Birds – It’s A Beautiful World
13. Goldfrapp – Anymore
14. The War On Drugs – Thinking Of A Place
15. LCD Soundsystem – Call The Police
16. ∆ (alt-j) – 3WW
17. Sampha – (No One Knows Me) Like The Piano
18. Palo Waves – There’s A Honey
19. Zola Jesus – Sea Talk
20. Jungle – Busy Earnin'
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Circuit Des Yeux – Reaching For Indigo
domingo, 15 de outubro de 2017
Jay-Jay Johanson (Theatro Circo, 14 de Outubro)
Durante uma hora e quarenta e cinco minutos e mais de duas dezenas de temas, em formato best of e sempre acompanhados por um filme-concerto (sem qualquer sequência lógica com o que estava a ser cantado!), Jay-Jay com o seu timbre tão característico, manteve toda a essência da sua música: uma facilidade inata para as melodias e uma voz e ritmos que elevam as suas canções do subtil ao sublime. As suas oscilações entre o trip-hop e a electrónica, entre o jazz e a pop possibilitaram incursões por quase todos os seus 11 álbuns. Do mais recente, “Bury The Hatchet” ouviram-se “Paranoid”, “Bury The Hatchet” e a belíssima “You’ll Miss Me When I’m Gone”. Para deixar brilhar os dois companheiros, o cantor escondeu-se muitas vezes na sombra enquanto bebericava um copo de whisky.
A inconfundível voz de crooner de Jay-Jay Johanson fez-se ouvir em “Believe in Us”, “Far Away”, “She’s Mine But I’m Not Hers”, “Tomorrow”, “Milan, Madrid, Chicago, Paris”, “Dilemma”, “She Doesn’t Live Here Anymore”, “On The Other Side”, música que nasceu em Portugal, escrita durante um soundcheck de um concerto no nosso país, e “I Love Him So”. Esta última faixa nasceu da circunstância de o filho de Jay-Jay ter sido operado quando tinha apenas um ano de idade. Enquanto o filho estava deitado na mesa de operações, na sala de espera Jay-Jay escrevinhava furiosamente no bloco de notas as bases para esta canção. Johanson afirma que todas as suas composições partem de acontecimentos da sua vida – a sua maior fonte de inspiração é o seu diário.
O artista nórdico revelou-se um pouco repetitivo na forma como interpretou os temas, por vezes sugerindo alguma timidez, mas manteve sempre uma postura simpática, terminando os temas com um sonoro “Thank You”. Beneficiou de uma sala completamente esgotada e de um público entusiasta, a quem não foi preciso dizer duas vezes que o rapaz estava de volta à cidade, e que se encontrou em perfeita sintonia com o artista mostrando isso mesmo durante as pausas entre as canções e no final “obrigando” Jay-Jay Johanson a um encore, que arrancou com ele sozinho em palco, passando depois a estar acompanhado só pelo teclista e por fim com a totalidade do trio de volta no empolgante e intenso “Rocks In Pockets”, do álbum de 2007 “The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known”, que culminou com Jay-Jay e Erik Jansson nas teclas, num dueto frenético.
Quando tudo acabou, não faltaram high fives e abraços pois o sueco desceu do palco e veio cumprimentar e agradecer a todos aqueles que se encontravam na primeira fila e que o receberam de forma calorosa e simpática. Nós é que agradecemos, Mr. Johanson.
sábado, 7 de outubro de 2017
Leituras de Outono
- Jean-Paul Didierlaurent - O Leitor Do Comboio
- Kazuo Ishiguro - Quando Éramos Órfãos
- Ana Margarida de Carvalho - Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato
- Ildefonso Falcones - Os herdeiros Da Terra
- Stephen King - Sr. Mercedes
domingo, 1 de outubro de 2017
sábado, 16 de setembro de 2017
Philip Roth - Pastoral Americana
Este livro aborda sentimentos contraditórios sobre a América: o orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa (decadência). A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição.
O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta, Seymour Levov, louro (“Sueco”) abastado, objecto de uma adulação total, acrítica e idólatra, casado com uma ex-miss New Jersey, Dawn – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.
O narrador Nathan Zuckerman que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname…
Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, a quem “um dia a vida começou a rir-se dele e nunca mais parou”, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.
Merry, que se considera “a mais feia filha jamais nascida de pais atraentes”, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano, contra todo o modelo de vida capitalista, contra a pastoral burguesa. Em causa estava, por exemplo, a procura de mão-de-obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é um símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América actual. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.
Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical, Merry, para quem “a vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos”, passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. “Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?” pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga. A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria.
American Pastoral (“Uma História Americana”), de 2016, é o primeiro filme realizado por Ewan McGregor, que partilha o protagonismo com Jennifer Connelly e Dakota Fanning. Compõem a família Levov, que se desmorona quando a filha se une a grupos radicais nos Estados Unidos que protestam de forma violenta contra a Guerra do Vietname. Aqui, a transformação da sociedade americana nos anos 1960 carece de alguma força dramática presente no livro de mais de 400 páginas. No entanto, trata-se de um filme com alguma actualidade política, pois deparamo-nos com uma América de identidade dolorosamente estraçalhada, com as suas gerações separadas de modo radical. São temas e sinais com 50 anos, mas interiores ao nosso presente.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
Cinema do Mundo
En Man Som Heter Ove (Um Homem Chamado Ove), de Hannes Holm – Suécia (2015)
sábado, 26 de agosto de 2017
Vilar de Mouros, 24 de Agosto de 2017
Jesus & Mary Chain, The Mission, Primal Scream e Young Gods permitiram recuperar algumas das minhas melhores memórias musicais das décadas de 1980 e 1990. Bandas que marcaram uma era e uma geração, prolongando o estatuto de referência ao longo de mais de 30 anos. Apesar dos rostos mais enrugados e dos cabelos mais grisalhos dos intérpretes, há músicas que, mesmo tocadas mil e uma vezes, durante longos, longos anos, continuam a soar a novo.
Esta viagem no tempo começou com os The Veils, a quem foi conferida a missão de começar a aquecer o ambiente. O sol ainda não se tinha posto por completo e durante cerca de 50 minutos ouviram-se os melhores temas desta simpática banda londrina incluindo o maior sucesso da banda, “The Leavers Dance”, do seu álbum de estreia lançado em 2004, “The Runaway Found”.
De seguida, os suiços The Young Gods, liderados pelo extravagante Franz Treichler, entraram no seu túnel de rugosidade e aceleração e criaram uma onda sonora explosiva, com temas como “Skinflowers” e “Kissing The Sun”, afirmando todas as qualidades do seu projecto de rock industrial e avant-garde.
A paz regressou de seguida com as baladas dos ingleses The Mission, membros destacados do rock gótico, com um público já trajado a rigor. O vocalista Wayne Hussey, por viver em S. Paulo há vários anos, mostrou dominar a língua portuguesa e ter abandonado os tempos de negrume e introspecção (até ofereceu rosas ao público!). Proporcionaram um excelente concerto num formato “best of” onde não faltaram os temas “Severina”, “Wasteland”, “Deliverance”, “Butterfly On A Wheel”, “Tower Of Strength” e “Like a Child Again”.
Igualmente menos sorumbáticos e muitíssimo mais festivaleiros, com um espírito quase juvenil, os The Jesus & Mary Chain proporcionaram um episódio de nostalgia pura durante cerca de 90 minutos, incluindo “April Skies”, “Head On”, “Some Candy Talking” e “Happy When It Rains”.
E como foi tão bom (re)ver Bobby Gillespie a acompanhar, à bateria, os irmãos Reid na interpretação das três derradeiras músicas (“Just Like Honey”, “The Living” e “Never Understand”) de um concerto que fechou ao som das melhores e imortais canções do ainda tão jovial álbum “Psycho Candy” dado a conhecer em 1985.
Bobby Gillespie, liderou os Primal Scream num concerto propositadamente desenhado para deixar a multidão em êxtase, numa visita guiada aos seus melhores álbuns (só de "Screamadelica" de 1991 ouviram-se, por exemplo, “Come Together”, “Loaded” e “Moving On Up”). Que noite memorável (e com direito de antena na SIC!).
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Passadiços do Paiva (Arouca)
Finalmente tive oportunidade de caminhar pelos Passadiços do
Paiva, no concelho de Arouca, distrito de Aveiro. Localizam-se na margem
esquerda do Rio Paiva, são 8 km que proporcionam um passeio
"intocado", rodeado de paisagens de beleza ímpar, num autêntico
santuário natural, junto a descidas de águas bravas, cristais de quartzo e
espécies em extinção na Europa. O percurso estende-se entre as praias fluviais
do Areinho e de Espiunca, encontrando-se, entre as duas, a praia do Vau. Uma
viagem pela biologia, geologia e arqueologia que ficará, com certeza, no
coração, na alma e na mente de qualquer apaixonado pela natureza. Excelente!
segunda-feira, 17 de julho de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
O Reinado Prossegue…
O melhor tenista de todos os tempos continua a fazer história. Apesar dos seus quase 36 anos anos, Roger Federer parece ser um atleta sobrenatural. Depois de na época passada ter sido eliminado nas meias-finais por Milos Raonic e praticamente ter terminado aí a sua época, poucos acreditariam que, em 2017, Federer voltaria a dominar o circuito e que poderá terminar o ano como número um mundial.
Este domingo dominou completamente a final de Wimbledon e conseguiu obter o título sem ter cedido qualquer set ao longo da quinzena. Impressionante!
A lista de recordes de Federer é enorme, já aqui falei dela, mas recordo os principais feitos deste atleta cujos gostos musicais passam por AC/DC, Metallica e Lenny Kravitz:
- 19 títulos do Grand Slam
- 29 finais do Grand Slam
- 42 meias-finais do Grand Slam
- 23 meias-finais seguidas no Grand Slam
- 50 quartos de final no Grand Slam
- 36 quartos de final seguidos no Grand Slam
- 321 encontros ganhos no Grand Slam
- 93 títulos na carreira
- 24 títulos seguidos em finais ATP
- 302 semanas como número um do ranking ATP
- 237 semanas seguidas como número um
- 65 encontros seguidos a ganhar em relva
- 0 sets perdidos em Wimbledon ‘2017 e Australia ’2017
Roger dixit:
"O segredo está em acreditar sempre em mim."
"Estar a cem por cento fisicamente é imprescindível."
segunda-feira, 10 de julho de 2017
O Leão, o Velho e a Loira
O dono do circo fala com os 2 candidatos e diz:
- Eu vou directo ao assunto. O meu leão é extremamente feroz e matou os meus dois últimos domadores. Ou vocês são realmente bons, ou não vão durar 1 minuto! Aqui está o equipamento - banquinho, chicote e pistola. Quem quer entrar primeiro?
Diz a loura:
- Vou eu!
Ela ignora o banquinho, o chicote e a pistola e entra rapidamente na jaula.
O leão ruge e começa a correr na direcção dela. Quando falta um metro para ser alcançada, a loura abre o vestido e fica toda nua, mostrando todo o esplendor do seu corpo.
O leão pára como se tivesse sido fulminado por um raio!
Ele deita-se na frente da loura e começa a lamber-lhe os pés!
Pouco a pouco, vai subindo e lambe o corpo inteiro da loura durante minutos!
O dono do circo, com o queixo caído até ao chão diz:
- Eu nunca vi nada assim na minha vida!
Vira-se para o senhor aposentado e pergunta:
- Você consegue fazer a mesma coisa?
E o velhinho responde:
- Claro! É só tirar de lá o leão...
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Sons de Verão
1. Emily Haines & The Soft Skeleton – Fatal Gift
2. Asgeir – Afterglow
3. Chromatics – Shadow
4. Tricky – The Only Way
5. Ariel Pink – Another Weekend
6. Lykke Li – Unchained Melody
7. Photomartyr – A Private Understanding
8. Broken Social Scene – Hug Of Thunder
9. The Horrors – Machine
10. Courage My Love – Animal Heart
11. King Gizzard & The Lizard Wizard – The Lord Of Lightning vs Balrog
12. Moses Sumney – Doomed
13. Angus & Julia Stone – Snow
14. Manchester Orchestra – The Alien
15. St. Vicent – New York
16. Kele Okereke – Streets Been Talkin'
17. Beach House – Chariot
18. Jen Cloher – Regional Echo
19. Radiohead – I Promise
20. Arcade Fire – Creature Confort
domingo, 2 de julho de 2017
Leituras de Verão
- W.G. Sebald - Austerlitz
- Ramon Gener - Se Beethoven Pudesse Ouvir-me
- Ana Margarida de Carvalho - Que Importa A Fúria Do Mar
- Adrian Goldsworthy - António E Cleópatra
- Michael Farquhar - As Vidas Secretas Dos Czares
- Peter Mendelsund - O Que Vemos Quando Lemos
sábado, 24 de junho de 2017
3 Álbuns Deslumbrantes!
Editados em 2017, são segundos álbuns de vozes femininas que fazem lembrar, por exemplo, Angel Olsen, Lisa Germano, Gillian Welch, Laura Marling ou Joanna Newsom, em que a intensidade dos temas desafia as influências óbvias.
São discos não aconselhados a quem ouve música a retalho na net e com o som comprimido, sem conhecimento do que foi sentido e pensado pelo artista.
Aldous Harding – Party
Esta neozelandesa, nascida Hannah Topp, em “Party” (editado pela 4AD e produzido por John Parish, colaborador de PJ Harvey) tem o dom de fazer a realidade parecer uma coisa muito frágil (“Blend”), por vezes penetrando numa escuridão convidativa e cativante (“The World Is Looking For You” e “Party”), invocando uma dor profunda (“Horizon”, recentemente apresentada de forma magistral no Later with… Jools Holland, da BBC 2) e um vício (“I’m So Sorry”), alternando o humor e as vozes sem esforço (“What If Birds Aren't Singing They're Screaming” e “Living The Classics”) e construindo assim uma obra surpreendente.
Julie Byrne – Not Even Happiness
Abençoada com uma voz límpida e profunda, esta norte-americana brilha sem espalhafato ao longo de 9 canções da mais bela e hipnotizante folk, criando momentos sublimes. Os arranjos orquestrais são cuidados, as letras falam de felicidade, mas também de desejo, luta, força, sabedoria, integridade, viagens (“Melting Grid”) e de solidão: “I was made for the green, made to be alone,” canta em “Follow My Voice”. A voz de Julie é de uma delicada entoação. Aconchega-se ao ouvido, cola-se à pele, transmite tranquilidade mesmo quando canta infortúnios. A imagem que fica é de uma mulher intransigente nas suas tentativas de criar uma vida significativa - “I crossed the country and I carried no key” (em “Sleepwalker”).
Nadia Reid – Preservation
Cá está outro disco que mais parece uma daquelas receitas que de tão simples se tornam irresistíveis. Arranjos simples e muito silêncio para deixar a voz respirar. Quase não há ingredientes adicionados para desviar a atenção da voz, das melodias e das palavras. A neozelandesa Nadia Reid apostou em canções de arrepiante personalidade (em “Reach My Destination” canta There were two little words that I used, one was ‘fuck’, the other was ‘you’) onde o protagonismo é dado claramente à sua voz e à sua guitarra. É música simples, como as melhores coisas na vida são. Discos destes fazem crer que este mundo merece ser vivido.
Globalização
Se o Mundo só tivesse 100 pessoas, era tudo mais fácil de compreender. Um número redondo ajuda sempre. Convidei todos para uma festa cá em casa e ficou assim a guest list!
Metade dos 100 convidados são homens e outra metade
mulheres. Justo e perfeito! Se a gente não estragar nada, o futuro está
assegurado. Tem muito amor para acontecer.
As companhias aéreas seriam muito beneficiadas. Mais de
metade [60] vivem na Ásia. Da América do Sul viriam 9, acho que conheço quase
todos, das terras do Tio Sam e do Canadá 4, de África 14 e por via terrestre
apenas 11 europeus. O Oriente leva muita vantagem. Será que o Mundo vai ser
todo chinês?
Mandei 75 convites por telemóvel, mas como só 30 tinham
Internet, foi SMS para uns e Whatsapp para outros. Aos restantes 25 enviei
carta. Tomara que chegue a tempo; e que a saibam ler.
Os nossos convidados fazem muita coisa diferente. Mas
sobretudo vivem vidas muito desiguais. O Mundo não é bom para todos.
Como no género, também se dividem a meio no lugar onde
escolheram, ou têm, de viver. 51 em cidades e 49 no campo; e também a meio no
dinheiro que têm para gastar. 49 têm menos de dois dólares por dia. 1,77 euros,
menos de 8 reais. Ainda assim, 21 são gordos, 15 comem menos do que é preciso e
há um que está esfomeado. Vou organizar a ementa do jantar para responder a
isso.
Tanta diferença é mais fácil de entender se soubermos como
foi a infância de cada um. Embora 83 saibam ler e escrever, 17 não saberiam
entender o endereço cá de casa.
Apenas 7 acabaram a universidade, mas nem todos saberiam
falar entre eles. A maior diferença nos nossos convidados é a língua. Vejam só:
12 falam chinês, 5 espanhol e outros 5 inglês. Há quatro grupos de 3. Os
falantes de português, árabe, hindi e bengali. Dois falam russo, outros dois
japonês. Os outros sessenta e três falam cada um a sua língua! Babel! Je
comprend rien.
Para fazer a ementa e as mesas tomei em conta a religião. Há
33 cristãos que comem de tudo, 22 muçulmanos que não bebem álcool, 14 hindus
que não comem vaca, 7 budistas que são vegetarianos e 12 sem religião nenhuma
que se sentam onde quiserem.
No final, quando agradeci por terem vindo, desejei um bom regresso
a casa. Mas 23 ainda não foram embora porque não têm um teto para morar.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
11º F
“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Muita sorte e felicidade. Desejo que a alegria na vossa vida seja infinita e constante.
Acreditem na vossa força interior, vocês são capazes…
CCB
sábado, 10 de junho de 2017
Pensamento do Dia
“Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo.”
Oscar Wilde
quarta-feira, 7 de junho de 2017
quinta-feira, 1 de junho de 2017
Rufus Wainwright, Theatro Circo, 31 de Maio de 2017
Inserido no ciclo “Respira! – O piano como pulmão” promovido pelo Theatro Circo, Rufus Wainwright apresentou um concerto único nesta sala bracarense completamente esgotada. Sem formato banda, apenas alternando a utilização de um piano com uma guitarra acústica. Esperava um alinhamento baseado nos primeiros discos de estúdio, esquecendo as últimas incursões pela ópera, pelos sonetos de Shakespeare e por Judy Garland e foi isso mesmo que aconteceu.
“Agnus Dei” (de Want Two) teve as honras de abertura do espectáculo, revisitando de seguida os 7 álbums de estúdio (com excepção do disco menos conseguido de 2010, All Days Are Nights: Songs for Lulu), ora cantando com uma guitarra na mão, ora se sentando no piano para apresentar o próximo tema. “This Love Affair”, “Out Of The Game”, “Grey Gardens”, “Jericho”, “In My Arms” (aqui enganou-se na letra o que levou à gargalhada geral e a um forte aplauso) sucederam-se num ambiente bastante intimista. Wainwright mostrou-se muito comunicativo com o público. Referiu-se por duas vezes à cidade de Braga: quando visitou "umas 5 igrejas" e quando se deslumbrou com o Bom Jesus. Tentou, com sucesso, a comédia quando contou a sua recente passagem pelos arredores de Barcelona e pelo momento em que recebeu uma massagem de um profissional que não dominava a língua inglesa e que lhe pediu para “inspire” e “expire” (inhale, exhale) e que também lhe perguntou “Do you like depression?”…
O artista emocionou-se quando apresentou uma cover de Lhasa de Sela (falecida em 2010), a magnífica “I’m Going In”. Houve ainda tempo para apresentar uma nova canção “The Sword Of Damacles” que “soon will be released”, contando previamente que foi inspirada por uma amiga francesa chamada Bernardette. Anunciou que irá apresentar a sua primeira ópera "Prima Donna" na próxima semana em Paris e que já está a preparar a próxima ópera baseada no imperador Adriano.
Sem grande surpresa as últimas quatro canções foram: “Cigarettes And Chocolate Milk”, “Going To A Town” (a mais ovacionada da noite), “Hallelujah” (original de Leonard Cohen) e, surpreendentemente, encerrou a noite com “Poses”, do disco com o mesmo nome que verdadeiramente celebrizou Wainwright como compositor (nesta última interpretação voltou a esquecer-se da letra – “it’s getting late”, justificou o homem). Agradeceu e elogiou o público bracarense: "What a discovery!".
Rufus Wainwright provou que o artista é um bom artista, mostrou uma das suas facetas mais fortes, a de cantautor sozinho ao piano ou à guitarra, longe das orquestrações pomposas que costumam marcar presença nas suas canções. E tão cedo não se apagará esta actuação nas mentes de quem a presenciou.



















