1. Anna Burns – Milkman
2. Svetlana Aleksievitch – O Fim Do Homem Soviético
3. Michel Houellebecq – Submissão
4. António Lobo Antunes – Cartas da Guerra
5. Margaret Atwood – O Assassino Cego
6. Mons Kallentoft & Markus Lutteman – Leão
7. David Lagercrantz – O Homem Que Perseguia A Sua Sombra
8. André Canhoto Costa – Os Vícios Dos Escritores
9. Jaime Bulhosa – Pedra De Afiar Livros
10. Ali Smith – Primavera
11. Tom Clancy – O Cardeal Do Kremlin
12. Carlos Poças Falcão – Arte Nenhuma
A época que atravessamos é apropriada para a elaboração de balanços. E o resultado é de um saudável ecletismo; não por um desejo irreprimível de “ir a todas” mas pela simples constatação de que cada vez faz menos sentido espartilhar a música produzida por estes dias.
As listas de melhores discos do ano valem o que valem. Quero dizer, podem constituir um guia generoso e prático onde estão escarrapachados os discos mais marcantes do ano que passou, mas nunca devem ser lidas como se se tratassem das Sagradas Escrituras.
- Nick Cave and the Bad Seeds - Ghosteen
- Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow
- Fontaines D.C. - Dogrel
- Angel Olsen - All Mirrors
- Purple Mountains - Purple Mountains
- Vampire Weekend - Father of the Bride
- Lana Del Rey - Norman Fucking Rockwell
- The National - I Am Easy to Find
- FKA Twigs - Magdalene
- Billie Eilish - When We All Fall Asleep, Where Do We Go?
- Michael Kiwanuka - Kiwanuka
- Slipknot - We Are Not Your Kind
- Tool - Fear Inoculum
- Weyes Blood - Titanic Rising
- Thom Yorke - Anima
- Foals - Everything Not Saved Will Be Lost (Part 1)
- Cigarettes After Sex - Cry
- Swans - Leaving Meaning
- Ex:Re - Ex:Re
- Tindersticks - No Treasure But Hope
“Chernobyl” é uma minissérie épica da HBO em cinco partes que dramatiza os
acontecimentos do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, ocorrido a 26 de
abril de 1986, que dispersou uma nuvem radioativa pela Europa, contado pelas
histórias das pessoas que fizeram sacrifícios incríveis para salvar a Europa de
um desastre inimaginável.
Trata-se de um quadro implacável do pior acidente da história nuclear civil
e reproduz o ambiente na antiga URSS, que tentou ocultar o incidente durante
várias semanas, antes de resolver evacuar a zona, ainda inabitável mais de 30
anos depois.
O personagem principal é o diretor adjunto do maior centro de pesquisas da
URSS. A série concentra-se no heroísmo das personagens comuns, mas os altos
dirigentes soviéticos, começando pelo líder da época Mikhail Gorbachev, são
retratados como sendo carentes de valores e mentirosos.
Assistir à série é ficar com um nó na garganta do início ao fim, não só
porque temos a sensação de estarmos diante de algo nunca antes visto em
televisão, como também porque nos relembramos que a história contada foi
inspirada em factos verídicos. Por vezes até parece que estamos a apanhar com a
radiação…
As consequências de Chernobyl foram catastróficas, entre várias mortes,
deformações humanas e o completo abandono da cidade de Pripyat, na Ucrânia,
perto de Chernobyl, atualmente uma cidade fantasma. As partículas radioativas
continuam presentes no local, e quem visita a zona sem permissão é condenado a
pena de prisão.
O vídeo de apresentação do tema “Life Is Golden” incluído no álbum
de 2018 da banda britânica Suede, The Blue Hour, foi totalmente filmado
em Pripyat.
A arte não deve ser vista apenas como uma construção estética, mas também como um importante símbolo que serve para representar movimentos, posicionamentos, contar histórias e, principalmente, nos fazer reflectir.
O desafio que apresento AQUI consiste em identificar 100 obras de arte que considero essenciais em qualquer manual de História da Arte…
Quando, em 2014, At Least For Now começou a ouvir-se, não era previsível que Benjamin Clementine se tornasse um fenómeno de popularidade. Cantor negro britânico votado à vagabundagem desde os 16 anos, como um Jean-Michel Basquiat musical, parecia não encaixar nos parâmetros atuais da indústria, mais abertos ao hip-hop que à memória de Nina Simone. Clementine incorporava essa herança em canções com ecos de perda e dos anos de rua. O novo disco não é uma sequela. Clementine está mais desperto politicamente e, simultaneamente, mais aberto ao vocabulário pop. Uma faixa como «God Save the Jungle» lembra o Tom Waits mais lúgubre, mas aqui e ali o dramatismo recua, dando lugar a melodias quase corais como as de «By the Ports of Europe» ou «Ave Dreamer», ainda que seja nesta que repete que «The Barbarians are coming». Como o anterior, é um disco agridoce e teatral que nunca nos deixa perceber antecipadamente de onde vem a próxima ameaça.
Curiosa teoria económica anunciada nos Estados Unidos. O tipo chama-se Robert Stiglitz. É analista e empresário. Em Junho de 2008, quando a Administração Bush estudava o lançamento de um projeto de ajuda à economia americana, este economista escrevia na sua crónica mensal um comentário com muito humor:
“O Governo Federal está a estudar conceder a cada um de nós a soma de 600,00$. Se gastamos esse dinheiro no Walt-Mart, esse dinheiro vai para a China. Se gastamos o dinheiro em gasolina, vai para os árabes. Se compramos um computador o dinheiro vai para a Índia. Se compramos frutas, irá para o México, Honduras ou Guatemala. Se compramos um bom carro, o dinheiro irá para a Alemanha ou Japão. Se compramos bagatelas, vai para Taiwan, e nem um centavo desse dinheiro ajudará a economia norte-americana. O único meio de manter esse dinheiro nos E.U.A. é gastando-o com p**** ou cerveja, considerando que são os únicos bens realmente produzidos aqui. Eu já estou a fazer a minha parte...”.
Resposta de um economista PORTUGUÊS igualmente de bom humor:
“Estimado Robert, Realmente a situação dos americanos é cada vez pior. Lamento, no entanto, informá-lo que a cervejeira Budweiser foi recentemente comprada pela brasileira AB InBev. Portanto, ficam somente as p****. Agora, se elas (as p****), decidirem mandar o seu dinheiro para os seus filhos, ele virá diretamente para a Assembleia da República de Portugal, aqui em Lisboa, onde existe a maior concentração de filhos da p*** do mundo”.
Protagonizado por uma jovem de 18 anos, “Milkman”, a obra vencedora do Man Booker Prize de 2018, é uma “história de brutalidade, resistência e invasão sexual, tecida com um humor mordaz”, e embora nada seja declarado abertamente, situa-se nos anos 1970, na Irlanda do Norte, durante o conflito conhecido como “The Troubles”. Assim, para compreender esta história é fundamental recordarmos em que consistiu aquela disputa:
- de um lado, os lealistas (nacionalistas) - a maioria protestante que defende a manutenção dos laços políticos com a vizinha ilha da Grã-Bretanha, igualmente protestante, e a consequente manutenção da Irlanda do Norte no seio do Reino Unido;
- do outro lado, os integracionistas (unionistas) - a minoria católica que advoga a integração da “província” na República da Irlanda, predominantemente católica, com quem partilha o território da ilha. Exigem também a igualdade religiosa, nomeadamente a não discriminação da minoria católica no acesso a cargos públicos ou empregos.
Os católicos sentem-se, pois, uma minoria marginalizada, com direitos diminuídos face à maioria protestante. E isso alimenta um compreensível mas perigoso sentimento de revolta. Foi nesse contexto que entrou em cena o grupo paramilitar católico IRA (Irish Republican Army – Exército Republicano Irlandês). Lutou pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido, defendendo a anexação à República da Irlanda recorrendo a métodos terroristas, incluindo ataques bombistas e emboscadas com armas de fogo contra alvos protestantes – de políticos unionistas (protestantes) a representantes do governo britânico.
Escrito de uma forma muito original, “Milkman” descreve a relação entre aquela jovem - que não tem nome, ninguém no livro tem nome, todos são referidos por relações, funções ou características, incluindo todos os locais (países e cidades) - e um homem mais velho, que a assedia sexualmente – o famigerado “leiteiro” anunciado no título –, o que leva ao surgimento de um rumor, rapidamente espalhado pela cidade, de que os dois têm um caso. O boato destrói, insidioso, as relações da narradora.
A jovem é referida como a irmã do meio, e fala da família da mesma forma: a mãe, a primeira irmã, a segunda irmã, a terceira irmã, as irmãs pequenas, o primeiro cunhado, o terceiro irmão, etc. Além disso, outros personagens que são importantes na narrativa também são chamados assim, como o namorado “mais ou menos”, a amiga “há mais tempo”, o rapaz da guerra nuclear e o Coiso e Tal. Vive sempre com medo e desconfiança num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às “milícias”) são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos “do lado de lá”; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas.
Burns conduz-nos pelos pensamentos de uma jovem que se recusa a aceitar o que parece obrigatório e que não pensa em casar-se nem em constituir família. E isso faz dela uma suspeita. Desta forma, esta obra evidencia de forma brilhante o poder da maledicência e a pressão social numa comunidade muito fechada, e demonstra como os boatos e as lealdades políticas podem ser colocados ao serviço de uma persistente campanha de assédio sexual.
A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha por gostar de viver noutros séculos que a literatura lhe oferece) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Denso e sedutor, torrencial e arrebatador, "Milkman" é o grande romance sobre o desconhecido porque o leitor não sabe quem é o leiteiro, não sabe o que vai acontecer à “Irmã do Meio” e muito menos sabe sobre o fim das hostilidades militares nesta cidade não nomeada.
O confronto entre protestantes e católicos provocou uma violência extrema durante cerca de 30 anos e foi marcado pela manifestação de 30 de Janeiro de 1972, em Londonderry, conhecida como “Bloody Sunday” (morreram 14 manifestantes católicos, com tiros provenientes de soldados ingleses); pelos atentados entre 1972 e 1998, em Guildford, Woolwich e Birmingham, executados pelo IRA e pela morte de Louis Mountbatten, primo da rainha Elisabeth II, em 1979. Finalmente, no dia 10 de Abril de 1998 foi assinado o Acordo de Belfast (ou Acordo da Sexta-Feira Santa) que terminou com “The Troubles” e estabeleceu as bases para um governo de poder partilhado entre católicos e protestantes.
No cinema abundam obras que abordam estas décadas de conflitos e que ajudam a compreendê-los (para informação adicional clicar no nome do filme):
1. Bloody Sunday (“Domingo Sangrento”), 2002, de Paul Greengrass (sobre a tal manifestação de domingo, 30 de janeiro de 1972);
2. In the Name of the Father (“Em Nome do Pai”), 1993, de Jim Sheridan (sobre o atentado no pub de Guilford em 1974 e com o desempenho fantástico de Daniel Day-Lewis);
3. The Boxer (“O Boxeur”), 1997, de Jim Sheridan (que aqui volta a trabalhar com Daniel Day-Lewis);
4. The Devil's Own (“Perigo Íntimo”), de 1997, de Alan J. Pakula (sobre a fuga do líder do IRA Francis McGuire para Nova Iorque e que conta no elenco com Brad Pitt e Harrison Ford);
5. Michael Collins, 1996, de Neil Jordan (baseado na vida do revolucionário irlandês Michael Collins);
6. Hunger (“Fome”), 2008, de Steve McQueen (decorre em 1981, ano em que um grupo de irlandeses do IRA, liderados por Bobby Sands, iniciaram uma greve de fome na prisão);
7. Some Mother's Son (“Em Nome do Filho…”), 1996, de Terry George (luta de duas mães, sendo uma delas a mãe de Bobby Sands, pela vida dos seus filhos);
8. Shadow Dancer (“Dança das Sombras”), 2013, de James Marsh (na Belfast dos anos 90, uma mulher, membro ativo do IRA, é forçada a tornar-se informadora do MI5 para proteger o filho);
9. Fifty Dead Men Walking (“Na Senda dos Condenados”), 2008, de Kari Skogland (baseado na história real de Martin McGartland, um jovem de Belfast que é recrutado pela polícia para se infiltrar no IRA);
10. The Crying Game (“Jogo de Lágrimas”), 1992, de Neil Jordan (explora temas como o terrorismo na Irlanda, transexualidade e racismo);
11. The Wind that Shakes the Barley (“Brisa de Mudança”), 2006, de Ken Loach (sobre a independência da Irlanda, nos anos 20 do século passado, os primeiros passos do IRA e o acordo que levou à criação da Irlanda do Norte e à criação do estado irlandês);
12. Five Minutes Of Heaven (“Cinco Minutos de Paz”), 2009, de Oliver Hirschbiegel (um membro de um grupo paramilitar protestante mata um católico e 33 anos tarde há um reencontro: um procura a redenção o outro só pensa em vingança);
13. '71, 2014, de Yann Demange (imersão expressionista nas ruas de Belfast de inícios dos anos 70, quando o conflito entre protestantes unionistas e católicos independentistas está ao rubro);
14. Hidden Agenda (“Agenda Secreta”), 1990, de Ken Loach (passado na violenta Belfast dos anos 1980 destacando-se o terrorismo praticado por grupos como o IRA, mas também a resposta que lhe é dada, à margem da lei, pelas forças de segurança britânicas);
15. In America (“Na América”), 2002, de Jim Sheridan (sobre a vida de uma família irlandesa que emigra para Nova Iorque);
16. Odd Man Out (“A Casa Cercada”), 1947, de Carol Reed (história de um membro ativo do IRA que foge da prisão e decide roubar um banco para ajudar a causa);
17. Mickybo and Me, 2004, de Terry Loane (sobre a amizade entre dois meninos de 8 anos, um de uma família protestante e outro de uma família católica e juntos tornam-se grandes admiradores de famosos bandidos do faroeste);
18. A Prayer For The Dying (“Os Guerrilheiros da Sombra”), 1987, de Mike Hodges (um ex-activista deixa o IRA depois de uma crise de consciência que o leva a questionar os ideais pelos quais lutou durante toda a sua vida);
19. Cal (“Tempo de Guerra”), 1984, de Pat O'Connor (um jovem membro do IRA vive um romance com uma mulher católica que viu o seu marido, um polícia protestante, ser morto pela organização terrorista um ano antes de se conhecerem);
20. An Everlasting Piece, 2000, de Barry Levinson (comédia passada em Belfast, nos anos 80, onde um católico e um protestante, ambos barbeiros, tornam-se parceiros de negócios e começam a vender perucas com bastante sucesso).
Na televisão estreou recentemente a série Derry Girls passada na Irlanda da mesma época, uma comédia leve, que tem um tom completamente diferente de “Milkman”.
Este é um livro triste mas profundamente poético. Um verdadeiro tratado sobre a amizade, como afirmou Inês Pedrosa. A prosa de Márai é construída sobre um discurso tranquilo, melódico, profundo. Sem dúvida uma escrita sentida e sofrida.
Durante a Segunda Guerra Mundial, num velho castelo da Hungria, um antigo general de 73 anos, Henrik, espera Konrad para com ele ter uma última conversa. Konrad havia sido mais que o seu melhor amigo. Tinha sido um autêntico irmão até ao momento em que, 41 anos antes, algo dramático os separou. Um grande e terrível segredo ia agora ser enfrentado pelos dois. Todo o valor da sua intensa amizade e todo o significado do intenso amor por Krisztina seriam agora sopesados nesta derradeira batalha que os dois enfrentarão.
A tragédia de Henrik levara-o ao imobilismo; uma inação que é uma espécie de morte em vida. Essa espera, esse nada-fazer, essa morte voluntária, talvez seja a tragédia maior para o ser humano. É uma recusa total da vida, como se depois da tragédia nada mais valesse a pena. Talvez a razão maior da infelicidade humana seja esta incapacidade em prosseguir os caminhos da vida quando não se consegue compreender e aceitar aquilo a que, comodamente, chamamos destino; esta incapacidade para encarar o presente, sem deixarmos que ele se sobreponha aos desaires do passado. E depois fica a procura da culpa; a busca tão inútil quanto irresistível da culpa. E é a vida que fica, inexoravelmente, para trás.
Henrik interrompeu a sua vida aos 32 anos e esperou mais 41 para terminar esse julgamento; e, no final, não culpou Konrad nem Krisztina; culpou o destino. Quarenta e um anos depois, Henrik procura apenas lavar a verdade com palavras; com a catarse da memória. Perante Konrad, resta-lhe enfrentar a memória. Mas nada apagará 41 anos de solidão, que é uma espécie de morte.
- Margaret Atwood - O Assassino Cego
- Nuno Galopim - Afonso VI - O Indesejado
- Nick Hornby - Era Uma Vez Um Rapaz
- Olivier Guez - O Desaparecimento De Josef Mengele
Ensinarás a cantar,
Mas não cantarão a tua canção.
Ensinarás a pensar,
Mas não pensarão como tu.
Porém saberás que cada vez que voarem,
Sonharem, viverem, cantarem e pensarem
Estará lá a semente do caminho ensinado e aprendido!"
Madre Teresa de Calcutá
Ao fim de dois anos de trabalho
intenso, espero ter contribuído para que todos sejam um pouco mais conscientes
do mundo que os aguarda. Não se esqueçam que as dificuldades são como as
montanhas, pois só se aplainam quando avançamos sobre elas.
É o convívio com alunos assim que
faz desta profissão de Professor algo de maravilhoso e único.
Desejo a todos as maiores
felicidades e que o futuro vos sorria.
O ano ainda está no início e provavelmente está encontrado um dos melhores discos do ano: “Remind Me Tomorrow” de Sharon Van Etten.
Antes deste novo álbum, Sharon editou cinco discos, entre 2009 e 2015, álbuns essencialmente de ruptura amorosa e de coração despedaçado. Após 2015 a sua vida mudou muito: fim de relações, início de outras, um filho, digressões, pausas, representação (na série “The AO” e num episódio de “Twin Peaks”) e um curso de psicologia. Foram tempos de descoberta e mudança. Quando regressou ao estúdio, decidiu experimentar e fez um disco menos óbvio, que exige mais atenção da parte de quem o ouve. É um disco honesto e ambicioso. É um corpo coeso, mas tem uns quantos pontos chave que fazem a diferença:
“Seventeen”. É uma grande canção. Enorme. Enorme canção. Dá para tudo. Para dançar e para pensar na vida. Para nos lembrarmos de quando tínhamos 17 anos ou para chegarmos à conclusão de que não fizemos nada de jeito quando tínhamos 17 anos. E por isso canta “I wish I could show you how much you’ve grown”. Tem um piano nos acordes menores certos para chorar, é nervosa, é ansiosa, é tranquila, mas um bocado a fingir. E tem um momento em que Sharon Van Etten perde a noção dos limites da sua voz e deita tudo para fora de uma forma absolutamente arrepiante. Já o fez ao vivo, está em vídeo e é de ver, rever, repetir e repetir outra vez.
“Comeback Kid”. O primeiro single ideal. Perfeito para atirar uma de “então pensavam que já tinham visto tudo o que eu tinha para dar?”. Um misto de tanta coisa, esta cantiga. Dancing para o século XXI que gosta de bailar como faziam algumas das estrelas pop dos anos 80, mais místicas, mais góticas, o que quiserem chamar-lhe. Batida deliciosa, belo momento de inspiração.
“Jupiter 4”. É uma canção de amor, é um agradecimento por um amor em particular, pelo amor em geral. É um desejo de amor para o mundo todo, o mundo que a quiser ouvir. E é tudo isto sobre um formato maquinal e robótico, a música é fria, quase gélida, é o amor a acontecer num ambiente digital onde não há calor em lado nenhum. Mas é a mesma canção em que Sharon canta “a love so real”. Repete a frase quatro vezes no final do tema. Estas contradições ficam-lhe tão bem. É que ficam mesmo. E esta “Jupiter 4” (que é o nome de um modelo de sintetizador da marca Roland) é de uma beleza tremenda. Sharon, cantas isto tão bem, pá. Tão bem.
“I Told You Everything”. É um delicioso filme miserável. Duas pessoas num bar numa conversa difícil. Duas pessoas que têm coisas tramadas para discutir. Não sabemos qual é o tema, não sabemos o que aconteceu antes daquele momento e não sabemos como termina. Mas essa ausência de respostas torna a canção muito mais nervosa, há muito mais ansiedade naquelas poucas notas que por ali andam, meio a flutuar, meio presas ao chão. É uma forma muito densa e dramática de começar um disco, mas é uma forma perfeita de o fazer. E sabemos que uma canção é boa quando a ouvimos e ao mesmo tempo vemos as respectivas personagens à nossa frente, sem a ajuda de álcool ou de qualquer outro amigo da imaginação colorida.
“Remind Me Tomorrow” é um belíssimo caos organizado onde Sharon Van Etten persegue, agora a todo o vapor, algumas das emoções mais sombrias, mas propulsivas que sempre se vislumbraram nos limites da sua música.
Este é um livro surpreendente, divertido, magnífico. Hooward Jacobson pratica a arte de brincar com coisas sérias.
Julian Treslove era um homem vulgar que não conseguia imaginar uma solidão maior que a sua. Sonhava poder ser ao menos um viúvo; ao menos poder ter tido uma mulher nos braços. Julian era um homem só. Algo faltava na sua vida, sem que ele o pudesse identificar. Julian Treslove invejava Finkler; ele era Finkler e ao mesmo tempo um finkler - um judeu. Era inteligente e imponente.
Houve uma época em que Finkler, professor de filosofia, escreveu quatro livros de autoajuda e ficou rico. Finkler tornou-se mais que um finkler. Treslove queria ser como ele mas não o podia revelar, nem sequer admitir.
A partir daqui, Jacobson constrói um enredo em que o riso esconde uma reflexão poderosa sobre a identidade judaica. Nunca tão bem se escreveu uma comédia sobre coisas muito sérias. O autor coloca-nos um sorriso nos lábios ao mesmo tempo que nos faz encarar de frente o Holocausto (“lá vamos nós outra vez!”), a faixa de Gaza e, acima de tudo, a angústia de ser judeu, com todas as contradições que a história foi construindo em torno deste povo.
De espírito melancólico, Treslove, na sua juventude, apaixonou-se por novelas românticas e ópera. Não aprendeu música porque não tinha ninguém para quem tocar.
O segundo amigo de Julian é Libor, um judeu de 90 anos que havia sido seu professor. Libor tivera uma vida feliz como marido e como judeu. Mas acabará a sua vida desiludido. Quase envergonhado.
Um dia uma mulher assaltou Treslove e chamou-lhe judeu. Ou pareceu-lhe ter ouvido tal insulto. Isto mudará a sua vida. A partir daí Julian reconstruirá a sua personalidade; ele havia de ser um judeu. Havia de aprender iídiche e haveria de casar com uma judia bem gorda – muita mulher judia. Antes disso haveria de ter um caso com a mulher de Finkler que ele julgava judia. Por um lado, era a esposa do amigo que invejava (“ele estava a pedi-las”) por outro lado, era uma judia e ele estava sedento de judaísmo.
Mas é com Hephzibah, uma imponente mulher judia, uma personagem fortíssima, sobrinha-bisneta de Libor que ele veio a casar e a realizar-se, pelo menos provisoriamente. Hep era uma mulher rechonchuda – a primeira mulher saudável da vida de Julian.
Finkler, crítico mordaz do sionismo se bem que nunca prescindindo dos seus objetivos individuais, torna-se um judeu envergonhado. Pode ser-se isso sem ter vergonha de si próprio? Esta é, talvez a questão fulcral deste livro: a sua identidade como judeu e a identidade do povo judeu. Como conciliar o ser individual com o grupo ao qual ele está umbilicalmente ligado? Os judeus são vítimas da história. Mas… e a Faixa de Gaza? E os colonatos? A desunião é cada vez mais visível. Os críticos do sionismo são os envergonhados. No entanto, nem eles deixam de ser vítimas do anti-semitismo. Por outro lado, de certa forma, também eles são anti-semitas. É este mundo confuso, esta miscelânea de interesses e angústias que povoa a vida de Libor, Finkler e Treslove.
O efeito humorístico desta situação deriva, em grande parte do facto de Treslove ser uma espécie de retrato invertido de Finkler: ele é o gentio que quer ser judeu, que é atraído por uma certa melancolia própria da alma judaica e Finker é o judeu envergonhado, que procura no sucesso individual um certo triunfo sobre a realidade histórica em que está envolvido. Ambos lutam contra a sua própria identidade. Quando, finalmente, Treslove se torna judeu, encontra a angústia e a desgraça…
A experiência de ligar para uma linha de apoio está a tornar-se cada vez pior. Na última vez que liguei para um Hospital Privado demorei vários minutos até finalmente falar com alguém.
Publicidade, promoções, Já Sabia Que…?, etc. Diga sim, se é o assunto certo; caso contrário, mantenha-se em silêncio e escolha uma das seguintes opções:
1 – quer ouvir uma ladainha sobre os nossos espectaculares serviços e promoções?
2 – quer perder 15 minutos a falar com a assistente que, apesar da simpatia, nada poderá fazer porque a culpa é do sistema?
3 – quer esperar 45 minutos a ouvir “Master Of Puppets” dos Metallica em versão “pan pipes” e depois falar com outra assistente que, apesar da simpatia não conseguirá resolver nada e vai passar a chamada que nunca será feita porque a ligação vai cair?
Obrigado por ter ligado para a nossa linha de apoio. Clique. SMS – A chamada que fez não está incluída na sua mensalidade, por isso toca a desembolsar mais uns euros. É um prazer estar aqui para cobrar, perdão, para servi-lo.
E já conhecem o novo voice mail das escolas? Para escutá-lo é só carregar AQUI…
Não há como evitar. Chegada esta altura do ano perdemos algum tempo a tentar elencar os melhores do ano na música que foi sendo feita. É o tipo de eleição que vale o que vale, pois tenho para mim que a música não é a mesma coisa que uma corrida de Fórmula 1.
- Low - Double Negative
- Idles - Joy As An Act Of Resistance
- Cat Power - Wanderer
- Shame - Songs of Praise
- Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel & Casino
- Snail Mail - Lush
- Father John Misty - God’s Favorite Customer
- The Saxophones - Songs of the Saxophones
- Car Seat Headrest - Twin Fantasy
- The Breeders - All Nerve
- Spiritualized - And Nothing Hurt
- Yo La Tengo - There’s a Riot Going On
- Lucy Dacus - Historian
- Marlon Williams - Make Way for Love
- Anna Calvi - Hunter
- Iceage - Beyondless
- Kurt Vile - Bottle It in
- Wild Pink - Yolk In The Fur
- Belle & Sebastian - How To Solve Our Human Problems (Parts 1-3)
- Beach House - 7
1. Yuval Noah Harari – Sapiens – De Animais A Deuses – História Breve Da Humanidade
2. Gunter Grass – Descascando A Cebola
3. Javier Marias – Berta Isla
4. Halldór Laxness – Os Peixes Também Sabem cantar
5. Jennifer Egan – A Praia De Manhattan
6. Herta Muller – Hoje Preferia Não Me Ter Encontrado
7. Arturo Pérez-Reverte – Homens Bons
8. Frank McCourt – O Professor
9. Paul Theroux – Comboio-Fantasma Para O Oriente
10. Enrique Vila-Matas – Suicídios Exemplares
11. Elena Ferrante – História De Quem Vai E De Quem Fica
12. Bruno Vieira Amaral – As Primeiras Coisas
1. Jarvis Cocker – Baby’s Coming Back To Me 2. Zola Jesus – Wiseblood 3. Leon Bridges – River 4. Kings Of Leon – Over 5. Wild Beasts – Plaything 6. Palma Violets – 14 + Brave New Song 7. Courage My Love – Animal Heart 8. Billie Eilish – Copycat 9. Heaven – It’s Not Enough 10. The Lumineers – Dead Sea 11. Temples – The Golden Throne 12. Jonathan Wilson – Waters Down 13. Jenny Hval – Female Vampire 14. Nick Cave & The Bad Seeds – Push The Sky Away 15. Destroyer – Chinatown 16. Jamie Woon – Night Air 17. College & Electric Youth – A Real Hero 18. Sufjan Stevens – Tonya Harding 19. Cecilia Krull – My Life Is Going On 20. La Casa de Papel – Bella Ciao
Com oitenta e cinco anos de idade, Jack Gil, espião britânico em Portugal durante a segunda guerra mundial, recorda as suas aventuras naquele período, numa Lisboa que vivia a Guerra de uma forma diferente, num autêntico ninho de espiões e contra-espiões.
No entanto, mais do que um relato dos problemas políticos da época, é um reviver de memórias pessoais e românticas. O rumo da narrativa é mais “as mulheres de Jack” do que “Jack, o espião”. Quer dizer, estamos perante uma espécie de James Bond para quem as bond girls são mais importantes do que as suas funções como espião.
Não se trata de uma obra literária de grande fôlego; as personagens são caracterizadas de forma algo superficial e o enredo é algo previsível. Mas há outros aspetos que me fazem recomendar este livro.
Em primeiro lugar, é uma leitura fácil e divertida. A emoção não falta, os diálogos são simples e diretos, não há descrições nem reflexões enfadonhas. É uma leitura que prende o leitor pela emoção e suspense.
Em segundo lugar (e este é o aspecto que considero mais importante), é um romance bastante pedagógico porque desfaz alguns mitos muito arreigados na mente simplista de muita gente: tal como a revista Visão explicava há pouco tempo, Salazar não teve grande mérito na famigerada neutralidade portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial. Salazar manteve Portugal fora da Guerra porque, na verdade, a Inglaterra nunca teve qualquer interesse na nossa participação porque não estava interessada em criar mais uma frente de combate. Por outro lado, foi Hitler que nunca quis invadir a Península Ibérica por considerar Portugal e Espanha países amigos.
Este livro mostra-nos bem que essa neutralidade nunca existiu: o Portugal de Salazar colaborou claramente com a Alemanha de Hitler, quer através do fornecimento de volfrâmio para o armamento alemão, quer pelo apoio ou pelo menos o “fechar os olhos” a combates aéreos que se deram em território nacional, a ataques sistemáticos dos submarinos alemães a navios aliados em águas portuguesas ou a perseguições a refugiados por parte dos espiões alemães.
Em suma, estamos perante um livro que merece ser lido pela leveza com que aborda o assunto mas também pela informação que podemos retirar do livro sobre este período tão controverso da história contemporânea portuguesa.
1. Marlon Williams & Aldous Harding - Nobody Gets What They Want Anymore
2. Cigarettes After Sex - Crush
3. First Aid Kit - Rebel Heart
4. Ty Segall - My Lady’s On Fire
5. Unknown Mortal Orchestra - Everyone Acts Crazy Nowadays
6. Courtney Barnett - Need A Little Time
7. Protomartyr (Ft. Kelley Deal) - Wheel Of Fortune
8. Beach House - Black Car
9. The Kills - List Of Demands (Reparations)
10. Lower Dens - Hand Of God
11. Simian Mobile Disco - Hey Sister
12. Chvrches (Ft. Matt Berninger) - My Enemy
13. Gulp - Morning Velvet Sky
14. Young Fathers - Toy
15. Superorganism - Everybody Wants To Be Famous
16. Adrianne Lenker - Symbol
17. Spiritualized - Here It Comes (The Road) Let’s Go
18. Christine And The Queens (Ft. Dâm-Funk) - Girlfriend
19. Haley Heynderickx - The Bug Collector
20. Father John Misty - God’s Favorite Customer
Não será fácil juntar canções tão ecléticas quanto aquelas que Torres selecionou para este terceiro álbum, Three Futures, quando tudo gira em torno de uma voz tão vincada… mas a norte-americana fá-lo com distinção. Afastada das guitarras ásperas e ambientes tendencionalmente lo-fi do antecessor Sprinter, pega numa paleta onde permanecem os tons do rock que sempre abraçou mas na qual inclui novas cores, mais garridas e de hoje. A espiral sintetizada do magistral «Helen in the Woods» rouba o protagonismo num disco que ainda nos oferece, sempre com uma certa dose de violência latente, a passada sombria de «Tongue Slap Your Brains Out», a intimidade de «Skim» e «Three Futures», as picadas eletrónicas de «Bad Baby Pie» e «To Be Given a Body» e a assertividade de «Righteous Woman».
Ontem faleceu um dos meus escritores contemporâneos
favoritos, Philip Roth (outros são, por exemplo, o também norte-americano Paul
Auster, os britânicos David Lodge e Ian McEwan e o japonês Haruki Murakami).
Philip Roth morreu aos 85 anos, publicou mais de 30 obras, a
maioria publicada em Portugal, sendo os temas recorrentes essencialmente a
cultura na América, o sexo, o anti-semitismo, a morte e a luxúria. A título de
exemplo, AQUI podem ler a minha opinião sobre três das suas obras.
A Matemática é um desafio aliciante para uns e uma grande dor de cabeça para outros, mas poucos lhe ficam indiferentes - até porque não dá para fugir dela na escola. Nos dois enigmas que apresento abaixo é só fazer contas e juntar alguma perspicácia.
Não custa nada tentar, pois as contas de somar que surgem nestes problemas, aparentemente erradas, têm uma lógica. No primeiro enigma devemos procurar uma explicação lógica para as diversas "igualdades" e no segundo desafio encontrar o valor em falta.
Para mais enigmas é só abrir o ficheiro ao lado intitulado "Quebra-Cabeças (nº 8)", que contém mais de 250 problemas matemáticos.
O segundo disco de Julien Baker assume a sua missão de diário confessional. Não de uma artista jovem, que o é, mas sim de uma artista madura. Tal como aconteceu em Sprained Ankle, usa as canções de Turn Out The Lights para fazer um retrato de si mesma. Um retrato duro e auto depreciativo. Ao piano ou à guitarra, com a ajuda ocasional de sopros ou cordas, Baker apresenta um conjunto de baladas onde expõe e expurga os seus fantasmas e receios num disco que transparece como honesto. Entrar aqui é aceitar os termos do contrato; ninguém vem para encontrar um escape, somente para dar de caras com a dura realidade. E no caminho encontrar canções de enorme beleza. Quem entrar depois feche a porta a apague as luzes.
A citação, supostamente de Albert Einstein, “há duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta”, é daquelas expressões que “bombam” nas redes sociais e confere ao autor do post uma espécie de grandeza intelectual e filosófica.
Fico surpreendido com as pessoas que se indignam com a estupidez dos adolescentes, como se a sua estupidez adolescente tivesse sido imaculada. Ainda mais surpreendido fico com quem se admira que os adolescentes, na sua estupidez inescapável, mas de expressão contemporânea, gravem e partilhem publicamente os exercícios imberbes a que naturalmente se dedicam.
Os indignados são provavelmente os mesmos pais que mostram online os seus filhos – de cara destapada -, praticamente desde que nascem. E são os mesmos pais que expõem diariamente a sua banal intimidade nas redes sociais. Dão um mau exemplo e estabelecem as regras para uma nova e estranha normalidade, em que não há qualquer problema na exibição pública do que devia ficar sempre na esfera privada. Ao menos para ensinar aos filhos que a estupidez na net é eterna.
Lana Del Rey tem apurado o seu estilo de pop cinemática, conduzido pela sua voz de contralto melancólico, qual máquina do tempo que nos transporta para a altura em que os homens faziam serenatas à janela da mulher desejada e para os tempos onde a criança se divertia na rua e só era chamada para casa à hora do Jantar.
Desde Honeymoon que Del Rey arranja a caminha perfeita para a sua voz. Não há rasgos de guitarra, baixos a bombar ou instrumentação grandiosa; só uma música de cariz retro qb, com arranjos de piano e eletrónica sofisticada.
Com a mesma honestidade com que no passado escreveu sobre sexo desenfreado, drogas, álcool e várias formas de dor autoinfligida, Del Rey em Lust For Life, disco lançado em 2017, mostra-se apaziguada com as agruras da vida, como as traições - «In My Feelings», uma das melhores canções do disco, é aparentemente dedicada a um desgosto amoroso com o rapper G-Easy. «White Mustang» e «Groupie Love» são mais duas canções dolentes que serpenteiam num deserto de amor não correspondido. Da nova colaboração com A$AP Rocky e Playboi Carti surge outra canção para degustar ao entardecer com o pé na água salgada, «Summer Bummer», e os duetos com Stevie Nicks, The Weeknd e Sean Lennon são escolhidos a dedo. Lust For Life tem poucas falhas e «Love» é a introdução perfeita para um disco esperançoso, seguro, onde Del Rey celebra a força da juventude de hoje, com o romantismo de outros tempos – flores no cabelo, vestidos curtos e Fords descapotáveis dos anos 50.
A música de Del Rey reflete sobre as experiências dos jovens da sua geração (e dela própria) e, estilisticamente, apela à nostalgia pelo passado de uma América idealizada.
1. Jonathan Wilson - Loving You
2. Wolf Alice - Sadboy
3. Belle and Sebastian - We Were Beautiful
4. Wooden Shjips - Staring At The Sun
5. First Aid Kit - Fireworks
6. Shame - Angie
7. Car Seat Headrest - Beach Life-In-Death
8. Sunflower Bean - Twentytwo
9. MGMT - When You Die
10. Neko Case - Halls Of Sarah
11. Marlon Williams - Come To Me
12. The Breeders - MetaGoth
13. N.E.R.D. - Deep Down Body Thurst
14. Sufjan Stevens - Mystery of Love
15. Sharon Van Etten - Do You Realize?
16. Toy - You Make Me Forget Myself
17. Jack White - Connected by Love
18. Anna Burch - 2 Cool 2 Care
19. Andra Day (Ft. Common) - Stand Up For Something
20. Oneohtrix Point Never (Ft. Iggy Pop) - The Pure And The Damned
- David Lagercrantz – A Rapariga Apanhada Na teia De Aranha
- Zoran Zivkovic – O Último Livro
- Colleen McCullough – Agridoce
- Umberto Eco – A Vertigem Das Listas
- Yuval Noah Harari – Sapiens – De Animais A Deuses – História Breve Da Humanidade
1. Ana Margarida de Carvalho – Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato
2. George Saunders – Lincoln No Bardo
3. Alberto Manguel – A Biblioteca À Noite
4. Charles Dickens – História Em Duas Cidades
5. Ildefonso Falcones – Os Herdeiros Da Terra
6. Jean-Paul Didierlaurent – O Leitor Do Comboio
7. Elena Ferrante – Crónicas Do Mal De Amor
8. Paul Theroux – Mão Morta
9. W.G. Sebald – Austerlitz
10. Charles Dickens – Os Cadernos De Pickwick
11. Kazuo Ishiguro – O Gigante Enterrado
12. Marc Rousins – Biografia Do Filme
Existem discos que nos dizem coisas sobre o mundo, discos que nos põem a dançar no mundo de formas que nem julgávamos possíveis, discos que nos explicam, ponto por ponto, que raio andamos aqui a fazer neste tal mundo, discos que nos deixam intrigados e fascinados e assombrados. Eis os discos que mais me assoberbaram em 2017.
- Wolf Alice – Visions Of A Life
- Aldous Harding – Party
- The National – Sleep Well Beast
- The XX – I See You
- LCD Soundsystem – American Dream
- Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex
- Circuit Des Yeux – Reaching For Indigo
- The Horrors – V
- Courtney Barnett & Kurt Vile – Lotta Sea Lice
- ∆ (alt-j) – Relaxer
- Nadia Reid – Preservation
- Thurston Moore – Rock N Consciousness
- Broken Social Scene – Hug Of Thunder
- Arcade Fire – Everything Now
- Father John Misty – Pure Comedy
- Fever Ray – Plunge
- The War On Drugs – A Deeper Understanding
- Julie Byrne – Not Even Happiness
- Mark Lanegan Band – Gargoyle
- Alvvays – Antisocialites
1. Portugal. The Man – Feel It Still
2. The XX – Lips
3. Laura Marling – Nothing Not Nearly
4. MGMT – Little Dark Age
5. Father John Misty – So I'm Growing Old On Magic Mountain
6. Marika Hackman – Boyfriend
7. Cigarettes After Sex – Opera House
8. Superorganism – Something For Your M.I.N.D.
9. Mark Lanegan – Emperor
10. Courtney Barnett & Kurt Vile – Fear Is Like A Forest
11. Young Fathers – Only God Knows
12. Noel Gallagher's High Flying Birds – It’s A Beautiful World
13. Goldfrapp – Anymore
14. The War On Drugs – Thinking Of A Place
15. LCD Soundsystem – Call The Police
16. ∆ (alt-j) – 3WW
17. Sampha – (No One Knows Me) Like The Piano
18. Palo Waves – There’s A Honey
19. Zola Jesus – Sea Talk
20. Jungle – Busy Earnin'
Haley Fohr, que assina já o quarto álbum como Circuit Des Yeux, nesta preciosidade chamada "Reaching For Indigo" apresenta uma imponente voz grave associada a uma impressionante exploração sonora, feita de manipulação de sons de proveniência diversa. Esta singer-songwriter folk, introspectiva, tem uma voz que parece transformar-se, ora masculina ora feminina, ora calmante ora perturbadora, ora negra ora resplandecente. Este disco é um mistério constante e um arrebatamento. Excelente.
O sueco Jay-Jay Johanson anda a festejar os 20 anos decorridos desde a sua estreia com o inebriante álbum “Whiskey”. Assim, não é de estranhar que na setlist deste espectáculo tenham prevalecido os temas deste disco, iniciando o alinhamento precisamente com “It Hurts Me So”, “So Tell The Girls That I’m Back In Town”, “The Girl I Love Is Gone”, “I Fantasize Of You” e a delicada “I’m Older Now”, que começou com Jay-Jay a cantar à capella, enquanto o público ouvia com um silêncio respeitoso. Fazendo acompanhar-se pelo baterista e teclista habituais, tendo-se este último, Erik Jansson, ouvido nos coros em “Mana Mana Mana Mana”. As versões soaram exactamente iguais aos originais: não houve qualquer tentativa de actualização. Passados 20 anos, este anti-herói romântico ainda mantém a elegância e a delicadeza na sua música, misturando batidas soturnas, sonoridades jazzy e uma voz suave.
Durante uma hora e quarenta e cinco minutos e mais de duas dezenas de temas, em formato best of e sempre acompanhados por um filme-concerto (sem qualquer sequência lógica com o que estava a ser cantado!), Jay-Jay com o seu timbre tão característico, manteve toda a essência da sua música: uma facilidade inata para as melodias e uma voz e ritmos que elevam as suas canções do subtil ao sublime. As suas oscilações entre o trip-hop e a electrónica, entre o jazz e a pop possibilitaram incursões por quase todos os seus 11 álbuns. Do mais recente, “Bury The Hatchet” ouviram-se “Paranoid”, “Bury The Hatchet” e a belíssima “You’ll Miss Me When I’m Gone”. Para deixar brilhar os dois companheiros, o cantor escondeu-se muitas vezes na sombra enquanto bebericava um copo de whisky.
A inconfundível voz de crooner de Jay-Jay Johanson fez-se ouvir em “Believe in Us”, “Far Away”, “She’s Mine But I’m Not Hers”, “Tomorrow”, “Milan, Madrid, Chicago, Paris”, “Dilemma”, “She Doesn’t Live Here Anymore”, “On The Other Side”, música que nasceu em Portugal, escrita durante um soundcheck de um concerto no nosso país, e “I Love Him So”. Esta última faixa nasceu da circunstância de o filho de Jay-Jay ter sido operado quando tinha apenas um ano de idade. Enquanto o filho estava deitado na mesa de operações, na sala de espera Jay-Jay escrevinhava furiosamente no bloco de notas as bases para esta canção. Johanson afirma que todas as suas composições partem de acontecimentos da sua vida – a sua maior fonte de inspiração é o seu diário.
O artista nórdico revelou-se um pouco repetitivo na forma como interpretou os temas, por vezes sugerindo alguma timidez, mas manteve sempre uma postura simpática, terminando os temas com um sonoro “Thank You”. Beneficiou de uma sala completamente esgotada e de um público entusiasta, a quem não foi preciso dizer duas vezes que o rapaz estava de volta à cidade, e que se encontrou em perfeita sintonia com o artista mostrando isso mesmo durante as pausas entre as canções e no final “obrigando” Jay-Jay Johanson a um encore, que arrancou com ele sozinho em palco, passando depois a estar acompanhado só pelo teclista e por fim com a totalidade do trio de volta no empolgante e intenso “Rocks In Pockets”, do álbum de 2007 “The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known”, que culminou com Jay-Jay e Erik Jansson nas teclas, num dueto frenético.
Quando tudo acabou, não faltaram high fives e abraços pois o sueco desceu do palco e veio cumprimentar e agradecer a todos aqueles que se encontravam na primeira fila e que o receberam de forma calorosa e simpática. Nós é que agradecemos, Mr. Johanson.
- Jean-Paul Didierlaurent - O Leitor Do Comboio
- Kazuo Ishiguro - Quando Éramos Órfãos
- Ana Margarida de Carvalho - Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato
- Ildefonso Falcones - Os herdeiros Da Terra
- Stephen King - Sr. Mercedes
Este livro aborda sentimentos contraditórios sobre a América: o orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa (decadência). A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição.
O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta, Seymour Levov, louro (“Sueco”) abastado, objecto de uma adulação total, acrítica e idólatra, casado com uma ex-miss New Jersey, Dawn – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.
O narrador Nathan Zuckerman que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname…
Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, a quem “um dia a vida começou a rir-se dele e nunca mais parou”, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.
Merry, que se considera “a mais feia filha jamais nascida de pais atraentes”, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano, contra todo o modelo de vida capitalista, contra a pastoral burguesa. Em causa estava, por exemplo, a procura de mão-de-obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é um símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América actual. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.
Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical, Merry, para quem “a vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos”, passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. “Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?” pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga. A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria.
American Pastoral (“Uma História Americana”), de 2016, é o primeiro filme realizado por Ewan McGregor, que partilha o protagonismo com Jennifer Connelly e Dakota Fanning. Compõem a família Levov, que se desmorona quando a filha se une a grupos radicais nos Estados Unidos que protestam de forma violenta contra a Guerra do Vietname. Aqui, a transformação da sociedade americana nos anos 1960 carece de alguma força dramática presente no livro de mais de 400 páginas. No entanto, trata-se de um filme com alguma actualidade política, pois deparamo-nos com uma América de identidade dolorosamente estraçalhada, com as suas gerações separadas de modo radical. São temas e sinais com 50 anos, mas interiores ao nosso presente.
Como curiosidade cá vai um erro que detectei no minuto 37 da película, digno de pertencer ao sempre interessante site moviemistakes.com, quando durante uma conversa entre Merry e o seu pai, numa mudança de plano, a capa de um LP (ao centro) passa inexplicavelmente a contra-capa e desaparece o disco que estava à sua frente…