quinta-feira, 5 de novembro de 2020

domingo, 1 de novembro de 2020

Ian McEwan – A Balada de Adam Henry

 

Ian McEwan apresenta uma prosa habilidosa, onde nenhuma palavra ali está por acaso e os parágrafos sucedem-se sem artifícios ou truques retóricos. Escrito na terceira pessoa, apresenta-nos uma história com laços simples, que se tornam complexos com o desenrolar dos acontecimentos. Os temas centrais são o confronto entre a vida pessoal e a vida profissional, mas também entre a razão científica e o fundamentalismo religioso. Utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma prestigiada juíza do Supremo Tribunal como protagonista: Fiona Maye, 59 anos, especialista em Direito de Família, e que de acordo com os seus colegas, possui “uma imparcialidade divina e inteligência diabólica”. Tornou-se famosa devido a um caso de gémeos ao aprovar a intervenção cirúrgica que iria separar uns irmãos siameses, provocando o sacrifício de um deles em benefício da sobrevivência do outro.

Apesar de lidar diariamente com a razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através das suas sentenças, a sua vida pessoal está a passar por uma crise: arrepende-se de não ter tido filhos e o marido, professor universitário de História, coloca-a numa posição de escolha entre uma posição passiva sobre um caso extraconjugal com uma colega do trabalho e o fim do casamento de 35 anos (justificando-se com as suas necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo trabalho).

É neste ambiente que vai parar às suas mãos um caso de um rapaz, prestes a completar 18 anos, que precisa de uma transfusão de sangue para o tratamento de leucemia. Este rapaz, Adam Henry, cujos pais são Testemunhas de Jeová, não aceita aquela solução e está disposto a “morrer como mártir” pela religião. O momento familiar complicado pelo qual Fiona está a passar faz com que ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do adolescente em confronto com os dogmas religiosos da sua família e assim ela decide ir visitar o jovem Adam ao hospital. Aqui, constata que este tem uma compreensão parcial da situação precária da sua saúde e dos riscos associados e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes da sua orientação religiosa. Escreve poesias que encantam a equipa médica e despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela decidiu não ter filhos devido à sua carreira) e carência sentimental. Para Adam, “a religião dos meus pais era um veneno e a Fiona foi o antídoto”.

A música erudita tem um lugar de destaque neste romance, constituindo uma válvula de escape para Fiona, uma exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler (no seu belíssimo apartamento tem um piano Fazioli), e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível Adam Henry. Também se encontram referências a Bach, Schubert e Scriabin e a dois discos: “Facing You” de Keth Jarrett e “Round Midnight” de Thelonius Monk. Fundamental também é o poema de William Butler Yeats, Down By the Salley Gardens”. 



Para quem nunca leu nada deste autor recomendo a leitura de “Amesterdão”, “Expiação” e “Sábado” (preferencialmente por esta ordem).





Quanto ao filme, de 2017, que tem como nome alternativo “My Lady” e segue quase à risca o livro com uma realização muito segura e fiável de Richard Eyre, cenários clássicos, guarda-roupa irrepreensível, tudo “very british” incluindo as cabeleiras dos juízes e uma casa maravilhosamente decorada… Rigor britânico num filme jurídico denso e belo onde a paixão da juventude, que tudo arrebata, coloca as convicções morais e uma vida emocional esfrangalhada em enorme turbação. Quem realmente brilha são os atores que encarnam os diferentes pólos de interesse: a sublime Emma Thompson, mostrando na perfeição as oscilações de Fiona, entre a firmeza da sua racionalidade e a insegurança da sua vida interior (o realizador aproveita para abrir a porta aos sentimentos mais profundos de Fiona); Fionn Whitehead, como Adam Henry, ao conseguir exprimir as suas angústias e desejos, os seus dramas e ambições e a precoce mas encantadora maturidade que tanto encantou a Honourable Mrs Justice Maye e, por fim, Stanley Tucci, ator sóbrio a deslizar naquilo que por vezes se designa classe.

O nome original do filme, “The Children Act” (e também do livro), é uma referência à legislação britânica, de 1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a sua decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do tribunal”.

Um filme que nos deixa desassossegados e cúmplices e esse é o poder que só os grandes filmes possuem.



sábado, 31 de outubro de 2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Concertos de 2019


A pandemia trouxe o isolamento e distanciamento social, mas também trouxe a ausência de concertos ou festivais de música. Ouvir música ao vivo tem sido, desde sempre, uma forma de libertar o corpo e a mente, um local para deixar o stress e recarregar baterias. Assim não é de estranhar que haja saudades do verão quente, servido de muita música ao ar livre e de memórias que nos aguentavam a saudade até ao ano seguinte. 

Relembro AQUI, nesta altura de pandemia os concertos mais memoráveis do ano de 2019: Primavera Sound, Alive, SBSR, Sudoeste, Paredes de Coura, Vilar de Mouros.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Leituras do Mês


- Ian McEwan - A Balada De Adam Henry
- Roberto Bolaño - O Terceiro Reich
- Maria João Lopo De Carvalho - O Fado Da Severa
- François Bégaudeau - A Turma

Dia Mundial do Sorriso (Best Stand-Up Comedy Specials)


Sorrir é das coisas mais simples, contribui para o nosso bem-estar e para uma vida saudável. E os espetáculos de stand-up vistos no último ano que mais contribuíram para o meu sorriso foram:




- Hasan Minhaj: Homecoming King (2017)

- Jim Jefferies: Bare (2014)

- Hannibal Buress: Comedy Camisado (2016)

- Jim Gaffigan: Beyond The Pale (2006)

- Richard Pryor: Live in Concert (1979)

- Ali Wong: Baby Cobra (2016)

- Patton Oswalt: Annihilation (2017)

- Reggie Watts: Spatial (2016)

- Zach Galifianakis: Live At The Purple Onion (2006)

Jen Kirkman: I’m Gonna Die Alone (And I Feel Fine) (2015)



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Planeta - Lixeira (Placebo - Life’s What You Make It)

 

Os sinais são cada vez mais preocupantes. Tudo o que se passa no nosso planeta, a sua decadência, tem no Homem o único responsável.

A sociedade de consumo desenfreado, a constante crise económica, a insegurança internacional e o continuado confronto entre as nações, o esbanjador estilo de vida das nações mais avançadas, tudo isso é insustentável para a Terra que assim não se consegue regenerar. O que se passa com o degelo nos polos e os devastadores incêndios na Amazónia – o pulmão natural em vias de colapso final – são exemplos negativos e criminosos de que é (quase) impossível reverter a morte anunciada deste nosso habitat, que já foi um paraíso e que vai sendo transformado numa verdadeira montureira.

O vídeo do tema Life’s What You Make It (cover do tema dos Talk Talk de 1985), da banda inglesa Placebo foi gravado numa das áreas mais poluídas do planeta, em Agbogbloshie, localizado na cidade de Acra, no Gana, onde fica a maior lixeira eletrónica do mundo onde são abandonados milhões de computadores, televisores, impressoras e telemóveis velhos pelos países mais desenvolvidos. A ideia é mostrar como parte da população vive e trabalha neste local e também o quanto nós, seres humanos, descartamos não só o lixo convencional, mas os restos de equipamentos eletrónicos, tão presentes na nossa vida.

O vídeo inicia-se com imagens da linha de produção de uma fábrica de produtos eletrónicos até serem substituídas por imagens de Agbogbloshie, um enorme depósito de resíduos de produtos eletrónicos onde milhares de famílias recolhem sucatas para sobreviver.

No meio da catástrofe humana registada nesse local, as imagens mostram os seus trabalhadores, essencialmente crianças e jovens, em alguns momentos de descontração e alguns deles chegam a cantar, a dançar e a exibirem-se para as câmaras.


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Truman Capote – A Harpa de Ervas

 



Há muito tempo não lia uma obra de prosa tão poética. A escrita de Capote, servida por uma boa tradução nesta edição Sextante, revela uma musicalidade impressionante e o título da obra dá bem o tom dessa música: o vento inclina a erva, fazendo-a soltar uma espécie de zumbido, um conjunto de ecos que parecem sintetizar vozes humanas que cantam em uníssono.

Está dado o mote para um magnífico livro, bem típico da época em que foi escrito, o início dos anos 50 do século passado; época de ilusão e de esperança para muitos mas de pessimismo para outros. Entre esses descrentes, alarmados pelo império do capitalismo, pelo macarthismo cada vez mais violento, pelo racismo e injustiças sociais, encontramos os escritores do movimento “Beat”, como são os casos de Capote e Kerouac.

Neste contexto, este livro é um intenso apelo à liberdade; ao direito que cada um deveria ter à diferença, a comportamentos socialmente atípicos e a todo um conjunto de pensamentos e comportamentos que devem ser respeitados. Assim, as personagens principais deste livro são seres antissociais, pessoas renegadas pela sociedade, perseguidos pela cor da pele, pela “deficiência” ou, como é o caso do narrador, por ter sido abandonado pelos pais. É neste aspeto que o livro é bastante autobiográfico – também Capote foi um jovem rejeitado pelas sociedade, um desenraizado, abandonado pelos pais.

Trata-se então de um livro típico desta época da escrita norte-americana, num belo estilo poético. Não é um livro grande; não é um livro com um grande enredo; mas é uma obra que prima pela beleza da própria escrita e por uma belíssima mensagem de liberdade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Explained (Netflix - Season 1 & 2)

Esta série bastante esclarecedora da Netflix explora vários temas, e é perfeita para quem é curioso e gosta de entender um pouco de tudo. Os episódios são muito curtos, raramente atingem os 20 minutos, aborda temas de Economia e Sociologia, como a ascensão da moeda digital, o mercado de ações, o politicamente correto e a disparidade salarial racial mas também explica, por exemplo, a razão do fracasso das dietas, o mundo da música pop coreana, os desportos eletrónicos ou a vida extraterrestre.


 

Season 1

  1. A Disparidade Salarial Racial
  2. ADN Manipulado 
  3. Monogamia
  4. K-Pop 
  5. Criptomoeda
  6. Por Que Falham As Dietas 
  7. O Mercado De Ações
  8. Desportos Eletrónicos 
  9. Vida Extraterrestre 
  10. !
  11. Criquete 
  12. Canábis
  13. Tatuagens 
  14. Astrologia
  15. Será Que Podemos Viver Para Sempre? 
  16. O Orgasmo Feminino
  17. O Politicamente Correto 
  18. Por Que São Mais Baixos Os Salários Das Mulheres
  19. A Crise Mundial Da Água
  20. Música 

Season 2 

  1. Cultos 
  2. Multimilionários 
  3. Inteligência Animal 
  4. Athleisure 
  5. Codificação 
  6. Piratas 
  7. A Próxima Pandemia 
  8. O Futuro Da Carne 
  9. Beleza 
  10. Diamantes

terça-feira, 28 de julho de 2020

Leituras de Verão

- Truman CapoteA Harpa de Ervas 
- Philipp MeyerO Filho 
- Herta MüllerTudo o que Eu Tenho Trago Comigo 
- Jón Kalman StefánssonAproximadamente do Tamanho do Infinito

sexta-feira, 24 de julho de 2020

ESFH: Na senda da excelência!

Disciplina de Economia: 76ª posição a nível nacional, melhor escola pública do distrito de Braga e excelente posição ao nível da escola! (fonte: Jornal Público)




Que orgulho ter contribuído para a obtenção de um excelente resultado nos rankings dos exames nacionais na disciplina de Economia na ESFH. Bom trabalho e parabéns 11CSE1 e 11CSE2, por estes dois anos em que tive o prazer de trabalhar convosco.

Uma escola é uma organização que deve ter o sucesso dos seus alunos como principal missão. Esta ambição pressupõe o prosseguimento dos diversos princípios e valores: oferecer um ensino de qualidade que prepare os alunos para a vida, facilitando o prosseguimento de estudos e a inserção na sociedade, enquanto cidadãos ativos e responsáveis, e que não se baseie no facilitismo; promover a equidade, criando condições para a igualdade de oportunidades; sobrepor os procedimentos pedagógicos e científicos aos procedimentos instrumentais e administrativos; promover hábitos de vida saudáveis, responsáveis, autónomos e solidários; estimular o exercício dos direitos e deveres de cidadania, no respeito pela diversidade, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo. Os alunos devem estar sempre em primeiro lugar, os professores e os seus interesses nunca se devem sobrepor aos dos alunos. A educação é a base de desenvolvimento de uma nação. Parabéns, ESFH.

terça-feira, 14 de julho de 2020

domingo, 10 de maio de 2020

quinta-feira, 23 de abril de 2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

sábado, 4 de abril de 2020

Corona Mixtape


A epidemia de coronavírus pode até sugerir para alguns que o fim do mundo está próximo. Que fique claro: o mundo não vai acabar (mas vai mudar). Na música, no entanto, o apocalipse inspirou e continua a inspirar compositores a descrever como seriam os derradeiros dias do nosso planeta.

Com o estado de emergência a confinar milhões de portugueses em casa, a música pode ganhar nova relevância. Eis uma lista de 65 canções que podem ser banda sonora para os dias da pandemia...

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Leituras do Mês

- Alejandro ReyesA Rainha do Cine Roma 
- Siri HustvedtElegia para um Americano 
- Otto PenzlerMulheres Perigosas (Antologia) 
- Vladimir NabokovContos Completos – Volume 1

quinta-feira, 26 de março de 2020

Sons da Primavera

 
1. Two Feet - Maria
2. Baxter Dury - I'm Not Your Dog
3. Haelos - Pray
4. Ttrruuces - Sensations Of Cool
5. Overcoats - Fire & Fury
6. Liam Gallagher - Once
7. Haim - Now I'm In It
8. The National - Never Tear Us Apart
9. White Lies - Tokyo
10. Lemaitre (Ft. Jennie A.) - Closer
11. Coldplay - Trouble In Town
12. Ashe - Moral Of The Story
13. Gnash - T-Shirt
14. Better Oblivion Community Center - Dylan Thomas
15. Matt Berninger - Holes
16. Ex:Re - Romance
17. Depeche Mode - It's No Good
18. Daisy Gray - Wicked Game
19. Leonard Cohen - Happens To The Heart
20. Tindersticks - Willow

  

segunda-feira, 23 de março de 2020

Serial Killers

Há filmes e séries que só queremos ver uma vez. Aliás, há grandes filmes e séries que só queremos ver uma vez. O que separa estas obras da generalidade das criaturas audiovisuais é quase sempre o facto de equivalerem a pesadelos e fotografarem o pior da humanidade, expondo feridas e partilhando traumas.

As próximas linhas são dedicadas aos apaixonados por histórias negras que revelam as mentes perigosas e intrincadas de assassinos. São séries exigentes do ponto de vista emocional mas excelentes!


When They See Us

Baseada na história real de cinco adolescentes negros conhecidos como Central Park Five, a série segue a história de como o grupo de Harlem foi acusado injustamente de violação. A primeira parte da série passa-se num ambiente de 1989, quando foram questionados pela primeira vez sobre o assédio de uma atleta caucasiana no famoso parque de Nova Iorque. A seguir, quatro dos jovens são enviados para um centro de correcção, mas um deles, por já ter 16 anos, é enviado para uma prisão.

A série tem cerca de 5 horas e está dividida em 4 partes. A quarta parte é brutal e é dedicada quase na íntegra à tragédia de Korey Wise (Jharrel Jerome tem um desempenho soberbo) – que em 1989 se deslocou à esquadra apenas para acompanhar um amigo e acabou como o único elemento dos Five julgado como adulto, passando 12 anos da sua vida entre 3 prisões diferentes a tentar sobreviver. Além de Jharrel Jerome também há actuações brilhantes por parte de Felicity Huffman e Vera Farmiga.

É uma reflexão sobre justiça, sobre o medo e sobre abuso de poder. É terapia de choque e formação cívica. Recorda um conjunto de rapazes no lugar errado à hora errada e é a série certa no momento certo, como seriam todos os momentos para relatar uma história assim.




Manhunt: Unabomber

Esta série conta a terrível (e intrigante) história real sobre o terrorista Ted Kaczynski, que ficou conhecido como “Unabomber” por enviar bombas através do correio para as suas vítimas. Entre o final dos anos 1970 e a década de 1990 feriu 23 pessoas e matou outras três.

Manhunt: Unabomber é uma série a duas velocidades. Os últimos meses de caça ao homem, por um lado, mostrando como o FBI procurava um homem ignorante e depois encetou uma busca por um intelecto refinado, capaz de redigir o famoso manifesto enviado ao New York Times. Essa é a primeira mecha da narrativa, que avança, alternando, dois anos para o momento em que é preciso bater o homicida no seu próprio jogo - fazê-lo confessar, evitando que use o palco mediático para pregar à sociedade que considera ser povoada por carneiros dependentes das máquinas.

Com Paul Bettany como o Unabomber e Chris Noth como o agente do FBI que lidera a investigação, a série é protagonizada por Sam Worthington como Jim “Fitz” Fitzgerald, um profiler incorruptível e pioneiro.

Ted Kaczynski matava pelo correio, enviando encomendas armadilhadas. Conseguiu escapar às autoridades durante duas décadas. Visto como um eremita louco, a série inclina o prisma para ver as origens da mente criminosa, mas também a sua sofisticação.




American Crime Story – The Assassination Of Gianni Versace

No dia 15 de Julho de 1997, o estilista Gianni Versace foi assassinado com dois tiros na nuca à porta de sua casa, em Miami. Versace tinha 50 anos. O criminoso, identificado logo no primeiro episódio, Andrew Cunanan, é um serial killer homossexual de 27 anos, que vivia à custa de homens mais velhos e ricos.

A série tem nove episódios. Começa com a morte de Versace e depois anda para trás e para a frente no tempo, ora mostrando como era a vida de Cunanan e outros dos seus crimes, antes de ter morto o estilista, ora centrando-se na caça ao homem pela polícia de Miami.

Édgar Ramirez interpreta Gianni Versace, Ricky Martin personifica o seu namorado, Anthony D’Amico, Darren Criss dá corpo a Andrew Cunanan e Penélope Cruz é Donatella Versace, a irmã do estilista.





Mindhunter - Season 1

Mindhunter
é uma série inspirada na obra "Mind Hunter: Inside The FBI's Elite Serial Crime Unit" de John E. Douglas e Mark Olshaker, agentes do FBI, onde narram as suas pesquisas na área de psicologia criminal. Os seus estudos incluem, em grande parte, entrevistar assassinos em série famosos, em busca de razões para as suas acções, tentando desta forma, nos anos 70, expandir as fronteiras da ciência criminal com um perigoso mergulho no universo da psicologia do assassinato.

Apanhar assassinos em série requer astúcia e assim entrevistar assassinos para perceber o que os move é o mote desta série criada por Joe Penhall e dirigida por David Fincher, entre outros realizadores. Baseada numa história verídica, com assassinos de que já ouvimos falar, Mindhunter centra-se nos agentes Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, juntamente com a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv).

Na 2ª temporada o foco vai para a investigação de homicídios de crianças ocorridos entre 1979 e 1981, em Atlanta, Geórgia, nos EUA.

Uma série negra e tensa, sem nunca ser demasiado explícita.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O Mundo às Avessas


Atravessamos um momento de profunda angústia face a uma realidade que poucos pensavam possível. A pandemia do Covid-19 está a afetar de forma profunda a nossa sociedade e terá consequências a longo prazo.

Embora acredite que será possível, num prazo razoável, encontrar uma vacina que poderá impedir a generalização da infeção, até lá os efeitos continuarão a sentir-se. Situações como a de Itália, com o fecho de todo um país, poderão repetir-se noutros países, com consequências profundas no tecido social e económico.

Aparentemente em Portugal, um país de brandos costumes, está a existir alguma dificuldade na perceção real do problema, não se assistindo, de forma generalizada, à adoção dos comportamentos de prevenção adequados.

Notícias a que temos assistido, como o não cumprimento do isolamento social por parte de algumas pessoas, são de uma enorme irresponsabilidade e dificultam, eventualmente de forma definitiva, os esforços de contenção da disseminação da infeção.

Ainda ontem foi noticiado que algumas praias da zona de Lisboa estavam cheias de banhistas e na marginal de Esposende ou da Póvoa de Varzim, ou ainda no Santuário do Sameiro, verificaram-se situações de aglomeração de cidadãos.

Este tipo de comportamento tem de terminar. Deve ser preocupação de todos cumprir e exigir o cumprimento das medidas de prevenção, contribuindo para a consciencialização da sociedade para a dimensão do problema que enfrentamos e para o fim da pandemia.

Quando se assistia a uma recuperação económica generalizada, após uma crise profunda iniciada em 2008, esta pandemia, conjugada com a guerra do petróleo entre a OPEP e a Rússia, constitui a tempestade perfeita que poderá e deverá originar uma nova crise financeira. E, com o crescimento das tendências nacionalistas, a reconfiguração das cadeias de produção, a subida ao poder de personalidades com reduzidas capacidades de enfrentar os problemas, podemos estar a assistir a uma reconfiguração do Mundo a que estamos habituados, com consequências imprevisíveis e possíveis retrocessos civilizacionais.

Esperemos que os políticos que nos governam estejam, desta vez, à altura do desafio.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Haruki Murakami - Norwegian Wood

A morte existe, não como o oposto da vida mas como parte dela” (página 40)


Este foi o primeiro livro de sucesso de Haruki Murakami, publicado em 1987. O título é inspirado numa canção dos Beatles, com o mesmo nome (do álbum de 1965, Rubber Soul) que descreve um caso extraconjugal de John Lennon. A canção apresenta cítaras indianas, bastante melancólicas, e é conhecida pelas suas referências à espiritualidade oriental. A história começa num aeroporto de Hamburgo, onde essa música está a passar nos altifalantes e a partir daí Toru Watanabe (o narrador do livro) começa a refletir sobre a sua vida nos anos 60.

Aos 17 anos, Toru tinha uma relação formidável com o seu melhor amigo, Kizuki que era o alicerce da sua existência, a sua melhor companhia. Numa noite, sem ninguém prever, Kizuki suicida-se. Este é o acontecimento que muda o dia-a-dia de Toru e que potencia uma alteração na forma como este encara o mundo e a vida.

Toru acaba por criar uma forte relação com Naoko, a namorada de Kizuki, por quem se apaixona. Porém, Naoko nunca ultrapassou bem a morte do seu namorado e acaba por ser institucionalizada numa espécie de sanatório moderno, meio alternativo (o sanatório é claramente uma alusão à obra-prima de Thomas Mann, “A Montanha Mágica”, de 1924).

De seguida, acompanhamos Toru na sua entrada na universidade, a lidar com todas as emoções e dúvidas típicas desta fase, e a sua difícil adaptação a esta nova realidade. Durante estes anos da faculdade, Toru conhece Midori, uma rapariga muito especial e excêntrica que se torna a sua melhor amiga.

As paixões de Toru (Naoko e Midori) representam duas forças em confronto: Naoko é a tradição, a calma, a paz. Midori é o futuro, a ambição, a excitação do progresso e do desconhecido. Entre estes dois polos, Toru procura a sua liberdade, a sua afirmação.

A famosa geração de sessenta, também no Japão, vivia numa encruzilhada: os movimentos estudantis em confronto com a geração conservadora dos pais, a geração saída da segunda guerra mundial. Este conflito de gerações (que se sentiu também na Europa) colocava em confronto aqueles que viveram a guerra e construíram a recuperação económica com base numa disciplina férrea e os filhos, protegidos pelos pais mas educados nessa disciplina, condição essencial para o grande objetivo de construir a riqueza material. Foi uma época em que o Japão adotou o modo de vida ocidental, uma época em que as pessoas ouviam Bill Evans, liam Thomas Mann e bebiam muito café.

Ao longo da obra, Murakami encara estes jovens rebeldes (com os quais Toru não se identifica) como pessoas pouco esclarecidas, para quem a rebeldia era um instrumento de afirmação, mais do que de defesa de determinados ideais. A revolta contra a guerra do Vietname ou contra o sistema universitário eram apenas argumentos para uma geração sem ideais.

Se já não bastasse a qualidade da história, Murakami impõe um verdadeiro arsenal cultural em termos de literatura, música e cinema: é uma espécie de charme a mais na literatura dele, com muitas referências musicais e literárias, que permitem ao leitor aproveitar muito além da história e das personagens. Esta é sem dúvida outra das razões pelas quais as obras deste autor me cativam tanto.


 
(Playlist bastante completa das referências musicais)

O livro é extraordinariamente envolvente. Todas as suas personagens são profundas e muito bem construídas. Sem o misticismo e a fantasia dos seus romances posteriores, Murakami constrói um enredo bem mais real e linear que envolve o leitor numa espécie de solidariedade para com Toru. Talvez este personagem tenha bastante de autobiográfico; no entanto, os dilemas de Toru (os amores, as opções de vida, a forma de encarar o futuro e o passado) são os dilemas de todos nós. Por isso nos revemos nele. Como diz Reiko (a voz da razão neste livro): “todos somos imperfeitos num mundo imperfeito” e, por isso, não devemos encarar os nossos dilemas com demasiada seriedade. A vida exige leveza – essa leveza do ser que Murakami transporta de forma encantadora em todos os seus livros.

A escrita é muito clara e objetiva, sem floreados nem metáforas. Em algumas partes, parece mesmo “crua”. É também um livro com uma carga sexual bastante forte mas que dá, de certa forma, veracidade à história - estamos a falar da vida de um adolescente. Aborda temáticas muito fortes como o suicídio, a transição para a vida adulta e o sentido da vida pois mostra-nos como devemos sempre continuar a lutar pela vida, mesmo quando não parece valer a pena. De sermos resilientes e de lutarmos por nós, quando todas as forças nos puxam no sentido inverso.




A adaptação do livro para cinema foi feita por Anh Hung Tran em 2010, e não há grandes surpresas: o guião é muito centrado na obra original do início ao fim, o resultado final é interessante mas tem a desvantagem habitual de muitos factos relevantes serem esquecidos. Neste caso, e como as personagens são extremamente complexas só nos detalhes que constam do livro é que percebemos melhor a personalidade de cada um deles. No entanto, o filme vale a pena ser visto também pelo desempenho Ken’ichi Matsuyama e Rinko Kikuchi, os atores que interpretam os protagonistas. A banda sonora privilegia os saudosos CAN e The Doors.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Pensamento do Dia


"Nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha."

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Leituras do Mês

- Lars KeplerStalker 
- Aravind AdigaO Tigre Branco 
- Afonso CruzA Boneca de Kokoschka 
- Ken FollettUma Fortuna Perigosa

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

As Minhas Melhores Leituras de 2019


1. Anna Burns – Milkman
2. Svetlana Aleksievitch – O Fim Do Homem Soviético
3. Michel Houellebecq – Submissão
4. António Lobo Antunes – Cartas da Guerra
5. Margaret Atwood – O Assassino Cego
6. Mons Kallentoft & Markus Lutteman – Leão
7. David Lagercrantz – O Homem Que Perseguia A Sua Sombra
8. André Canhoto Costa – Os Vícios Dos Escritores
9. Jaime Bulhosa – Pedra De Afiar Livros
10. Ali Smith – Primavera
11. Tom Clancy – O Cardeal Do Kremlin
12. Carlos Poças Falcão – Arte Nenhuma

sábado, 28 de dezembro de 2019

Os Melhores Discos do Ano 2019


A época que atravessamos é apropriada para a elaboração de balanços. E o resultado é de um saudável ecletismo; não por um desejo irreprimível de “ir a todas” mas pela simples constatação de que cada vez faz menos sentido espartilhar a música produzida por estes dias.

As listas de melhores discos do ano valem o que valem. Quero dizer, podem constituir um guia generoso e prático onde estão escarrapachados os discos mais marcantes do ano que passou, mas nunca devem ser lidas como se se tratassem das Sagradas Escrituras.

 

- Nick Cave and the Bad Seeds - Ghosteen
- Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow
- Fontaines D.C. - Dogrel
- Angel Olsen - All Mirrors
- Purple Mountains - Purple Mountains
- Vampire Weekend - Father of the Bride
- Lana Del Rey - Norman Fucking Rockwell
- The National - I Am Easy to Find
- FKA Twigs - Magdalene
- Billie Eilish - When We All Fall Asleep, Where Do We Go?
- Michael Kiwanuka - Kiwanuka
- Slipknot - We Are Not Your Kind
- Tool - Fear Inoculum
- Weyes Blood - Titanic Rising
- Thom Yorke - Anima
- Foals - Everything Not Saved Will Be Lost (Part 1)
- Cigarettes After Sex - Cry
- Swans - Leaving Meaning
- Ex:Re - Ex:Re
- Tindersticks - No Treasure But Hope


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Chernobyl (Minissérie)

 

“Chernobyl” é uma minissérie épica da HBO em cinco partes que dramatiza os acontecimentos do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, ocorrido a 26 de abril de 1986, que dispersou uma nuvem radioativa pela Europa, contado pelas histórias das pessoas que fizeram sacrifícios incríveis para salvar a Europa de um desastre inimaginável.

Trata-se de um quadro implacável do pior acidente da história nuclear civil e reproduz o ambiente na antiga URSS, que tentou ocultar o incidente durante várias semanas, antes de resolver evacuar a zona, ainda inabitável mais de 30 anos depois.

O personagem principal é o diretor adjunto do maior centro de pesquisas da URSS. A série concentra-se no heroísmo das personagens comuns, mas os altos dirigentes soviéticos, começando pelo líder da época Mikhail Gorbachev, são retratados como sendo carentes de valores e mentirosos.

Assistir à série é ficar com um nó na garganta do início ao fim, não só porque temos a sensação de estarmos diante de algo nunca antes visto em televisão, como também porque nos relembramos que a história contada foi inspirada em factos verídicos. Por vezes até parece que estamos a apanhar com a radiação…

As consequências de Chernobyl foram catastróficas, entre várias mortes, deformações humanas e o completo abandono da cidade de Pripyat, na Ucrânia, perto de Chernobyl, atualmente uma cidade fantasma. As partículas radioativas continuam presentes no local, e quem visita a zona sem permissão é condenado a pena de prisão. 

O vídeo de apresentação do tema “Life Is Golden” incluído no álbum de 2018 da banda britânica Suede, The Blue Hour, foi totalmente filmado em Pripyat.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Teste - Obras de Arte


A arte não deve ser vista apenas como uma construção estética, mas também como um importante símbolo que serve para representar movimentos, posicionamentos, contar histórias e, principalmente, nos fazer reflectir.

O desafio que apresento AQUI consiste em identificar 100 obras de arte que considero essenciais em qualquer manual de História da Arte…

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Benjamin Clementine – I Tell A Fly



Quando, em 2014, At Least For Now começou a ouvir-se, não era previsível que Benjamin Clementine se tornasse um fenómeno de popularidade. Cantor negro britânico votado à vagabundagem desde os 16 anos, como um Jean-Michel Basquiat musical, parecia não encaixar nos parâmetros atuais da indústria, mais abertos ao hip-hop que à memória de Nina Simone. Clementine incorporava essa herança em canções com ecos de perda e dos anos de rua. O novo disco não é uma sequela. Clementine está mais desperto politicamente e, simultaneamente, mais aberto ao vocabulário pop. Uma faixa como «God Save the Jungle» lembra o Tom Waits mais lúgubre, mas aqui e ali o dramatismo recua, dando lugar a melodias quase corais como as de «By the Ports of Europe» ou «Ave Dreamer», ainda que seja nesta que repete que «The Barbarians are coming». Como o anterior, é um disco agridoce e teatral que nunca nos deixa perceber antecipadamente de onde vem a próxima ameaça.

domingo, 17 de novembro de 2019

Teoria de Robert Stiglitz

 

Curiosa teoria económica anunciada nos Estados Unidos. O tipo chama-se Robert Stiglitz. É analista e empresário. Em Junho de 2008, quando a Administração Bush estudava o lançamento de um projeto de ajuda à economia americana, este economista escrevia na sua crónica mensal um comentário com muito humor:

“O Governo Federal está a estudar conceder a cada um de nós a soma de 600,00$. Se gastamos esse dinheiro no Walt-Mart, esse dinheiro vai para a China. Se gastamos o dinheiro em gasolina, vai para os árabes. Se compramos um computador o dinheiro vai para a Índia. Se compramos frutas, irá para o México, Honduras ou Guatemala. Se compramos um bom carro, o dinheiro irá para a Alemanha ou Japão. Se compramos bagatelas, vai para Taiwan, e nem um centavo desse dinheiro ajudará a economia norte-americana. O único meio de manter esse dinheiro nos E.U.A. é gastando-o com p**** ou cerveja, considerando que são os únicos bens realmente produzidos aqui. Eu já estou a fazer a minha parte...”.



Resposta de um economista PORTUGUÊS igualmente de bom humor:

“Estimado Robert,
Realmente a situação dos americanos é cada vez pior. Lamento, no entanto, informá-lo que a cervejeira Budweiser foi recentemente comprada pela brasileira AB InBev. Portanto, ficam somente as p****. Agora, se elas (as p****), decidirem mandar o seu dinheiro para os seus filhos, ele virá diretamente para a Assembleia da República de Portugal, aqui em Lisboa, onde existe a maior concentração de filhos da p*** do mundo”.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sons de Outono

 
1. Michael Stipe - Your Capricious Soul
2. The National - Hey Rosey
3. NF - Time
4. July Talk - Push + Pull
5. Vampire Weekend - Harmony Hall
6. Joy Oladokun - Sunday
7. Barns Courtney - Glitter & Gold
8. Cigarettes After Sex - Sweet
9. Haim - Summer Girl
10. Isak Danielson - Power
11. The Big Moon - Your Light
12. Of Monsters And Men - Wild Roses
13. Pixies - On Graveyard Hill
14. Meg Myers - Desire
15. Devendra Banhart - Kantori Ongaku
16. Julia Jacklin - Don't Know How To Keep Loving You
17. The Killers (Ft. Wild Light & Mariachi El Bronx) - Happy Birthday Guadalupe
18. Health - Slaves Of Fear
19. Crumb - Nina
20. G Flip - Bring Me Home


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Anna Burns - Milkman


Protagonizado por uma jovem de 18 anos, “Milkman”, a obra vencedora do Man Booker Prize de 2018, é uma “história de brutalidade, resistência e invasão sexual, tecida com um humor mordaz”, e embora nada seja declarado abertamente, situa-se nos anos 1970, na Irlanda do Norte, durante o conflito conhecido como “The Troubles”. Assim, para compreender esta história é fundamental recordarmos em que consistiu aquela disputa:

- de um lado, os lealistas (nacionalistas) - a maioria protestante que defende a manutenção dos laços políticos com a vizinha ilha da Grã-Bretanha, igualmente protestante, e a consequente manutenção da Irlanda do Norte no seio do Reino Unido;

- do outro lado, os integracionistas (unionistas) - a minoria católica que advoga a integração da “província” na República da Irlanda, predominantemente católica, com quem partilha o território da ilha. Exigem também a igualdade religiosa, nomeadamente a não discriminação da minoria católica no acesso a cargos públicos ou empregos.

Os católicos sentem-se, pois, uma minoria marginalizada, com direitos diminuídos face à maioria protestante. E isso alimenta um compreensível mas perigoso sentimento de revolta. Foi nesse contexto que entrou em cena o grupo paramilitar católico IRA (Irish Republican Army – Exército Republicano Irlandês). Lutou pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido, defendendo a anexação à República da Irlanda recorrendo a métodos terroristas, incluindo ataques bombistas e emboscadas com armas de fogo contra alvos protestantes – de políticos unionistas (protestantes) a representantes do governo britânico.

Escrito de uma forma muito original, “Milkman” descreve a relação entre aquela jovem - que não tem nome, ninguém no livro tem nome, todos são referidos por relações, funções ou características, incluindo todos os locais (países e cidades) - e um homem mais velho, que a assedia sexualmente – o famigerado “leiteiro” anunciado no título –, o que leva ao surgimento de um rumor, rapidamente espalhado pela cidade, de que os dois têm um caso. O boato destrói, insidioso, as relações da narradora.

A jovem é referida como a irmã do meio, e fala da família da mesma forma: a mãe, a primeira irmã, a segunda irmã, a terceira irmã, as irmãs pequenas, o primeiro cunhado, o terceiro irmão, etc. Além disso, outros personagens que são importantes na narrativa também são chamados assim, como o namorado “mais ou menos”, a amiga “há mais tempo”, o rapaz da guerra nuclear e o Coiso e Tal. Vive sempre com medo e desconfiança num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às “milícias”) são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos “do lado de lá”; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas.

Burns conduz-nos pelos pensamentos de uma jovem que se recusa a aceitar o que parece obrigatório e que não pensa em casar-se nem em constituir família. E isso faz dela uma suspeita. Desta forma, esta obra evidencia de forma brilhante o poder da maledicência e a pressão social numa comunidade muito fechada, e demonstra como os boatos e as lealdades políticas podem ser colocados ao serviço de uma persistente campanha de assédio sexual.

A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha por gostar de viver noutros séculos que a literatura lhe oferece) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Denso e sedutor, torrencial e arrebatador, "Milkman" é o grande romance sobre o desconhecido porque o leitor não sabe quem é o leiteiro, não sabe o que vai acontecer à “Irmã do Meio” e muito menos sabe sobre o fim das hostilidades militares nesta cidade não nomeada.


 

O confronto entre protestantes e católicos provocou uma violência extrema durante cerca de 30 anos e foi marcado pela manifestação de 30 de Janeiro de 1972, em Londonderry, conhecida como “Bloody Sunday” (morreram 14 manifestantes católicos, com tiros provenientes de soldados ingleses); pelos atentados entre 1972 e 1998, em Guildford, Woolwich e Birmingham, executados pelo IRA e pela morte de Louis Mountbatten, primo da rainha Elisabeth II, em 1979. Finalmente, no dia 10 de Abril de 1998 foi assinado o Acordo de Belfast (ou Acordo da Sexta-Feira Santa) que terminou com “The Troubles” e estabeleceu as bases para um governo de poder partilhado entre católicos e protestantes.

No cinema abundam obras que abordam estas décadas de conflitos e que ajudam a compreendê-los (para informação adicional clicar no nome do filme):

1. Bloody Sunday (“Domingo Sangrento”), 2002, de Paul Greengrass (sobre a tal manifestação de domingo, 30 de janeiro de 1972);

2. In the Name of the Father (“Em Nome do Pai”), 1993, de Jim Sheridan (sobre o atentado no pub de Guilford em 1974 e com o desempenho fantástico de Daniel Day-Lewis);

3. The Boxer (“O Boxeur”), 1997, de Jim Sheridan (que aqui volta a trabalhar com Daniel Day-Lewis);

4. The Devil's Own (“Perigo Íntimo”), de 1997, de Alan J. Pakula (sobre a fuga do líder do IRA Francis McGuire para Nova Iorque e que conta no elenco com Brad Pitt e Harrison Ford);

5. Michael Collins, 1996, de Neil Jordan (baseado na vida do revolucionário irlandês Michael Collins);

6. Hunger (“Fome”), 2008, de Steve McQueen (decorre em 1981, ano em que um grupo de irlandeses do IRA, liderados por Bobby Sands, iniciaram uma greve de fome na prisão);

7. Some Mother's Son (“Em Nome do Filho…”), 1996, de Terry George (luta de duas mães, sendo uma delas a mãe de Bobby Sands, pela vida dos seus filhos);

8. Shadow Dancer (“Dança das Sombras”), 2013, de James Marsh (na Belfast dos anos 90, uma mulher, membro ativo do IRA, é forçada a tornar-se informadora do MI5 para proteger o filho);

9. Fifty Dead Men Walking (“Na Senda dos Condenados”), 2008, de Kari Skogland (baseado na história real de Martin McGartland, um jovem de Belfast que é recrutado pela polícia para se infiltrar no IRA);

10. The Crying Game (“Jogo de Lágrimas”), 1992, de Neil Jordan (explora temas como o terrorismo na Irlanda, transexualidade e racismo);

11. The Wind that Shakes the Barley (“Brisa de Mudança”), 2006, de Ken Loach (sobre a independência da Irlanda, nos anos 20 do século passado, os primeiros passos do IRA e o acordo que levou à criação da Irlanda do Norte e à criação do estado irlandês);

12. Five Minutes Of Heaven (“Cinco Minutos de Paz”), 2009, de Oliver Hirschbiegel (um membro de um grupo paramilitar protestante mata um católico e 33 anos tarde há um reencontro: um procura a redenção o outro só pensa em vingança);

13. '71, 2014, de Yann Demange (imersão expressionista nas ruas de Belfast de inícios dos anos 70, quando o conflito entre protestantes unionistas e católicos independentistas está ao rubro);

14. Hidden Agenda (“Agenda Secreta”), 1990, de Ken Loach (passado na violenta Belfast dos anos 1980 destacando-se o terrorismo praticado por grupos como o IRA, mas também a resposta que lhe é dada, à margem da lei, pelas forças de segurança britânicas);

15. In America (“Na América”), 2002, de Jim Sheridan (sobre a vida de uma família irlandesa que emigra para Nova Iorque);

16. Odd Man Out (“A Casa Cercada”), 1947, de Carol Reed (história de um membro ativo do IRA que foge da prisão e decide roubar um banco para ajudar a causa);

17. Mickybo and Me, 2004, de Terry Loane (sobre a amizade entre dois meninos de 8 anos, um de uma família protestante e outro de uma família católica e juntos tornam-se grandes admiradores de famosos bandidos do faroeste);

18. A Prayer For The Dying (“Os Guerrilheiros da Sombra”), 1987, de Mike Hodges (um ex-activista deixa o IRA depois de uma crise de consciência que o leva a questionar os ideais pelos quais lutou durante toda a sua vida);

19. Cal (“Tempo de Guerra”), 1984, de Pat O'Connor (um jovem membro do IRA vive um romance com uma mulher católica que viu o seu marido, um polícia protestante, ser morto pela organização terrorista um ano antes de se conhecerem);

20. An Everlasting Piece, 2000, de Barry Levinson (comédia passada em Belfast, nos anos 80, onde um católico e um protestante, ambos barbeiros, tornam-se parceiros de negócios e começam a vender perucas com bastante sucesso).



Na televisão estreou recentemente a série Derry Girls passada na Irlanda da mesma época, uma comédia leve, que tem um tom completamente diferente de “Milkman”.

Dia Mundial da Música

domingo, 1 de setembro de 2019

Sándor Márai – As Velas Ardem até ao Fim


(releitura)

Este é um livro triste mas profundamente poético. Um verdadeiro tratado sobre a amizade, como afirmou Inês Pedrosa. A prosa de Márai é construída sobre um discurso tranquilo, melódico, profundo. Sem dúvida uma escrita sentida e sofrida. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, num velho castelo da Hungria, um antigo general de 73 anos, Henrik, espera Konrad para com ele ter uma última conversa. Konrad havia sido mais que o seu melhor amigo. Tinha sido um autêntico irmão até ao momento em que, 41 anos antes, algo dramático os separou. Um grande e terrível segredo ia agora ser enfrentado pelos dois. Todo o valor da sua intensa amizade e todo o significado do intenso amor por Krisztina seriam agora sopesados nesta derradeira batalha que os dois enfrentarão.

A tragédia de Henrik levara-o ao imobilismo; uma inação que é uma espécie de morte em vida. Essa espera, esse nada-fazer, essa morte voluntária, talvez seja a tragédia maior para o ser humano. É uma recusa total da vida, como se depois da tragédia nada mais valesse a pena. Talvez a razão maior da infelicidade humana seja esta incapacidade em prosseguir os caminhos da vida quando não se consegue compreender e aceitar aquilo a que, comodamente, chamamos destino; esta incapacidade para encarar o presente, sem deixarmos que ele se sobreponha aos desaires do passado. E depois fica a procura da culpa; a busca tão inútil quanto irresistível da culpa. E é a vida que fica, inexoravelmente, para trás.

Henrik interrompeu a sua vida aos 32 anos e esperou mais 41 para terminar esse julgamento; e, no final, não culpou Konrad nem Krisztina; culpou o destino. Quarenta e um anos depois, Henrik procura apenas lavar a verdade com palavras; com a catarse da memória. Perante Konrad, resta-lhe enfrentar a memória. Mas nada apagará 41 anos de solidão, que é uma espécie de morte.

sábado, 10 de agosto de 2019

sábado, 3 de agosto de 2019

Leituras do Mês


- Margaret Atwood - O Assassino Cego
- Nuno Galopim - Afonso VI - O Indesejado
- Nick Hornby - Era Uma Vez Um Rapaz
- Olivier Guez - O Desaparecimento De Josef Mengele

segunda-feira, 17 de junho de 2019

11º CSE 1 e 2 (ESFH)

"Ensinarás a voar,

Mas não voarão o teu voo.

Ensinarás a sonhar,
Mas não sonharão o teu sonho.

Ensinarás a viver,
Mas não viverão a tua vida.

Ensinarás a cantar,
Mas não cantarão a tua canção.

Ensinarás a pensar,
Mas não pensarão como tu.

Porém saberás que cada vez que voarem,
Sonharem, viverem, cantarem e pensarem
Estará lá a semente do caminho ensinado e aprendido!"


Madre Teresa de Calcutá




Ao fim de dois anos de trabalho intenso, espero ter contribuído para que todos sejam um pouco mais conscientes do mundo que os aguarda. Não se esqueçam que as dificuldades são como as montanhas, pois só se aplainam quando avançamos sobre elas.

É o convívio com alunos assim que faz desta profissão de Professor algo de maravilhoso e único.

Desejo a todos as maiores felicidades e que o futuro vos sorria.

Até sempre,

CCB