Desde 2015 que os
Wolf Alice têm merecido a minha atenção quando editaram o aclamado álbum My
Love is Cool, confirmada dois anos depois com Visions of a Life, onde a banda
mistura elementos do indie rock com músicas mais introspetivas e calmas, com
faixas mais pesadas e cheias de energia.
Depois de quatro
silenciosos anos, acabam de regressar às edições com o ambicioso, potente e excelente
Blue Weekend que promete tornar-se épico. O álbum move-se em terrenos
familiares, algures entre o rock de feição mais clássica, misturado com
elementos shoegaze, riffs de guitarra que, muitas vezes, remetem para ogrunge
do início dos anos 90, aqui e ali, um pouco de psicadelismo à mistura e uma incorporação
bastante acentuada, em certos momentos, de elementos eletrónicos. As letras são
reflexivas, discutem como relacionamentos começam e terminam e abordam a
pandemia e as crises intermináveis que estamos a viver.
“The Last Man On
Earth”, primeiro single do álbum, tem tudo para ser apenas uma balada, vai-se
lenta e subtilmente metamorfoseando noutra coisa graças ao cunho pessoal dos
Wolf Alice. Se a primeira parte da canção nos dá a voz crua de Ellie Rowsell,
em solitária conversa com o piano, enfatizando-se cada palavra proferida, a
ponte assinala uma viragem inesperada, introduzindo uma mescla de coros épicos
e guitarras psicadélicas da década de 60.
Seja cinema ou
sonho (“Lipstick On The Glass” e “Feeling Myself”), dream pop (“Delicious Things”
e “No Hard Feeling”) ou riffs distorcidos (“The Beach”), punk (“Play The
Greatest Hits” e “Smile”), folk (“Safe From Heartbreak – If You Never Fall In
Love”) ou anos 80 (“How Can I Make It OK?”), Blue Weekend soa como um disco de
consolidação, com arranjos impecáveis em cada música e que em apenas 40 minutos
mostra uma das joias da música inglesa de 2021.
Os Wolf Alice
acabam de anunciar a Tour Europeia com passagem por Lisboa a 3 de março de 2022.
Os bilhetes já estão à venda...
No seu livro de 503 páginas sobre as doenças dos grandes estadistas do
século passado, “Na Doença e no Poder – Os Problemas de Saúde dos Grandes
Estadistas nos Últimos 100 Anos”, David Owen (neurologista e ex-ministro dos
Negócios Estrangeiros Britânico) considera que o que motivou a decisão de
invadir o Iraque, tomada por George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar
durante a célebre cimeira dos Açores em 2003, não foi a existência de armas de
destruição maciça, nem a ambição de controlar o petróleo iraquiano mas sim um
transtorno comum entre os políticos no poder, a síndrome de Hubris.
Esta síndrome, não reconhecida pela Medicina, equivaleria a uma “embriaguez
de poder” caracterizada pela perda do sentido da realidade, soberba, presunção,
persistência perversa em políticas que não funcionam e desrespeito pelos
conselhos daqueles que os rodeiam. Os “pacientes” quando as decisões se revelam
erradas, nunca reconhecem o equívoco e continuam convencidos que tomaram a
decisão certa.
A sua dimensão é catastrófica quando se manifesta num pequeno grupo,
fechado sobre si próprio, que desconsidera as pessoas e as instituições que
promovem ideias contrárias, rejeitando-as e excluindo-as do seu núcleo decisor.
O exemplo do Iraque é o mais recente, mas ao longo da obra são apresentados
muitos outros “doentes” afetados pela mesma síndrome como, por exemplo, Neville
Chamberlain (primeiro ministro britânico entre 1937 e 1940, Adolf Hitler,
François Mitterrand, Mao Tse-Tung, John F. Kennedy e até Margaret Thatcher nos
seus últimos anos no poder. Todos eles foram atingidos por este transtorno
psicológico. Aliás, Owen reconhece que também ele, no início da sua carreira
política, deixou que o poder lhe subisse à cabeça - foi o mais novo ministro
inglês dos Negócios Estrangeiros - embora sem nunca chegar aos extremos de
alguns líderes históricos.
O fenómeno foi batizado com o nome da palavra grega “Hubris” que designava
o herói que, uma vez alcançada a glória, deixava-se embriagar pelo êxito e
comportava-se como um Deus capaz de tudo. Em consequência, começava a acumular
erros, encontrando a sua Némesis, que o devolvia à realidade. Não há tradução exata para a palavra Hubris
que sintetiza o significado de outras: “arrogância”, “desprezo”,
“superioridade”, “excesso de confiança” ou até alguma coisa semelhante a
“autismo”, perda do sentido da realidade.
- Gonçalo M. Tavares – Uma Menina Está perdida No Seu Século à Procura Do Pai
- Jo Nesbo – MacBeth
- João Ubaldo Ribeiro – A Casa Dos Budas Ditosos
- Zadie Smith – O Homem Dos Autógrafos
2020 terá sido, provavelmente, um dos anos mais estranhos da história do cinema, mas não foi por isso que deixou de haver bom cinema para ver.
A pandemia veio baralhar as contas a todos, e a indústria cinematográfica atravessou um ano atípico mas desafiador, com rodagens e estreias canceladas ou adiadas. Este cenário acabou por possibilitar o fortalecimento dos serviços de streaming.
O cinema, nos melhores e piores momentos, é um modo de viajarmos sem sair do lugar e descobrirmos outras histórias e realidades possíveis. Na minha opinião, os filmes de 2020 que me proporcionaram as "viagens" mais fascinantes foram:
1. Better Days
“Shaonian de ni”, título deste filme de Hong-Kong, realizado por Derek Tsang, onde uma adolescente que sofre de bullying forma uma amizade inesperada com um jovem misterioso que a protege de agressores, enquanto tem de lidar com a pressão dos exames finais do ensino secundário para entrar na universidade. Apesar da excessiva manipulação sentimental, trata-se de uma acutilante história sobre bullying levada à violência extrema. “This used to be our playground”...
2. Druk
Conhecido também por “Another Round” este filme dinamarquês de Thomas Vinterberg também é ambientado numa escola secundária onde quatro professores parecem ter chegado à crise de meia-idade e, numa noite, enquanto afogam as mágoas e partilham as suas histórias infelizes, decidem experimentar um estado de embriaguez (crescente) mesmo quando dão as suas aulas. O filme termina magistralmente ao som de “What a Life” de Scarlet Pleasure.
3. Promising Young Woman
A excelente Cary Mulligan é uma ex-estudante de medicina que, traumatizada por algo que aconteceu à melhor amiga no passado, decidiu largar tudo e ainda não sabe o que fazer da própria vida, exceto aterrorizar homens que tentam abusar dela, fingindo-se de bêbada em bares da cidade. Filme feminista de Emerald Fenell, com um humor sóbrio, por vezes desconcertante mas no final, que é excelente, há uma reviravolta deliciosa de contemplar, tal e qual uma ópera que atinge o seu ápice supremo nos momentos finais...
4. Sound Of Metal
Com uma prestação arrebatadora de Riz Ahmed, este filme de Darius Marder, leva-nos numa viagem sensorial que nos desperta para um mundo pouco representado no cinema onde não há nada mais revelador que o próprio silêncio. Um baterista de uma banda de metal que, subitamente, começa a perder a audição e tem de mudar completamente a sua vida até perceber que existem outras formas de viver...
5. Quo Vadis, Aida?
Co-produção entre nove países europeus, este filme desconcertante de Jasmila Zbanic, baseado em factos verídicos, acompanha a vida de uma professora (a soberba Jasna Djuricic), que também é tradutora das Nações Unidas, e que tenta salvar o marido e os filhos durante o massacre de Srebrenica, em julho de 1995. O filme não é fácil de suportar e só quem se sente mentalmente preparado deve aventurar-se neste flagelo cinematográfico que mostra os horrores do genocídio num dos períodos mais negros na História Europeia após a 2ª Guerra Mundial (neste caso com a inação criminosa das Nações Unidas).
6. First Cow
Belíssimo filme realizado por Kelly Reichardt que conta a história de uma amizade no século XIX, construída nos detalhes e silêncios da rotina de dois homens, Otis “Cookie” Figowitz (John Magaro), padeiro que viaja com um grupo de caçadores e King-Lu (Orion Lee), que decidem roubar o leite da única vaca da região para a produção de doces e que acabam por encontrar, um no outro, o conforto que o verdadeiro companheirismo pode trazer. Construída com a calma do cinema mais contemplativo e “natural”, tanto no sentido de naturalista quanto de ligado à natureza (os animais, as plantas e os humanos), o que poderá afastar muitos espectadores, a longa-metragem logo na imagem inicial revela o destino que aqueles dois homens terão, restando apenas a descoberta das suas circunstâncias exatas. Uma obra profunda ao conseguir debater as injustiças do capitalismo que são refletidas no mundo moderno.
7. Corpus Christi
Filme polaco realizado por Jan Komasa e baseado em factos reais que aborda a religião católica e que investiga em detalhe questões como as vocações e celibato sacerdotal, além da estranha dinâmica social de uma pequena comunidade, que incorpora um novo sacerdote (fabulosa interpretação do jovem protagonista Bartosz Bielenia), que esconde a sua verdadeira identidade.
8. I Care A Lot
O que mais apreciei neste filme de J Blakeson foi a impressionante prestação de Rosamund Pike (aqui é Marla Grayson, uma guardiã do estado que cuida dos mais idosos) e do seu argumento: um médico seleciona um paciente mais idoso, de preferência doente (se for demência melhor ainda), no entanto com sólidas poupanças e bens materiais; depois um juiz assina uma ordem do tribunal que afirma que este idoso não é mais capaz de cuidar dele próprio e é necessário nomear alguém para o fazer; por fim, uma guardiã entra em contacto com o idoso, com a ordem do tribunal a dizer que terá de ir para um lar, mas que a sua casa e os seus bens vão ficar bem entregues. O que menos apreciei foi o fim da história...
9. Listen
Filme muito realista, aborda o drama de um casal português emigrado, a quem os serviços sociais retiram, injustamente, os filhos por suspeitas de maus tratos. O filme de Ana Rocha de Sousa espelha a luta pela união de uma família após um erro irreversível mas também é um filme que tornar-se-ia ainda mais envolvente se adotasse uma estrutura mais complexa. O tema final “Hold My Hand”, cantado por Nessi Gomes, traz toda uma nostalgia que realça os momentos mais duros do filme.
10. Never Rarely Sometimes Always
Este filme sobre amizade, machismo e aborto, constitui uma crítica social contada de uma forma única, crua e transparente. Autumn (Sidney Flanigan), é uma jovem de 17 anos que decide abortar aos 17 anos e conta com o apoio da prima e amiga incondicional Skylar (Talia Ryder). O título do filme de Eliza Hittman corresponde às respostas a um questionário de escolha múltipla sobre experiências potencialmente marcadas pela violência sexual, física ou psicológica, pronunciadas no interrogatório devagar e pesarosamente como uma facada no coração e é quando percebemos o motivo da gravidez ser indesejada. O preenchimento do questionário constitui o momento principal do filme ao revelar todos os medos, aflições e dores da protagonista. Sharon Van Etten participa como atriz (é a mãe de Autumn) e também se ouve na parte final do filme em “Staring At A Montain”.
E chegámos ao fim de 2020 (finalmente), o ano que vai ser recordado durante
bastante tempo e, infelizmente, pelas piores razões. O ano da pandemia dinamitou
todos os quadrantes da sociedade e o da cultura foi, claramente, dos mais
atingidos. Concertos e festivais cancelados e adiados, músicos sem lugar para
ensaiar, gravar e tocar, e um público sem ter acesso aos seus artistas
favoritos. Um ano totalmente atípico que, esperamos, não venha a ser igualado no
futuro.
Num ano de muitos discos (e tempo passado em casa para os escutar), aqui
fica uma lista dos 20 discos que mais gostei de escutar este ano.
Thriller, drama, comédia e ficção científica. Há de
tudo nesta seleção das melhores séries. Creio que nunca vi tantas séries de
televisão e nunca senti que ficou tanto por ver. É impossível ver tudo. Todos
os dias saem novas séries nas várias plataformas de streaming disponíveis em
Portugal e foram várias as histórias interessantes que chegaram à televisão nos
últimos meses. Esta é a lista (possível) das melhores séries de 2020 a que
assisti:
Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão
e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores
se aproximassem. Ele preparava-os para serem os educadores capazes de
transmitir a Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de
espírito, porque deles é o reino dos céus; Felizes os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados; Felizes os misericordiosos, porque eles...?
Pedro interrompeu-o: - Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou: - É pra copiar?
Filipe lamentou-se: - Esqueci-me do meu papiro!
Bartolomeu quis saber: - Vai sair no teste?
João levantou a mão: - Posso ir à casa de banho?
Judas Iscariotes resmungou: - O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se: - Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou: - Há alguma fórmula pra provar que isso tá certo?
Tiago Maior indagou: - Vai contar pra nota?
Tiago Menor reclamou: - Não ouvi nada, com esse grandalhão à minha frente!
Simão Zelote gritou, nervoso: - Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
Mateus queixou-se: - Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma
multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus,
dizendo: - Isso que o senhor está a fazer é uma aula? Onde está a
sua planificação e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e
específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos
prévios?
Caifás emendou: - Fez uma planificação que inclua os temas transversais e
as atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os
parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais
e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus: - Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro
períodos, como aplicaram os critérios de avaliação e reservo-me o direito de,
no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as
promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e
estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E veja lá se
não vai reprovar alguém!
E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, porque
me abandonaste?"
(Nem Jesus aguentaria ser um professor nos dias de
hoje...).
Ian McEwan apresenta uma prosa
habilidosa, onde nenhuma palavra ali está por acaso e os parágrafos sucedem-se
sem artifícios ou truques retóricos. Escrito na terceira pessoa, apresenta-nos uma
história com laços simples, que se tornam complexos com o desenrolar dos
acontecimentos. Os temas centrais são o confronto entre a vida pessoal e a vida
profissional, mas também entre a razão científica e o fundamentalismo religioso.
Utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma prestigiada juíza
do Supremo Tribunal como protagonista: Fiona Maye, 59 anos, especialista em Direito
de Família, e que de acordo com os seus colegas, possui “uma imparcialidade
divina e inteligência diabólica”. Tornou-se famosa devido a um caso de gémeos ao
aprovar a intervenção cirúrgica que iria separar uns irmãos siameses,
provocando o sacrifício de um deles em benefício da sobrevivência do outro.
Apesar de lidar diariamente com a
razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através das
suas sentenças, a sua vida pessoal está a passar por uma crise: arrepende-se de não ter
tido filhos e o marido, professor universitário de História, coloca-a numa
posição de escolha entre uma posição passiva sobre um caso extraconjugal com
uma colega do trabalho e o fim do casamento de 35 anos (justificando-se com as suas
necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo
trabalho).
É neste ambiente que vai parar às
suas mãos um caso de um rapaz, prestes a completar 18 anos, que precisa de uma transfusão
de sangue para o tratamento de leucemia. Este rapaz, Adam Henry, cujos pais são
Testemunhas de Jeová, não aceita aquela solução e está disposto a “morrer como
mártir” pela religião. O momento familiar complicado pelo qual Fiona está a passar
faz com que ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica
que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do
adolescente em confronto com os dogmas religiosos da sua família e assim ela decide
ir visitar o jovem Adam ao hospital. Aqui, constata que este tem uma
compreensão parcial da situação precária da sua saúde e dos riscos associados
e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes da
sua orientação religiosa. Escreve poesias que encantam a equipa médica e
despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela decidiu
não ter filhos devido à sua carreira) e carência sentimental. Para Adam, “a
religião dos meus pais era um veneno e a Fiona foi o antídoto”.
A música erudita tem um lugar de
destaque neste romance, constituindo uma válvula de escape para Fiona, uma
exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler (no seu belíssimo apartamento
tem um piano Fazioli), e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível
Adam Henry. Também se encontram referências a Bach, Schubert e Scriabin e a dois
discos: “Facing You” de Keth Jarrett e “Round Midnight” de Thelonius Monk. Fundamental também é o poema de William
Butler Yeats, “Down By the Salley Gardens”.
Para quem nunca leu nada deste
autor recomendo a leitura de “Amesterdão”, “Expiação” e “Sábado” (preferencialmente
por esta ordem).
Quanto ao filme, de 2017, que tem
como nome alternativo “My Lady” e segue quase à risca o livro com uma
realização muito segura e fiável de Richard Eyre, cenários clássicos, guarda-roupa
irrepreensível, tudo “very british” incluindo as cabeleiras dos juízes e uma
casa maravilhosamente decorada… Rigor britânico num filme jurídico denso e belo
onde a paixão da juventude, que tudo arrebata, coloca as convicções morais e
uma vida emocional esfrangalhada em enorme turbação. Quem realmente brilha são
os atores que encarnam os diferentes pólos de interesse: a sublime Emma
Thompson, mostrando na perfeição as oscilações de Fiona, entre a firmeza da sua
racionalidade e a insegurança da sua vida interior (o realizador aproveita para
abrir a porta aos sentimentos mais profundos de Fiona); Fionn Whitehead, como
Adam Henry, ao conseguir exprimir as suas angústias e desejos, os seus dramas e
ambições e a precoce mas encantadora maturidade que tanto encantou a Honourable
Mrs Justice Maye e, por fim, Stanley Tucci, ator sóbrio a deslizar naquilo
que por vezes se designa classe.
O nome original do filme, “The
Children Act” (e também do livro), é uma referência à legislação britânica, de
1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a sua
decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do
tribunal”.
Um filme que nos deixa
desassossegados e cúmplices e esse é o poder que só os grandes filmes possuem.
A pandemia trouxe o isolamento e distanciamento social, mas
também trouxe a ausência de concertos ou festivais de música. Ouvir música ao
vivo tem sido, desde sempre, uma forma de libertar o corpo e a mente, um local
para deixar o stress e recarregar baterias. Assim não é de estranhar que haja saudades
do verão quente, servido de muita música ao ar livre e de memórias que nos aguentavam
a saudade até ao ano seguinte.
Relembro AQUI, nesta altura de pandemia os concertos mais memoráveis do ano de 2019: Primavera Sound, Alive, SBSR, Sudoeste,
Paredes de Coura, Vilar de Mouros.
- Ian McEwan - A Balada De Adam Henry
- Roberto Bolaño - O Terceiro Reich
- Maria João Lopo De Carvalho - O Fado Da Severa
- François Bégaudeau - A Turma
Sorrir é das coisas mais simples, contribui para o nosso bem-estar e para uma vida saudável. E os espetáculos de stand-up vistos no último ano que mais contribuíram para o meu sorriso foram:
- Hasan Minhaj: Homecoming King (2017)
- Jim Jefferies: Bare (2014)
- Hannibal Buress: Comedy Camisado (2016)
- Jim Gaffigan: Beyond The Pale (2006)
- Richard Pryor: Live in Concert (1979)
- Ali Wong: Baby Cobra (2016)
- Patton Oswalt: Annihilation (2017)
- Reggie Watts: Spatial (2016)
- Zach Galifianakis: Live At The Purple Onion (2006)
- Jen Kirkman: I’m Gonna Die Alone (And I Feel Fine) (2015)
Os sinais são cada vez mais preocupantes. Tudo o que se passa no nosso planeta, a sua decadência, tem no Homem o único responsável.
A sociedade de consumo desenfreado, a constante crise económica, a insegurança internacional e o continuado confronto entre as nações, o esbanjador estilo de vida das nações mais avançadas, tudo isso é insustentável para a Terra que assim não se consegue regenerar. O que se passa com o degelo nos polos e os devastadores incêndios na Amazónia – o pulmão natural em vias de colapso final – são exemplos negativos e criminosos de que é (quase) impossível reverter a morte anunciada deste nosso habitat, que já foi um paraíso e que vai sendo transformado numa verdadeira montureira.
O vídeo do tema Life’s What You Make It (cover do tema dos Talk Talk de 1985), da banda inglesa Placebo foi gravado numa das áreas mais poluídas do planeta, em Agbogbloshie, localizado na cidade de Acra, no Gana, onde fica a maior lixeira eletrónica do mundo onde são abandonados milhões de computadores, televisores, impressoras e telemóveis velhos pelos países mais desenvolvidos. A ideia é mostrar como parte da população vive e trabalha neste local e também o quanto nós, seres humanos, descartamos não só o lixo convencional, mas os restos de equipamentos eletrónicos, tão presentes na nossa vida.
O vídeo inicia-se com imagens da linha de produção de uma fábrica de produtos eletrónicos até serem substituídas por imagens de Agbogbloshie, um enorme depósito de resíduos de produtos eletrónicos onde milhares de famílias recolhem sucatas para sobreviver.
No meio da catástrofe humana registada nesse local, as imagens mostram os seus trabalhadores, essencialmente crianças e jovens, em alguns momentos de descontração e alguns deles chegam a cantar, a dançar e a exibirem-se para as câmaras.
Há muito tempo não lia uma obra de prosa tão poética. A escrita de Capote, servida por uma boa tradução nesta edição Sextante, revela uma musicalidade impressionante e o título da obra dá bem o tom dessa música: o vento inclina a erva, fazendo-a soltar uma espécie de zumbido, um conjunto de ecos que parecem sintetizar vozes humanas que cantam em uníssono.
Está dado o mote para um magnífico livro, bem típico da época em que foi escrito, o início dos anos 50 do século passado; época de ilusão e de esperança para muitos mas de pessimismo para outros. Entre esses descrentes, alarmados pelo império do capitalismo, pelo macarthismo cada vez mais violento, pelo racismo e injustiças sociais, encontramos os escritores do movimento “Beat”, como são os casos de Capote e Kerouac.
Neste contexto, este livro é um intenso apelo à liberdade; ao direito que cada um deveria ter à diferença, a comportamentos socialmente atípicos e a todo um conjunto de pensamentos e comportamentos que devem ser respeitados. Assim, as personagens principais deste livro são seres antissociais, pessoas renegadas pela sociedade, perseguidos pela cor da pele, pela “deficiência” ou, como é o caso do narrador, por ter sido abandonado pelos pais. É neste aspeto que o livro é bastante autobiográfico – também Capote foi um jovem rejeitado pelas sociedade, um desenraizado, abandonado pelos pais.
Trata-se então de um livro típico desta época da escrita norte-americana, num belo estilo poético. Não é um livro grande; não é um livro com um grande enredo; mas é uma obra que prima pela beleza da própria escrita e por uma belíssima mensagem de liberdade.
Esta série bastante esclarecedora da Netflix explora
vários temas, e é perfeita para quem é curioso e gosta de entender um pouco de
tudo. Os episódios são muito curtos, raramente atingem os 20 minutos, aborda
temas de Economia e Sociologia, como a ascensão da moeda digital, o mercado de
ações, o politicamente correto e a disparidade salarial racial mas também
explica, por exemplo, a razão do fracasso das dietas, o mundo da música pop
coreana, os desportos eletrónicos ou a vida extraterrestre.
Disciplina de Economia: 76ª posição a nível nacional, melhor escola pública do distrito de Braga e excelente posição ao nível da escola! (fonte:
Jornal Público)
Que orgulho ter contribuído para a obtenção de um excelente resultado nos rankings dos exames nacionais na disciplina de Economia na ESFH. Bom trabalho e parabéns 11CSE1 e 11CSE2, por estes dois anos em que tive o prazer de trabalhar convosco.
Uma escola é uma organização que deve ter o sucesso dos seus alunos como principal missão. Esta ambição pressupõe o prosseguimento dos diversos princípios e valores: oferecer um ensino de qualidade que prepare os alunos para a vida, facilitando o prosseguimento de estudos e a inserção na sociedade, enquanto cidadãos ativos e responsáveis, e que não se baseie no facilitismo; promover a equidade, criando condições para a igualdade de oportunidades; sobrepor os procedimentos pedagógicos e científicos aos procedimentos instrumentais e administrativos; promover hábitos de vida saudáveis, responsáveis, autónomos e solidários; estimular o exercício dos direitos e deveres de cidadania, no respeito pela diversidade, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo. Os alunos devem estar sempre em primeiro lugar, os professores e os seus interesses nunca se devem sobrepor aos dos alunos. A educação é a base de desenvolvimento de uma nação. Parabéns, ESFH.
A epidemia de coronavírus pode até sugerir para alguns que o fim do mundo está próximo. Que fique claro: o mundo não vai acabar (mas vai mudar). Na música, no entanto, o apocalipse inspirou e continua a inspirar compositores a descrever como seriam os derradeiros dias do nosso planeta.
Com o estado de emergência a confinar milhões de portugueses em casa, a música pode ganhar nova relevância. Eis uma lista de 65 canções que podem ser banda sonora para os dias da pandemia...
Há filmes e séries que só queremos ver uma vez. Aliás, há grandes filmes e séries que só queremos ver uma vez. O que separa estas obras da generalidade das criaturas audiovisuais é quase sempre o facto de equivalerem a pesadelos e fotografarem o pior da humanidade, expondo feridas e partilhando traumas.
As próximas linhas são dedicadas aos apaixonados por histórias negras que revelam as mentes perigosas e intrincadas de assassinos. São séries exigentes do ponto de vista emocional mas excelentes!
When They See Us
Baseada na história real de cinco adolescentes negros conhecidos como Central Park Five, a série segue a história de como o grupo de Harlem foi acusado injustamente de violação. A primeira parte da série passa-se num ambiente de 1989, quando foram questionados pela primeira vez sobre o assédio de uma atleta caucasiana no famoso parque de Nova Iorque. A seguir, quatro dos jovens são enviados para um centro de correcção, mas um deles, por já ter 16 anos, é enviado para uma prisão.
A série tem cerca de 5 horas e está dividida em 4 partes. A quarta parte é brutal e é dedicada quase na íntegra à tragédia de Korey Wise (Jharrel Jerome tem um desempenho soberbo) – que em 1989 se deslocou à esquadra apenas para acompanhar um amigo e acabou como o único elemento dos Five julgado como adulto, passando 12 anos da sua vida entre 3 prisões diferentes a tentar sobreviver. Além de Jharrel Jerome também há actuações brilhantes por parte de Felicity Huffman e Vera Farmiga.
É uma reflexão sobre justiça, sobre o medo e sobre abuso de poder. É terapia de choque e formação cívica. Recorda um conjunto de rapazes no lugar errado à hora errada e é a série certa no momento certo, como seriam todos os momentos para relatar uma história assim.
Manhunt: Unabomber
Esta série conta a terrível (e intrigante) história real sobre o terrorista Ted Kaczynski, que ficou conhecido como “Unabomber” por enviar bombas através do correio para as suas vítimas. Entre o final dos anos 1970 e a década de 1990 feriu 23 pessoas e matou outras três.
Manhunt: Unabomber é uma série a duas velocidades. Os últimos meses de caça ao homem, por um lado, mostrando como o FBI procurava um homem ignorante e depois encetou uma busca por um intelecto refinado, capaz de redigir o famoso manifesto enviado ao New York Times. Essa é a primeira mecha da narrativa, que avança, alternando, dois anos para o momento em que é preciso bater o homicida no seu próprio jogo - fazê-lo confessar, evitando que use o palco mediático para pregar à sociedade que considera ser povoada por carneiros dependentes das máquinas.
Com Paul Bettany como o Unabomber e Chris Noth como o agente do FBI que lidera a investigação, a série é protagonizada por Sam Worthington como Jim “Fitz” Fitzgerald, um profiler incorruptível e pioneiro.
Ted Kaczynski matava pelo correio, enviando encomendas armadilhadas. Conseguiu escapar às autoridades durante duas décadas. Visto como um eremita louco, a série inclina o prisma para ver as origens da mente criminosa, mas também a sua sofisticação.
American Crime Story – The Assassination Of Gianni Versace
No dia 15 de Julho de 1997, o estilista Gianni Versace foi assassinado com dois tiros na nuca à porta de sua casa, em Miami. Versace tinha 50 anos. O criminoso, identificado logo no primeiro episódio, Andrew Cunanan, é um serial killer homossexual de 27 anos, que vivia à custa de homens mais velhos e ricos.
A série tem nove episódios. Começa com a morte de Versace e depois anda para trás e para a frente no tempo, ora mostrando como era a vida de Cunanan e outros dos seus crimes, antes de ter morto o estilista, ora centrando-se na caça ao homem pela polícia de Miami.
Édgar Ramirez interpreta Gianni Versace, Ricky Martin personifica o seu namorado, Anthony D’Amico, Darren Criss dá corpo a Andrew Cunanan e Penélope Cruz é Donatella Versace, a irmã do estilista.
Mindhunter - Season 1
Mindhunter é uma série inspirada na obra "Mind Hunter: Inside The FBI's Elite Serial Crime Unit" de John E. Douglas e Mark Olshaker, agentes do FBI, onde narram as suas pesquisas na área de psicologia criminal. Os seus estudos incluem, em grande parte, entrevistar assassinos em série famosos, em busca de razões para as suas acções, tentando desta forma, nos anos 70, expandir as fronteiras da ciência criminal com um perigoso mergulho no universo da psicologia do assassinato.
Apanhar assassinos em série requer astúcia e assim entrevistar assassinos para perceber o que os move é o mote desta série criada por Joe Penhall e dirigida por David Fincher, entre outros realizadores. Baseada numa história verídica, com assassinos de que já ouvimos falar, Mindhunter centra-se nos agentes Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, juntamente com a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv).
Na 2ª temporada o foco vai para a investigação de homicídios de crianças ocorridos entre 1979 e 1981, em Atlanta, Geórgia, nos EUA.
Uma série negra e tensa, sem nunca ser demasiado explícita.
Atravessamos um momento de profunda angústia face a uma realidade que poucos pensavam possível. A pandemia do Covid-19 está a afetar de forma profunda a nossa sociedade e terá consequências a longo prazo.
Embora acredite que será possível, num prazo razoável, encontrar uma vacina que poderá impedir a generalização da infeção, até lá os efeitos continuarão a sentir-se. Situações como a de Itália, com o fecho de todo um país, poderão repetir-se noutros países, com consequências profundas no tecido social e económico.
Aparentemente em Portugal, um país de brandos costumes, está a existir alguma dificuldade na perceção real do problema, não se assistindo, de forma generalizada, à adoção dos comportamentos de prevenção adequados.
Notícias a que temos assistido, como o não cumprimento do isolamento social por parte de algumas pessoas, são de uma enorme irresponsabilidade e dificultam, eventualmente de forma definitiva, os esforços de contenção da disseminação da infeção.
Ainda ontem foi noticiado que algumas praias da zona de Lisboa estavam cheias de banhistas e na marginal de Esposende ou da Póvoa de Varzim, ou ainda no Santuário do Sameiro, verificaram-se situações de aglomeração de cidadãos.
Este tipo de comportamento tem de terminar. Deve ser preocupação de todos cumprir e exigir o cumprimento das medidas de prevenção, contribuindo para a consciencialização da sociedade para a dimensão do problema que enfrentamos e para o fim da pandemia.
Quando se assistia a uma recuperação económica generalizada, após uma crise profunda iniciada em 2008, esta pandemia, conjugada com a guerra do petróleo entre a OPEP e a Rússia, constitui a tempestade perfeita que poderá e deverá originar uma nova crise financeira. E, com o crescimento das tendências nacionalistas, a reconfiguração das cadeias de produção, a subida ao poder de personalidades com reduzidas capacidades de enfrentar os problemas, podemos estar a assistir a uma reconfiguração do Mundo a que estamos habituados, com consequências imprevisíveis e possíveis retrocessos civilizacionais.
Esperemos que os políticos que nos governam estejam, desta vez, à altura do desafio.