terça-feira, 10 de agosto de 2021

Cinema do Mundo


"Nenhuma arte simula a vida como o cinema. Todavia, não é uma vida. Também não é propriamente uma arte. Porque é uma acumulação, uma síntese de todas as artes. O cinema não existia sem a pintura, sem a literatura, sem a dança, sem a música, sem o som, sem a imagem, tudo isto é um conjunto de todas as artes, de todas sem exceção".
Manoel de Oliveira (1908-2015), cineasta



- Bir Zamanlar Anadolu'da (Era Uma Vez na Anatólia), de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (2011)

História policial sobre a reconstrução de um crime. Desenvolve-se desde o pôr do Sol ao meio dia seguinte. Os personagens, polícias, guardas, chefe da polícia, procurador, médico e suspeitos, à exceção do regedor da aldeia, podiam, com pequenas diferenças ser portugueses. É um filme sobre a morte e o seu impacto nos vivos.

A partir das suas habituais experimentações formais e estudos filosóficos, Nuri Bilge Ceylan construiu uma lancinante exploração sobre a moralidade humana onde os diálogos são explícitos ao ponto de serem literários, e onde a paisagem noturna rasgada pelas luzes dos automóveis policiais contém tanta importância conceptual como o mais complexo monólogo (e há bastantes neste filme).
 



- Les Innocentes (Agnus Dei – As Inocentes), de Anne Fontaine – França, Polónia (2016)

Filme passado num convento logo após o final da Segunda Guerra Mundial. É sobre um tema delicado, cheio de nervos sensíveis e propício a derrapagens facilmente melodramáticas ou a tropeções de simplismos piedosos. Fontaine mostra a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas, e as suas perplexidades, tensões, angústias e interrogações, da descrente e materialista médica, confrontada com o mundo e os valores das religiosas. O “happy ending”, talvez com açúcar em demasia, em nada colide com a profundidade e o dramatismo desta terrível história, contada com a segurança e a sensibilidade exigida por algo tão frágil.




- Oslo, 31. August (Oslo, 31 de Agosto), de Joachim Trier – Noruega (2011)

Filme belíssimo, que nos interroga sobre o que nos faz viver e o que nos faz desistir de viver. Sobre como é invisível a linha que nos faz sentir «em cima» ou «sentir em baixo».

A história de um dia na vida de um homem perdido que quer cometer suicídio parece ser a receita perfeita para uma obra de puro miserabilismo à boa moda do cinema europeu. Mas Joachim Trier não é um realizador qualquer e dessa premissa limitada, o cineasta norueguês faz um filme que funciona muito mais como uma celebração da experiência da vida humana do que como uma marcha fúnebre.
 



- Timbuktu, de Abderrahmane Sissako – Mauritânia (2014)

Timbuktu é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988. De pequena povoação perdida no deserto do Saara, o lugar transformou-se, ao longo dos séculos, em capital intelectual e espiritual de África, um oásis no deserto que foi despertando a atenção do mundo. Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico liderado por Iyad Ag Ghaly. O medo e a incerteza apoderam-se daquele lugar. Por ordem dos fundamentalistas religiosos, a música, o riso, os cigarros e o futebol são banidos. As mulheres são obrigadas a usar véu e a mostrar submissão total. A cada dia surgem novas leis para serem cumpridas e a vida de cada um dos habitantes vai sendo modificada tragicamente.

Na conjuntura atual, um filme sobre uma comunidade africana a enfrentar a opressão de invasores que impõe leis fundamentalistas islâmicas é uma preciosidade a ser considerada com admiração e respeito. Quando essa obra é, para além da sua importante temática, uma magnífica construção de cinema elegante, solene e esteticamente belíssimo, então temos um verdadeiro triunfo que deve ser visto por todos.




La Teta Asustada (A Teta Assustada), de Claudia Llosa – Peru (2009)

O filme inicia-se com uma cantiga inocente num testemunho de traumas e horrores que rompem pela escuridão da tela como um pesadelo do qual é impossível acordar. Começar um filme desta forma é arriscado e é um verdadeiro testamento à ousadia da cineasta peruana. É graças ao seu trabalho que um conto meio melodramático, sobre uma jovem que está “doente” devido à sua mãe ter sido violada durante os conflitos que assolaram o país nos anos 80, é representado com um bizarro, mas fascinante, estilo entre o realismo social e o artifício simbólico.


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Leituras do Mês

 

- Benjamin WikerDez Livros Que Estragaram O Mundo 
- Ófeigur SigurdssonO Livro de Jón 
- Mario Vargas LlosaA Cidade e os Cães 
- Nicole KraussA Grande Casa

sexta-feira, 30 de julho de 2021

domingo, 25 de julho de 2021

Sons de Verão


1. Sharon Van Etten & Angel OlsenLike I Used To
2. Manchester OrchestraTelepath
3. Billie EilishLost Cause
4. Tom Hodge ft. EivørNothing Less Nothing More
5. Alison MosshartIt Ain’t Water
6. Martin Garrix ft. Bono & The EdgeWe Are The People
7. CHVRCHES ft. Robert SmithHow Not To Drown
8. Yves TumorJackie
9. Final Song
10. The VaccinesHeadphones Baby
11. Girl In RedBad Idea!
12. Japanese BreakfastPosing In Bondage
13. MåneskinZitti E Buoni
14. Nothing But ThievesFutureproof
15. LordeSolar Power
16. 070 ShakeGuilty Conscience
17.The Divine ComedyInfernal Machines / You’ll Never Work In This Town Again
18. Antony & The JohnsonsThank You For Your Love
19. Fiona AppleThe Whole Of The Moon
20. The Head And The HeartRivers & Roads


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Factos Escondidos da História de Portugal - José Gomes Ferreira

 



Após a leitura das 477 páginas desta obra, cheguei à conclusão que o seu ator tortura os factos históricos, espezinha a verdade, mata a probidade e estrangula a independência intelectual e principalmente a nossa portugalidade. Pura perda de tempo, exemplo do que não deve ser uma obra didática e útil para quem quer aprender algo sobre a História do nosso país.

José Gomes Ferreira não tem qualquer formação em História, assegura que se trata de um livro de política (apesar de na contracapa destacar que “obriga a repensar a História”). Insinua que não estamos a ensinar corretamente a História de Portugal nas nossas escolas alegando que há uma História oficial e outra não oficial e que para ele os historiadores seguem uma “cartilha” oficial.

Trata-se de uma autêntica compilação de pseudo-factos secretos onde demonstra uma ignorância enciclopédica sobre os estudos que são feitos e publicados em Portugal por investigadores, apresenta um conjunto de teorias mirabolantes sem qualquer fundamentação científica, pejado de erros factuais. Não há análise de fontes, recorre a páginas avulsas da internet, cita meia dúzia de livros de autores e tenta adaptar as fontes à sua teoria não mencionando autores mais credíveis que não confirmem a sua tese. O último capítulo do livro, “Só não vemos o que não queremos ver” devia chamar-se “O autor só vê o que quer ver” tal é o número de imprecisões e de ideias feitas sem qualquer fundamentação.

O próprio título do livro é enganador: não apresenta Factos Escondidos da História de Portugal mas apenas factos relativos aos séculos XV e XVI. É errado considerar que em Portugal há uma História oficial: mesmo entre os historiadores há muitas opiniões e versões diferentes. A História não oficial de José Gomes Ferreira é baseada em fontes que não têm qualquer validade ou fundamentação científica. Sobre cartografia apresenta algumas deduções e ideias soltas mas todas as suas ideias não são novas, já foram apresentadas por outros autores. Faz uma escolha muito seletiva da bibliografia: chega a citar um artigo de João Paulo Oliveira e Costa mas não segue as conclusões do autor mas sim as suas próprias conclusões e ignora o resto da bibliografia deste investigador. Baseia-se em indícios, artigos desatualizados (1926 e 1934), introduz factos errados sobre o pau-brasil e a sua origem e apresenta uma mixórdia de temáticas com teorias controversas: Américas, Canadá, Brasil, Austrália, Antártida, Califórnia, Colombo, Fernão de Magalhães, os portugueses em Marrocos, a origem do nome Portugal (atribuída à Ordem dos Templários, quando existe consenso entre os historiadores quanto à sua origem) e os Painéis de S. Vicente.

Existe muita bibliografia que contradiz o autor, alguma até disponível online. Por exemplo, no que diz respeito aos portugueses em Marrocos pode-se ler este artigo de António Dias Farinha AQUI; sobre Cristóvão Colombo, ESTE artigo de Luís Filipe Thomaz (página 483) ou ESTE de Francisco Contente Domingues e sobre os portugueses na Austrália, ESTE de Carlota Simões e Francisco Contente Domingues.

Esta edição só tem explicação por se tratar de uma figura pública. Infelizmente, o mercado literário em Portugal privilegia essencialmente autores que sejam reconhecidos facilmente pelo público (como apresentadores de televisão, atores, participantes em reality shows, jornalistas, desportistas ou familiares de celebridades). Além disso, as editoras tendem a procurar material sensacionalista. O trabalho sério de investigação é muitas vezes preterido por este tipo de publicação.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Wolf Alice – Blue Weekend (2021)


Desde 2015 que os Wolf Alice têm merecido a minha atenção quando editaram o aclamado álbum My Love is Cool, confirmada dois anos depois com Visions of a Life, onde a banda mistura elementos do indie rock com músicas mais introspetivas e calmas, com faixas mais pesadas e cheias de energia.

Depois de quatro silenciosos anos, acabam de regressar às edições com o ambicioso, potente e excelente Blue Weekend que promete tornar-se épico. O álbum move-se em terrenos familiares, algures entre o rock de feição mais clássica, misturado com elementos shoegaze, riffs de guitarra que, muitas vezes, remetem para o grunge do início dos anos 90, aqui e ali, um pouco de psicadelismo à mistura e uma incorporação bastante acentuada, em certos momentos, de elementos eletrónicos. As letras são reflexivas, discutem como relacionamentos começam e terminam e abordam a pandemia e as crises intermináveis que estamos a viver.


“The Last Man On Earth”, primeiro single do álbum, tem tudo para ser apenas uma balada, vai-se lenta e subtilmente metamorfoseando noutra coisa graças ao cunho pessoal dos Wolf Alice. Se a primeira parte da canção nos dá a voz crua de Ellie Rowsell, em solitária conversa com o piano, enfatizando-se cada palavra proferida, a ponte assinala uma viragem inesperada, introduzindo uma mescla de coros épicos e guitarras psicadélicas da década de 60.

Seja cinema ou sonho (“Lipstick On The Glass” e “Feeling Myself”), dream pop (“Delicious Things” e “No Hard Feeling”) ou riffs distorcidos (“The Beach”), punk (“Play The Greatest Hits” e “Smile”), folk (“Safe From Heartbreak – If You Never Fall In Love”) ou anos 80 (“How Can I Make It OK?”), Blue Weekend soa como um disco de consolidação, com arranjos impecáveis em cada música e que em apenas 40 minutos mostra uma das joias da música inglesa de 2021.

Os Wolf Alice acabam de anunciar a Tour Europeia com passagem por Lisboa a 3 de março de 2022. Os bilhetes já estão à venda...

Wolf Alice Mixtape:

terça-feira, 15 de junho de 2021

David Owen - Na Doença e no Poder



No seu livro de 503 páginas sobre as doenças dos grandes estadistas do século passado, “Na Doença e no Poder – Os Problemas de Saúde dos Grandes Estadistas nos Últimos 100 Anos”, David Owen (neurologista e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico) considera que o que motivou a decisão de invadir o Iraque, tomada por George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar durante a célebre cimeira dos Açores em 2003, não foi a existência de armas de destruição maciça, nem a ambição de controlar o petróleo iraquiano mas sim um transtorno comum entre os políticos no poder, a síndrome de Hubris.

Esta síndrome, não reconhecida pela Medicina, equivaleria a uma “embriaguez de poder” caracterizada pela perda do sentido da realidade, soberba, presunção, persistência perversa em políticas que não funcionam e desrespeito pelos conselhos daqueles que os rodeiam. Os “pacientes” quando as decisões se revelam erradas, nunca reconhecem o equívoco e continuam convencidos que tomaram a decisão certa.

A sua dimensão é catastrófica quando se manifesta num pequeno grupo, fechado sobre si próprio, que desconsidera as pessoas e as instituições que promovem ideias contrárias, rejeitando-as e excluindo-as do seu núcleo decisor.

O exemplo do Iraque é o mais recente, mas ao longo da obra são apresentados muitos outros “doentes” afetados pela mesma síndrome como, por exemplo, Neville Chamberlain (primeiro ministro britânico entre 1937 e 1940, Adolf Hitler, François Mitterrand, Mao Tse-Tung, John F. Kennedy e até Margaret Thatcher nos seus últimos anos no poder. Todos eles foram atingidos por este transtorno psicológico. Aliás, Owen reconhece que também ele, no início da sua carreira política, deixou que o poder lhe subisse à cabeça - foi o mais novo ministro inglês dos Negócios Estrangeiros - embora sem nunca chegar aos extremos de alguns líderes históricos.

O fenómeno foi batizado com o nome da palavra grega “Hubris” que designava o herói que, uma vez alcançada a glória, deixava-se embriagar pelo êxito e comportava-se como um Deus capaz de tudo. Em consequência, começava a acumular erros, encontrando a sua Némesis, que o devolvia à realidade.  Não há tradução exata para a palavra Hubris que sintetiza o significado de outras: “arrogância”, “desprezo”, “superioridade”, “excesso de confiança” ou até alguma coisa semelhante a “autismo”, perda do sentido da realidade.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Leituras do Mês


- Daphne du MaurierO Outro Eu 
- Laura RestrepoA Noiva Obscura 
- Knut HamsonMistérios 
- John BanvilleA Guitarra Azul

sexta-feira, 23 de abril de 2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Leituras do Mês

- Jon FosseTrilogia 
- Italo SvevoA Consciência De Zeno 
- Aravind AdigaO Último Homem Da Torre 
- José Eduardo AgualusaO Mais Belo Fim Do Mundo

quinta-feira, 25 de março de 2021

Sons da Primavera


1. Dry CleaningScratchcard Lanyard 
2. Nick Cave & Warren EllisHand Of God 
3. Cassandra JenkinsHard Drive 
4. King Gizzard & The Lizzard WizardO.N.E. 
5. The CoralFaceless Angel 
6. Wolf AliceThe Last Man On Earth 
7. The Flaming LipsWill You Return / When You Come Down 
8. Olivia RodrigoDrivers Licence 
9. Lael NealeEvery Star Shivers In The Dark 
10. Arab StrapHere Comes Comus! 
11. Pom PokoLike A Lady 
12. Tate McRaeYou Broke Me First 
13. Shame Snow Day 
14. Fiona AppleShameika 
15. The ChillsMonolith 
16. Midnight SisterDoctor Says 
17. Fleet Foxes – Can I Believe You
18. Billie Eilish Everything I Wanted 
19. UnionsSex & Candy 
20. TindersticksMan Alone (Can’t Stop The Fadin’)


 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Leituras do Mês


- Gonçalo M. TavaresUma Menina Está perdida No Seu Século à Procura Do Pai
- Jo NesboMacBeth
- João Ubaldo RibeiroA Casa Dos Budas Ditosos
- Zadie SmithO Homem Dos Autógrafos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Os Melhores Filmes de 2020

2020 terá sido, provavelmente, um dos anos mais estranhos da história do cinema, mas não foi por isso que deixou de haver bom cinema para ver. 

A pandemia veio baralhar as contas a todos, e a indústria cinematográfica atravessou um ano atípico mas desafiador, com rodagens e estreias canceladas ou adiadas. Este cenário acabou por possibilitar o fortalecimento dos serviços de streaming. 

O cinema, nos melhores e piores momentos, é um modo de viajarmos sem sair do lugar e descobrirmos outras histórias e realidades possíveis. Na minha opinião, os filmes de 2020 que me proporcionaram as "viagens" mais fascinantes foram:

1. Better Days

Shaonian de ni”, título deste filme de Hong-Kong, realizado por Derek Tsang, onde uma adolescente que sofre de bullying forma uma amizade inesperada com um jovem misterioso que a protege de agressores, enquanto tem de lidar com a pressão dos exames finais do ensino secundário para entrar na universidade. Apesar da excessiva manipulação sentimental, trata-se de uma acutilante história sobre bullying levada à violência extrema. “This used to be our playground”... 
  
 


2. Druk 

Conhecido também por “Another Round” este filme dinamarquês de Thomas Vinterberg também é ambientado numa escola secundária onde quatro professores parecem ter chegado à crise de meia-idade e, numa noite, enquanto afogam as mágoas e partilham as suas histórias infelizes, decidem experimentar um estado de embriaguez (crescente) mesmo quando dão as suas aulas. O filme termina magistralmente ao som de “What a Life” de Scarlet Pleasure.

 


3. Promising Young Woman 

A excelente Cary Mulligan é uma ex-estudante de medicina que, traumatizada por algo que aconteceu à melhor amiga no passado, decidiu largar tudo e ainda não sabe o que fazer da própria vida, exceto aterrorizar homens que tentam abusar dela, fingindo-se de bêbada em bares da cidade. Filme feminista de Emerald Fenell, com um humor sóbrio, por vezes desconcertante mas no final, que é excelente, há uma reviravolta deliciosa de contemplar, tal e qual uma ópera que atinge o seu ápice supremo nos momentos finais...

 


4. Sound Of Metal 

Com uma prestação arrebatadora de Riz Ahmed, este filme de Darius Marder, leva-nos numa viagem sensorial que nos desperta para um mundo pouco representado no cinema onde não há nada mais revelador que o próprio silêncio. Um baterista de uma banda de metal que, subitamente, começa a perder a audição e tem de mudar completamente a sua vida até perceber que existem outras formas de viver...



5. Quo Vadis, Aida?

Co-produção entre nove países europeus, este filme desconcertante de Jasmila Zbanic, baseado em factos verídicos, acompanha a vida de uma professora (a soberba Jasna Djuricic), que também é tradutora das Nações Unidas, e que tenta salvar o marido e os filhos durante o massacre de Srebrenica, em julho de 1995. O filme não é fácil de suportar e só quem se sente mentalmente preparado deve aventurar-se neste flagelo cinematográfico que mostra os horrores do genocídio num dos períodos mais negros na História Europeia após a 2ª Guerra Mundial (neste caso com a inação criminosa das Nações Unidas).

 


6. First Cow 

Belíssimo filme realizado por Kelly Reichardt que conta a história de uma amizade no século XIX, construída nos detalhes e silêncios da rotina de dois homens, Otis “Cookie” Figowitz (John Magaro), padeiro que viaja com um grupo de caçadores e King-Lu (Orion Lee), que decidem roubar o leite da única vaca da região para a produção de doces e que acabam por encontrar, um no outro, o conforto que o verdadeiro companheirismo pode trazer. Construída com a calma do cinema mais contemplativo e “natural”, tanto no sentido de naturalista quanto de ligado à natureza (os animais, as plantas e os humanos), o que poderá afastar muitos espectadores, a longa-metragem logo na imagem inicial revela o destino que aqueles dois homens terão, restando apenas a descoberta das suas circunstâncias exatas. Uma obra profunda ao conseguir debater as injustiças do capitalismo que são refletidas no mundo moderno.

 


7. Corpus Christi 

Filme polaco realizado por Jan Komasa e baseado em factos reais que aborda a religião católica e que investiga em detalhe questões como as vocações e celibato sacerdotal, além da estranha dinâmica social de uma pequena comunidade, que incorpora um novo sacerdote (fabulosa interpretação do jovem protagonista Bartosz Bielenia), que esconde a sua verdadeira identidade.

 


8. I Care A Lot 

O que mais apreciei neste filme de J Blakeson foi a impressionante prestação de Rosamund Pike (aqui é Marla Grayson, uma guardiã do estado que cuida dos mais idosos) e do seu argumento: um médico seleciona um paciente mais idoso, de preferência doente (se for demência melhor ainda), no entanto com sólidas poupanças e bens materiais; depois um juiz assina uma ordem do tribunal que afirma que este idoso não é mais capaz de cuidar dele próprio e é necessário nomear alguém para o fazer; por fim, uma guardiã entra em contacto com o idoso, com a ordem do tribunal a dizer que terá de ir para um lar, mas que a sua casa e os seus bens vão ficar bem entregues. O que menos apreciei foi o fim da história...

 


9. Listen 

Filme muito realista, aborda o drama de um casal português emigrado, a quem os serviços sociais retiram, injustamente, os filhos por suspeitas de maus tratos. O filme de Ana Rocha de Sousa espelha a luta pela união de uma família após um erro irreversível mas também é um filme que tornar-se-ia ainda mais envolvente se adotasse uma estrutura mais complexa. O tema final “Hold My Hand”, cantado por Nessi Gomes, traz toda uma nostalgia que realça os momentos mais duros do filme.

 


10. Never Rarely Sometimes Always 

Este filme sobre amizade, machismo e aborto, constitui uma crítica social contada de uma forma única, crua e transparente. Autumn (Sidney Flanigan), é uma jovem de 17 anos que decide abortar aos 17 anos e conta com o apoio da prima e amiga incondicional Skylar (Talia Ryder). O título do filme de Eliza Hittman corresponde às respostas a um questionário de escolha múltipla sobre experiências potencialmente marcadas pela violência sexual, física ou psicológica, pronunciadas no interrogatório devagar e pesarosamente como uma facada no coração e é quando percebemos o motivo da gravidez ser indesejada. O preenchimento do questionário constitui o momento principal do filme ao revelar todos os medos, aflições e dores da protagonista. Sharon Van Etten participa como atriz (é a mãe de Autumn) e também se ouve na parte final do filme em “Staring At A Montain”.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Os Melhores Discos do Ano 2020


E chegámos ao fim de 2020 (finalmente), o ano que vai ser recordado durante bastante tempo e, infelizmente, pelas piores razões. O ano da pandemia dinamitou todos os quadrantes da sociedade e o da cultura foi, claramente, dos mais atingidos. Concertos e festivais cancelados e adiados, músicos sem lugar para ensaiar, gravar e tocar, e um público sem ter acesso aos seus artistas favoritos. Um ano totalmente atípico que, esperamos, não venha a ser igualado no futuro. 

Num ano de muitos discos (e tempo passado em casa para os escutar), aqui fica uma lista dos 20 discos que mais gostei de escutar este ano.


   


- JARV IS... - Beyond the Pale 
- Porridge Radio - Every Bad 
- Fontaines DC - A Hero’s Death 
- Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters 
- Baxter Dury - The Night Chancers 
- Phoebe Bridgers - Punisher 
- Thurston Moore - By the Fire 
- Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways 
- Haim - Women in Music Pt. III 
- Moses Sumney - Græ 
- Laura Marling - Song For Our Daughter 
- Bill Callahan - Gold Record 
- Waxahatchee - Saint Cloud 
- Fleet Foxes - Shore 
- The Flaming Lips - American Head 
- Dua Lipa - Future Nostalgia 
- Rufus Wainwright - Unfollow The Rules 
- B Fachada - Rapazes e Raposas 
- Samuel Úria - Canções do Pós-Guerra 
Matt Berninger - Serpentine Prison


 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

As Minhas Melhores Leituras de 2020

1. Elena Ferrante – A Vida Mentirosa dos Adultos 
2. Celeste Ng – Pequenos Fogos em Todo o Lado 
3. Vladimir Nabokov – Contos Completos – Volume 1 
4. Haruki Murakami  Norwegian Wood 
5. Ian McEwan – A Balada de Adam Henry 
6. Javier Cercas – O Impostor 
7. Annie Ernaux – Os Anos 
8. Aravind Adiga – O Tigre Branco 
9. Irene Vallejo – O Infinito Num Junco 
10. Jerry Seinfeld – Isto Tem Piada? 
11. Jón Kalman Stefánsson – Aproximadamente do Tamanho do Infinito 
12. Woody Allen – A Propósito De Nada

domingo, 27 de dezembro de 2020

As Melhores Séries de 2020

Thriller, drama, comédia e ficção científica. Há de tudo nesta seleção das melhores séries. Creio que nunca vi tantas séries de televisão e nunca senti que ficou tanto por ver. É impossível ver tudo. Todos os dias saem novas séries nas várias plataformas de streaming disponíveis em Portugal e foram várias as histórias interessantes que chegaram à televisão nos últimos meses. Esta é a lista (possível) das melhores séries de 2020 a que assisti:


 


1) The Unorthodox

2) Small Axe

3) Pátria

4) Curb Your Enthusiasm (Temporada 10)

5) The Crown (Season 4)

6) Normal People

7) Better Call Saul (Season 5)

8) The Queen’s Gambit

9) Ozark (Season 3)

10) Mrs. America

11) A Teacher

12) The Undoing

13) High Fidelity

14) A Very English Scandal

15) Little Fires Everywhere

16) Ramy (Season 2)

17) The Mandalorian

18) Dave

19) My Brilliant Friend (Season 2)

20) Bridgerton

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Jesus aguentaria ser professor nos dias de hoje?!



O Sermão da Montanha

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele preparava-os para serem os educadores capazes de transmitir a Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:


- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; Felizes os misericordiosos, porque eles...?

Pedro interrompeu-o: 
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
 
André perguntou:
- É pra copiar?
 
Filipe lamentou-se:
- Esqueci-me do meu papiro!
 
Bartolomeu quis saber:
- Vai sair no teste?
 
João levantou a mão:
- Posso ir à casa de banho?
 
Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
 
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
 
Tomé questionou:
- Há alguma fórmula pra provar que isso tá certo?
 
Tiago Maior indagou:
- Vai contar pra nota?
 
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandalhão à minha frente!
 
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
 
Mateus queixou-se:
- Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!
 
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está a fazer é uma aula? Onde está a sua planificação e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
 
Caifás emendou:
- Fez uma planificação que inclua os temas transversais e as atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
 
 Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos, como aplicaram os critérios de avaliação e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E veja lá se não vai reprovar alguém!
 
E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, porque me abandonaste?"
 
(Nem Jesus aguentaria ser um professor nos dias de hoje...).

Texto (bastante) adaptado de um site da internet.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Sons de Outono

 
1. Porridge Radio - Sweet
2. Phoebe Bridgers - Kyoto
3. Future Islands - Moonlight
4. Winona Oak - She
5. Two Feet - Think I'm Crazy
6. Loma - Ocotillo
7. Fontaines DC - Televised Mind
8. Nothing But Thieves - Phobia
9. Andy Bell - Love Comes In Waves
10. Local Natives (Ft. Sharon Van Etten) - Lemon
11. Angel Olsen - Whole New Mess
12. Eels - Are We Alright Again
13. Deep Sea Diver (Ft. Sharon Van Etten) - Impossible Weight
14. Cage The Elephant - Ready To Let Go
15. Pixies - Hear Me Out
16. Bully - Where To Start
17. Thurston Moore - Hashish
18. Lana Del Rey - Let Me Love You Like A Woman
19. Patrick Watson - Lost With You
20. Billie Eilish - No Time To Die


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

domingo, 1 de novembro de 2020

Ian McEwan – A Balada de Adam Henry

 

Ian McEwan apresenta uma prosa habilidosa, onde nenhuma palavra ali está por acaso e os parágrafos sucedem-se sem artifícios ou truques retóricos. Escrito na terceira pessoa, apresenta-nos uma história com laços simples, que se tornam complexos com o desenrolar dos acontecimentos. Os temas centrais são o confronto entre a vida pessoal e a vida profissional, mas também entre a razão científica e o fundamentalismo religioso. Utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma prestigiada juíza do Supremo Tribunal como protagonista: Fiona Maye, 59 anos, especialista em Direito de Família, e que de acordo com os seus colegas, possui “uma imparcialidade divina e inteligência diabólica”. Tornou-se famosa devido a um caso de gémeos ao aprovar a intervenção cirúrgica que iria separar uns irmãos siameses, provocando o sacrifício de um deles em benefício da sobrevivência do outro.

Apesar de lidar diariamente com a razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através das suas sentenças, a sua vida pessoal está a passar por uma crise: arrepende-se de não ter tido filhos e o marido, professor universitário de História, coloca-a numa posição de escolha entre uma posição passiva sobre um caso extraconjugal com uma colega do trabalho e o fim do casamento de 35 anos (justificando-se com as suas necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo trabalho).

É neste ambiente que vai parar às suas mãos um caso de um rapaz, prestes a completar 18 anos, que precisa de uma transfusão de sangue para o tratamento de leucemia. Este rapaz, Adam Henry, cujos pais são Testemunhas de Jeová, não aceita aquela solução e está disposto a “morrer como mártir” pela religião. O momento familiar complicado pelo qual Fiona está a passar faz com que ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do adolescente em confronto com os dogmas religiosos da sua família e assim ela decide ir visitar o jovem Adam ao hospital. Aqui, constata que este tem uma compreensão parcial da situação precária da sua saúde e dos riscos associados e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes da sua orientação religiosa. Escreve poesias que encantam a equipa médica e despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela decidiu não ter filhos devido à sua carreira) e carência sentimental. Para Adam, “a religião dos meus pais era um veneno e a Fiona foi o antídoto”.

A música erudita tem um lugar de destaque neste romance, constituindo uma válvula de escape para Fiona, uma exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler (no seu belíssimo apartamento tem um piano Fazioli), e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível Adam Henry. Também se encontram referências a Bach, Schubert e Scriabin e a dois discos: “Facing You” de Keth Jarrett e “Round Midnight” de Thelonius Monk. Fundamental também é o poema de William Butler Yeats, Down By the Salley Gardens”. 



Para quem nunca leu nada deste autor recomendo a leitura de “Amesterdão”, “Expiação” e “Sábado” (preferencialmente por esta ordem).





Quanto ao filme, de 2017, que tem como nome alternativo “My Lady” e segue quase à risca o livro com uma realização muito segura e fiável de Richard Eyre, cenários clássicos, guarda-roupa irrepreensível, tudo “very british” incluindo as cabeleiras dos juízes e uma casa maravilhosamente decorada… Rigor britânico num filme jurídico denso e belo onde a paixão da juventude, que tudo arrebata, coloca as convicções morais e uma vida emocional esfrangalhada em enorme turbação. Quem realmente brilha são os atores que encarnam os diferentes pólos de interesse: a sublime Emma Thompson, mostrando na perfeição as oscilações de Fiona, entre a firmeza da sua racionalidade e a insegurança da sua vida interior (o realizador aproveita para abrir a porta aos sentimentos mais profundos de Fiona); Fionn Whitehead, como Adam Henry, ao conseguir exprimir as suas angústias e desejos, os seus dramas e ambições e a precoce mas encantadora maturidade que tanto encantou a Honourable Mrs Justice Maye e, por fim, Stanley Tucci, ator sóbrio a deslizar naquilo que por vezes se designa classe.

O nome original do filme, “The Children Act” (e também do livro), é uma referência à legislação britânica, de 1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a sua decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do tribunal”.

Um filme que nos deixa desassossegados e cúmplices e esse é o poder que só os grandes filmes possuem.



sábado, 31 de outubro de 2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Concertos de 2019


A pandemia trouxe o isolamento e distanciamento social, mas também trouxe a ausência de concertos ou festivais de música. Ouvir música ao vivo tem sido, desde sempre, uma forma de libertar o corpo e a mente, um local para deixar o stress e recarregar baterias. Assim não é de estranhar que haja saudades do verão quente, servido de muita música ao ar livre e de memórias que nos aguentavam a saudade até ao ano seguinte. 

Relembro AQUI, nesta altura de pandemia os concertos mais memoráveis do ano de 2019: Primavera Sound, Alive, SBSR, Sudoeste, Paredes de Coura, Vilar de Mouros.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Leituras do Mês


- Ian McEwan - A Balada De Adam Henry
- Roberto Bolaño - O Terceiro Reich
- Maria João Lopo De Carvalho - O Fado Da Severa
- François Bégaudeau - A Turma

Dia Mundial do Sorriso (Best Stand-Up Comedy Specials)


Sorrir é das coisas mais simples, contribui para o nosso bem-estar e para uma vida saudável. E os espetáculos de stand-up vistos no último ano que mais contribuíram para o meu sorriso foram:




- Hasan Minhaj: Homecoming King (2017)

- Jim Jefferies: Bare (2014)

- Hannibal Buress: Comedy Camisado (2016)

- Jim Gaffigan: Beyond The Pale (2006)

- Richard Pryor: Live in Concert (1979)

- Ali Wong: Baby Cobra (2016)

- Patton Oswalt: Annihilation (2017)

- Reggie Watts: Spatial (2016)

- Zach Galifianakis: Live At The Purple Onion (2006)

Jen Kirkman: I’m Gonna Die Alone (And I Feel Fine) (2015)



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Planeta - Lixeira (Placebo - Life’s What You Make It)

 

Os sinais são cada vez mais preocupantes. Tudo o que se passa no nosso planeta, a sua decadência, tem no Homem o único responsável.

A sociedade de consumo desenfreado, a constante crise económica, a insegurança internacional e o continuado confronto entre as nações, o esbanjador estilo de vida das nações mais avançadas, tudo isso é insustentável para a Terra que assim não se consegue regenerar. O que se passa com o degelo nos polos e os devastadores incêndios na Amazónia – o pulmão natural em vias de colapso final – são exemplos negativos e criminosos de que é (quase) impossível reverter a morte anunciada deste nosso habitat, que já foi um paraíso e que vai sendo transformado numa verdadeira montureira.

O vídeo do tema Life’s What You Make It (cover do tema dos Talk Talk de 1985), da banda inglesa Placebo foi gravado numa das áreas mais poluídas do planeta, em Agbogbloshie, localizado na cidade de Acra, no Gana, onde fica a maior lixeira eletrónica do mundo onde são abandonados milhões de computadores, televisores, impressoras e telemóveis velhos pelos países mais desenvolvidos. A ideia é mostrar como parte da população vive e trabalha neste local e também o quanto nós, seres humanos, descartamos não só o lixo convencional, mas os restos de equipamentos eletrónicos, tão presentes na nossa vida.

O vídeo inicia-se com imagens da linha de produção de uma fábrica de produtos eletrónicos até serem substituídas por imagens de Agbogbloshie, um enorme depósito de resíduos de produtos eletrónicos onde milhares de famílias recolhem sucatas para sobreviver.

No meio da catástrofe humana registada nesse local, as imagens mostram os seus trabalhadores, essencialmente crianças e jovens, em alguns momentos de descontração e alguns deles chegam a cantar, a dançar e a exibirem-se para as câmaras.


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Truman Capote – A Harpa de Ervas

 



Há muito tempo não lia uma obra de prosa tão poética. A escrita de Capote, servida por uma boa tradução nesta edição Sextante, revela uma musicalidade impressionante e o título da obra dá bem o tom dessa música: o vento inclina a erva, fazendo-a soltar uma espécie de zumbido, um conjunto de ecos que parecem sintetizar vozes humanas que cantam em uníssono.

Está dado o mote para um magnífico livro, bem típico da época em que foi escrito, o início dos anos 50 do século passado; época de ilusão e de esperança para muitos mas de pessimismo para outros. Entre esses descrentes, alarmados pelo império do capitalismo, pelo macarthismo cada vez mais violento, pelo racismo e injustiças sociais, encontramos os escritores do movimento “Beat”, como são os casos de Capote e Kerouac.

Neste contexto, este livro é um intenso apelo à liberdade; ao direito que cada um deveria ter à diferença, a comportamentos socialmente atípicos e a todo um conjunto de pensamentos e comportamentos que devem ser respeitados. Assim, as personagens principais deste livro são seres antissociais, pessoas renegadas pela sociedade, perseguidos pela cor da pele, pela “deficiência” ou, como é o caso do narrador, por ter sido abandonado pelos pais. É neste aspeto que o livro é bastante autobiográfico – também Capote foi um jovem rejeitado pelas sociedade, um desenraizado, abandonado pelos pais.

Trata-se então de um livro típico desta época da escrita norte-americana, num belo estilo poético. Não é um livro grande; não é um livro com um grande enredo; mas é uma obra que prima pela beleza da própria escrita e por uma belíssima mensagem de liberdade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Explained (Netflix - Season 1 & 2)

Esta série bastante esclarecedora da Netflix explora vários temas, e é perfeita para quem é curioso e gosta de entender um pouco de tudo. Os episódios são muito curtos, raramente atingem os 20 minutos, aborda temas de Economia e Sociologia, como a ascensão da moeda digital, o mercado de ações, o politicamente correto e a disparidade salarial racial mas também explica, por exemplo, a razão do fracasso das dietas, o mundo da música pop coreana, os desportos eletrónicos ou a vida extraterrestre.


 

Season 1

  1. A Disparidade Salarial Racial
  2. ADN Manipulado 
  3. Monogamia
  4. K-Pop 
  5. Criptomoeda
  6. Por Que Falham As Dietas 
  7. O Mercado De Ações
  8. Desportos Eletrónicos 
  9. Vida Extraterrestre 
  10. !
  11. Criquete 
  12. Canábis
  13. Tatuagens 
  14. Astrologia
  15. Será Que Podemos Viver Para Sempre? 
  16. O Orgasmo Feminino
  17. O Politicamente Correto 
  18. Por Que São Mais Baixos Os Salários Das Mulheres
  19. A Crise Mundial Da Água
  20. Música 

Season 2 

  1. Cultos 
  2. Multimilionários 
  3. Inteligência Animal 
  4. Athleisure 
  5. Codificação 
  6. Piratas 
  7. A Próxima Pandemia 
  8. O Futuro Da Carne 
  9. Beleza 
  10. Diamantes

terça-feira, 28 de julho de 2020

Leituras de Verão

- Truman CapoteA Harpa de Ervas 
- Philipp MeyerO Filho 
- Herta MüllerTudo o que Eu Tenho Trago Comigo 
- Jón Kalman StefánssonAproximadamente do Tamanho do Infinito

sexta-feira, 24 de julho de 2020

ESFH: Na senda da excelência!

Disciplina de Economia: 76ª posição a nível nacional, melhor escola pública do distrito de Braga e excelente posição ao nível da escola! (fonte: Jornal Público)




Que orgulho ter contribuído para a obtenção de um excelente resultado nos rankings dos exames nacionais na disciplina de Economia na ESFH. Bom trabalho e parabéns 11CSE1 e 11CSE2, por estes dois anos em que tive o prazer de trabalhar convosco.

Uma escola é uma organização que deve ter o sucesso dos seus alunos como principal missão. Esta ambição pressupõe o prosseguimento dos diversos princípios e valores: oferecer um ensino de qualidade que prepare os alunos para a vida, facilitando o prosseguimento de estudos e a inserção na sociedade, enquanto cidadãos ativos e responsáveis, e que não se baseie no facilitismo; promover a equidade, criando condições para a igualdade de oportunidades; sobrepor os procedimentos pedagógicos e científicos aos procedimentos instrumentais e administrativos; promover hábitos de vida saudáveis, responsáveis, autónomos e solidários; estimular o exercício dos direitos e deveres de cidadania, no respeito pela diversidade, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo. Os alunos devem estar sempre em primeiro lugar, os professores e os seus interesses nunca se devem sobrepor aos dos alunos. A educação é a base de desenvolvimento de uma nação. Parabéns, ESFH.

terça-feira, 14 de julho de 2020