quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Sons de Outono
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Leituras do Mês
sábado, 1 de outubro de 2022
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
Roger Federer - O Ídolo Que Mudou O Desporto
Roger Federer, um dos desportistas mais icónicos dos primeiros 20 anos deste século e seguramente o que mais extravasou a esfera da história do ténis, pendurou as raquetes na Laver Cup no passado fim de semana.
O lendário tenista suíço despede-se dos courts com 310 semanas no topo do ranking, 20 títulos de Grand Slam, duas medalhas olímpicas, 103 títulos de singulares e 1251 vitórias em encontros individuais. E agora? O que será do ténis sem ele?
sábado, 24 de setembro de 2022
Good Luck To You, Leo Grande
"Boa Sorte, Leo Grande", filme da realizadora australiana Sophie Hyde e da argumentista e atriz britânica Katy Brand, oferece-nos um olhar íntimo sobre a sexualidade. Emma Thompson desempenha o papel principal (o que só por si já seria suficiente para ver o filme), de uma professora de Religião e Moral reformada, viúva e insatisfeita, que não tendo tido outro parceiro sexual na sua vida para além do marido (conservador e pouco preocupado com o prazer feminino), decide contratar um trabalhador do sexo que dá pelo nome de Leo Grande (Daryl McCormack). Leo é uma pessoa agradável e segura de si, e embora nem sempre diga a verdade, Nancy descobre que gosta dele e consegue efetivamente estabelecer uma relação íntima. O jovem que lhe entra no quarto de hotel acaba por ir contra os seus mais profundos preconceitos e a sua história de vida fá-la repensar a sua própria relação com os filhos.
Com diálogos magistrais e uma forte componente dramática, introspectiva e até humorística, "Boa Sorte, Leo Grande" é um filme que fala sobre desconstrução. Sobre como é libertador desfazermos os rígidos condicionamentos culturais, morais e patriarcais que nos apertam e reduzem. Como pode ser transformador olharmos ao espelho, despidos dos filtros de sempre, e olhar para o outro com as lentes limpas (de medo, de vergonha e de culpa). Como pode ser revolucionário que uma mulher madura se sinta no direito de sentir desejo, prazer e vontade de o dizer em voz alta. E como é surpreendente isso ser tão novo no cinema.
Esta comédia intimista dramática de exceção entra para a minha lista de filmes preferidos que decorrem num único cenário (neste caso um quarto de hotel e apenas dois atores) e que nem por isso deixam de ser excelentes. Os outros filmes que constam dessa lista e o respetivo cenário único são:
- Rear Window – Janela Indiscreta (1954) – apartamento;
- Carnage - O Deus da Carnificina (2011) – sala de jantar;
- Amour – Amor (2012) – apartamento;
- Locke (2013) – carro;
- Phone Booth (2002) – cabine telefónica;
- 12 Angry Men – Doze Homens em Fúria (1957) – sala de um tribunal;
- Den skyldige (2018) – central de chamadas de emergência;
- Buried – Enterrado (2010) – interior de um caixão;
- My Dinner with Andre (1981) – restaurante.
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
Delia Owens - Lá, Onde O Vento Chora
“- Bom, nesse caso, o melhor será escondermo-nos bem longe, onde o vento chora. (…)
– Onde o vento chora? O que queres dizer com isso? – A mãe costumava dizer isso. – Kya recordava-se que a mãe estava sempre a encorajá-la a explorar o pantanal. – Vai tão longe quanto puderes, até onde ouvires o vento chorar.
– Significa bem longe, no mato, onde ainda há criaturas selvagens e estas ainda se portam como tal.” (Página 120)
A narrativa retrata a história de Kya, nascida em 1945, uma menina que vive com os pais e os quatro irmãos num pântano. Aos seis anos a mãe abandona a casa, devido à violência do pai, e a partir daí a vida dela muda para sempre. Os restantes irmãos também acabam por fugir deixando-a sozinha com o pai. Este, vinha para casa às horas que lhe apetecia, geralmente bêbedo, seguido de períodos em que desaparecia durante dias. Kya tem que crescer à força, principalmente após o dia em que o pai também desaparece. Para sobreviver a pequena vende peixe, mexilhões e outras coisas para conseguir ter o que comer. Os anos passam, Kya é posta de parte pelos habitantes do vilarejo, Barkley Cove (Carolina do Norte), que a consideram um bicho do mato, uma selvagem a quem chamam a “miúda do pântano” e aos 24 anos é acusada de matar um jovem com quem teve uma relação íntima.
Os principais intervenientes nesta história são: o casal Saltos (Jumpin', no original) e Mabel, também vítimas do preconceito racial dos habitantes da vila, proprietários da loja onde Kya consegue algum proveito com as vendas que faz; Tate, o primeiro amor de Kya, que a ensina a ler e Chase Andrews, o tal jovem que apareceu morto, desportista, por quem sente mais tarde atração. Entre amores e desamores, aproximações e desilusões, Kya vai aprendendo a desconfiar até da ideia do amor romântico, acreditando que o pântano e o mundo natural (onde “o mar era tenor e as gaivotas soprano” – página 40) é a sua única e mais pura salvação.
O livro tem muito drama, intenso em sensações, pouca ação, que flutua entre o presente e o passado, mas muito bem escrito, de forma fluída e ritmada, envolvendo-nos nas descrições da natureza (fruto da experiência de Delia Owens enquanto zoóloga e cientista da vida selvagem, em África), do sofrimento e intensa solidão, do racismo (na década de 60 a discriminação com base na cor era ainda uma triste e dura realidade nos E.U.A.), da violência doméstica e alcoolismo do pai. Mostra como a personagem Kya, mesmo tendo uma vida agridoce, viu a sua sorte mudar, conseguindo superar obstáculos e sobrevivendo contra todas as expectativas, tornando-se (irrealisticamente) uma autora de renome ao publicar vários livros de Biologia. Para mim, o final da história foi bastante previsível. De lamentar o número escandaloso de erros gramaticais do livro o que é vergonhoso para a tradutora e para a editora.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
sexta-feira, 15 de julho de 2022
Irène Némirovski - Suite Francesa
A “Suite Francesa” foi escrito em segredo, quando os nazis ocuparam a França em plena Segunda Guerra Mundial. Nunca foi acabado pois a autora de origem judia, Irène Némirovsky, foi enviada para Auschwitz em 1942, onde foi morta à chegada. O manuscrito permaneceu ignorado durante quase sessenta anos, até ser redescoberto pela filha e acabou por ser publicado em 2004.
Irène Némirovsky pretendia criar um épico sobre o Holocausto. A obra seria composta por cinco volumes na sua totalidade (concebido segundo uma estrutura inspirada na quinta sinfonia de Beethoven). Concluiria apenas os dois primeiros, deixando notas manuscritas, contendo as linhas mestras para a compilação de um terceiro, pouco antes de ser deportada para Auschwitz.
A primeira parte do romance, intitulada “Tempestade em Junho” retrata, com uma lucidez espantosa, o panorama da desagregação económica francesa, como resultado da Grande Depressão dos anos 30, à escala global - uma situação que foi aproveitada pela demagogia ideológica subjacente à propaganda do partido nazi, o qual encontrou nessa fragilidade a oportunidade perfeita para dar largas aos seus objectivos expansionistas.
O local da acção, nesta primeira parte, situa-se na cidade de Paris, logo após ser declarada a guerra. Irène Némirovsky, descreve-nos alguns quadros do quotidiano doméstico em diversos lares – desde o abastado banqueiro Corbin, ao já idoso casal de classe média (funcionários bancários), os Michaud, passando pela família Péricand, situada no limiar que separa a classe média-alta da alta-baixa e pelo pretensioso escritor de massas especializado em folhetins, Gabriel Corte.
A maior parte das personagens de Némirovsky são, nesta primeira parte, não exactamente más, mas de carácter medíocre. A autora critica severamente a atitude hipócrita (colaboradores e delatores) da maior parte da população francesa.
Na segunda parte, “Dolce”, a história desenrola-se essencialmente em duas casas: a casa dos Angellier e a casa dos Labarie. Lucille Angellier é uma mulher que espera notícias do seu marido (a cumprir serviço militar), enquanto habita com a senhora Angellier, a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões e que procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais. A excepção é um alemão sensível, culto e educado – Bruno von Falk – que é utilizado como contraponto face a outras figuras do exército ocupante como, por exemplo, Kurt Bonnet, o tenente intérprete do Kommandantur fascinado por pintura flamenga.
Aquele facto não implica necessariamente que a autora simpatize com os alemães. Na realidade, na altura em que Némirovsky escreve estes capítulos, as pessoas ainda não têm consciência do perigo do nazismo, nem estão na posse da totalidade dos acontecimentos a nível global.
Esta edição de “Suite Francesa” (nome da partitura dedicada a Lucille e elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar) termina com as anotações da autora, para os volumes seguintes, seguida da troca de correspondência entre os membros da família e os amigos da escritora no sentido de mover influências para descobrir o seu paradeiro após ser deportada e proceder à sua libertação. Informação que só foi conseguida no pós-guerra, ao examinarem os registos do campo de concentração onde deu entrada.
O filme que adoptou esta obra ao cinema foca-se essencialmente na segunda parte do livro (“Dolce”) e na história de Lucille, com o marido ausente em combate e que se apaixona pelo “bom nazi” com quem é obrigada a partilhar a casa.
O elenco é admirável (especialmente Michelle Williams, Kristin Scott Thomas e Matthias Schoenaerts) mas, relativamente ao livro, o retrato não é tão realista, muitas personagens são esquecidas e a narração serve apenas para procurar o impacto emocional que as imagens não chegam a alcançar.
Sabendo tratar-se de uma forma viável de comercialização, o uso da língua inglesa em personagens francesas atribui o seu “quê” de artificialismo para os tempos que decorrem, enquanto o alemão é imaculado (involuntariamente dá a entender que é uma língua enraizada no Mal).
Trata-se claramente de uma situação em que o filme, que conta com a realização insípida de Saul Dibb, não consegue acompanhar a complexidade da obra original apesar dos valores de produção serem elevados.
segunda-feira, 4 de julho de 2022
Sons de 2022
O mês de junho está a acabar o que significa que metade de 2022 já passou. E este ano, vários artistas já lançaram álbuns incríveis: os Arcade Fire regressaram ao seu melhor, os Fontaines D.C. nunca soaram tanto a Joy Division, as Wet Leg presentearam-nos com um som fabuloso, os Radiohead apareceram “disfarçados” sob o nome The Smile, a majestosa Florence lançou o seu melhor disco até ao momento, o folk melancólico dos Beach House nunca cansa e os saudosos Belle and Sebastian, Placebo ou Tears For Fears voltaram aos discos. Além disso, os Black Country, New Road conseguiram superar o primeiro álbum, as musas Angel Olsen, Sharon van Etten e Emily Jane White também nos presentearam com novas gravações, tal como os Calexico, Tomberlin, Spiritualized, Jack White, Mitski, Big Thief, Jarvis Cocker e Father John Misty. Que Ano!
domingo, 3 de julho de 2022
Martin Amis - Lionel Asbo
A leitura deste livro inicia-se de rompante, a uma velocidade narrativa avassaladora. É uma entrada de choque, cheia de humor e vertiginosa na forma como nos faz devorar páginas.
Esta narrativa assume especial importância na forma como retrata a sociedade inglesa atual num subúrbio de Londres. Lionel, que aos 18 anos mudou o seu apelido Pepperdine para Asbo (nome do documento inglês sobejamente seu conhecido, Anti Social Behaviour Order), é um pequeno delinquente que se orgulha de ter começado na senda do crime aos dois anos de idade. Ele tem um coração de pedra, é profundamente sádico e cultiva um gosto especial pela violência, muitas vezes gratuita; é totalmente imbecil no que toca às faculdades intelectuais, em contraste com o seu sobrinho Des, um negro que representa aqui o futuro que a Inglaterra ainda pode ter, em contraste com o desastre que Lionel representa.
A partir de certa altura, o enredo tem uma viragem radical: Lionel, o detestável arruaceiro ganha a lotaria e torna-se multimilionário. Agora, ele convive com a alta sociedade; mas aqui o autor surpreende-nos com a caracterização dessa elite que Lionel encontra no hotel onde se aloja; eles, os ricos cultivam a ignorância e idolatram a violência da mesma forma que a ralé a que Lionel pertencia antes; pobres ou ricos, os ingleses são ignorantes e brutos; parece ser esta a mensagem do autor. Sem dúvida uma crítica social mordaz e impiedosa.
A partir desta viragem no enredo, no entanto, o livro segue um rumo diferente, o ritmo narrativo abranda imenso e a prosa torna-se mais reflexiva e mais séria. A meu ver, isto faz com que a obra perca interesse e qualidade literária; perde-se a emoção e a vertigem narrativa da primeira parte; perde-se, em parte o humor satírico da primeira fase do livro, que se torna sério e às vezes mesmo maçador.
Fica, no entanto, a evidente qualidade da escrita do autor: clara, incisiva, rica em termos de vocabulário e, a sua principal qualidade, bem-humorada. A crítica é incisiva e mordaz; na narrativa “vemos” uma Inglaterra decadente e um povo inglês passivo perante os graves problemas sociais como a exclusão e a forte diferenciação social, a falta de cultura, o culto da violência e da pornografia – Martin Amis afirma que Lionel não consegue viver sem cadeia nem pornografia; a cadeia é vista como a sua segunda casa, de onde sai e volta a entrar com frequência; a pornografia é, para Lionel, a substituta das relações humanas, o que diz muito sobre a forma como Amis aborda este fenómeno social da autoexclusão e consequente refúgio em comportamentos marginais.
Em suma, um livro com muito interesse, bem escrito, que merece uma leitura atenta. E divertida.
sábado, 2 de julho de 2022
sexta-feira, 1 de julho de 2022
Leituras do Mês
quinta-feira, 30 de junho de 2022
sexta-feira, 10 de junho de 2022
Teste das Caricaturas de Escritores
Mais um desafio, desta vez para os amantes de literatura: tentem descobrir o nome dos 230 Escritores Caricaturados. No desafio anterior, o 10º teste de perguntas de literatura, deveriam tentar responder corretamente a 300 questões. Bastante menos exigente é este teste para identificar Caricaturas de Celebridades.
Recordo que no Teste - Música é necessário identificar 100 artistas/bandas sobejamente conhecidos, no desafio Cinema - Qual é o Filme? devem tentar adivinhar o filme a que pertence a imagem ou então experimentar descobrir a que filme pertence um conjunto de Citações.
sábado, 23 de abril de 2022
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Emily Jane White, Theatro Circo, 6 de Abril de 2022
sábado, 2 de abril de 2022
Louise Glück - Vita Nova
The master said You must write what you see,
But what I see does not move me.
The master answered Change what you see.
Esta edição bilingue da Relógio D’Água contém 32 poemas, sobre a primavera, a morte e recomeços, a resignação e a esperança. São poemas brutais, luminosos e clarividentes onde não se fazem grandes reivindicações. Louise Glück, Prémio Nobel da Literatura em 2020, parece não ter esperança no ser humano e nas vastas forças que o moldam e frustram.
Formalmente, a poesia de Glück raramente tem rima mas, para mim, a poesia, por quem a escreve bem, é bela e simples, não devendo ser encarada como algo intrincado, ininteligível ou hermético. Os meus poemas preferidos desta obra são Aubade, The New Life, Lament, Lute Song, Nest, Relic, Castile e este Immortal Love:
Like a door
the body opened and
the soul looked out.
Timidly at first, then
less timidly
until it was safe
Then in hunger it ventured.
Then in brazen hunger,
then at the invitation
of any desire.
Promiscuous one, how will you find
god now? How will you
ascertain the divine?
Even in the garden you were told
to live in the body, not
outsider it, and suffer in it
if that comes to be necessary.
How will god find you
if you are never in one place
long enough, never
in the home he gave you?
Or do you believe
you have no home, since god
never meant to contain you?
sábado, 26 de março de 2022
Sons da Primavera
terça-feira, 15 de março de 2022
Cinema do Mundo
- Wadjda (O Sonho de Wadjda), de Haifaa Al-Mansour - Arábia Saudita (2012)
Este é supostamente o primeiro filme a ser totalmente filmado dentro da Arábia Saudita contemporânea para além de, ainda mais miraculosamente, ser o primeiro filme de sempre a ser realizado por uma mulher dessa nacionalidade. Foca-se na história de uma jovem rapariga de 11 anos que sonha em ter uma bicicleta, para brincar com o seu amigo Abdullah, algo que lhe é proibido pelos pais e pela sociedade devido ao seu sexo.
O filme evidencia as características de uma sociedade baseada em tradições religiosas, à qual os ocidentais apenas imaginam como seria e também proporciona situações inimagináveis de restrições e preconceitos impostos às mulheres para o espectador tentar “digerir” e procurar, neste contexto, maneiras de viver com um mínimo de dignidade.
A narrativa deste filme centra-se na experiência de Alicia, uma professora argentina durante os anos 80, que começa a questionar as origens da sua filha adotiva e vai descobrindo os horrores da ditadura militar que ela, durante anos, tem vindo a ignorar. Suportado por um soberbo elenco, com especial destaque para Norma Aleandro e Chunchuna Villafañe, mostra como uma mulher foi cúmplice na criação da sua própria prisão de ignorância que, apesar de tudo, se mostra menos dolorosa que a necessária verdade. Assistir a “A História Oficial” torna-se um exercício de memória, e mostra que é preciso sempre discutir e falar sobre as atrocidades do passado, para que jamais se repitam os erros do passado.
- Maria Full of Grace (Maria Cheia de Graça), de Joshua Marston - Colômbia (2004)
Relata a experiência de uma jovem grávida colombiana que, depois de perder o seu emprego, se deixa seduzir pelas propostas de um cartel de droga, acabando por ser uma mula para eles. Com 62 preservativos cheios de cocaína no seu organismo, ela parte para Nova Iorque juntamente com outra rapariga. Joshua Marston filma todo este trajeto com particular intensidade, com destaque para as autênticas cenas de suspense no avião e no terminal de aeroporto.
"Maria Cheia de Graça" é um drama pausado mas pleno de intensidade, que aos poucos se vai insinuando e causando um discreto, mas violento, murro no estômago.
- The Lunchbox (A Lancheira), de Ritesh Batra - Índia (2013)
Este filme, já considerado de culto, passa-se em Bombaim e dá-nos uma visão diferente sobre a Índia e o dia-a-dia dos que lá vivem. Vale a pena ver o funcionário público, o Mr. Saajan Fernandes, e a dona de casa charmosa que nos transporta ao fabuloso mundo da comida indiana.
Saajan é um contabilista mesmo à beira da reforma. É viúvo e sem filhos, com uma existência solitária e melancólica. Um dia, o sistema de distribuição de lancheiras que, pelos vistos, existe na cidade, indo recolhê-las a casa e deixando-as no local de trabalho, engana-se e entrega-lhe uma que não lhe pertence. Saajan abre-a e encontra comida absolutamente fantástica…
Esta é uma história simples, de gente comum, passada numa cidade onde tudo é acelerado e num tempo onde já ninguém escreve à mão, mas envia e-mails, como alguém comenta no próprio filme. Mas estes anacronismos vêm sublinhar a diferença entre o amor clássico, pleno de emoções e subtilezas, onde o tempo alimenta a paixão, o oposto dos romances atuais, imediatos e de acentuado cariz sexual.
- Mies Vailla Menneisyyttä (O Homem Sem Passado), de Aki Kaurismäki - Finlândia (2002)
Um homem chega a Helsínquia num comboio noturno. Não sabemos o seu nome. Pouco depois da sua chegada ele é espancado com tal violência que perde a memória, esquecendo-se mesmo da sua identidade. Um início destes parece prometer mais tragédia que comédia mas neste filme a miséria humana é usada como ponto de partida para criar uma tapeçaria de comédia tão absurda como delicada. Humor unicamente escandinavo…
quarta-feira, 2 de março de 2022
Leituras do Mês
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Ken Follett - O Preço do Dinheiro
Se há autor que tem galgado posições no meu top pessoal de preferências, esse autor é Ken Follett.
O grande senhor de "Os Pilares da Terra" e da "Trilogia o Século" é, aos 73 anos, um dos mais versáteis dos grandes ficcionistas contemporâneos. Poucos como Follett exploram universos ficcionais tão distintos. Depois de ter descoberto o imenso manancial proporcionado pelo romance histórico, Follett parece ter fixado aí o seu foco. No entanto, ao longo da carreira navegou por vários outros universos. E foi por isso que empreendi esta leitura com grande expetativa, tendo em conta que se trata de uma da primeiras obras de Follett. Aliás, este livro foi publicado em 1977 sob um pseudónimo diferente: Zachary Stone.O caráter pioneiro deste livro fica bem patente numa abordagem algo ingénua, de um tema muito explorado: a criminalidade da alta finança, por oposição a uma pequena criminalidade quase desculpável e mesmo apresentada com alguma simpatia.
No entanto, este livro, escrito por Follett aos 28 anos, denota já alguns nítidos traços de génio. O primeiro desses aspetos é a visão bem nítida de uma comunicação social poderosa mas ao mesmo tempo sensível e exposta ao mundo da grande criminalidade. Fica claro que a Comunicação Social constitui um poder extraordinário na divulgação de factos e mesmo no desmascarar de criminosos mas, ao mesmo tempo, ela é o alvo prioritário dos grandes malfeitores; a grande criminalidade sabe que tem de controlar a comunicação social. O segundo aspeto interessante desse jovem escritor de 1977 é a análise psicológica e sociológica da pequena criminalidade, organizada em grupos de criminosos que não passam de “peões” perante os grandes criminosos de colarinho branco.
domingo, 16 de janeiro de 2022
No-Vax DjoCovid: No Challenges Remaining
No-Vax: My Body, My Choice!
Australia: Our Country, Our Rules! Cheers!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Leituras do Mês
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Sons de Inverno
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
As Melhores Séries de 2021
Com 2021 a chegar ao fim, volto a fazer um balanço daquilo que mais gostei de ver na televisão e no streaming.
- Maid
- The White Lotus
- Nine Perfect Strangers
- The Chair
- It’s A Sin
- The Morning Show (Season 2)
- The Great (Season 2)
- Lupin (Season 1 & 2)
- The Underground Railroad
- Only Murders In The Building (Season 1)
- The Kominsky Method (Season 3)
- Scenes From A Marriage
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
Os Melhores Discos do Ano 2021
A pandemia ainda não acabou, os conflitos políticos e sociais continuaram mas no que à música diz respeito e depois de um período de forte instabilidade vivido no ano passado, 2021 foi um ano de fortes emoções. Foi um ano com menos isolamento o que não significou um regresso à normalidade, mas houve muita música nova, com grandes sentimentos e alguma catarse. Segue a lista de discos que mais ouvi bem como uma seleção de músicas memoráveis:
- Nick Cave & Warren Ellis - Carnage
- Wolf Alice - Blue Weekend
- Idles - Crawler
- Dry Cleaning - New Long Leg
- The War On Drugs - I Don't Live Here Anymore
- Julien Baker - Little Oblivions
- Low - Hey What
- Billie Eilish - Happier Than Ever
- Altin Gün - Yol
- Nell Smith & The Flaming Lips - Where The Viaduct Looms
- The Weather Station - Ignorance
- Black Country, New Road - For The First Time
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
Os Melhores Filmes de 2021
Após um ano que não deixa muitas saudades devido à COVID-19, os grandes filmes voltaram a ser lançados nos cinemas, enquanto outros chegaram às nossas casas através das plataformas de streaming. Há diversos filmes que deverão ficar por muito tempo na minha memória.
1. The Power Of The Dog (O Poder do Cão), de Jane Campion
2. Doraibu Mai Kâ (Drive My Car), de Ryûsuke Hamaguchi
3. King Richard (Para Além do Jogo), de Reinaldo Marcus Green
4. Madres Paralelas (Mães Paralelas), de Pedro Almodóvar
5. Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson
7. CODA (No Ritmo do Coração), de Sian Heder
8. The French Dispatch (Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun), de Wes Anderson
9. The Card Counter (O Jogador), de Paul Schrader
11. The Last Duel (O Último Duelo), de Ridley Scott
12. State Funeral (Funeral de Estado), de Sergey Loznitsa
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
As Minhas Melhores Leituras de 2021
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
Oyinkan Braithwaite – A Minha Irmã É Uma Serial Killer
“O amor não é uma erva daninha,
Não pode crescer onde bem quiser…” (página 130)
A Minha Irmã É Uma Serial Killer, o romance de estreia da jovem nigeriana Oyinkan Braithwaite, que também é ilustradora, retrata o modo de vida dos jovens nigerianos, a presença nas redes sociais e as aspirações e sonhos que os motivam. Trata-se de uma leitura breve, com humor e alguns momentos um pouco bizarros, mas que passa com clareza a sua mensagem: no final do dia, o que é que é mais importante para nós? Qual é o valor que atribuímos à família? Onde estaríamos dispostos a ir pelas pessoas que amamos? E do que é que abdicaríamos sem pensar duas vezes?
Provenientes de uma família da classe média de Lagos (Nigéria), Ayoola e Korede são irmãs, que tiveram a infância marcada pela presença de um pai violento, agora já falecido.
Korede, que narra a história, é uma mulher pouco atraente, pragmática e amargurada, uma enfermeira cuja maior paixão é cuidar dos outros, incluindo de Ayoola.
Ayoola, a irmã mais nova e a preferida da mãe, é uma mulher bela e sexy, que gosta de se divertir e de acordar tarde e que é… uma sociopata, uma serial killer (que matou os seus três últimos namorados). É uma personagem mimada e atrevida, é extremamente manipuladora e usa a sua beleza e capacidade de persuasão para conseguir tudo o que quer. É uma assassina que traz uma grande dose de humor negro à história. A delicada relação entre ambas é abordada entre intrigas, ressentimentos e um passado tortuoso, revelado pouco a pouco.
Surpreendente, macabro, divertido. Este livro, que apresenta um pouco da cultura da Nigéria, com a sua escrita ágil e bem desenvolvida, devora-se, agarra o leitor sem pudores, é uma leitura empolgante e apaixonante mas tem um final brusco e previsível e por isso um pouco dececionante...
sexta-feira, 15 de outubro de 2021
Drive My Car
Belíssimo filme do realizador japonês Ryûsuke Hamaguchi: do país do sol nascente, Tchekov (“O Tio Vânia”) visto pelos olhos rasgados das novas cinematografias orientais, um mergulho profundo no coração de cada um. Sem sorrisos, com palavras não verbalizadas e a condição humana e a solidão. A vida que não se repete e a amizade… Um filme a roçar a obra-prima.
Acabado de nos presentear com outra excelente longa-metragem, Wheel of Fortune and Fantasy, Drive My Car é adaptado de um conto com o mesmo nome publicado no livro de 2014 "Homens Sem Mulheres" de Haruki Murakami. Ou melhor, também se baseia no conto “Xerazade” da mesma obra, quando a esposa do protagonista lhe conta a história da lampreia…

domingo, 10 de outubro de 2021
Sons de Outono
2. Måneskin – I Wanna Be Your Slave
4. Widowspeak – Amy
5. The Twist Connection – Fake
6. Alison Mosshart – Rise
7. At Freddy’s House – The Lamplight
8. Black Foxxes – Swim
9. Black Midi – John L
10. Sault – Wildfires
11. Kim Gordon – Hungry Baby
12. Nothing But Thieves – Real Love Song
13. Indochine & Christine And The Queens – 3Sex
14. James Blake – Before
15. Cults – Shoulders To My Feet
16. The 1975 – Guys
17. Orla Gartland – More Like You
18. Aurora – Runaway
19. Bring Me The Horizon – Parasite Eve
20. Phoebe Bridgers – Nothing Else Matters
domingo, 3 de outubro de 2021
Leituras do Mês
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
Dia Mundial do Sorriso (Best Stand-Up Comedy Specials)
- Hannah Gadsby: Nanette (2018)
- Hari Kondabolu: Warn Your Relatives (2018)
- John Mulaney: Kid Gorgeous at Radio City (2018)
- Michelle Wolf: Joke Show (2019)
- Wanda Sykes: Not Normal (2019)
- Chris Rock: Tamborine (2018)
- Ricky Gervais: Humanity (2018)
- Dave Chapelle: The Age of Spin (2017)
- Jim Jefferies: Alcoholocaust Live (2010)
- Tig Notaro: Happy to Be Here (2018)
domingo, 15 de agosto de 2021
Tribunais de Braga, Barcelos e Guimarães criticam facilitismo de Escola Secundária
Um professor da Escola Secundária de Barcelos, do grupo 430 - Economia e Contabilidade, apresentou uma denúncia via email à Inspeção Geral da Educação e Ciência com a intenção de comunicar condutas éticas e regulamentares inapropriadas, tais como o facto de um elemento (não identificado) da direção da escola ter ido à sala de aula de algumas turmas do 11º ano, incluindo a Direção de Turma do denunciante, solicitar a escolha da disciplina de Direito no ano letivo seguinte por ser fácil obter a classificação de 20 (vinte) valores no final do ano ou o facto dos professores da escola faltarem diversas semanas para acompanharem alunos em programas de Intercâmbios sem que se respeite o nº 3 do art.º 43 do Regulamento Interno da escola (que menciona que os docentes devem ser substituídos e assim os alunos que ficassem em Barcelos continuariam a ter aulas), queixa esta apresentada pelos Encarregados de Educação dos alunos. Quando ouvido, este docente de Economia informou que 25 dos 28 alunos da turma de Direito obtiveram 20 valores nessa disciplina no final do ano letivo (os restantes alunos da turma obtiveram 19 valores; mencionou também que na disciplina de Sociologia o cenário é semelhante), e ainda enumerou diversas atitudes da direção da escola que considerava que o lesavam a si ou aos alunos. A título de exemplo: a inação perante as queixas de Encarregados de Educação sobre o comportamento e desempenho de alguns docentes na sala de aula; a falta de computadores e projetores na sua sala de aula; a atribuição a si de serviço de apoio a várias disciplinas do 3º Ciclo, incluindo até a disciplina de Matemática, sendo um professor colocado pelo grupo 430 – Economia, que leciona exclusivamente no Ensino Secundário.
Um dos professores auxiliares da direção,
contratado pela escola para o grupo disciplinar 420 – Geografia –, que terá
sido o professor que visitou as turmas do 11º ano para convencer os alunos a
escolherem a disciplina de Direito no ano letivo seguinte, acionou um processo
judicial contra aquele whistleblower mas o Tribunal de Barcelos considerou não haver
razão para o punir. Não contente com este desfecho, o professor de Geografia,
considerado um expert em Direito pela direção da sua escola, remeteu a
ação para o Tribunal de Braga, que concordou com o Tribunal de Barcelos. Aqui,
perante o juiz, o reclamante declarou não se recordar se nesse ano letivo
atribuiu a algum aluno a classificação de 20 valores na disciplina de Direito! Insatisfeito
com esta segunda resolução, o reclamante especialista em Direito solicitou
recurso para o Tribunal da Relação de Guimarães que também não atendeu ao que
este expert em Direito pretendia.
Os processos, de onde foram
extraídas as afirmações seguintes, podem ser consultados nos respetivos
tribunais. Em nenhum dos 3 acórdãos é proferida uma palavra de censura ao whistleblower.
Todos foram arquivados e resultaram numa decisão de Não Pronúncia.
“...entendemos que os dizeres escritos e enviados pelo denunciante, não constituem uma conduta a reclamar tutela penal...os factos denunciados não são aptos a ofender a dignidade ou o bom nome do reclamante, nos termos exigidos pelo direito penal.”
“...o teor do email não imputa ao seu autor a prática de crime, de contra-ordenação ou falta disciplinar, razão pela qual não se mostra preenchido o tipo de denúncia caluniosa”.
Tribunal de Braga:
“...a aluna V. Silva (folhas 245/247 do processo) afirma que o reclamante «explicou que a média de notas dos seus alunos naquele ano rondava os 19 a 20 valores». Só uma ideia de apresentar a disciplina pela vantagem de tirar notas altas justifica esses dizeres... não se vislumbra no texto da denúncia «convencer os alunos a escolherem a disciplina de Direito no 12º ano pois nessa disciplina é fácil tirar vintes» qualquer falsidade. O convencimento, mais a mais quanto a uma disciplina opcional, pode fazer-se lançando aparência de facilidade.”
“...do que decorre não haver qualquer indício que contrarie o facto de o denunciante ter fundamento sério para, em boa fé, reputar como verdadeiro o conteúdo comunicacional do reclamante perante os alunos, tal como relatou no email.”
“Ademais, quanto ao propósito de dar a conhecer a disciplina de Direito aos alunos resulta dos autos que os alunos estavam muito bem informados quanto ao que queriam em termos de disciplinas de opção. Pois os que foram ouvidos são categóricos nessa afirmação. Daí que estando os alunos já informados não se encontre fundamento sério para adicionar informação. A não ser avançar com um incentivo adicional: notas altas.”
“Assim, concluindo, de uma forma directa, sintética e abstraindo das motivações subjacentes à actuação de cada um, o denunciante apresenta-se contra o facilitismo e o reclamante evidenciou na sua acção aspectos de facilitismo, já que em circunstância alguma pode um professor ao dar a conhecer a disciplina que pretende lecionar, enquanto opcional, falar em notas altas, passadas, futuras, o que quer que seja. E o reclamante falou. Procurou e evidenciou este aspecto, o que é censurável num sistema de ensino que se reclama de excelência.”
Sobre o Crime de Falsidade Informática (pretendido pelo reclamante): “...não se percebe qual o normativo, entende o reclamante estar em causa... Mas o que aconteceu, na sua simplicidade, foi o envio de correspondência”.
(custas: 5 UC para o reclamante; a valor de cada Unidade de Conta - UC - é de €102,00)
Tribunal de Guimarães (Recurso instaurado pelo reclamante expert em Direito):
“...nenhuma censura
merece o despacho recorrido, devendo ser confirmado, por não ter violado
qualquer dos preceitos legais invocados pelo recorrente e assim manter-se a
decisão de não pronúncia em causa.”
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Cinema do Mundo
- Bir Zamanlar Anadolu'da (Era Uma Vez na Anatólia), de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (2011)
História policial sobre a reconstrução de um crime. Desenvolve-se desde o pôr do Sol ao meio dia seguinte. Os personagens, polícias, guardas, chefe da polícia, procurador, médico e suspeitos, à exceção do regedor da aldeia, podiam, com pequenas diferenças ser portugueses. É um filme sobre a morte e o seu impacto nos vivos.
A partir das suas habituais experimentações formais e estudos filosóficos, Nuri Bilge Ceylan construiu uma lancinante exploração sobre a moralidade humana onde os diálogos são explícitos ao ponto de serem literários, e onde a paisagem noturna rasgada pelas luzes dos automóveis policiais contém tanta importância conceptual como o mais complexo monólogo (e há bastantes neste filme).
- Les Innocentes (Agnus Dei – As Inocentes), de Anne Fontaine – França, Polónia (2016)
Filme passado num convento logo após o final da Segunda Guerra Mundial. É sobre um tema delicado, cheio de nervos sensíveis e propício a derrapagens facilmente melodramáticas ou a tropeções de simplismos piedosos. Fontaine mostra a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas, e as suas perplexidades, tensões, angústias e interrogações, da descrente e materialista médica, confrontada com o mundo e os valores das religiosas. O “happy ending”, talvez com açúcar em demasia, em nada colide com a profundidade e o dramatismo desta terrível história, contada com a segurança e a sensibilidade exigida por algo tão frágil.
- Oslo, 31. August (Oslo, 31 de Agosto), de Joachim Trier – Noruega (2011)
Filme belíssimo, que nos interroga sobre o que nos faz viver e o que nos faz desistir de viver. Sobre como é invisível a linha que nos faz sentir «em cima» ou «sentir em baixo».
A história de um dia na vida de um homem perdido que quer cometer suicídio parece ser a receita perfeita para uma obra de puro miserabilismo à boa moda do cinema europeu. Mas Joachim Trier não é um realizador qualquer e dessa premissa limitada, o cineasta norueguês faz um filme que funciona muito mais como uma celebração da experiência da vida humana do que como uma marcha fúnebre.
- Timbuktu, de Abderrahmane Sissako – Mauritânia (2014)
Timbuktu é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988. De pequena povoação perdida no deserto do Saara, o lugar transformou-se, ao longo dos séculos, em capital intelectual e espiritual de África, um oásis no deserto que foi despertando a atenção do mundo. Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico liderado por Iyad Ag Ghaly. O medo e a incerteza apoderam-se daquele lugar. Por ordem dos fundamentalistas religiosos, a música, o riso, os cigarros e o futebol são banidos. As mulheres são obrigadas a usar véu e a mostrar submissão total. A cada dia surgem novas leis para serem cumpridas e a vida de cada um dos habitantes vai sendo modificada tragicamente.
Na conjuntura atual, um filme sobre uma comunidade africana a enfrentar a opressão de invasores que impõe leis fundamentalistas islâmicas é uma preciosidade a ser considerada com admiração e respeito. Quando essa obra é, para além da sua importante temática, uma magnífica construção de cinema elegante, solene e esteticamente belíssimo, então temos um verdadeiro triunfo que deve ser visto por todos.
- La Teta Asustada (A Teta Assustada), de Claudia Llosa – Peru (2009)
O filme inicia-se com uma cantiga inocente num testemunho de traumas e horrores que rompem pela escuridão da tela como um pesadelo do qual é impossível acordar. Começar um filme desta forma é arriscado e é um verdadeiro testamento à ousadia da cineasta peruana. É graças ao seu trabalho que um conto meio melodramático, sobre uma jovem que está “doente” devido à sua mãe ter sido violada durante os conflitos que assolaram o país nos anos 80, é representado com um bizarro, mas fascinante, estilo entre o realismo social e o artifício simbólico.












