
Toda a história tem um fim, mas na vida cada final é um novo começo.
Tenham muito sucesso, concretizem os vossos sonhos, e acima de tudo, sejam felizes.












Neste livro pode sentir-se todo o desencanto de Coetzee para com o seu próprio país; todos, tanto os descendentes de colonos como os negros, dependem da terra, mas o trabalho e a vida são sempre solitários.
A escrita de Coetzee é de uma força brutal. A narradora, Magda, conta-nos os seus pensamentos de uma forma muito dura, violenta mesmo. Ela odeia-se, odeia tudo, odeia todos. É uma mulher feia e abandonada. Sonha matar o pai e a madrasta com requintes de malvadez; talvez seja o ódio que a faz viver.
Só a jovem mulher de Hendrik, Anna, trata a protagonista pelo nome. Afinal de contas, as mulheres são companheiras na desgraça. É também por Anna que Magda sente alguma ternura; o único resquício de amor que sentirá em toda a vida.
O sexo surge na narrativa como uma arma de submissão ao poder masculino; nada mais do que submissão e poder. Lágrimas e sofrimento. “Será que isto faz de mim uma mulher?”, pergunta Magda depois de ser violada.
Este livro foi escrito em 1977. Há 30 anos. No entanto, demonstra a mesma qualidade literária dos seus livros mais recentes, especialmente "Desgraça", publicado em 1999. Este é um dos aspectos que define um escritor genial: ele não precisa de experiência para atingir a genialidade.
E já neste seu primeiro sucesso literário estão patentes os traços fundamentais da sua obra: a solidão, a pobreza e o desencanto pelos dramas humanos do seu país, a África do Sul.


O autor, inglês, é conhecido internacionalmente como escritor policial. No entanto, nesta obra, ele vai bastante além das fronteiras do género.
Antes de mais nada deve dizer-se que não é um livro ambicioso, embora muito extenso. Não é um livro brilhante, mas lê-se com tremendo agrado. A narrativa de Wilson tem qualquer coisa de muito peculiar: sem imprimir um ritmo muito acelerado à ação, ele nunca deixa de nos prender totalmente a atenção. Por outras palavras: a qualidade da sua escrita permite criar uma envolvência tão grande que o autor se pode dar ao luxo de imprimir um ritmo por vezes algo lento, a não ser talvez nas últimas páginas.
Mas o que mais me impressionou neste livro foi a leitura tão clara, concisa e acertada que o autor faz da participação indireta de Portugal na Segunda Guerra Mundial. Ele desmonta como nunca ninguém conseguiu, o velho erro que muitos de nós cometemos ao acreditar piamente que Salazar nos manteve afastados da guerra. Pelo contrário, Wilson demonstra-nos com clareza a forma descarada como o ditador negociou com Hitler, fornecendo-lhe o volfrâmio que ajudou a matar tantos milhões de pessoas, ao mesmo tempo que negociava também com a outra parte, os ingleses. Ao mesmo tempo, explica-se como o ouro nazi veio parar a Portugal, ouro sujo pelos crimes perpetrados contra os judeus e não só. Assim, retrata-se um Portugal afundado na miséria, enquanto Salazar dormia sobre o ouro nazi.
Mas também a revolução de 25 de Abril tem lugar neste livro; mais uma vez, vista de forma muito clara e objetiva, mostrando-nos mesmo algumas facetas pouco esclarecidas pelos (talvez envergonhados) escritores portugueses; é o caso, por exemplo, da história ainda muito mal contada da fuga dos "Pides" para o Brasil e da inserção de outros, muitas vezes camuflados, nas forças de segurança do Portugal democrático. Dessa forma, muitos criminosos da tortura fascista acabaram por se integrar cobardemente na sociedade democrática, muitas vezes com falsas identidades.
Em termos formais, este livro apresenta-se também de forma muito interessante, com duas estórias separadas no tempo (anos 40 e anos 90), mas que acabarão por se cruzar nos finais da década de 90 do século XX. O enredo é digno da melhor literatura policial. O estilo é direto, objetivo, fácil. Enfim, um livro muito agradável para ler em férias, mas também uma obra cheia de informações preciosas para quem pretende conhecer melhor o século XX português.