domingo, 30 de dezembro de 2012

As Minhas Melhores Leituras de 2012


1. David Foster Wallace - A Piada Infinita
2. Henning Mankell - Um Homem Inquieto
3. Paul Auster - O Livro das Ilusões
4. David Grossman - Até Ao Fim Da Terra
5. Roberto Bolaño - Os Detectives Selvagens
6. Valter Hugo Mãe - A Máquina de Fazer Espanhóis
7. Carlos Ruiz Zafón - O Prisioneiro do Céu
8. Julian Barnes - O Sentido do Fim
9. Haruki Murakami - 1Q84 – 1, 2, 3
10. Marcello Simoni - O Mercador de Livros Malditos
11. Ian McEwan - Mel
12. Camilla Lackberg - Teia de Cinzas

domingo, 16 de dezembro de 2012

Julian Barnes - O Sentido do Fim


Começo por confessar que achei a capa deste livro e toda a edição absolutamente deslumbrante. Julian Barnes, na sua escrita acessível e delicada mas prodigiosa e absorvente, começa por apresentar de forma sucinta a vida da personagem principal Anthony Webster, invocando recordações da sua juventude nos anos sessenta e as suas implicações nos amores e na amizade. Alex e Colin eram os seus melhores amigos na escola. Com a chegada preponderante de Adrian Finn, um rapaz tímido, mas mais sério e extremamente inteligente, o trio inseparável transforma-se num quarteto, que jura manter para sempre o laço que os une. Com ânsia de livros e de sexo, estes rapazes acreditavam que as suas vidas ainda estavam a começar, sem se aperceberem que o seu futuro já estava a ser determinado. Enfim, o excesso hormonal da primeira juventude.

No final do liceu, os quatro amigos seguem rumos diferentes na sua vida mas continuam a trocar correspondência, especialmente com Adrian. Tony começa a namorar com Veronica Ford (mulher misteriosa), por quem se apaixona, mas a relação não duraria muito tempo devido a alguma frustração sexual e aos obstáculos impostos pela família de Veronica. Posteriormente, recebe uma carta do amigo Adrian a solicitar autorização para sair com Veronica. Inicialmente, Tony decide fingir que não se importa mas acaba por enviar uma resposta que levou ao fim da sua amizade com Adrian e acaba por ter mais impacto do que ele poderia imaginar.

Passam quarenta anos. Tony tem um casamento falhado com Margaret (mulher transparente), uma filha com quem mantém um relacionamento distante apesar de a amar e prestes a dar-lhe um neto e claro, está na idade da reforma. Quando está a viver uma solidão tranquila, recebe uma carta relativa à herança deixada pela mãe de Veronica, Sarah, que acabara de falecer. Estranhamente, ela deixou-lhe como herança uma pequena quantia em dinheiro e o diário de Adrian (que tinha cometido suicídio na flor da idade). Esta missiva vai-lhe despertar o passado, os conflitos e sentimentos antigos, de modo que a sua perspectiva daquele passado é completamente alterada. Nesta altura, o narrador, imobilizado por uma memória que o consome, sabe que já viveu mais do que o que tem para viver e questiona se não terá deixado a vida passar calmamente por ele enquanto assistia, acomodado, aos seus dias todos iguais. E a história termina em beleza, com um final surpreendente e arrepiante, mesmo ao cair do pano...

O Sentido do Fim” está recheado de questões filosóficas, de segredos dolorosos e é uma notável reflexão sobre a vida, o envelhecimento, a memória e o remorso. As decisões que tomamos e as suas implicações, relembrando-nos a nossa imperfeição e egoísmo. A necessidade de reviver o passado para compreender o presente. Brilhante!

Para aguçar a curiosidade deixo algumas frases e ideias interessantes que me fizeram reflectir e sorrir, nesta obra de 152 páginas, que li em pouco mais de 24 horas:

A História é essa certeza que se produz no ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação”;

A História é a mentira dos vencedores… mas é também a ilusão dos vencidos”;

O casamento é uma refeição longa e sem sabor com o pudim servido como entrada”;

Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos inventamos passados diferentes para os outros.”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Playlist – Dezembro


1 – Bat For LashesLaura
2 – António ZambujoFlagrante
3 – Alt-JBreezeblocks
4 – Peter BroderickA Tribute To Our Letter Writing Days
5 – GrimesOblivion
6 – BurnsLies
7 – Yo La TengoBefore We Run
8 – SavagesHusbands
9 – Palma VioletsBest Of Friends
10 - Jack WhiteFreedom At 21

domingo, 9 de dezembro de 2012

Francisco Moita Flores – O Bairro da Estrela Polar


Policial à portuguesa, com textos simples, por vezes cómicos, com nomes e linguagem típicos de uma classe social baixa (muito exagerados) e com alguns personagens bem elaborados, constitui um autêntico Manual dos Janados e do Gamanço.

O autor proporciona uma visão do mundo do crime dada por prevaricadores da pior espécie, liderados por uma adolescente (Diana), levando os leitores a colocarem-se do seu lado e não dos tradicionais bons da fita (os polícias). Inevitável a recordação de Teresa Mendoza, protagonista do romance de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul.

De uma forma geral, a leitura é agradável mas por vezes o enredo chega a tornar-se enfadonho e sem grande suspense. Imperam os lugares-comuns e a previsibilidade. O desfecho da história desiludiu-me…

De lamentar a deteção de mais de uma dezena de gralhas e erros gramaticais. Exemplificando: na página 51, podemos ler “My Chermical Romance” e na página 251, “Ainda Bataman não acabara a frase…” referindo-se ao personagem Batman. Além disso, não consigo perceber como é que na sinopse do livro, que se encontra na contracapa, se faz referência a um personagem que não consta do livro, o “Paulo”, enquanto não elenca um dos principais, o Necas. Será que este é mais um daqueles livros que apenas conseguiu sair do prelo graças à celebridade do seu autor?

Na imagem seguinte pode ler-se um excerto contendo a experiência traumatizante do Bazófias na cadeia de Vale de Judeus.

Após a leitura do livro, aproveitei para visualizar a adaptação do livro ao grande ecrã. Algumas diferenças saltam à vista: a Diana (Maria João Bastos) tem um filho, matou o Dragão, envolve-se com o inspector Augusto (Paulo Pires), o que provoca a sua demissão e suicídio. Os golpes são diferentes, não se roubam 12 Mercedes, um cão chamado Caruso, uma mota avariada e obras de arte. Roubam uma igreja e cinco milhões de euros de um camião. O Batman, a Manuela e a própria Diana têm um destino diferente e surgem novos personagens: Alcabideche, Piaçaba, Lurdes e o seu marido paraquedista (Rui Unas).

Trata-se de um filme de qualidade mediana, com enfâse na ação, cenas rápidas com bastante ritmo, sem grandes diálogos, hip-hop q.b. e algumas personagens consistentes. Para o pequeno ecrã foi criada uma série com 14 episódios disponíveis na TVI Player.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Babies


Este filme-documentário apresenta quatro bebés do mundo, desde o nascimento até ao primeiro ano de vida. O início da vida das crianças é apresentado nos seus países e culturas de origem - Mongólia, Namíbia, Estados Unidos (São Francisco) e Japão (Tóquio).

Quase não possui falas e não tem uma história bem definida. Apenas a observação cronológica e a evolução e descoberta dos bebés no seu primeiro ano de vida, quando ainda estão todos na fase oral.

Desta forma, somos confrontados com um bebé japonês, todo High-Tech, transportado num carrinho da marca MacLaren, com um bebé norte-americano, que necessitou de passar pela neonatologia, com um bebé africano onde abundam moscas, sujidade e, claro está, muita pobreza e, finalmente, um bebé nascido na Mongólia, onde na ausência de uma babycock, o bebé é bem atado e transportado numa mota com mais três passageiros.

Ao longo dos 80 minutos do documentário assistimos a quatro formas diferentes dos bebés tomarem banho, passear, brincar ou comer. São momentos em que aparentemente nada acontece, mas que possuem a síntese e a beleza da vida.

Quem não se derrete com crianças, dificilmente terá paciência para chegar ao fim do filme. Quem fizer parte do grupo de pessoas que gosta de observar bebés, adorará assistir a este filme.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Hyatt Bass – Centelhas



"The Embers", no seu título original (As Cinzas), primeiro romance de Hyatt Bass, aparece-nos nesta edição da Civilização Editora sob o título de "Centelhas". Esta diferença pode apelar para diferentes interpretações do livro; na verdade, o drama da família Ascher pode ser visto, como tudo na vida, sob dois prismas diversos: o catastrofista, que parece emanar do título original e o otimista que pode ser lido a partir da interpretação do título português. Um drama tão profundo como o que se narra no livro não deixa de envolver centelhas de vida, brilhos momentâneos que emergem das cinzas de vidas desfeitas. Trata-se de um livro interessantíssimo sobre coisas invulgares que acontecem em todas as famílias vulgares.

Os Ascher eram uma família feliz da classe média/alta norte-americana; Joe é dramaturgo, numa carreira com altos e baixos onde os picos não compensavam os vales mas que lhe permitiam uma vida desafogada; Laura é atriz e mãe de família dedicada; Emily é uma adolescente rebelde que vive de forma intensa os dramas familiares; mas o mundo dos Archers desaba quando Thomas morre com apenas dezassete anos.

No entanto, a morte do jovem não é o único drama. Tudo se desenrola como se este acontecimento trágico trouxesse à superfície outros dramas, entretanto calados, escondidos sob a capa vulgar de um quotidiano apressado e muitas vezes fútil.

Neste ambiente sobressai a apurada capacidade de Bass para pintar um quadro perfeito do perfil psicológico dos personagens. Na minha opinião de leitor destaca-se a figura de Joe, o chefe de família.

Joe é um homem amargurado, pelo remorso, pela culpa que o avassala no que respeita à morte de Thomas mas, ainda mais, pela sua personalidade egocêntrica e muitas vezes demasiado atenta à futilidade e ao materialismo. O drama de Joe é este: eu conheço os meus defeitos e limitações, no entanto não consigo ultrapassá-los e, pior ainda, gosto de ser assim. Dessa forma, a mente conturbada de Joe navega entre o que é, o que foi e o que gostava de ter sido.

Numa leitura mais apressada, este livro pode ser lido como um panfleto dos valores familiares tradicionais; mas é muito mais que isso: o livro problematiza e põe em causa toda a natureza das relações que estabelecemos com os outros e a dificuldade em coordenar a procura da felicidade com a necessidade de valorizar os que nos rodeiam.

O estilo é simples, direto, sem subterfúgios nem figuras de estilo desnecessárias, pelo que se lê com agrado e a bom ritmo. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Curtinha...

Mulher Para O Marido:


Mulher - Estamos casados há mais de 20 anos e nem uma jóia me compraste.

Marido - Sabia lá que vendias dessas merdas...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Li o livro, vi o filme



Recentemente li três livros que serviram de base à realização de outros tantos filmes. Na minha opinião resultaram em boas adaptações ao cinema. E desta vez optei por em primeiro lugar ler o livro e depois ver o filme. Já tenho feito o contrário. Ainda não tenho a certeza sobre qual a melhor metodologia a seguir. Continuo a pensar que depende…

Em relação a Painted Veil (O Véu Pintado), de Somerset Maugham, com os excelentes Edward Norton e Naomi Watts, detectei várias diferenças: no livro a acção passa-se em Hong Kong e no filme em Xangai; no filme há uma perseguição pelos nacionalistas chineses e existe uma relação mais próxima do casal, que tem um filho de 5 anos chamado Walter; a frase “foi o cão que morreu”, essencial no livro, desaparece no filme e, finalmente, na parte final do filme, o regresso a Charles Townsend é ignorado, ou seja, é eliminada a sensação de promiscuidade e arrependimento sentida no livro. Emocionante mesmo e a não perder é a parte final do filme com um excerto de “A La Claire Fontaine”, canção tradicional francesa.

Já a adaptação de Jane Eyre, de Charlotte Bronte, realizada por Cary Fukunaga e com Mia Wasikowska (belíssima), Michael Fassbender e Judi Dench mantém-se um pouco mais fiel à obra em que se baseia mas apresenta algumas diferenças: é Mrs. Fairfax quem revela onde se encontra Rochester após o incêndio, este não perde a mão no incêndio e não é reconhecida a relação familiar entre Jane Eyre e os 3 primos.

A terceira obra, Bel-Ami, de Guy de Maupassant, original de 1885, regressou ao cinema este ano e também conta com actores de peso: Robert “Twilight” Pattinson, Uma Thurman (que parece cada vez mais bela) e Kristin Scott Thomas. Aqui procurou-se seguir com rigor a obra original, apesar da troca do nome Walter por Rousset e do casal Walter ter uma e não duas filhas, e baseia-se na personagem de George Duroy, jovem sedutor e ambicioso que percorre os bares de Paris, na década de 1890, utilizando o seu charme para conquistar mulheres da alta sociedade e melhorar a sua situação social.

Em jeito de conclusão, adorei a leitura dos três clássicos, tal como a visualização dos filmes a que deram origem. Na minha opinião quem quer detalhes, deve procurar os livros pois é impossível os filmes oferecê-los em cerca de duas horas…

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Olá amiguinhos do papá,

Apesar de só estar previsto nascer em 24 de Agosto, não aguentei a ansiedade para conhecer os meus papás babados e cheguei no passado sábado às 23h03m, apenas com 34 semanas de gestação. Chamo-me Hugo Dinis e peso 2.030kg, por isso por enquanto ainda sou muito pequenino mas já os ouvi dizer que cada bebé é um milagre único e impossível de repetir.

Já recebi bué de presentes, como uma raquetinha de ténis e uma ficha de inscrição no FCP e o meu quartinho tá bué da fixe.

Na minha fotografia que vos envio já me estou a imaginar deitado numa praia das caraíbas a olhar para umas estrangeiras com 40 semanas…

Beijinhos

Hugo Dinis



segunda-feira, 23 de abril de 2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Playlist - Abril


1. The School – Never Thought I’d See The Day
2. Labrinth (Ft Emeli Sandé) – See Beneath Your Beautiful
3. Lana Del Rey – Video Games
4. Fun. (Ft Janelle Monáe) – We Are Young
5. The Antlers – I Don’t Want Love
6. Arctic Monkeys – The Hellcat Spangled Shalalala
7. Little Dragon – Ritual Union
8. Glasvegas – The World Is Yours
9. The Subways – It’s A Party
10. The Black Keys – Lonely Boy
11. Howler – I Told You Once
12. Austra – Lose It
13. Jonathan Wilson – Woe Is Me
14. Sharon Van Etten – All I Can
15. Mark Lanegan – Gray Goes Black
16. Fleet Foxes – Montezuma
17. Summer Camp – I Want You
18. Lower Dens – Brains
19. Gotye (Ft Kimbra) – Somebody That I Used To Know
20. Julia Stone – It’s All Okay

terça-feira, 10 de abril de 2012

Hello, Deb!!!


É inegável a melhoria da qualidade das séries de televisão nos últimos 10 anos, ao ponto dos grandes actores e actrizes colocarem de parte projectos no cinema para enveredarem por esta via, como por exemplo, Ashley Judd, Dustin Hoffman, Jessica Lange, Steve Buscemi, Ana Paquin, Christian Slater, Sean Bean, entre muitos outros. No entanto, apresentam dois pontos bastante negativos.

O primeiro está relacionado com a sua longevidade. Quando se verifica que uma série é um sucesso de audiências, há uma tendência para a prolongar, repetindo constantemente a sua fórmula até à exaustão, o que provoca a saturação do espectador. Neste caso, servem de exemplos, os diversos C.S.I., House, Heroes, Lost ou Glee.

Um segundo problema, este apenas para os espectadores mais impacientes, é a conclusão das temporadas, com reviravoltas ou revelações surpreendentes, mas mantendo o suspense e uma angustiosa expectativa sobre o que vai acontecer. Assim, o final da sexta temporada de Dexter, em que este é apanhado em flagrante pela irmã Debra a fazer aquilo que mais gosta, só vai ser desvendado lá para final do ano. Será que vai matar a irmã (adoptiva)? Será que ela vai associar-se a ele nas próximas temporadas? Ou será que vai simplesmente denunciá-lo? Outros casos são o final da segunda temporada de The Walking Dead, em que o grupo começa a dividir-se e a liderança de Rick a ser questionada ou a conclusão da também segunda temporada da estupenda Downton Abbey, em que o Mr. Bates foi preso por supostamente ter assassinado a sua ex-mulher.

Aproveito para referenciar mas quatro séries que tenho seguido e adorado: Mildred Pierce, que infelizmente é muito curta, mas mostra todo o potencial de Kate Winslet; Homeland e a história do sargento "herói/terrorista?" Brody; Spartacus – Vengeance, com um novo actor a substituir o malogrado Andy Whitfield – a série continua com sangue e sexo a rodos – e Smash, o musical do momento, baseado no projecto de um casal para criar um musical sobre a vida de Marilyn Monroe.

domingo, 8 de abril de 2012

O sexo do Google


Cheguei à conclusão de que o Google é gaja; nem espera que termine a frase e já está a dar palpites...

E já agora porque é que após escrever "why po...", o Google sugere a frase: "why portuguese are called pork chops"?

Alguém sabe em que parte do mundo é que os portugueses são chamados desta forma?

sábado, 7 de abril de 2012

Vassili Grossman – Vida e Destino

 


"Vida e Destino" é uma obra de enorme alcance enquanto testemunho histórico. Testemunha quer a violência nazi quer a inconcebível ditadura em que Estaline transformou o sistema comunista da União Soviética. Escrito em 1953, este livro só seria publicado mais tarde, após a abertura da U.R.S.S. à democracia. O motivo é óbvio: o livro desmascara de forma clara o despotismo de Estaline. A vitória do absurdo e do arbitrário sobre o romantismo do ideal comunista que o autor parece encarar como o paradigma ideal. Na verdade, Lenine é referido várias vezes como o exemplo a seguir, o ideal que foi deturpado e derrubado pelo estalinismo. E a simpatia do autor fixa-se claramente nos bolcheviques desiludidos como Mostovoskoi e Krimov.

Sturm é talvez a personagem central do romance: cientista judeu ao serviço do Estado Soviético, ele sofrerá de forma dramática o efeito tenebroso de duas das mais monstruosas tiranias do século XX – o nazismo e o estalinismo. Neste sentido, Sturm é um personagem algo autobiográfico: também Vassili Grossman, funcionário do Estado Soviético mas sempre crítico em relação ao sistema, sofreu a perseguição dos alemães aos judeus, que acabaram por assassinar a sua mãe. Mas a ação está longe de se resumir a Sturm. Numa aparência a fazer lembrar Tolstoi pela enorme quantidade de personagens (umas centenas) conta-se a história de parentes e amigos de Sturm, em diversos cenários, como a batalha de Estalinegrado em plena ação, um campo de concentração nazi, um campo de trabalho soviético, etc. Mas a comparação com Tolstoi termina aí. Termina onde começa: na quantidade inusitada de personagens. Em termos literários este livro está muito longe desse clássico russo. Em termos de estilo, Grossman aproxima-se mais da literatura realista da Rússia, nomeadamente de Maksim Gorki mas também dos contos de Tchekhov. E o valor maior da obra é mais histórico do que literário.

O enredo decorre, todo ele, de 1941 a 1943, numa fase em que a guerra matava aos milhares e em que o povo russo sofria as terríveis consequências da ocupação alemã. No entanto, o que fica no espírito do leitor é a sensação de que a guerra pouco ou nada mudaria, que os grandes dramas estavam para lá da guerra. E o mais abominável é esta sensação de que todo o mal é praticado em nome do bem; o bem dos judeus, dos católicos, dos comunistas, dos nazis…e cada noção de “bem” é apenas um motivo para praticar o mal.

Em conclusão: estamos perante um livro muito importante como reflexão sobre a natureza do poder totalitário e como testemunho histórico de uma época de quase total insanidade. No entanto, não é uma obra prima em termos literários. Nem se pretendia que fosse.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Filmes Choradeira

Em resposta a um pedido especial cá vai uma lista com filmes que nos deixam com a sensação de que presenciamos um grande momento de cinema e uma lição de vida (e com os olhos vermelhos):

1. Curious Case Of Benjamin Button (O Estranho Caso De Benjamin Button) – um filme fenomenal sobre um homem que nasce com 80 anos de idade e envelhece ao contrário. Quando no final morre nos braços da amada...



2. The Champ (O Campeão) – história de amizade e respeito entre pai e filho (TJ)…

3. City Of Angels (Cidade Dos Anjos) – conta a história de um anjo que vagueia pela Terra a consolar aqueles que estão a um passo da morte (a cena final de bicicleta)…

4. Cinema Paraíso – para aqueles que adoram o cinema…

5. Eduard Scissorhands (Eduardo Mãos De Tesoura) – um filme bonito e sensível com uma lição a tirar para toda a Humanidade. Mais que o filme, importa a mensagem desta maravilhosa fábula.

6. Schindler’s List (A Lista De Schindler) - a história de como Oskar Schindler conseguiu salvar mais de mil judeus da morte durante a segunda guerra mundial. Quando se vê o casaco vermelho no monte (que significava que a menina tinha morrido)…

7. Million Dollar Baby (Sonhos Vencidos) – a coragem e alma de uma boxeur

8.9. Notebook (Diário De Uma Paixão) e Message In A Bottle (As Palavras Que Nunca Te Direi) – histórias de amor que resistem à guerra e ao tempo. Ambos baseados em obras de Nicholas Sparks e por isso lamechas q.b., mas…

10. The Passion Of The Christ (A Paixão De Cristo) – de difícil visualização sem o desvio constante da cara para o lado do ecrã…

11. Stoning Of Soraia M. – tal como o anterior não acredito que consigam ver os últimos 30 minutos do filme sem fechar os olhos…

12. Blind Side (Um Sonho Possível) – até onde pode chegar a bondade humana….

13. Breaking The Waves (Ondas De Paixão) – um filme de paixão, intenso, arrebatador, não aconselhável aos mais sensíveis…

14. The Green Mile (À Espera De Um Milagre) – vivemos num mundo justo? Sobre a pena de morte.

15. Hachiko: A Dog’s Story (Sempre Ao Seu Lado) – baseado em factos reais, filme fascinante sobre lealdade (neste caso de um cão pelo seu dono).

16. The Boy In Stripped Pijamas (O Rapaz Do Pijama Às Riscas) - filme com um final arrepiante…

17. House Of Sand And Fog (Uma Casa Na Bruma) – mais um filme com uma conclusão estonteante…

18. I Am Sam (A Força Do Amor) – uma deficiência mental impossibilita um homem em ser pai? O amor é maior que tudo…

19. August Rush (O Som Do Coração) – história de um rapaz que cresce num orfanato e é dono de um dom musical impressionante. Aos 11 anos, ele passa a apresentar-se nas ruas de Nova York e usa os seus talentos para encontrar os seus pais, um casal de músicos que foram separados pelo acaso quando jovens. Acaba com um concerto em Nova Iorque, no Central Park…

20. Up! (Altamente!) – este é um filme de animação mas os primeiros 15 minutos…


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Molière - O Avarento


Esta comédia de 5 atos foi escrita há quase 350 anos, mas mantém-se bastante atual. A obra deste genial dramaturgo francês vale o interesse, quer seja pela composição dos personagens, quer pelo inusitado da história, que chega a aproximar-se de uma comédia romântica. A patética avareza de Harpagon (provavelmente personagem inspiradora do tio Patinhas de Walt Disney) funciona como um ingrediente divertido nesta sátira sobre a ambição humana que nos faz recordar a ganância do ser humano nestes anos de crise financeira global que vivemos. A única coisa que interessa é ter, possuir, acumular. Numa realidade assim, as relações afetivas transfiguram-se por completo. Convém relembrar que na época em que o texto foi escrito a usura era um pecado grave para a Igreja Católica que condenava a cobrança de juros. Assim, com Molière e com a sua galeria de personagens obsessivas, agarradas à loucura de possuir e dominar, angustiamo-nos e rimo-nos das permanências e das teimosias da História.

Esta obra inicia-se com a descrição do avarento, uma pessoa rabugenta, teimosa, imprestável e acima de tudo, muito forreta e com o coração preenchido pela avareza e mesquinhez, uma vez que até é capaz de colocar o dinheiro acima da felicidade dos filhos. Definitivamente uma das últimas pessoas que um caloteiro desejaria conhecer. Este personagem, Harpagon, desconfia da lealdade de todos e vive constantemente com medo de ser roubado, pois guarda todo o seu dinheiro em casa.

Harpagon tem dois filhos, Cleante e Elisa, para os quais pretende arranjar noivos com posses. No entanto, ambos vivem na miséria, consequência da avareza do pai. O seu filho Cleante está apaixonado pela bela Mariane mas revela-se demasiado ingénuo e sonhador. Por sua vez, o amor da vida de Elisa, Valério, é contratado pelo seu pai para mordomo da sua casa e por isso, Elisa tem consciência de que o pai nunca aprovaria a sua paixão.

Um episódio assaz divertido ocorre quando os irmãos revelam a sua paixão um ao outro e tentam convencer o pai a aceitar os factos, submetendo-se a ele e assim tentando garantir o seu suporte económico. Mas os planos do pai são outros: para Cleante “arranja” uma viúva rica, para Elisa um homem bastante mais velho e Mariana fica para ele mesmo. É patético como a ganância e o autoritarismo de um se sobrepõem à vontade de todos os outros, mas na realidade todos os personagens dão algum contributo imoral para a escalada do enredo até à situação de (quase) ruptura.

Com muito humor, entre encontros e desencontros amorosos, a peça aborda temas como a lealdade, a honestidade, a solidão, a avareza e a manipulação humana. Felizmente, no final, parece que todos os personagens estão em harmonia entre si, e o avarento também aprende a sua lição. Mas a crítica ao comportamento humano perdura.

terça-feira, 3 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eu Vou Lá Estar!!!

O cartaz do Optimus Primavera Sound Porto 2012 vai contar com mais de 60 artistas nacionais e internacionais e decorre de 7 a 10 de Junho, no Parque da Cidade e na Casa da Música, no Porto:

Quinta-feira, dia 7 de Junho
•Atlas Sound; Bigott; Explosions In The Sky; StopEstra; Suede; The Drums; The Rapture; Yann Tiersen

Sexta-feira, dia 8 de Junho
•Beach House; Black Lips; Chairlift; Codeine; Esperit!; Linda Martini; M83; Neon Indian; Other Lives; Rafael Toral; Rufus Wainwright; Shellac; Tall Firs; Tennis; The Flaming Lips; The Walkmen; The War On Drugs; Thee Oh Sees; Ultramagnetic MC's; We Trust; Wilco; Wolves In The Throne Room; Yo La Tengo

Sábado, dia 9 de Junho
•Baxter Dury; Björk; Death Cab For Cutie; Death Grips; Demdike Stare; Dirty Three; Erol Alkan; Forest Swords; Gala Drop; I Break Horses; James Ferraro and the Bodyguard; John Talabot; Lee Ranaldo; Mujeres; Saint Etienne; Siskiyou; Sleepy Sun; Spiritualized; The Afghan Whigs; The Right Ons; The Weeknd; The xx; Veronica Falls; Washed Out; Wavves

Domingo, dia 10 de Junho
•Jeff Mangum (Neutral Milk Hotel); The Olivia Tremor Control

domingo, 25 de março de 2012

Sons da Primavera

Prática hedonista do dia: organizar uma lista com a música que mais tenho ouvido nos últimos meses, especialmente nestas curtas férias da Páscoa. Tarefa nada fácil dada a quantidade de edições com que somos inundados diariamente…

1. Kurt Vile - Baby’s Arms
2. Jessica Lea Mayfield - Our Hearts Are Wrong
3. Tom Waits - Face To The Highway
4. Lykke Li - Sadness Is A Blessing
5. Nicolas Jaar - Space Is Only Noise If You Can See
6. Feist - A Commotion
7. Ghospoet - Liiines
8. SBTRKT - Wildfire
9. Beirut - Santa Fe
10. PJ Harvey - The Glorious Land
11. James Blake - Limit To Your Love
12. Jessie Ware - Wildest Moments
13. Anna Calvi - Blackout
14. Metronomy - She Wants
15. M83 - Midnight City
16. Kasabian - Days Are Forgotten
17. Florence & The Machine - Only If For The Night
18. The Horrors - Still Life
19. The Kills - The Last Goodbye
20. The Vaccines - Post Break-Up Sex

sábado, 24 de março de 2012

Pensamento do Dia


"Se há coisa que eu sei, é encontrar-me na escuridão."

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ler, Ver e Ouvir


As minhas leituras mais recentes passaram pela literatura lusófona de Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. Em “Jerusalém”, Gonçalo M. Tavares, debruça-se sobre as angústias do viver, do sentir, do amar e do morrer, utilizando uma escrita simples mas dura e apelativa. O título deve-se a uma referência bíblica citada pela esquizofrénica Mylia (página 170): “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”.

Por sua vez, Valter Hugo Mãe em “A Máquina de Fazer Espanhóis”, aborda a última fase da vida do ser humano e a sua decadência na velhice. António Silva, de 84 anos, acaba de perder a sua companheira dos últimos 48 anos, Laura, e foi enviado pelos filhos para um lar onde apenas a morte o parece aguardar. Inicialmente, a solidão parece um tormento insuportável e não parece existir qualquer futuro mas aos poucos vai descobrindo novamente a amizade. Curiosa a apresentação do Esteves Sem Metafísica da tabacaria de Álvaro de Campos do Fernando Pessoa. Enfim, este “tsunami” da literatura portuguesa propõe-nos sem dúvida uma crítica mordaz à sociedade em que vivemos.

No que respeita a cinema, os últimos filmes que mais me entusiasmaram foram: Melancholia, de Lars von Trier; Habemos Papam, de Nani Moretti; The Help (As Serviçais), de Tate Taylor e The Tree Of Life (A Árvore da Vida), de Terence Malick.

Sobre os sons deste outono, ainda não me cansei de ouvir os últimos álbuns de Florence & The Machine, The Vaccines, Kurt Vile e Snow Patrol. E acabei de revisitar a obra dos The Smiths, Tindersticks e Belle & Sebastian.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As Minhas Melhores Leituras de 2011


1. Guy de Maupassant - Contos Escolhidos
2. Carlos Ruiz Zafón - A Sombra do Vento
3. Gonçalo M. Tavares - Uma Viagem À Índia
4. David Gilmour - O Clube de Cinema
5. Haruki Murakami - A Rapariga que Inventou um Sonho
6. Roberto Bolaño - 2666
7. Joyce Carol Oates - A Filha do Coveiro
8. Reinaldo Moraes - Pornopopeia
9. Yann Martel - A Vida de Pi
10. Umberto Eco - O Cemitério de Praga
11. Mons Kallentoft - Anjos Perdidos em Terra Queimada
12. Liu Xiaobo - Não Tenho Inimigos, Não Conheço o Ódio

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Entrevista de Emprego

Entrevista com o Sr. Zé Silva
O Zé vai a uma entrevista de emprego para a função pública.
No fim da entrevista dizem-lhe:
- Muito bem, está tudo óptimo. Só faltam 2 questões. Tem algum problema de saúde ?
- Sim, tenho. Sou alérgico ao café.
- Muito bem. Tem alguma limitação física ?
- Bem, há 2 anos perdi os 2 tomates.
- Ok, ok. Está contratado. Começa amanhã e entra às 11h.
- Mas porque é que eu entro às 11h e os outros entram às 8h ?
- Porque a única coisa que fazemos entre as 8h e as 11h é tomar café e coçar os tomates!!!

domingo, 13 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Millennium 3: The Girl Who Kicked The Hornet’s Nest


Desenlace da trilogia criada pelo malogrado Stieg Larsson, não recomendável para quem não viu os dois primeiros filmes. Este capítulo inicia-se exatamente onde o segundo filme terminou com a espetacular Lisbeth Salander à beira da morte depois de ter enfrentado o seu pai Zalachenko e o seu meio-irmão Niedermann. Suspense inteligente, intrigas e desempenhos apaixonantes, apesar da linguagem sueca, que me faz duvidar da adaptação por Hollywood prometida já para Janeiro (com Daniel Craig no papel do jornalista da revista Millennium Mikael Blomkvist). Muito Bom.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Egas Moniz e António de Oliveira Salazar



As últimas obras que li foram duas biografias, género de literatura narrativa de uma vida real que sempre me entusiasmou, tanto em livro como em filme. Os dois homenageados foram Egas Moniz e Salazar.

Sobre o primeiro, trata-se de uma das mais fascinantes personalidades médicas do século XX, nascido em 1874 e o primeiro português a receber o Prémio Nobel da Medicina (em 1949). Escrita por outro médico, utiliza inúmeras referências a outras obras e correspondência pessoal de Egas Moniz para apresentar todo o percurso deste visionário do seu tempo.

A curiosidade em conhecer mais detalhadamente a vida do político António de Oliveira Salazar, que governou Portugal durante aproximadamente 36 anos, levou-me à obra do investigador português a lecionar atualmente na Irlanda. Em complemento também assisti ao filme “Salazar, A Vida Privada” de Jorge Queiroga.

sábado, 1 de outubro de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Premiere, Empire, Total Film


A revista Premiere viu o seu monopólio terminar nos passados meses de Abril e Maio com a entrada no mercado português das revistas Total Film e Empire, respectivamente. Para os cinéfilos, apaixonados pelo cinema, que o vivem, que o discutem, que o coleccionam, que o defendem e que querem mais conhecimento é uma enorme satisfação.

A ex-monopolista Premiere, com mais de dez anos de idade em Portugal, parecia demasiado acomodada com a sua posição e não se poderia considerar um excelente guia de cinema mensal, além de que não primava pela inovação. Felizmente as duas últimas edições já melhoraram significativamente…

Em relação às duas estreias no mercado, ambas oferecem linguagem simples e directa, mas ao mesmo tempo rigorosa e mais completa e exaustiva que a Premiere.

A minha preferida: Empire.

Principais problemas: ambas se baseiam demasiado nas versões originais, com meras traduções para português da maior parte dos artigos e sem qualquer adaptação à nossa realidade (e ao nosso humor…). Além disso, será que existe mercado para as três revistas? As tiragens mensais passaram de 17 000 exemplares para cerca de 60 000 exemplares!!! Esperemos que sim e por muito tempo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Deolinda (Theatro Circo, 20 de Julho)


A pop acústica com algum fado e música popular portuguesa dos Deolinda fez-se ouvir num concerto só acessível por convite, o que deixou a esplendorosa sala muito pouco composta, e onde foram apresentados os principais temas dos dois álbuns da banda em cerca de 80 minutos, num ambiente animado onde não faltou uma versão de Funfagá da Bicharada de José Barata Moura. Ana Bacalhau foi a comunicadora de serviço, sempre bem disposta e bastante segura (de qualquer forma, que saudades da Teresa Salgueiro…). No encore a inevitável Parva Que Sou.

sábado, 2 de julho de 2011

Umberto Eco – O Cemitério de Praga




Um romance histórico interessantíssimo. Nem outra coisa seria de esperar de um mestre como Umberto Eco. O pano de fundo é dado pelas intrincadas intrigas políticas na nascente Itália e na velha França, no século XIX. Na península italiana, Garibaldi e Mazzini colocavam os reinos italianos a ferro e fogo. No entanto, as diversas facções digladiavam-se continuamente, com o Vaticano e a França sempre de permeio. Tal “embrulhada” de interesses e forças era terreno fértil para intrigas e jogos de poder onde reinavam os espiões e interesseiros como Simonini, o herói, ou melhor, o anti-herói deste livro.

Simonini é perverso, perigoso, traiçoeiro. Mas é também um pouco estúpido. Esta é a grande lição da obra: um homem pouco inteligente mas tremendamente perverso e impiedoso pode pôr em risco toda uma nação.

Umas vezes ao serviço de Garibaldi, outras de Mazzini, dos piemonteses, dos franceses, dos austríacos ou até dos russos, Simonini tem apenas um princípio do qual nunca prescinde: um ódio profundo, mortal, aos judeus. Simonini é um personagem suficientemente perverso para que todos os leitores nutram por ele um sentimento de revolta a roçar o mesmo ódio que ele sente por todos, bem expresso nesta afirmação de um personagem com quem Simonini negoceia: “O ódio é a verdadeira paixão primordial - o ódio une os povos, desperta a esperança nos miseráveis e solidifica o poder instituído – seja o ódio aos judeus, aos maçons, aos estrangeiros…” (pág. 432).

Este livro demonstra também como a história pode ser forjada por interesses mais ou menos obscuros: Simonini, o espião ao serviço de quem lhe paga mais, especializa-se em forjar documentos. E mesmo aqueles que sabem tratar-se de documentos falsos, agem como se fossem verdadeiros. A História, muitas vezes é construída apenas por falsários. 

Um outro aspecto interessante deste livro é o facto de Simonini ser praticamente o único personagem ficcional. Freud e Garibaldi são apenas dois dos mais conhecidos intervenientes na narrativa. Outros são verdadeiros trapaceiros com existência histórica comprovada que Eco estudou afincadamente.  

Trata-se portanto de um livro cheio de emoção onde é possível “ver” nas suas páginas grande parte da realidade política de uma Europa muito conturbada, nos finais do século, anunciando já a Primeira Guerra Mundial que marcaria o início do século XX. Nascia a Itália, mas aprofundavam-se as guerras de bastidores entre austríacos, franceses, russos e ingleses.


Cemitério Judeu de Praga

domingo, 26 de junho de 2011

Sean Riley & The Slowriders (FNAC, Braga, 25/06)


Neste showcase de Braga, os Sean Riley & The Slowriders mostraram ao longo de meia hora alguns temas do último álbum, mas também recordaram temas mais antigos, como This Woman e Harry Rivers. Em relação ao disco acabado de sair ouvimos, de acordo com o vocalista Afonso Rodrigues, “versões adaptadas para o evento", de por exemplo, Sweet Little Mary, Silver, Everything Changes e Laying Low. Folk maduro e irreconhecível na actual cena pop/rock portuguesa, que nos transporta de imediato para o continente norte-americano.

sábado, 25 de junho de 2011

Uma nova escola pública

Atualmente as escolas públicas, apesar de terem recursos abundantes (como nunca no passado), estão incorretamente enquadradas, ou seja, estão mais centradas nos alunos e professores, mais preocupadas com pedagogia do que com os conteúdos, vocacionadas para que os alunos se sintam bem, esquecendo-se que eles devem aprender alguma coisa e negligenciando a assiduidade e a educação. Tudo a favor de um “bem maior”: a estatística, acabando com todo o tipo de chumbos e vigorando o facilitismo. Esta ideologia dominante, que pensa que as aulas são um espaço lúdico e os professores meros “entertainers”, ignora que o ensino deve ser a preparação para a vida, e que esta tem poucos espaços lúdicos. E, claro, conforta os alunos que “aprendem” que para ter sucesso na vida não é preciso trabalhar.

domingo, 12 de junho de 2011

Mais um final de ano...



"Para ser grande sê inteiro
Nada teu exagera ou exclui
Põe tudo quanto és no mínimo que fazes
Pois só assim a lua toda brilha
Em cada lago
Porque alta vive
".

Ricardo Reis

Gostei de vos conhecer e de partilhar convosco alguns momentos de satisfação e alegria, pelo que ides permanecer na minha memória.

Espero que consigam alcançar o que mais desejam na vida profissional e pessoal.

CCB

quarta-feira, 1 de junho de 2011


E este mês planeio ler:

- Paul AusterAs Loucuras de Brooklyn
- John UpdikeCorre, Coelho
- Harold BloomCânone Ocidental
- Ian McEwanExpiação

domingo, 29 de maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Férias, sol, praia


Quando entramos de férias
Tudo parece que muda; porquê?
Porque as férias trazem alegrias.

Com as férias já podemos descansar
Para podermos testemunhar
Coisas que acontecem.

Nas férias podemos estar,
Com os amigos,
Novos e antigos.

Férias são férias e temos que as aproveitar!

Leitura: biografia de Aristides de Sousa Mendes – Um Homem Bom de Rui Afonso

Música: os novos discos de Lykke Li, The Vaccines, James Blake e PJ Harvey

sábado, 23 de abril de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Black Swan


Acabei de ver o último dos dez filmes seleccionados para a categoria de melhor filme relativa à cerimónia dos Óscares a realizar já no próximo dia 27 em Hollywood. Este ano a qualidade dos filmes seleccionados para a categoria de melhor filme é claramente superior ao ano passado. Se fosse eu a escolher venceria a película “Black Swan” e Natalie Portman e Colin Firth seriam os actores vencedores.

Black Swan é um filme poderoso e intenso, com um final surpreendente, uma realização notável e uma interpretação inspirada (e exigente) de Natalie Portman. A história baseia-se na ambição desregrada de uma bailarina que procura a perfeição ao desempenhar o papel principal do bailado de Tchaikovsky, deambulando pela ansiedade permanente, patente na forma como trata a mãe e o seu próprio corpo e na sua impetuosidade sexual (masturbação e lesbianismo).

Sobre os restantes, e por ordem de preferência:

- The Social Network – foi uma agradável surpresa este retrato do criador da rede social mais famosa do mundo, Facebook, facto a que não será alheia a realização de David Fincher.

- 127 Hours – também baseado numa história verídica, com um final estonteante que já levou a vários desmaios em algumas salas de cinema!

- True Grit – o regresso do género “morto” Western com Jeff Bridges em boa forma e os irmãos Cohen a reconstruir um original de 1969, que deu o Óscar de melhor actor ao rei do género: John Wayne.

- The King’s Speech – filme favorito mas demasiado sobrevalorizado. Parece “made for the Óscares”. Vale pela relação entre o rei “Colin Firth” e o seu terapeuta da fala “Geoffrey Rush” (que afinal não era…).

- The Kids Are All Right – aqui uma família de lésbicas é vista como se de uma família normal se tratasse (e não é assim que deve ser?). As mães são notáveis, especialmente Annette Bening e claro a lindíssima filha Mia “Alice” Wasikowska.

- Winter’s Bone – exemplo de como um filme de baixo orçamento pode competir com pesos pesados. Adorei o desempenho de Jennifer Lawrence e a notável realização de Debra Granik, mostrando o modo de vida de uma comunidade muito peculiar numa bonita zona montanhosa entre os estados do Missouri e Arkansas.

- The Fighter – filme competente mas penalizado pelo excesso de filmes sobre boxeurs (The Wrestler, Million Dollar Babby, Cinderella Man, Ali, Raging Bull ou Rocky). Curiosa a ida ao cinema para ver Belle Époque (1992) de Fernando Trueba com Penélope Cruz...

- Inception – considerado por muitos como uma obra-prima mas, apesar de já o ter visto por duas vezes, ainda não consigo adorar este filme…

- Finalmente, em relação a “Toy Story 3”, e apesar de ser uma excelente animação, não deveria concorrer directamente com os restantes filmes. Afinal para que serve a categoria relativa à melhor Animação? Se assim fosse, poderíamos ter aqui algum dos filmes esquecidos pela Academia, como Hereafter, de Clint Eastwood ou You Will Meet A Tall Dark Stranger, de Woody Allen.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Glee


A segunda temporada da série Glee (do criador de Nip / Tuck) já começou e numa altura em que a palavra mais falada no país é “crise”, nada melhor do que uma série que garanta entretenimento de qualidade, combinando um enredo cómico-dramático, num contexto que envolve uma escola secundária e as paixões, intrigas, dramas, ambições e falhanços dos seus professores e alunos, incluindo a encenação de elaborados números musicais, desde clássicos pop a êxitos mais recentes. A diversidade de personagens cativa, dificultando a escolha dos preferidos, mas consigo destacar os professores Will Schuester e Sue Sylvester e os alunos Kurt e Rachel. Hilariante.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sessão de Terapia de Grupo

Quatro pacientes estão reunidos.
O terapeuta pede que todos se apresentem, digam qual é sua actividade e que comentem porque a exercem.
O primeiro diz:
- Chamo-me Francisco, sou médico porque me agrada tratar da saúde e cuidar das pessoas.
O segundo apresenta-se:
- Chamo-me Ângelo. Sou arquitecto porque me preocupa a qualidade de vida das pessoas e como vivem.
A terceira diz:
- Chamo-me Maria e sou lésbica. Sou lésbica porque adoro mamas e rabos femininos e fico louca só de pensar em fazer sexo com mulheres.
Faz-se um silêncio. Então o quarto diz:
- Sou Manuel Joaquim e até há pouco achava que era pedreiro, mas acabo de descobrir que sou é lésbica...