Uma senhora de meia-idade teve um ataque de coração e foi parar ao hospital.
Na mesa de operações, quase às portas da morte, vê Deus e pergunta:
- Já está na minha altura?
Deus responde:
- Ainda não. Tens mais 43 anos, 2 meses e 8 dias de vida.
Depois de recuperar, a senhora decide ficar no Hospital e fazer uma lipoaspiração, algumas cirurgias plásticas, um facelift,... Como tinha ainda alguns anos de vida, achou que poderia ficar ainda bonita e gozar o resto dos seus dias.
Quando saiu do Hospital, ao atravessar a rua, foi atropelada por uma ambulância e morreu.
A senhora, furiosa, ao encontrar-se com Deus, pergunta-lhe:
- Então eu não tinha mais 40 anos de vida? Porque que é que não me desviaste do caminho da ambulância?
Mais um pedido especial que adorei satisfazer: elaborar uma lista com os melhores filmes sobre escritores. Inicialmente ia conter apenas 20 películas, mas a dificuldade em os seleccionar obrigou-me a aumentá-la para, em primeiro lugar, 30 títulos e, posteriormente, acabou por ficar com 50. Aceito sugestões sobre filmes em falta…
1. Midnight in Paris (2011, Woody Allen) – Paris “by night and day” e a Belle Époque combinam de forma eficaz: arte, cultura, história, sensibilidade e nostalgia.
2. La Grande Bellezza (2013, Paolo Sorrentino) – Retrato da Roma actual, através da história de um escritor que após um único sucesso literário há decadas não voltou a escrever mais nada e rendeu-se aos luxos e prazeres de todos os géneros, como as festas glamorosas no seu apartamento com terraço mesmo ao lado do Coliseu.
3. Capote (2005, Bennett Miller) – Destaque para o desempenho notável de Philip Seymour Hoffman no papel de Truman Capote na altura em que escreveu «A Sangue Frio», o seu livro mais popular, sobre o assassinato de uma família do Kansas.
4. 84 Charing Cross Road (1987, David Hugh Jones) – Uma escritora norte-americana, entusiasta por obras raras, corresponde-se ao longo de 20 anos com um livreiro londrino (Anthony Hopkins). Baseado em factos reais.
5. Reprise (2006, Joachim Trier) – Impressionante filme norueguês onde dois amigos tentam ganhar a vida como escritores. Um deles tem um êxito estrondoso enquanto o outro é rejeitado pelas editoras por falta de talento…
6. An Angel at My Table (1990, Jane Campion) – História da escritora Janet Frame com a sua atribulada vida familiar, a passagem por hospitais psiquiátricos e finalmente a redenção como mulher e como escritora.
7. Stranger Than Fiction (2006, Marc Forster) – comédia na qual um funcionário das finanças descobre que a sua vida está a ser narrada por "alguém" (Emma Thompson), e que o seu final pode não ser o mais feliz…
8. Das Leben der Anderen (The Lives Of Others) (2006, Florian Henckel von Donnersmarck) – Filme alemão passado durante a Guerra Fria que acompanha a gradual desilusão do Capitão Gerd Wiesler, um oficial altamente credenciado da Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, cuja missão é espiar um famoso escritor e a sua esposa…
9. Providence (1977, Alain Resnais) – A história de um escritor na fase final da sua vida que luta com um cancro ao mesmo tempo que tenta finalizar o seu último romance onde mistura realidade e ficção para retratar os elementos da sua família como pessoas desprezíveis.
10. Violette (2013, Martin, Provost) – Tendo como cenário Paris, pré-Segunda Guerra Mundial, aborda a relação de duas amigas apaixonadas pela literatura: Violette Leduc e Simone de Beauvoir.
11. Deconstructing Harry (1997, Woody Allen) - Harry é um escritor que para se inspirar utiliza factos relacionados com a sua vida privada, o que vai irritar os seus entes mais queridos...
12. Smoke (1995, Wayne Wang) – A clientela de uma tabacaria em Brooklyn, inclui, entre outros, um escritor desinspirado (William Hurt) após a morte da esposa. Argumento de Paul Auster.
13. Deathtrap (1982, Sidney Lumet) – Um argumentista de sucesso da Broadway (Michael Caine), a passar por uma crise de criatividade, engendra um plano para se apoderar de uma história desenvolvida por um autor desconhecido (Christopher Reeve).
14. The Hours (2002, Stephen Daldry) – A história de como o romance “Mrs. Dalloway” (Virginia Wolf) afectou três gerações de mulheres (com as fantásticas Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore).
15. Words (2012, Brian Klugman and Lee Sternthal) – Um autor desconhecido edita um romance que se torna um êxito estrondoso. Só que não foi ele que o escreveu…
16. Before Night Falls (2000, Julian Schnabel) – Sobre a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (Javier Bardem), exilado nos Estados Unidos devido às suas obras e ao seu comportamento homossexual.
17. The Ghost Writer (2010, Roman Polanski) - Um escritor-fantasma (Ewan McGregor) aceita a tarefa de terminar de escrever as memórias do Primeiro-Ministro britânico, Adam Lang.
18. Iris (2001, Richard Eyre) – Biografia da escritora inglesa Iris Murdoch (com as sempre magníficas Judi Dench e Kate Winslet), desde os seus dias de estudante até à luta contra a doença de Alzheimer.
19. Before Sunset (2004, Richard Linklater) - Nove anos após o primeiro encontro (em "Before Sunrise"), Jesse (Ethan Hawke), que escreveu um livro a contar aquela história, encontra-se em Paris a promover esse livro e encontra Celine (Julie Delpy).
20. Limitless (2011, Neil Burger) – Um escritor com falta de criatividade experimenta uma droga que lhe aumenta significativamente a capacidade intelectual.
21. Barton Fink (1991, the Coen Brothers) – Um argumentista procura inspiração após ter sido atingido por um bloqueio de tal natureza que não consegue escrever nada.
22. Becoming Jane (2007, Julian Jarrold) - Biografia da talentosa escritora Jane Austen (Anne Hathaway), que retrata o suposto romance de Jane com Thomas Lefroy, a inspiração das suas maiores obras.
23. Misery (1990, Rob Reiner) - Após sofrer um acidente de automóvel, um escritor é salvo por uma ex-enfermeira (a fabulosa Kathy Bates), que é uma fã maníaca dos seus livros. Baseado numa obra de Stephen King.
24. The Life Of Emile Zola (1937, William Dieterle) – A ascensão de Emile Zola como escritor que vive em Paris, em 1862 com Paul Cezane e o seu envolvimento na defesa de Alfred Dreyfus, um militar condenado injustamente.
25. Sylvia (2003, Christine Jeffs) – História trágica da lendária escritora norte-americana Sylvia Plath (Gwyneth Paltrow) que foi casada com o poeta britânico Ted Hughes (Daniel Craig).
26. Ruby Sparks (2012, Jonathan Dayton and Valerie Faris) - Um jovem escritor com falta de inspiração encontra o amor criando uma personagem (Ruby) que ele acredita que o irá amar…
27. Secret Window (2004, David Koepp) – Mais um título baseado na obra de Stephen king: um escritor de sucesso envolvido numa crise criativa, vê bater à sua porta um indivíduo que afirma ser o autor de uma das suas obras.
28. Finding Neverland (2004, Marc Forster) – Este filme relata a forma como James Matthew Burrie foi buscar a inspiração para criar o famoso clássico da literatura infantil “Peter Pan”.
29. Sunset Boulevard (1950, Billy Wilder) - O fracassado argumentista Joe Gillis refugia-se na casa da ex-estrela de filmes mudos Norma Desmond, fugindo de dívidas por pagar…
30. Saving Mr. Banks (2013, John Lee Hancock) – Walt Disney (Tom Hanks) demorou cerca de 20 anos a convencer a autora do livro “Mary Poppins”, P. L. Travers (Emma Thompson), para fazer um dos filmes mais cativantes da história cinematográfica.
31. Manhattan (1979, Woody Allen) - Um escritor divorciado (Woody Allen) procura uma nova vida, após a sua ex-mulher o trocar por outra mulher e, além disso, escrever um livro com detalhes muito particulares do seu relacionamento.
32. The Last Station (2009, Michael Hoffman) - História de Leo Tolstói e da sua dedicada esposa, amante, musa e secretária, Sofia (Helen Mirren), que copiou o manuscrito de “Guerra e Paz” seis vezes à mão…
33. A Man For All Seasons (1966, Fred Zinnemann) - No século XVI, Henrique VIII quer separar-se da sua primeira esposa para se casar com Ana Bolena e para isso procura obter o apoio de um fervoroso católico, Sir Thomas More.
34. The Whole Wide World (1996, Dan Ireland) – Texas, anos 30 e a relação entre o escritor Robert E. Howard (autor de “Conan, O Bárbaro”) e a professora aspirante a escritora Novalyne Price Ellis.
35. The Shining (1980, Stanley Kubrick) – Mais um filme baseado num livro do mestre do terror, Stephen King. Um escritor (Jack Nicholson) chega a um hotel isolado, com a sua mulher e um filho pequeno com o objectivo de escrever um livro.
36. Infamous (2006, Douglas McGrath) – Elenco de luxo neste filme que retrata a investigação de Truman Capote a um crime brutal ocorrido em 1959 e que inspirou o seu livro “A Sangue Frio”.
37. Henry Fool (1997, Hal Hartley) – Henry Fool é um escritor, que sonha ver o seu livro “Confissões” entrar para a história da literatura, ao mesmo tempo que incentiva o seu senhorio a escrever um poema épico…
38. Il Postino (O Carteiro de Pablo Neruda) (1994, Michael Radford) – História de um humilde carteiro que deseja aprender a fazer poesia após desenvolver uma amizade com o poeta chileno Pablo Neruda.
39. Adaptation (2002, Spike Jonze) – Um escritor (Nicholas Cage) com falta de auto-estima e alguma frustração sexual, tenta adaptar para cinema o romance “The Orchid Thief”, de Susan Orlean (Meryl Streep).
40. Following (1998, Christopher Nolan) – Um escritor londrino desempregado segue desconhecidos na rua para arranjar inspiração para o seu trabalho…
41. Wonder Boys (2000, Curtis Hanson) – Grady Tripp (Michael Douglas) é um professor universitário e um escritor com um bloqueio de criatividade, que é abandonado pela esposa e cuja amante aparece gravida…
42. Le Mépris (1963, Jean-Luc Godard) – Filme francês baseado na obra de Alberto Moravia, no qual um argumentista vai para Roma trabalhar numa adaptação de “Odisseia”, de Homero, feita pelo realizador Fritz Lang.
43. Wilde (1997, Brian Gilbert) – Biografia do escritor irlandês, Oscar Wilde, o Primeiro Homem Moderno.
44. The Magic Of Belle Isle (2012, Rob Reiner) - Monte Wildhorn (Morgan Freeman) é um escritor de sucesso, mas os seus problemas com a bebida impedem-o de continuar a sua paixão pela literatura.
45. Copie conforme (2010, Abbas Kiarostami) – História simples do encontro numa pequena aldeia no Sul da Toscana, entre um homem, um autor britânico que acabou de fazer uma apresentação do seu livro e uma mulher francesa (a encantadora Juliette Binoche), proprietária de uma galeria de arte.
46. Quills (2000, Philip Kaufman) – As memórias do Marquês de Sade escritas quando esteve preso no manicómio de Charenton, perto de Paris, durante a Revolução Francesa.
47. Finding Forrester (2000, Gus Van Sant) – Um escritor em reclusão, William Forrester (Sean Connery), tem um encontro inesperado com um jovem de 16 anos que tem uma paixão secreta pela escrita.
48. Henry & June (1990, Philip Kaufman) – Paris, 1931, e as relações entre a escritora Anaïs Nin (Maria de Medeiros) e o escritor Henry Miller e a sua esposa June (Uma Thurman).
49. Bright Star (2009, Jane Campion) – Os três últimos anos da vida do poeta John Keats, com destaque para a sua relação com Fanny Brawne.
50. Enid – TV Movie (2009, James Hawes) – Biografia da prolifica escritora britânica Enid Blyton (Helena Bonham Carter).
- Richard Ford – Canadá
- Knut Hamsun – Fome
- Zoran Zivkovic – O Grande Manuscrito
- Gabriel García Márquez – Viver Para Contá-la
- Alberto Manguel – Uma História da Leitura
Depois de nos últimos dois filmes (Frankenweenie e Dark Shadows) me ter desiludido, Tim Burton parece regressar à boa forma nesta película baseada em factos verídicos. Trata-se da história da insegura pintora Margaret Keane (a encantadora Amy Adams), uma das artistas mais rentáveis em termos comerciais dos anos 50 do século passado, muito devido aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (mais um extraordinário papel para Christoph Waltz) afirmou ser o verdadeiro autor das suas obras até à sua morte. Surpreendente é o facto de a farsa durar mais de dez anos e a própria Margaret ser conivente com a mesma. Lana Del Rey empresta a voz em “Big Eyes” e “I Can Fly”. Delicioso.
- Tom Odell – Another Love
- Royal Blood – Little Monster
- Sharon Van Etten – Every Time The Sun Comes Up
- James Bay – Hold Back The River
- Zack Hemsey – Vengeance
- Lucy Rose – Our Eyes
- The Subways – I’m In Love And It’s Burning In My Soul
- Mini Mansions (Ft. Alex Turmner) – Vertigo
- Laura Marling – I Feel Your Love
- Years & Years – Take Shelter
- Peace – Lost On Me
- FKA Twigs – Video Girl
Este romance proporciona uma leitura agradável devido à fluidez linguística e à forma muito real e palpável como os assuntos são abordados. Extremamente hilariante, dada a forma ora séria ora despreocupada como o personagem encara a sua realidade, este é um livro que se lê de um fôlego sem grandes necessidades de pararmos para pensar. À semelhança de outras obras já lidas do mesmo autor, também nos faz soltar grandes gargalhadas devido à forma tão british como os personagens usam e abusam de humor e ironia e abordam as questões da sua vida e as da própria sociedade.
Desmond Bates é um recém-reformado professor universitário de linguística de 61 anos, tem uma cultura acima da média, uma mente lúcida, um sentido de humor agudo e contagiante, mas com problemas sérios de surdez que aliados à sua constante monotonia dão origem a diversas peripécias trágico-cómicas, despertando empatia no leitor. Segundo este personagem, o quadro de Goya, The Dog (1819-1823), apresentado abaixo, simboliza a surdez, que “é cómica enquanto a cegueira é trágica”.
Aliás, é impressionante a quantidade de trocadilhos e confusões geradas na comunicação, o que deve ter dificultado o trabalho da tradutora, obrigada a recorrer por diversas vezes a notas de rodapé. A título de exemplo eis algumas frases “ouvidas” por Desmond:
“Pois foi, estávamos perto cacafone. Hermafrodita, mas infelizmente o purismo eu cabidela.”;
“A última vez que fodi a franga tive tanto calor que passámos a maior parte do tempo nas águas furtadas”.
A narrativa varia entre a primeira e a terceira pessoa do singular e procura-se essencialmente uma dignidade para a surdez. Trata-se de uma espécie de diário, onde Desmond regista os acontecimentos que marcam os seus dias e as reflexões que os mesmos lhe suscitam. É quase um recurso terapêutico, uma forma de racionalizar e dissecar as mudanças que a sua vida tranquila sofre em consequência das crescentes dificuldades auditivas que o afligem e da reforma a que essas mesmas limitações quase o obrigaram.
No seu dia-a-dia, Desmond tem de lidar com a sua bem sucedida segunda esposa (a quem trata por “você”), com o seu obstinado pai (também surdo) e com uma estudante que o deseja como orientador numa tese de doutoramento com um tema algo invulgar (análise linguística do conteúdo de bilhetes de suicídio). É esta jovem, Alex Loom, que despoleta alguma instabilidade e inquietação na sua vida quando o convida para visitar o seu apartamento e porque para Desmond “a maneira como se trata os livros é uma mostra do seu comportamento cívico”. Quando Alex convida Desmond para a castigar, na sua casa, Desmond imagina-a na obra de Edvard Munch de 1894, Puberty, que passa a significar: “Alex à espera de Desmond para a castigar”.
Outros factos que contrastam com o humor presente em quase toda a obra são o agravar do estado de saúde do pai (o sistema de saúde britânico também é severamente criticado), o relato angustiante da visita a Auschwitz e a descrição das circunstâncias que provocaram a morte da ex-mulher. Além disso, também se encontram referências a música clássica, alguns filmes, locais de Inglaterra, desportos (golfe e ténis), diversa literatura e, claro, a descrição da vida académica, com os seus professores e, tal como no nosso país, com alunos cada vez mais problemáticos.
Como na parte final do livro Lodge assume o carácter autobiográfico da obra, ao terminar a leitura ficámos com a sensação de que todas as situações descritas terão realmente ocorrido. Além disso, obriga-nos, àqueles que não têm problemas de audição, a fazer as nossas próprias reflexões tendo em conta as questões suscitadas e a forma como foram tratadas.
Laura Hillenbrand andou a pesquisar informação de forma meticulosa durante 7 anos para depois relatar uma incrível história verídica de forma pujante mas por vezes perturbadora. A sua leitura é agradável, óptima para quem gosta de História e biografias. Louis Zamperini é-nos apresentado desde a sua infância e idade adulta até aos seus últimos anos de vida.
Na adolescência era um rebelde, desordeiro compulsivo, fugiu de casa, praticava pequenos furtos, e as suas aventuras terminavam sempre “a correr como um louco”. Desta forma, descobriu que tinha um talento, a corrida, o que o levou aos Jogos Olímpicos de Berlin em 1936, sempre incentivado pelo irmão Pete. Ficou em 8º lugar nos 5000 metros e apertou a mão a Hitler.
Com o advento da Segunda Guerra Mundial foi obrigado a desistir do seu sonho e começou a formação para artilheiro em bombardeiros. Após várias missões no Pacífico, os motores do seu avião deixaram de funcionar e caiu no oceano. De uma tripulação de onze elementos, sobreviveram apenas três num pequeno bote. Ao fim de 42 dias, apenas dois aguentam o sofrimento: Louis e Phil. Finalmente, após 47 dias, muitas queimaduras, frio, fome e sede, lutas com tubarões, tiros de aviões inimigos, avistam uma ilha mas são recebidos por um navio militar japonês!
Iniciou-se então um período terrível, que durou cerca de dois anos, nos campos de concentração japoneses, com fome, trabalhos forçados, espancamentos diários e torturas cruéis inimagináveis, comandadas pelo atroz Watanabe, conhecido pela alcunha “O Pássaro”. A disenteria e beribéri eram doenças constantes. A certa altura a autora recorda que na Europa morria um por cada cem prisioneiros de guerra, no Japão morria um por cada três prisioneiros de guerra.
Como é do conhecimento geral, com o lançamento das bombas nucleares, o Japão foi derrotado e os prisioneiros, apesar da política japonesa de matar todos os prisioneiros de guerra caso houvesse um simples boato de invasão norte-americana, foram libertados e regressaram para casa em Outubro de 1945.
Como seria de esperar o período do pós-guerra foi extremamente complicado devido às recordações e aos traumas sofridos. Zamperini foi considerado herói nacional, casou-se, começou a dar palestras mas sempre embebido em álcool e tabaco e envolveu-se em vários negócios sem obter qualquer sucesso. A sua situação só melhorou quando em 1949 encontrou na religião uma forma de perdoar e recomeçar a sua vida.
Tal como na obra anterior da autora, "Seabiscuit", também foi realizado um filme baseado em “Invencível”. Foi em 2014 que Angelina Jolie adaptou esta história de um homem levado ao limite do humanamente suportável. Apesar de não ter ficado desapontado esperava um pouco mais do filme. Em termos sonoros, visuais e de fotografia, está excelente, mas o desenvolvimento da história torna o filme longo e pouco dinâmico. Em termos globais, Angelina Jolie segue à risca o conteúdo do livro e consegue imprimir à história uma parte significativa do que está patente no livro.
Acaba de ser lançado o nono álbum de originais de uma das bandas que sempre apreciei: Belle & Sebastian. Sem surpreenderem, apesar de apostarem mais em ritmos dançáveis e recuperarem referências retro dos anos 80, continuam a rechear os seus trabalhos com canções bonitas, impecavelmente interpretadas. É com frequência que recorro à sua discografia e à recordação do único concerto destes escoceses que tive o prazer de assistir em Junho de 2006 (fotos abaixo).
Quatro alentejanos costumam ir pescar há muitos anos, sempre na mesma época, montando um acampamento para o efeito. Este ano, a mulher do João bateu o pé e disse que ele não ia. Profundamente desapontado, telefonou aos companheiros e disse-lhes que, desta vez, não podia ir porque a mulher não deixava.
Dois dias depois, os outros chegaram ao local do acampamento e, muito surpreendidos, encontraram lá o João à espera deles e com a sua tenda já armada.
- Atão, João, comé que conseguisti convencer a tua patroa a deixar-te viri?
- Bêm, a minha mulheri tên estado a ler "As Cinquenta Sombras de Grey" e, ontem à nôte, depois de acabar a última página do livro, arrastô-me para o quarto. Na cama, havia algemas e cordas! Mandô-me algemá-la e amarrá-la à cama e depois disse: Agora, faz tudo o que quiseres...
E Ê ... VIM PESCARI !!!
A “Crónica do Rei Pasmado” tem como cenário a Espanha do séc. XVII, época dominada fortemente pela Inquisição. Trata-se de uma sátira brilhante e mordaz em que Ballester, numa narrativa bastante humorada, expõe a hipocrisia que germina nas classes detentoras de poder, expondo características psicológicas e comportamentos, descarnando personagens que vão desde os altos cargos do clérigo (aqui destacaria especialmente o ambicioso e implacável padre Villaescusa) às simples “marafonas”.
Esta estória, onde se encontram disseminadas numerosas piscadelas de olho à História, inicia-se com uma visita do ingénuo e inseguro Rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal, na altura com 20 anos, “às meninas”, ajudado pelo amigo, conde Peña Andrada. Deslumbrado com a visão da meretriz Marfisa totalmente nua, com a perfeição das suas curvas e após “4 cópulas e um fracasso”, que constituem o “limite que os teólogos põem aos exageros da carne”, mete na cabeça que há-de observar a nudez da Rainha (Isabel de Bourbon) e não se inibe de manifestar publicamente esse desejo.
Ora, os severos costumes impostos pela Inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento íntimo com a Rainha e assim a Igreja imediatamente salta em defesa do pudor, da reserva e dos bons costumes, e dá-se uma feroz luta pelo poder entre aqueles que lhe estão próximos, o que origina posições antagónicas. Por um lado, os súbditos que defendem que o Rei não podia ver a esposa nua: “O homem pode aceder à mulher com fins de procriação e, se os seus humores lhe exigirem, para os acalmar, mas nunca com intenções levianas, como seria a de contemplar nua a própria esposa” (página 44); “Acha que a Graça do Senhor se manifesta no coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contra natura?” (página 67). Numa posição contrária, assume-se que o Rei tem toda a legitimidade para observar a nudez da esposa “…porque de camisas de noite cumpridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas” (página 50).
Adicionalmente e em relação ao primeiro grupo mencionado desenvolve-se a ideia de que, ao deixar-se o Rei levar a sua avante, será o povo inocente que pagará pelos seus pecados e por isso a Espanha perderá a guerra que está a travar nos Países Baixos e, de igual modo, a frota oriunda das Índias não chegará em segurança ao porto de Cádis.
O Santo Tribunal da Inquisição entra em cena, são criadas quatro comissões para solucionar o problema (o que mostra que isto de criar comissões já é um fenómeno bastante antigo), aparece um padre jesuíta português, a prostituta Marfisa é perseguida por “suspeitas de endemoninhamento”, encontramos uma Rainha com uma camisa de noite recomendada pelos clérigos por conter a expressão “Vade Retro Satanás” e um primeiro-ministro Valido que considera que “deitar com judias é melhor que queimá-las” e a quem no trono interessa um Rei fragilizado, sem voz activa. Até ao final assiste-se a muitos debates teológicos, querelas populares e intrigas palacianas num ambiente onde o “cheiro a enxofre corrobora a presença do Diabo”.
Tive curiosidade em assistir à versão cinematográfica do filme (El Rey Pasmado, de 1991), realizada por Imanol Oribe, e constatei que se trata de uma fiel reprodução de toda a obra embora em jeito de peça teatral onde, tal como acontece com o livro, se saboreia uma linguagem colhida directamente da época. Além disso, observa-se uma minuciosa reconstituição dos objetos, traquejos e vestimentas bem como a transposição da ideologia existente no período histórico considerado. Conta com a participação do português Joaquim de Almeida entre diversos actores espanhóis. Não resisto a mencionar o pormenor delicioso relacionado com a cara aparvalhada do Rei, cujo actor no filme (Gabino Diego) é incrivelmente semelhante ao retrato do Rei Filipe IV, feito em 1623 pelo precursor do impressionismo Diego Velázquez e que abaixo se reproduz.
Também não resisto a comentar a primeira cena do filme: um padre observa no telescópio corpos celestes e, para sua surpresa, vê corpos femininos, nus, girando no espaço e em volta do que se supõe ser o Sol. Tal visão enuncia a transformação que sucederá ao final da trama. Esta cena diz respeito à descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como dizia a Igreja.
O filme mostra que no confronto das duas formas de se interpretar a realidade, a dogmática e a científica, a grande maioria das personagens retratadas demonstra ter consciência da não relação entre o pecado do rei e a derrota de uma batalha.
1. Donna Tartt – O Pintassilgo
2. Eleanor Catton – Os Luminares
3. José Paulo Cavalcanti Filho – Fernando Pessoa – Uma Quase-Autobiografia
4. Philip Roth – O Complexo de Portnoy
5. José Ferreira Bomtempo – No Reino das Anjos
6. John Steinbeck – A Leste do Paraíso
7. José Luís Peixoto – Galveias
8. Haruki Murakami – A Peregrinação do Rapaz Sem Cor
9. Paul Theroux – O Grande Bazar Ferroviário
10. Javier Marias – Coração Tão Branco
11. Ernest Hemingway – Por Quem Os Sinos Dobram
12. David Lodge – Um Homem de Partes
No último fim-de-semana visitei a FNAC em duas ocasiões. No sábado assisti à apresentação intimista daquele que considero ser o melhor álbum português de 2014: “True” do Legendary Tigerman. Paulo Furtado, que já me tinha surpreendido com o “Femina” e as suas convidadas femininas, como habitualmente nestas ocasiões esteve menos de 30 minutos em palco e limitou-se a interpretar seis temas: Love Ride; Wild Beast; Do Come Home; My Heart, Safe At Home; Twenty Flight Rock e Rainy Nights (não tocou o meu tema predilecto do disco, Is My Body Dead?). Blues-rock e lamentos folk onde abunda o tom negro são a marca deste homem-orquestra genial.
José Luís Peixoto – Galveias
No dia seguinte assisti à apresentação de “Galveias”, o novo romance de José Luís Peixoto. O nome do livro é uma homenagem à vila alentejana do concelho de Ponte de Sor, distrito de Portalegre, onde o escritor nasceu, há 40 anos, e pretende defender "a realidade do interior de Portugal, onde há problemas bastante graves". Por coincidência tinha acabado de ler na semana passada este livro, que evoca uma realidade que se encontra um pouco por todo o nosso país, mas que na minha opinião não alcança a sua obra-prima, “Livro”.
- Future Islands - Singles
- Sharon Van Etten - Are We There
- Perfume Genius - Too Bright
- Swans - To Be Kind
- Caribou - Our Love
- Elbow - The Take Off and Landing of Everything
- Temples - Sun Structures
- Leonard Cohen - Popular Problems
- St. Vincent - St. Vincent
- Ariel Pink - Pom Pom
- The War on Drugs - Lost in the Dream
- Banda do Mar - Banda do Mar
“O Teu Rosto Será O Último” é claramente o meu livro preferido dos já laureados pelo Prémio Leya (considerando “O Rastro do Jaguar”, “O Olho de Hertzog”, “Debaixo de Algum Céu” e “Uma Outra Voz”, e excluindo o recentíssimo e ainda não lido “O Meu Irmão”). É um romance com uma capa magnífica, um título apelativo, sobre a origem de destinos, repleto de questões pertinentes pensadas ao detalhe que nos levam a um número infinito de interrogações apoiado em imagens, citações e palavras fortes para descrever uma perturbadora e cruel realidade portuguesa.
O enquadramento da narrativa na História recente portuguesa (de 1934 a 1974) está enraizada num cenário muito português onde a descrição de acontecimentos, hábitos e costumes, não só lhe conferem realismo, como também permitem uma certa identificação com as personagens, nomeadamente no que diz respeito à vida no interior do país.
O enredo até é simples, por vezes deixando-nos apenas seguir superficialmente a vida de três gerações de uma família e dos que a rodeiam. Conta a história de Duarte, um jovem talentoso que se revolta contra o seu próprio talento de pianista, do seu pai António Mendes, marcado pela guerra colonial e do seu avô médico Augusto Mendes, através de pequenos contos que se vão ligando como uma manta de retalhos que nunca se completará: a obstipação do Amável, as habilidades dos ciclistas da Volta, a trombose do avô Augusto, a data da morte do gato Joseph, os olhos do gato Ezequiel, a reacção do amigo Índio ao ouvir a sonata 21 de Beethoven, os tremeliques do barbeiro Alcino, a história da caneta Mont Blanc, a “madrinha de guerra” ou a relação com a professora de canto eslovaca.
Pontos de interesse: a ligação à música (a oferta do piano, Mozart, Beethoven, Bach, Hindemith e toda a nomenclatura musical utilizada), à arte (o delicioso pormenor da misteriosa obra de 1559, “A Luta Entre o Carnaval e a Quaresma”, do pintor flamengo Pieter Bruegel - reproduzida abaixo), ao cinema (o filme She Wore a Yellow Ribbon), a magia das mais de quarenta cartas de Policarpo e um poema de Camões. No entanto, o autor da obra parece abusar de palavrões e de alguma pontuação e também não compreendo a necessidade daquela extensa e monótona lista de compras de supermercado apresentada na página 130…
João Ricardo Pedro escreve de forma simples e natural, com avanços e recuos no tempo. As descrições das personagens, dos lugares e das situações são cheias de vida, conferindo uma grande satisfação ao longo das páginas. A leitura é envolvente mas requer a atenção do leitor. Apesar de por vezes o texto parecer desconexo, com o decorrer da leitura, percebemos que (quase) tudo se vai conjugando e que o enredo se torna melancolicamente belo.
Explicar o amor com as curvas da oferta e da procura
O jornal de informação financeira Financial Times, na sua edição online, apresenta um consultório eco-sentimental, uma secção de perguntas e respostas designada "Querido Economista". Num certo dia publicaram isto:
"Querido Economista: Se eu reduzir a oferta o meu preço pode subir?
Tive uma relação à distância com a minha ex-namorada durante seis meses, eu estava no Bangladesh e ela na Inglaterra. Inicialmente, era tudo maravilhoso, mas pouco depois a curva da procura da minha namorada em relação a mim parecia estar a deslocar-se lentamente para a esquerda. Paranóico, comecei então a prestar-lhe mais atenção, pelo que, desta forma, estava a deslocar a minha curva da oferta para a direita. Consequentemente, o meu preço caiu. Rompemos, mas convenci-a a voltar para mim.
Voltámos à normalidade e falávamos durante muitas horas todos os dias. Decidi então tentar mudar-me e consegui um lugar para continuar os meus estudos de Economia no Reino Unido. Entretanto ela começou a agir de forma muito estranha até que, um destes dias, me disse que já não gostava de mim e rompeu definitivamente comigo.
Continuamos a ser amigos e a falar pelo telefone de vez em quando, mas ela vai inventando desculpas que não me parecem demasiado racionais. Penso que ela está confusa e que poderia voltar para mim, se eu agir da forma certa. Devo reduzir drasticamente a oferta e esperar que, desta forma, o meu preço suba? Gosto muito dela. A minha curva da procura por ela é perfeitamente inelástica.
Anon, Bangladesh".
Esta é a resposta que recebe do seu consultor eco-sentimental:
"Estimado Anon:
Julgo que deveríamos esquecer as curvas da oferta e da procura e tratar este assunto como um problema de informação imperfeita. Antes de mudar de continente, precisas de saber o que a tua ex-namorada pensa.
Pensas que o teu comportamento desesperado foi a razão da mudança de comportamento dela – provavelmente isso nada ajudou. Mesmo que consigas salvar esta relação, se calhar a única coisa que conseguirás é lavar pratos o resto da vida.
Lembra-te que ela reduziu a procura antes de tu aumentares a oferta. Porquê? Duas hipóteses: ela estava de facto preocupada pelo tipo de relação à distância ou então encontrou alguém que prefere em relação a ti. Compara cada uma destas hipóteses com o facto de que, quando disseste que voltavas a Inglaterra, ela deixou-te. É óbvio que a vossa relação acabou. E sim, deves “reduzir drasticamente a oferta” a esta rapariga, mas não porque ainda tenhas esperança de a ter de volta”.
Não acredita que um jornal tão sério como o Financial Times publique este tipo de artigo? Pois pode verificar aqui.
Para este mês de Outubro seleccionei os títulos seguintes:
- Donna Tartt – O Pintassilgo
- Paul Theroux – O Grande Bazar Ferroviário
- Julia Navarro – A Bíblia de Barro
- João Tordo – Biografia Involuntária dos Amantes
- Amin Maalouf – As Cruzadas Vistas Pelos Árabes
Eis um estudo interessante e inédito: a comparação das notas dos exames de acesso à universidade nos Estados Unidos com os gostos musicais dos estudantes (informação retirada dos perfis do Facebook). Conclusão: quem ouve artistas como Beyoncé, Lil Wayne, T.I. ou Jay-Z ou géneros musicais como reggaeton ou pop é menos inteligente do que quem ouve Beethoven, Radiohead, Sufjan Stevens, Bob Dylan, The Beatles ou U2 (ganda Coiote).
Acabei de ler o sexto e último livro publicado em Portugal pelo escritor norueguês Jo Nesbø, sem dúvida um dos meus escritores de policiais preferido da actualidade. Os cinco títulos dedicados ao inspector Harry Hole desenvolvem histórias bastante intensas, repletas de suspense e acção e por vezes de uma violência atroz. São policiais cheios de personagens cativantes, com um enredo construído de forma magistral, ao qual se juntam várias pitadas de mistério, que nos levam a ficar agarradíssimos à história. Harry Hole, com quem facilmente se cria empatia, trabalha na força policial de Oslo, tem poucos amigos e métodos muito pouco ortodoxos…
“Caçadores de Cabeças” (“Hodejegerne”, 2008) é igualmente um policial, mas independente da série do inspector Harry Hole. Neste caso, o “herói” chama-se Roger Brown, e o seu emprego é procurar talentos para colocar em empresas de sucesso. Mas é também um sedutor ladrão de obras de arte. E mais não conto... Foi adaptado ao cinema em 2011 de uma forma que não envergonha o autor da obra: diversão inteligente e elegante com bons actores, num nível de produção industrial que nada fica a dever à dos países anglo-saxónicos.
De lamentar a impossibilidade de ler toda a bibliografia relativa a Harry Hole por ordem cronológica de publicação, especialmente tendo em conta a continuidade de certos factos e histórias por vários volumes. Das 10 obras que já foram publicadas na Noruega, apenas cinco foram publicadas em Portugal (do terceiro ao sétimo volume), com a agravante de não serem publicadas por essa ordem (LeYa, como é que isto se explica?):
Filho de uma bibliotecária, Jo Nesbø além de escritor, também é economista, ex-jogador de futebol profissional, compositor e músico de uma banda de pop/rock chamada Di Derre. Por curiosidade tentei ouvir a sua discografia mas não consegui chegar ao fim: a língua norueguesa não me cativou e a parte instrumental não prima pela originalidade…
Depois de ter lido A Catedral do Mar (2006) e A Mão de Fátima (2009), adorei a leitura da (também) extensa obra que o espanhol Ildefonso Falcones acaba de publicar: A Rainha Descalça.
Neste magnífico romance histórico, onde sobressai essencialmente a importância da família, a amizade e a honra, fui cativado pelo tema - a raça e cultura cigana - e pelo ambiente: a acção decorre de 1748 a 1754, principalmente nas cidades de Sevilha e Madrid (mas a pequena vila alentejana de Barrancos também é palco da história). Trata-se de uma época onde subsistem a escravatura, um enorme fervor religioso e a guerra entre Espanha e Inglaterra. Além disso, o autor exibe um conhecimento profundo deste período do reinado de Fernando VI (casado com a portuguesa Maria Bárbara de Bragança) e da Inquisição e descreve com mestria todo um cenário que inclui bailes, nobres, vilões, preconceito, intolerância, miséria, crueldade, amores sofridos e vinganças.
Tudo começa em Janeiro de 1748 com o desembarque de uma mulher negra de 25 anos (Caridad) em Cádis, que deixou um passado de escravatura em Cuba, numa plantação de tabaco. O seu amo morreu durante a viagem mas concedeu-lhe a liberdade em testamento. Ao deambular por Sevilha, pois não sabe o que fazer com a sua liberdade, e após ter sido abusada sexualmente por um oleiro, o cigano Melchor Veja, contrabandista de tabaco, delicia-se a ouvi-la cantar e leva-a para o seu bairro em Triana onde lhe apresenta a sua neta de catorze anos, Milagros. De imediato uma amizade profunda é estabelecida entre as duas.
Caridad e Milagros são as personagens centrais, com maneiras de ser bem definidas e diferenciadas e por isso demorei a perceber qual era a “Rainha Descalça”. Milagros, tal como a sua mãe, é uma mulher cigana, orgulhosa, inconformada, rebelde e cheia de coragem. Caridad, escrava durante toda a sua vida, mãe de dois filhos que por circunstâncias da vida não estão ao seu lado, está habituada a ser abusada, a não olhar nos olhos de ninguém, a servidão está enraizada no seu ser.
Sempre juntas, Caridad e Milagros tornam-se confidentes e são inseparáveis. A ex-escrava passa a trabalhar com o tabaco contrabandeado por Melchor e percebe que está a desenvolver novos sentimentos pelo cigano que a acolheu.
Outras personagens da comunidade cigana vão surgindo: Ana Vega, mãe de Milagros; José Carmona, pai de Milagros; “Conde” Rafael Garcia, patriarca da família Garcia, odiada pelos Vega por terem sido responsáveis pela condenação de Melchor a 10 anos de trabalhos forçados nas galés do rei; Reyes, a “Trianeira”, mulher do “Conde”; Pedro Garcia, neto do “Conde”, futuro marido de Milagros e Alejandro Vargas, a quem o pai de Milagros prometeu casamento com a filha.
Em 1749 dá-se a grande rusga protagonizada pelo exército real, convertendo todos os ciganos em proscritos, tendo como objectivo eliminar a raça. Cerca de 130 famílias ciganas foram presas em Sevilha durante o mês de julho. Os familiares de Milagros foram todos presos. Só Milagros escapou. Caridad teve ajuda do religioso frei Joaquin, que a colocou temporariamente em casa de pescadores. Mais tarde, Milagros, Caridad e uma cigana anciã fogem para Portugal (Barrancos).
Pouco tempo depois, alguns ciganos foram libertados. Nem nas prisões os quiseram (“não valiam o que comiam”), por isso foram postos em liberdade desde que provassem que eram casados pela igreja e que seguiam os seus princípios. Ana não foi libertada por apelar constantemente à revolta das ciganas.
Contra a vontade da familia, Milagros casa com Pedro Garcia provocando a ira de Ana e Melchor. Este casamento foi muito incentivado pelo "Conde" e pela "Trianeira" pois viram na voz de Milagros uma forma de ganhar muito dinheiro. Efectivamente, Milagros começou a ter muito sucesso e em breve seria convidada para actuar em Madrid, cidade que conquistou em muito pouco tempo. No entanto, Pedro Garcia é que ficava com todo o dinheiro obtido nas actuações da mulher e com ele levava uma vida boémia, dormindo constantemente com outras mulheres.
Os acontecimentos vão-se sucedendo: a prisão de Caridad durante dois anos, o surgimento de Nicolasa, Herminia e do jovem Martín, o sucesso de Milagros nas comédias de Madrid, a perda da virgindade de Milagros da forma habitual na comunidade cigana, o sequestro de Melchor e consequente fuga, a queda em desgraça de Milagros e, finalmente, o regresso dos quatro personagens (Melchor, Caridad, Milagros e do frei Joaquin) a Triana onde se irá dar o desfecho da história.
Ildefonso Falcones revela uma capacidade extraordinária de nos transportar para outro tempo e permite-nos conhecer um pouco melhor a História de Espanha. Emociona pela descrição cruel da realidade que as pessoas viviam numa época de intolerância. No primeiro livro, apresentou-nos uma história de miséria e servidão, de um homem do povo, Arnau, na Barcelona do século XIV; no segundo livro, acompanhamos Hernando num conflito entre muçulmanos e cristãos na Espanha do século XVI e agora, neste terceiro título, descreve com minúcia a forma de viver do povo cigano, bastante diferente da forma de viver dos “gadjé”, em pleno século XVIII. “A Rainha Descalça” é a sua obra mais profunda, mais triste, mais melancólica, com uma quase total ausência de momentos de alegria e contentamento, onde aflição, mágoa e angústia, envolvem o leitor e as próprias personagens nas canções repletas de lamentos e amarguras (queixa de galé).
- Jung Chang – A Imperatriz Viúva - Cixi, A Concubina Que Mudou A China
- Arturo Pérez-Reverte – O Tango da Velha Guarda
- Irvine Welsh – Porno
- Leopoldo Brizuela – Lisboa – Um Melodrama
- Henning Mankell – The Shadow Girls (Tea-Bag, na edição portuguesa)
- Rendez-Vous (Encontro), de André Téchiné
- Pas Sur La Bouche (Nos Lábios Não), de Alain Resnais
- La Meglio Gioventù (A Melhor Juventude), de Marco Tullio Giordana
- All About Eve (Eva), de Joseph L. Mankiewicz
- Jour de Fête (Há Festa na Aldeia), de Jacques Tati
- Dirty Pretty Things (Estranhos de Passagem), de Stephen Frears
- Close-Up, de Abbas Kiarostami
- Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz
- I Want To Be Famous aka Happy End (Quero Ser Famosa), de Amos Kollek
- Belle & Sebastian – Fans Only
- Rufus Wainwright – All I Want
- Ani DiFranco – Trust - Live At The 9:30 Club, Washington, DC
- Nick Cave And The Bad Seeds – God Is in The House
- Franz Ferdinand – Live
- Pavement – Slow Century
- VA – Glastonbury Anthems
- VA – Later… with Jools Holland - Cool Britannia
Os novos discos de: Beck, Lykke Li, Damon Albarn, Real Estate, The War On Drugs, Sharon Van Etten, St. Vicent, Swans, Sun Kil Moon, Pixies, Mão Morta e Capitão Fausto.
Para desenjoar das repetitivas e monótonas produções de Hollywood, apresento 5 filmes que de alguma forma mexeram comigo recentemente:
1.The Hunt (Jagten; A Caça), de Thomas Vinterberg – Dinamarca (2012)
Filme fantástico, sobre uma história que será o pior pesadelo para qualquer professor. Através de manipulações e popularismos enraizados, mostra-se de forma implacável o lado negro da natureza social humana, quando falsos rumores são espalhados a grande velocidade numa pequena comunidade. Aqui, o educador Lucas (brutal interpretação de Mads “Hannibal” Mikkelsen) é confrontado com uma acusação de exibição das partes íntimas por parte de uma aluna, a pequena Klara, e com a consequente revolta de toda a comunidade onde vive. Drama intenso, angustiante, com cenas bastante fortes e, claro, desconcertante para qualquer professor.
2. The Broken Circle Breakdown (Ciclo Interrompido), de Felix Van Groeningen – Bélgica (2012)
História comovente e dramática de um casal que é confrontado com o medo da perda de uma filha de 6 anos. Ele, Didier, ligado à cultura americana, cantor folk numa banda (vieram-me de imediato à memória os Mumford & Sons!) e ela, Élise, dona de uma loja de tatuagens, formam um par romântico bastante exótico, com um casamento quase surreal (reparem na mesa de bilhar, nos cortinados e nos óculos do padre). Destaque para o impressionante e furioso discurso protagonizado por Didier contra um deus inexistente, numa altura em que o destino parecia já ter derrotado o amor intenso do casal.
3. La Grande Bellezza (A Grande Beleza), de Paolo Sorrentino – Itália (2013)
Ambientado na cidade de Roma, explorando as suas magníficas imagens, conta a história de um escritor de 65 anos, Jap Gambardella (Toni Servillo) que apenas escreveu um único livro na sua vida, chamado “O Aparelho Humano” e que foi um grande sucesso há 40 anos atrás. Desde então tem-se limitado a usufruir da fama e privilégios conquistados, frequentando festas deslumbrantes da alta sociedade, algumas das quais no terraço do seu apartamento, com vista para o Coliseu. A certa altura do filme Jap afirma: “aos 65 anos descobri que não posso perder tempo a fazer coisas que não gostaria de fazer”. O escritor pondera voltar a escrever, especialmente quando se recorda de um amor inocente da sua juventude. Para quem não estiver preparado, o filme poderá parecer complicado e até um pouco monótono.
4. Rebelle (aka War Witch), de Kim Nguyen – Canadá (2012)
Filme com violência e crueldade difíceis de suportar (fez-me recordar o "Hotel Ruanda", de Terry George). Num lugar não identificado da África Central, Komona (Rachel Mwanza) é uma adolescente de 14 anos, grávida, que conta ao seu filho, ainda no ventre, a história da sua vida, desde que foi raptada pelo exército rebelde, aos 12 anos, tendo como único apoio a presença do Mágico, um jovem de 15 anos que sonha casar-se com ela. O filme é narrado de forma crua e realista por Komona. É um filme tenso mas ao mesmo tempo amoroso, quando mostra a relação do casal apaixonado. Uma curiosidade: todo o elenco nunca tinha participado em qualquer filme.
5. La Vie D’Adèle (Blue Is The Warmest Colour; A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2), de Abdellatif Kechiche – França (2013)
Apesar de durar 179 minutos já o vi duas vezes e ainda o voltarei a rever com toda a certeza. A principal razão será, claro, a exuberante Adèle Exarchopoulos (Léa Seydoux também cativa mas de modo diferente) e a sua transição da fase adolescente para a fase adulta. Trata-se de uma história polémica de amor e de desamor, de ilusão e desilusão. Aqui, a sexualidade, apesar de intensa, é secundária. A intimidade é que é exposta de uma forma nunca vista, inquietante, à qual é impossível ficar indiferente.
No passado dia 7 tive o prazer e a honra em participar na apresentação da obra “No Reino das Anjos” de José Ferreira Bomtempo. O autor é um amigo pessoal de longa data, excelente comunicador, de enorme carácter, com uma cultura geral extraordinária e extensa actividade profissional.
Ao longo desta obra bastante original são apresentadas várias questões / desafios que todos já enfrentámos. Amizade, romance, religião e crenças populares e, acima de tudo, a distinção entre o bem e o mal, são alguns dos temas dominantes.
Do ponto de vista literário, está muito bem escrita, de forma inteligente, de modo que quem começa a lê-la não tem vontade de parar. Confesso que a mim deu-me muito prazer a sua leitura.
Tendo em conta a extensão da obra (os dois primeiros volumes da trilogia totalizam cerca de 850 páginas), apresento uma sinopse e uma citação para aguçar apetites...
Sinopse: Daniel, economista, professor universitário, meia-idade, sempre ocupado e cheio de pressa, com a agenda de trabalhos altamente preenchida de compromissos a que muitas vezes não encontra resposta porque os tem, um belo dia, quando se dirige ansiosamente ao volante da sua viatura em direção à faculdade, a fim de ocupar o seu tempo em mais uma jornada letiva, envolve-se num brutal acidente de viação que vai enviá-lo para uma nova realidade, até aí completamente desconhecida e na qual se vê confrontado a dialogar com o seu avô Augusto que confortavelmente o põe ao corrente do sucedido. Perante tão estranha aparição do seu familiar há tempos desaparecido do mundo dos vivos, Daniel é informado pelo seu avô Augusto da missão que tem para com ele de esclarecê-lo das dúvidas que o assaltam em tão angustiante momento da sua vida…
Citação:
Página 185 – “Com toda a sofreguidão de Eros e Afrodite, drogados pela adrenalina liberta no sangue, envenenados pelas setas de um imaginário Cúpido, como uns jovens amantes, completamente libertos do constrangimento que nos prendia, estamos os dois em simultâneo, com o pensamento, plenamente carregado de eróticos desejos de mórbida volúpia! Começamos então, a desembaraçar-nos sofregamente da roupa que trazemos vestida e que só nos incomoda, que só nos atrapalha. Em breve acabamos no chão da sala, entrelaçados um no outro como duas cobras, completamente desnudados, a fazer, com toda a sofreguidão, uma dança viperina do amor! “
- Leonardo Padura - O Homem Que Gostava de Cães
- Philippe Claudel - Almas Cinzentas
- José Paulo Cavalcanti Filho - Fernando Pessoa - Uma Quase-Autobiografia
- Lídia Jorge - Os Memoráveis
Esta obra foi publicada em 1962, muito tempo antes de Gabriel García Márquez se tornar um escritor reconhecido internacionalmente e vinte anos antes de ganhar o Nobel da Literatura. Como habitualmente transporta-nos para tempos incertos e locais mágicos, com bastante humor negro e profunda desgraça dos personagens que caracterizam a sua obra, num relato em tom neutro mas com uma fina ironia. No entanto, não alcança a perfeição de “Amor em Tempos de Cólera” ou “Cem Anos de Solidão”.
A história decorre numa pequena vila perdida algures na América do Sul, em permanente convulsão social e política, onde são apresentados personagens que gravitam à volta do Estado, na figura do alcaide, ou da Igreja, representada pelo padre Ángel. As lutas pelo poder, as disputas políticas, a solidão e os boatos e o que eles são capazes de fazer no indivíduo e na sociedade são temas recorrentes nesta obra.
A trama desenrola-se à volta dos pasquins que misteriosamente são colocados porta a porta, durante a madrugada (daí o título da obra) e que deixam as pessoas assustadas com o que poderá ser denunciado. Estes panfletos anónimos apontam amantes, filhos bastardos, traições amorosas e políticas, segredos de família e outros mexericos da vila. Apesar de não se saber se os pasquins estão a dizer a verdade, os moradores passam a temer a sua publicação e assim geram um medo irracional. Logo no início do livro um dos visados por um pasquim, César Montero, é informado da infidelidade da esposa e por isso mata a tiro o suposto amante, Pastor.
Ao longo da obra desfilam vários personagens consistentes e marcantes como a viúva Montiel, o juiz Arcadio, o dr. Giraldo, o dentista, o barbeiro, o sr. Carmichael, a Trinidad, Don Sabas e a família Asís, num ambiente de muito calor, chuvas torrenciais, com muitos ratos na igreja, com censura dos filmes do cinema, dores de dentes e um estado de sítio. Curioso sem dúvida é o cruzamento com personagens de outras obras do escritor como a Mamã Grande e o coronel Aureliano Buendía e ainda a referência ao lugar de Macondo… Outro pormenor delicioso é a descrição da origem da palavra pasquim (afixação de panfletos numa estátua da cidade de Roma chamada Pasquino). O desfecho da história desiludiu-me o que veio a deteriorar a imagem global com que fiquei deste livro.
Ruy Guerra realizou o filme “La Mala Hora” (“O Veneno da Madrugada”) em 2006, inspirado nesta obra de Gabriel García Márquez, optando por apresentar a vila num ambiente obscuro, invernal, lamacento (recriando na perfeição as imagens mentais que tinha após a leitura do livro), mas com personagens demasiado teatralizadas. É falado em português, Maria João Bastos e António Melo têm curtas aparições, a ordem cronológica dos acontecimentos é bastante alterada, verifica-se a ausência de personagens (como o Pepe Amador) e do cinema à frente da igreja e a conclusão da história também diverge do original.
“O passado continha apenas uma sabedoria: o amor era um erro perigoso, e a sua cúmplice, a esperança, uma ilusão traiçoeira”.
Este livro, marcante e inesquecível, confirma a certeza de que os livros ensinam, educam e nos fazem empreender as mais ousadas viagens. Por alguns momentos tive de interromper a sua leitura, revoltado devido à sua carga dramática com partes terrivelmente chocantes. Está escrito de uma forma acessível que nos toca com palavras profundas e ironicamente belas. Um vislumbre sobre a intolerância e a força da tradição, sobre o que foi ser mulher e mãe no Afeganistão, sobre uma amizade linda entre duas mulheres afegãs, a maneira como elas suportavam tudo tendo uma à outra, e que também aborda docemente a maternidade e por isso também é um livro de amor, esperança e perseverança.
Conta a história de duas mulheres afegãs Mariam e Laila, de duas gerações distintas, cuja vida se cruza (chegam a ser esposas do mesmo marido) no meio das convulsões que afectaram o país no último quarto do século XX e início do século XXI. Ao mesmo tempo a história do país que elas habitam, o Afeganistão, é apresentada: a transição da monarquia para a república com Daoud Khan, o domínio comunista (desde o golpe de Estado de Abril de 1978 a 1992), a invasão soviética (de 1980 a 1988), a entrada dos mujahidin no poder em 1992, mantendo-se conflitos permanentes entre etnias rivais (hazaras, uzbeques, pastunes e tajiques) e diferentes líderes (Ismail Khan, Rabbani, Massoud - que morreu dois dias antes da terça-feira 11/09/2001 - e Dostum), a chegada dos talibans em Setembro de 1996 que se mantiveram no poder até 2003, altura em que o novo presidente Karzai passou a governar.
O livro divide-se em 4 partes. A primeira é dedicada a Mariam, uma menina cuja maior alegria na sua vida tinha o seu apogeu às quintas-feiras, quando o seu pai Jalil a vinha visitar por alguns minutos. Filha ilegítima de um homem rico que tinha três esposas legítimas e nove filhos, cedo conheceu o inferno quando após o suicídio de sua mãe Nana (com apenas 14 anos) foi dada pelo seu próprio pai, em casamento a um homem de 45 anos, de seu nome Rashid, e foi levada da sua pacífica Herat para a capital Cabul.
A segunda parte é dedicada à bela e inteligente Laila que perde os pais aos 9 anos quando se preparavam para deixar Cabul em direcção ao Paquistão e a casa é atingida por um rocket. A solução passou por casar com o marido de Mariam, após ter sido (mal) informada de que o seu amor da juventude Tariq teria morrido.
Na terceira parte as duas mulheres vivem em conjunto com o marido Rashid, um árabe tacanho com mentalidade pré-histórica que vê o ser feminino como objecto cujo único propósito é o de servirem o homem, dar filhos e serem um saco-de-boxe quando as coisas não correm como ele gostaria. Com dezanove anos de diferença, origens, objectivos e visões da vida também diferentes para ambas, no início não se relacionam e até se evitam na mesma casa, mas depois as vicissitudes da vida fazem com que se unam e se defendam conforme possam do marido, um homem violentíssimo. Estabelecem assim uma relação quase de mãe-filha e durante anos suportam os seus maus tratos e o seu único objectivo é conseguirem sobreviver diariamente, especialmente após a malograda tentativa de fuga para o Paquistão. Mariam não conseguiu gerar um filho a Rashid tendo abortado nas diversas tentativas e Laila, a preferida de Rashid, teve uma menina – Aziza – para desgosto de Rashid, apesar de o pai ser Tariq. À segunda acertou na pretensão do marido e gerou o filho Zalmai, através de uma cesariana sem anestesia!
A descrição das barbaridades que as mulheres sofreram devido aos talibans são impressionantes e as regras estabeleciam que se saíssem de casa sozinhas seriam espancadas, não podiam usar jóias, cosméticos nem roupa elegante ou pintar as unhas. Também não podiam frequentar a escola ou trabalhar, nem podiam rir ou mostrar o rosto em público, cruzar o olhar com um homem, falar a não ser que lhe dirijam a palavra. Em caso de adultério seriam apedrejadas até à morte. “Mariam ouviu falar de mulheres que se suicidavam com medo de serem violadas, e de homens que, em nome da honra, matavam as esposas e as filhas se estas tivessem sido violadas pelos militares”.
Nesta altura a fome aumentou de forme acentuada. Mariam vê-se forçada a recorrer ao pai mas fica a saber que já tinha morrido em 1987. Aziza tem de ir para um orfanato. “Morrer de fome tornou-se de súbito uma possibilidade real. Alguns optaram por não esperar por ela. Mariam ouviu falar de uma vizinha viúva que arranjara um pouco de pão seco, o misturara com veneno de ratos, e o dera a comer aos seus sete filhos. Guardara para ela a porção maior”. “Até o homem mordido pela cobra consegue dormir, mas o faminto não”.
Na quarta parte conclui-se a trama que aqui não vou desvendar para manter o interesse de quem pretenda ler o livro. Destaco contudo mais alguns episódios: as referências a “O Velho e o Mar” de Hemingway; o vocabulário farsi abundantemente utilizado (como salaam; shahid; jihad; harami; kolba ou nikka); os seixos; o passeio pelos budas gigantes de Bamiyan (na imagem abaixo), mais tardes destruídos pelos talibans; o filme Pinóquio da Disney; a televisão e cassetes piratas e o poema persa de Saeb-e-Tabrizi dedicado a Cabul que explica o título,
Não se podem contar as luzes que brilham sobre os seus telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
Que se escondem por trás dos seus muros.
As adaptações literárias para o cinema nunca são exactamente fiéis. Às vezes, é preciso reduzir a trama e deixar de lado detalhes para que os momentos mais importantes caibam nos minutos do filme ou mesmo para que não sejam censurados. Por isso e de uma maneira geral, prefiro sempre o livro. Nos três exemplos que acabei de ler e ver (sempre por esta ordem) gostei imenso tanto do livro como do filme, pois ambos são deliciosos de se ler e assistir. São histórias que divertem quem lê e ao mesmo tempo capazes de nos fazer repensar muitas das nossas atitudes perante os outros.
1) Truman Capote – Boneca de Luxo
Boneca de Luxo, Breakfast at Tiffany’s, no original de 1958 (há expressão inglesa que dê mais gozo pronunciar?) é um romance tocante e singelo sobre a amizade, o amor e as desilusões. Holly Golightly é uma mulher bonita, inteligente, mas viciada, boémia e mundana, que procura o luxo e a luxúria sem renegar os valores tradicionais da província e até vive com um gato. Espirituosa e ternamente vulnerável, inquieta as vidas dos que com ela se cruzam. De uma personalidade frágil e confusa, procura apenas alcançar a sua felicidade, que para ela é um estado de satisfação semelhante à sensação encontrada ao observar pela manhã as vitrines da Tiffany & Co. O narrador, que não revela o seu nome, e que conviveu com ela em Nova Iorque e por ela apelidado de “Fred” por lhe fazer lembrar o irmão, considera-a uma “exibicionista indecente” e “vil impostora”. Durante a sua estadia em Nova Iorque, pois não tem pouso certo por não ser capaz de encontrar um lugar seu, que a faça sentir em casa, é sustentada por amigos do sexo oposto e por Sally Tomato, um mafioso que vive na prisão e que semanalmente lhe passa códigos em formato de previsão do tempo para que Holly transmita aos seus companheiros que estão fora da prisão. Após Nova Iorque é sugerida a passagem de Holly (afinal, Lula Mae Barnes) pelo Brasil, Buenos Aires e algures em África.
No filme de Blake Edwards de 1961, a relação entre as personagens principais altera-se, passando de amizade apenas no livro para o amor romântico no filme. No livro o narrador chama-se Paul Varjak, há a sugestão de que Paul é homossexual e Holly, bissexual. Por isso no filme é criada uma nova personagem no intuito de retirar a homossexualidade de Paul: uma decoradora, sua amante, que o sustenta. Na cena mais caricata, Holly surge a tentar aprender a língua portuguesa com uma grafonola e um disco de 33 rotações, porque planeava fugir para o Brasil com um José da Silva Pereira mas ambos consideram ser “uma língua complicada com 4000 verbos irregulares”. Além disso, o personagem Joe Bell, proprietário de um bar que frequentam, desapareceu no filme. A queda aparatosa no cavalo depois de uma corrida louca no Central Park e a detenção de Holly na sua banheira também são esquecidos. A deslumbrante Audrey Hepburn, no papel de Holly, foi nomeada para melhor actriz e também encanta ao dar voz, na parte final do filme, à canção de Henry Mancini, “Moon River”.
2) Thomas Mann – Morte em Veneza
O amor platónico e a paixão arrebatadora pela beleza são os temas centrais desta obra, escrita de forma eloquente e profunda em 1911. Gustav von Aschenbach é um escritor alemão cinquentão que ao passar por uma crise criativa decide revisitar Veneza. No hotel Lido repara em Tadzio, um adolescente polaco de catorze anos que considera o expoente máximo da beleza. Inicialmente o seu interesse é puramente estético, ou pelo menos é o que ele diz para si mesmo. No entanto, rapidamente se apaixona pelo rapaz de forma intensa e violenta e persegue-o ousadamente pelas ruas e canais de Veneza, mas jamais estabelecem contacto directo. Como permanece indiferente aos rumores sobre uma epidemia de cólera na cidade, o fim acaba por ser previsível e inevitável.
O filme “Death In Venice” de 1971, realizado pelo italiano Luchino Visconti mantém a densidade psicológica do livro, explora eficazmente a beleza de Veneza e diverge ligeiramente da obra escrita ao iniciar-se com a chegada a Veneza sem quaisquer prolegómenos e com o protagonista a passar de escritor a músico fracassado. A tentativa de dissimular a idade com cosméticos pareceu-me bastante exagerada, ficando Gustav com um aspecto patético, apesar de servir para acentuar a irrealidade.
3) F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby
Esta obra de 1925 passa-se em Nova Iorque (Long Island) durante o Verão de 1922 e conta a história do milionário excêntrico que subiu na vida a pulso, Jay Gatsby (mas nasceu James Gatz), conhecido pelas festas animadas que dava na sua mansão. Os Estados Unidos vivem um período de prosperidade sem precedentes. Vivia-se a era dourada do jazz em toda a sua decadência e excessos, num mundo de aparências. Quem nos conta a história é o seu novo vizinho, Nick Carraway, um jovem comerciante de Midwest, que se torna amigo de Gatsby. Apesar de idolatrarem os ricos e o glamour da época, ambos não se conformavam com o materialismo sem limites e a falta de moral e cultura, que traziam consigo uma certa decadência, o que resulta numa crítica ao sonho americano. A fortuna de Gatsby é motivo de rumores, nenhum dos inúmeros convidados que Nick conhece nas festas de Gatsby conhece muito bem o passado do anfitrião e há suspeitas de actividades ilegais. Nick também visita Tom Buchanan, outro “novo-rico”, um antigo atleta universitário abastado, marido de Daisy, que é prima de Nick. Mais tarde, Nick descobre que o milionário só mantinha estas festas na esperança de que Daisy, seu amor há cinco anos, fosse a uma delas por acaso. No desenrolar da história deparamos com Jordan Baker, George Wilson, dono de uma garagem, a sua mulher Myrtle (mas também amante de Tom), um atropelamento mortal com um carro amarelo, uns óculos gigantes, um assassinato, um suicídio e um funeral com três pessoas.
O argumento do filme de 2013 é bastante fiel ao livro. Tobey Maguire é Nick Carraway, Leonardo DiCaprio é Jay Gatsby e Carey Mulligan é Daisy Buchanan. Como o realizador é Baz Luhrmann há uma preocupação com a banda sonora (The XX, Jack White, Lana Del Rey e Florence + The Machine, entre outros) e com a caracterização dos anos 20 nova-iorquinos ("Roaring Twenties") e as suas exuberantes festas, o que resulta num sentido estético aprimorado com cenários sumptuosos.