Belíssimo filme do realizador japonês Ryûsuke Hamaguchi: do país do sol nascente, Tchekov (“O Tio Vânia”) visto pelos olhos rasgados das novas cinematografias orientais, um mergulho profundo no coração de cada um. Sem sorrisos, com palavras não verbalizadas e a condição humana e a solidão. A vida que não se repete e a amizade… Um filme a roçar a obra-prima.
Acabado de nos presentear com outra excelente longa-metragem, Wheel of Fortune and Fantasy, Drive My Car é adaptado de um conto com o mesmo nome publicado no livro de 2014 "Homens Sem Mulheres" de Haruki Murakami. Ou melhor, também se baseia no conto “Xerazade” da mesma obra, quando a esposa do protagonista lhe conta a história da lampreia…
O filme inicia-se com um longo prólogo (40 minutos), que dá conta de um acontecimento dramático que irá mudar a rotina automatizada de Yûzuke Kafufu, um conceituado autor e cenógrafo de teatro cujo universo relacional se cinge quase exclusivamente à sua mulher (uma atípica argumentista com a qual partilha um desgosto que os une numa vivência algo melancólica).
O tempo passa e voltamos a encontrá-lo dois anos mais tarde, ao volante do seu fiel e inseparável amigo de quatro rodas, um Saab 900 Turbo (no qual tem por hábito ouvir longos diálogos, verbalizados pela voz da sua amada, gravados em cassete, como forma de memorizar os textos das peças), a caminho de uma residência artista em Hiroshima, onde irá partilhar com uma audiência de atores de diversas nacionalidades o seu pouco convencional modus operandi enquanto encenador (curiosamente, no filme o Saab é vermelho e não amarelo e não é descapotável, contrariando o conto original). Aí chegado, por motivos de segurança, é confrontado com a proibição de conduzir, pelo que passará a ser transportado por uma jovem motorista enigmática e de "poucas falas" (tal como ele próprio), com a qual irá estabelecer gradualmente uma relação de confiança e partilha de emoções.
Hamaguchi é um autêntico arquiteto de palavras, que desenha um melodrama contido dotado de um arco narrativo fluido e subtil (recorrendo frequentemente a uma espécie de inteligentes jogos de espelhos entre o conteúdo das peças e a vida real), que nos expõe perante um modo diferenciado de lidar com sentimentos como a perda, o ciúme, a vingança e a culpa. Os seus "diálogos não verbais" e os subentendidos, que vão descascando as várias camadas dos seus personagens, são, igualmente, sublimes (pura poesia!). E não menos líricas se revelam as (aparentemente banais) filmagens que se cingem à condução do icónico carro encarnado pelas enormes estradas e túneis do Japão. Um autêntico deleite visual!
1. Ela Minus – They Told Us It Was Hard, But They Were Wrong 2. Måneskin – I Wanna Be Your Slave
3. RVG – I Used To Love You 4. Widowspeak – Amy 5. The Twist Connection – Fake 6. Alison Mosshart – Rise 7. At Freddy’s House – The Lamplight 8. Black Foxxes – Swim 9. Black Midi – John L 10. Sault – Wildfires 11. Kim Gordon – Hungry Baby 12. Nothing But Thieves – Real Love Song 13. Indochine & Christine And The Queens – 3Sex 14. James Blake – Before 15. Cults – Shoulders To My Feet 16. The 1975 – Guys 17. Orla Gartland – More Like You 18. Aurora – Runaway 19. Bring Me The Horizon – Parasite Eve 20. Phoebe Bridgers – Nothing Else Matters
Um professor da Escola Secundária
de Barcelos, do grupo 430 - Economia e Contabilidade, apresentou uma denúncia via email à Inspeção Geral da Educação e Ciência com a intenção de
comunicar condutas éticas e regulamentares inapropriadas, tais como o facto de um
elemento (não identificado) da direção da escola ter ido à sala de aula de
algumas turmas do 11º ano, incluindo a Direção de Turma do denunciante,
solicitar a escolha da disciplina de Direito no ano letivo seguinte por ser fácil
obter a classificação de 20 (vinte) valores no final do ano ou o facto dos professores da escola
faltarem diversas semanas para acompanharem alunos em programas de
Intercâmbios sem que se respeite o nº 3 do art.º 43 do Regulamento Interno da escola (que menciona
que os docentes devem ser substituídos e assim os alunos que ficassem em
Barcelos continuariam a ter aulas), queixa esta apresentada pelos Encarregados de Educação dos alunos. Quando ouvido, este
docente de Economia informou que 25 dos 28 alunos da turma de Direito obtiveram
20 valores nessa disciplina no final do ano letivo (os restantes alunos da
turma obtiveram 19 valores; mencionou também que na disciplina de Sociologia o
cenário é semelhante), e ainda enumerou diversas atitudes da direção da escola
que considerava que o lesavam a si ou aos alunos. A título de exemplo: a inação
perante as queixas de Encarregados de Educação sobre o comportamento e desempenho
de alguns docentes na sala de aula; a falta de computadores e projetores na sua sala de aula; a atribuição a si de serviço de apoio a várias disciplinas do 3º Ciclo, incluindo até a disciplina de Matemática, sendo um professor colocado pelo grupo 430 – Economia, que leciona
exclusivamente no Ensino Secundário.
Um dos professores auxiliares da direção,
contratado pela escola para o grupo disciplinar 420 – Geografia –, que terá
sido o professor que visitou as turmas do 11º ano para convencer os alunos a
escolherem a disciplina de Direito no ano letivo seguinte, acionou um processo
judicial contra aquele whistleblower mas o Tribunal de Barcelos considerou não haver
razão para o punir. Não contente com este desfecho, o professor de Geografia,
considerado um expert em Direito pela direção da sua escola, remeteu a
ação para o Tribunal de Braga, que concordou com o Tribunal de Barcelos. Aqui,
perante o juiz, o reclamante declarou não se recordar se nesse ano letivo
atribuiu a algum aluno a classificação de 20 valores na disciplina de Direito! Insatisfeito
com esta segunda resolução, o reclamante especialista em Direito solicitou
recurso para o Tribunal da Relação de Guimarães que também não atendeu ao que
este expert em Direito pretendia.
Os processos, de onde foram
extraídas as afirmações seguintes, podem ser consultados nos respetivos
tribunais. Em nenhum dos 3 acórdãos é proferida uma palavra de censura ao whistleblower.
Todos foram arquivados e resultaram numa decisão de Não Pronúncia.
Tribunal de Barcelos:
“...entendemos que os dizeres escritos e enviados pelo denunciante, não constituem uma conduta a reclamar tutela penal...os factos denunciados não são aptos a ofender a dignidade ou o bom nome do reclamante, nos termos exigidos pelo direito penal.”
“...o teor do email não imputa ao seu autor a prática de crime, de contra-ordenação ou falta disciplinar, razão pela qual não se mostra preenchido o tipo de denúncia caluniosa”.
Tribunal de Braga:
“...a aluna V. Silva (folhas 245/247 do processo) afirma que o reclamante «explicou que a média de notas dos seus alunos naquele ano rondava os 19 a 20 valores». Só uma ideia de apresentar a disciplina pela vantagem de tirar notas altas justifica esses dizeres... não se vislumbra no texto da denúncia «convencer os alunos a escolherem a disciplina de Direito no 12º ano pois nessa disciplina é fácil tirar vintes» qualquer falsidade. O convencimento, mais a mais quanto a uma disciplina opcional, pode fazer-se lançando aparência de facilidade.”
“...do que decorre não haver qualquer indício que contrarie o facto de o denunciante ter fundamento sério para, em boa fé, reputar como verdadeiro o conteúdo comunicacional do reclamante perante os alunos, tal como relatou no email.”
“Ademais, quanto ao propósito de dar a conhecer a disciplina de Direito aos alunos resulta dos autos que os alunos estavam muito bem informados quanto ao que queriam em termos de disciplinas de opção. Pois os que foram ouvidos são categóricos nessa afirmação. Daí que estando os alunos já informados não se encontre fundamento sério para adicionar informação. A não ser avançar com um incentivo adicional: notas altas.”
“Assim, concluindo, de uma forma directa, sintética e abstraindo das motivações subjacentes à actuação de cada um, odenunciante apresenta-se contra o facilitismo e o reclamante evidenciou na sua acção aspectos de facilitismo, já que em circunstância alguma pode um professor ao dar a conhecer a disciplina que pretende lecionar, enquanto opcional, falar em notas altas, passadas, futuras, o que quer que seja. E o reclamante falou. Procurou e evidenciou este aspecto, o que é censurável num sistema de ensino que se reclama de excelência.”
Sobre o Crime de Falsidade Informática (pretendido pelo reclamante): “...não se percebe qual o normativo, entende o reclamante estar em causa... Mas o que aconteceu, na sua simplicidade, foi o envio de correspondência”.
(custas: 5 UC para o reclamante; a valor de cada Unidade de Conta - UC - é de €102,00)
Tribunal de Guimarães
(Recurso instaurado pelo reclamante expert em Direito):
“...nenhuma censura
merece o despacho recorrido, devendo ser confirmado, por não ter violado
qualquer dos preceitos legais invocados pelo recorrente e assim manter-se a
decisão de não pronúncia em causa.”
"Nenhuma arte simula a vida como o cinema. Todavia, não é uma vida. Também não é propriamente uma arte. Porque é uma acumulação, uma síntese de todas as artes. O cinema não existia sem a pintura, sem a literatura, sem a dança, sem a música, sem o som, sem a imagem, tudo isto é um conjunto de todas as artes, de todas sem exceção".
Manoel de Oliveira (1908-2015), cineasta
- Bir Zamanlar Anadolu'da (Era Uma Vez na Anatólia), de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (2011)
História policial sobre a reconstrução de um crime. Desenvolve-se desde o pôr do Sol ao meio dia seguinte. Os personagens, polícias, guardas, chefe da polícia, procurador, médico e suspeitos, à exceção do regedor da aldeia, podiam, com pequenas diferenças ser portugueses. É um filme sobre a morte e o seu impacto nos vivos.
A partir das suas habituais experimentações formais e estudos filosóficos, Nuri Bilge Ceylan construiu uma lancinante exploração sobre a moralidade humana onde os diálogos são explícitos ao ponto de serem literários, e onde a paisagem noturna rasgada pelas luzes dos automóveis policiais contém tanta importância conceptual como o mais complexo monólogo (e há bastantes neste filme).
- Les Innocentes (Agnus Dei – As Inocentes), de Anne Fontaine – França, Polónia (2016)
Filme passado num convento logo após o final da Segunda Guerra Mundial. É sobre um tema delicado, cheio de nervos sensíveis e propício a derrapagens facilmente melodramáticas ou a tropeções de simplismos piedosos. Fontaine mostra a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas, e as suas perplexidades, tensões, angústias e interrogações, da descrente e materialista médica, confrontada com o mundo e os valores das religiosas. O “happy ending”, talvez com açúcar em demasia, em nada colide com a profundidade e o dramatismo desta terrível história, contada com a segurança e a sensibilidade exigida por algo tão frágil.
- Oslo, 31. August (Oslo, 31 de Agosto), de Joachim Trier – Noruega (2011)
Filme belíssimo, que nos interroga sobre o que nos faz viver e o que nos faz desistir de viver. Sobre como é invisível a linha que nos faz sentir «em cima» ou «sentir em baixo».
A história de um dia na vida de um homem perdido que quer cometer suicídio parece ser a receita perfeita para uma obra de puro miserabilismo à boa moda do cinema europeu. Mas Joachim Trier não é um realizador qualquer e dessa premissa limitada, o cineasta norueguês faz um filme que funciona muito mais como uma celebração da experiência da vida humana do que como uma marcha fúnebre.
- Timbuktu, de Abderrahmane Sissako – Mauritânia (2014)
Timbuktu é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988. De pequena povoação perdida no deserto do Saara, o lugar transformou-se, ao longo dos séculos, em capital intelectual e espiritual de África, um oásis no deserto que foi despertando a atenção do mundo. Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico liderado por Iyad Ag Ghaly. O medo e a incerteza apoderam-se daquele lugar. Por ordem dos fundamentalistas religiosos, a música, o riso, os cigarros e o futebol são banidos. As mulheres são obrigadas a usar véu e a mostrar submissão total. A cada dia surgem novas leis para serem cumpridas e a vida de cada um dos habitantes vai sendo modificada tragicamente.
Na conjuntura atual, um filme sobre uma comunidade africana a enfrentar a opressão de invasores que impõe leis fundamentalistas islâmicas é uma preciosidade a ser considerada com admiração e respeito. Quando essa obra é, para além da sua importante temática, uma magnífica construção de cinema elegante, solene e esteticamente belíssimo, então temos um verdadeiro triunfo que deve ser visto por todos.
- La Teta Asustada (A Teta Assustada), de Claudia Llosa – Peru (2009)
O filme inicia-se com uma cantiga inocente num testemunho de traumas e horrores que rompem pela escuridão da tela como um pesadelo do qual é impossível acordar. Começar um filme desta forma é arriscado e é um verdadeiro testamento à ousadia da cineasta peruana. É graças ao seu trabalho que um conto meio melodramático, sobre uma jovem que está “doente” devido à sua mãe ter sido violada durante os conflitos que assolaram o país nos anos 80, é representado com um bizarro, mas fascinante, estilo entre o realismo social e o artifício simbólico.
Após a
leitura das 477 páginas desta obra, cheguei à conclusão que o seu ator tortura
os factos históricos, espezinha a verdade, mata a probidade e estrangula a
independência intelectual e principalmente a nossa portugalidade. Pura perda de
tempo, exemplo do que não deve ser uma obra didática e útil para quem quer
aprender algo sobre a História do nosso país.
José
Gomes Ferreira não tem qualquer formação em História, assegura que se trata de
um livro de política (apesar de na contracapa destacar que “obriga a repensar a
História”). Insinua que não estamos a ensinar corretamente a História de
Portugal nas nossas escolas alegando que há uma História oficial e outra não
oficial e que para ele os historiadores seguem uma “cartilha” oficial.
Trata-se
de uma autêntica compilação de pseudo-factos secretos onde demonstra uma
ignorância enciclopédica sobre os estudos que são feitos e publicados em
Portugal por investigadores, apresenta um conjunto de teorias mirabolantes sem
qualquer fundamentação científica, pejado de erros factuais. Não há análise de
fontes, recorre a páginas avulsas da internet, cita meia dúzia de livros de
autores e tenta adaptar as fontes à sua teoria não mencionando autores mais
credíveis que não confirmem a sua tese. O último capítulo do livro, “Só não
vemos o que não queremos ver” devia chamar-se “O autor só vê o que quer ver”
tal é o número de imprecisões e de ideias feitas sem qualquer fundamentação.
O próprio
título do livro é enganador: não apresenta Factos Escondidos da História de
Portugal mas apenas factos relativos aos séculos XV e XVI. É errado considerar
que em Portugal há uma História oficial: mesmo entre os historiadores há muitas
opiniões e versões diferentes. A História não oficial de José Gomes Ferreira é
baseada em fontes que não têm qualquer validade ou fundamentação científica.
Sobre cartografia apresenta algumas deduções e ideias soltas mas todas as suas
ideias não são novas, já foram apresentadas por outros autores. Faz uma escolha
muito seletiva da bibliografia: chega a citar um artigo de João Paulo Oliveira
e Costa mas não segue as conclusões do autor mas sim as suas próprias
conclusões e ignora o resto da bibliografia deste investigador.
Baseia-se em indícios, artigos desatualizados (1926 e 1934), introduz factos
errados sobre o pau-brasil e a sua origem e apresenta uma mixórdia de temáticas
com teorias controversas: Américas, Canadá, Brasil, Austrália, Antártida,
Califórnia, Colombo, Fernão de Magalhães, os portugueses em Marrocos, a origem
do nome Portugal (atribuída à Ordem dos Templários, quando existe consenso
entre os historiadores quanto à sua origem) e os Painéis de S. Vicente.
Existe
muita bibliografia que contradiz o autor, alguma até disponível online. Por
exemplo, no que diz respeito aos portugueses em Marrocos pode-se ler este
artigo de António Dias Farinha AQUI; sobre Cristóvão Colombo, ESTE artigo de
Luís Filipe Thomaz (página 483) ou ESTE de Francisco Contente Domingues e sobre
os portugueses na Austrália, ESTE de Carlota Simões e Francisco Contente
Domingues.
Esta
edição só tem explicação por se tratar de uma figura pública. Infelizmente,
o mercado literário em Portugal privilegia essencialmente autores que sejam
reconhecidos facilmente pelo público (como apresentadores de televisão, atores,
participantes em reality shows, jornalistas, desportistas ou familiares de
celebridades). Além disso, as editoras tendem a procurar material
sensacionalista. O trabalho sério de investigação é muitas vezes preterido por
este tipo de publicação.
Desde 2015 que os
Wolf Alice têm merecido a minha atenção quando editaram o aclamado álbum My
Love is Cool, confirmada dois anos depois com Visions of a Life, onde a banda
mistura elementos do indie rock com músicas mais introspetivas e calmas, com
faixas mais pesadas e cheias de energia.
Depois de quatro
silenciosos anos, acabam de regressar às edições com o ambicioso, potente e excelente
Blue Weekend que promete tornar-se épico. O álbum move-se em terrenos
familiares, algures entre o rock de feição mais clássica, misturado com
elementos shoegaze, riffs de guitarra que, muitas vezes, remetem para ogrunge
do início dos anos 90, aqui e ali, um pouco de psicadelismo à mistura e uma incorporação
bastante acentuada, em certos momentos, de elementos eletrónicos. As letras são
reflexivas, discutem como relacionamentos começam e terminam e abordam a
pandemia e as crises intermináveis que estamos a viver.
“The Last Man On
Earth”, primeiro single do álbum, tem tudo para ser apenas uma balada, vai-se
lenta e subtilmente metamorfoseando noutra coisa graças ao cunho pessoal dos
Wolf Alice. Se a primeira parte da canção nos dá a voz crua de Ellie Rowsell,
em solitária conversa com o piano, enfatizando-se cada palavra proferida, a
ponte assinala uma viragem inesperada, introduzindo uma mescla de coros épicos
e guitarras psicadélicas da década de 60.
Seja cinema ou
sonho (“Lipstick On The Glass” e “Feeling Myself”), dream pop (“Delicious Things”
e “No Hard Feeling”) ou riffs distorcidos (“The Beach”), punk (“Play The
Greatest Hits” e “Smile”), folk (“Safe From Heartbreak – If You Never Fall In
Love”) ou anos 80 (“How Can I Make It OK?”), Blue Weekend soa como um disco de
consolidação, com arranjos impecáveis em cada música e que em apenas 40 minutos
mostra uma das joias da música inglesa de 2021.
Os Wolf Alice
acabam de anunciar a Tour Europeia com passagem por Lisboa a 3 de março de 2022.
Os bilhetes já estão à venda...
No seu livro de 503 páginas sobre as doenças dos grandes estadistas do
século passado, “Na Doença e no Poder – Os Problemas de Saúde dos Grandes
Estadistas nos Últimos 100 Anos”, David Owen (neurologista e ex-ministro dos
Negócios Estrangeiros Britânico) considera que o que motivou a decisão de
invadir o Iraque, tomada por George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar
durante a célebre cimeira dos Açores em 2003, não foi a existência de armas de
destruição maciça, nem a ambição de controlar o petróleo iraquiano mas sim um
transtorno comum entre os políticos no poder, a síndrome de Hubris.
Esta síndrome, não reconhecida pela Medicina, equivaleria a uma “embriaguez
de poder” caracterizada pela perda do sentido da realidade, soberba, presunção,
persistência perversa em políticas que não funcionam e desrespeito pelos
conselhos daqueles que os rodeiam. Os “pacientes” quando as decisões se revelam
erradas, nunca reconhecem o equívoco e continuam convencidos que tomaram a
decisão certa.
A sua dimensão é catastrófica quando se manifesta num pequeno grupo,
fechado sobre si próprio, que desconsidera as pessoas e as instituições que
promovem ideias contrárias, rejeitando-as e excluindo-as do seu núcleo decisor.
O exemplo do Iraque é o mais recente, mas ao longo da obra são apresentados
muitos outros “doentes” afetados pela mesma síndrome como, por exemplo, Neville
Chamberlain (primeiro ministro britânico entre 1937 e 1940, Adolf Hitler,
François Mitterrand, Mao Tse-Tung, John F. Kennedy e até Margaret Thatcher nos
seus últimos anos no poder. Todos eles foram atingidos por este transtorno
psicológico. Aliás, Owen reconhece que também ele, no início da sua carreira
política, deixou que o poder lhe subisse à cabeça - foi o mais novo ministro
inglês dos Negócios Estrangeiros - embora sem nunca chegar aos extremos de
alguns líderes históricos.
O fenómeno foi batizado com o nome da palavra grega “Hubris” que designava
o herói que, uma vez alcançada a glória, deixava-se embriagar pelo êxito e
comportava-se como um Deus capaz de tudo. Em consequência, começava a acumular
erros, encontrando a sua Némesis, que o devolvia à realidade. Não há tradução exata para a palavra Hubris
que sintetiza o significado de outras: “arrogância”, “desprezo”,
“superioridade”, “excesso de confiança” ou até alguma coisa semelhante a
“autismo”, perda do sentido da realidade.
- Gonçalo M. Tavares – Uma Menina Está perdida No Seu Século à Procura Do Pai
- Jo Nesbo – MacBeth
- João Ubaldo Ribeiro – A Casa Dos Budas Ditosos
- Zadie Smith – O Homem Dos Autógrafos
2020 terá sido, provavelmente, um dos anos mais estranhos da história do cinema, mas não foi por isso que deixou de haver bom cinema para ver.
A pandemia veio baralhar as contas a todos, e a indústria cinematográfica atravessou um ano atípico mas desafiador, com rodagens e estreias canceladas ou adiadas. Este cenário acabou por possibilitar o fortalecimento dos serviços de streaming.
O cinema, nos melhores e piores momentos, é um modo de viajarmos sem sair do lugar e descobrirmos outras histórias e realidades possíveis. Na minha opinião, os filmes de 2020 que me proporcionaram as "viagens" mais fascinantes foram:
1. Better Days
“Shaonian de ni”, título deste filme de Hong-Kong, realizado por Derek Tsang, onde uma adolescente que sofre de bullying forma uma amizade inesperada com um jovem misterioso que a protege de agressores, enquanto tem de lidar com a pressão dos exames finais do ensino secundário para entrar na universidade. Apesar da excessiva manipulação sentimental, trata-se de uma acutilante história sobre bullying levada à violência extrema. “This used to be our playground”...
2. Druk
Conhecido também por “Another Round” este filme dinamarquês de Thomas Vinterberg também é ambientado numa escola secundária onde quatro professores parecem ter chegado à crise de meia-idade e, numa noite, enquanto afogam as mágoas e partilham as suas histórias infelizes, decidem experimentar um estado de embriaguez (crescente) mesmo quando dão as suas aulas. O filme termina magistralmente ao som de “What a Life” de Scarlet Pleasure.
3. Promising Young Woman
A excelente Cary Mulligan é uma ex-estudante de medicina que, traumatizada por algo que aconteceu à melhor amiga no passado, decidiu largar tudo e ainda não sabe o que fazer da própria vida, exceto aterrorizar homens que tentam abusar dela, fingindo-se de bêbada em bares da cidade. Filme feminista de Emerald Fenell, com um humor sóbrio, por vezes desconcertante mas no final, que é excelente, há uma reviravolta deliciosa de contemplar, tal e qual uma ópera que atinge o seu ápice supremo nos momentos finais...
4. Sound Of Metal
Com uma prestação arrebatadora de Riz Ahmed, este filme de Darius Marder, leva-nos numa viagem sensorial que nos desperta para um mundo pouco representado no cinema onde não há nada mais revelador que o próprio silêncio. Um baterista de uma banda de metal que, subitamente, começa a perder a audição e tem de mudar completamente a sua vida até perceber que existem outras formas de viver...
5. Quo Vadis, Aida?
Co-produção entre nove países europeus, este filme desconcertante de Jasmila Zbanic, baseado em factos verídicos, acompanha a vida de uma professora (a soberba Jasna Djuricic), que também é tradutora das Nações Unidas, e que tenta salvar o marido e os filhos durante o massacre de Srebrenica, em julho de 1995. O filme não é fácil de suportar e só quem se sente mentalmente preparado deve aventurar-se neste flagelo cinematográfico que mostra os horrores do genocídio num dos períodos mais negros na História Europeia após a 2ª Guerra Mundial (neste caso com a inação criminosa das Nações Unidas).
6. First Cow
Belíssimo filme realizado por Kelly Reichardt que conta a história de uma amizade no século XIX, construída nos detalhes e silêncios da rotina de dois homens, Otis “Cookie” Figowitz (John Magaro), padeiro que viaja com um grupo de caçadores e King-Lu (Orion Lee), que decidem roubar o leite da única vaca da região para a produção de doces e que acabam por encontrar, um no outro, o conforto que o verdadeiro companheirismo pode trazer. Construída com a calma do cinema mais contemplativo e “natural”, tanto no sentido de naturalista quanto de ligado à natureza (os animais, as plantas e os humanos), o que poderá afastar muitos espectadores, a longa-metragem logo na imagem inicial revela o destino que aqueles dois homens terão, restando apenas a descoberta das suas circunstâncias exatas. Uma obra profunda ao conseguir debater as injustiças do capitalismo que são refletidas no mundo moderno.
7. Corpus Christi
Filme polaco realizado por Jan Komasa e baseado em factos reais que aborda a religião católica e que investiga em detalhe questões como as vocações e celibato sacerdotal, além da estranha dinâmica social de uma pequena comunidade, que incorpora um novo sacerdote (fabulosa interpretação do jovem protagonista Bartosz Bielenia), que esconde a sua verdadeira identidade.
8. I Care A Lot
O que mais apreciei neste filme de J Blakeson foi a impressionante prestação de Rosamund Pike (aqui é Marla Grayson, uma guardiã do estado que cuida dos mais idosos) e do seu argumento: um médico seleciona um paciente mais idoso, de preferência doente (se for demência melhor ainda), no entanto com sólidas poupanças e bens materiais; depois um juiz assina uma ordem do tribunal que afirma que este idoso não é mais capaz de cuidar dele próprio e é necessário nomear alguém para o fazer; por fim, uma guardiã entra em contacto com o idoso, com a ordem do tribunal a dizer que terá de ir para um lar, mas que a sua casa e os seus bens vão ficar bem entregues. O que menos apreciei foi o fim da história...
9. Listen
Filme muito realista, aborda o drama de um casal português emigrado, a quem os serviços sociais retiram, injustamente, os filhos por suspeitas de maus tratos. O filme de Ana Rocha de Sousa espelha a luta pela união de uma família após um erro irreversível mas também é um filme que tornar-se-ia ainda mais envolvente se adotasse uma estrutura mais complexa. O tema final “Hold My Hand”, cantado por Nessi Gomes, traz toda uma nostalgia que realça os momentos mais duros do filme.
10. Never Rarely Sometimes Always
Este filme sobre amizade, machismo e aborto, constitui uma crítica social contada de uma forma única, crua e transparente. Autumn (Sidney Flanigan), é uma jovem de 17 anos que decide abortar aos 17 anos e conta com o apoio da prima e amiga incondicional Skylar (Talia Ryder). O título do filme de Eliza Hittman corresponde às respostas a um questionário de escolha múltipla sobre experiências potencialmente marcadas pela violência sexual, física ou psicológica, pronunciadas no interrogatório devagar e pesarosamente como uma facada no coração e é quando percebemos o motivo da gravidez ser indesejada. O preenchimento do questionário constitui o momento principal do filme ao revelar todos os medos, aflições e dores da protagonista. Sharon Van Etten participa como atriz (é a mãe de Autumn) e também se ouve na parte final do filme em “Staring At A Montain”.
E chegámos ao fim de 2020 (finalmente), o ano que vai ser recordado durante
bastante tempo e, infelizmente, pelas piores razões. O ano da pandemia dinamitou
todos os quadrantes da sociedade e o da cultura foi, claramente, dos mais
atingidos. Concertos e festivais cancelados e adiados, músicos sem lugar para
ensaiar, gravar e tocar, e um público sem ter acesso aos seus artistas
favoritos. Um ano totalmente atípico que, esperamos, não venha a ser igualado no
futuro.
Num ano de muitos discos (e tempo passado em casa para os escutar), aqui
fica uma lista dos 20 discos que mais gostei de escutar este ano.
Thriller, drama, comédia e ficção científica. Há de
tudo nesta seleção das melhores séries. Creio que nunca vi tantas séries de
televisão e nunca senti que ficou tanto por ver. É impossível ver tudo. Todos
os dias saem novas séries nas várias plataformas de streaming disponíveis em
Portugal e foram várias as histórias interessantes que chegaram à televisão nos
últimos meses. Esta é a lista (possível) das melhores séries de 2020 a que
assisti:
Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão
e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores
se aproximassem. Ele preparava-os para serem os educadores capazes de
transmitir a Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de
espírito, porque deles é o reino dos céus; Felizes os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados; Felizes os misericordiosos, porque eles...?
Pedro interrompeu-o: - Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou: - É pra copiar?
Filipe lamentou-se: - Esqueci-me do meu papiro!
Bartolomeu quis saber: - Vai sair no teste?
João levantou a mão: - Posso ir à casa de banho?
Judas Iscariotes resmungou: - O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se: - Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou: - Há alguma fórmula pra provar que isso tá certo?
Tiago Maior indagou: - Vai contar pra nota?
Tiago Menor reclamou: - Não ouvi nada, com esse grandalhão à minha frente!
Simão Zelote gritou, nervoso: - Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
Mateus queixou-se: - Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma
multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus,
dizendo: - Isso que o senhor está a fazer é uma aula? Onde está a
sua planificação e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e
específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos
prévios?
Caifás emendou: - Fez uma planificação que inclua os temas transversais e
as atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os
parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais
e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus: - Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro
períodos, como aplicaram os critérios de avaliação e reservo-me o direito de,
no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as
promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e
estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E veja lá se
não vai reprovar alguém!
E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, porque
me abandonaste?"
(Nem Jesus aguentaria ser um professor nos dias de
hoje...).
Ian McEwan apresenta uma prosa
habilidosa, onde nenhuma palavra ali está por acaso e os parágrafos sucedem-se
sem artifícios ou truques retóricos. Escrito na terceira pessoa, apresenta-nos uma
história com laços simples, que se tornam complexos com o desenrolar dos
acontecimentos. Os temas centrais são o confronto entre a vida pessoal e a vida
profissional, mas também entre a razão científica e o fundamentalismo religioso.
Utiliza como pano de fundo o sistema judiciário inglês e uma prestigiada juíza
do Supremo Tribunal como protagonista: Fiona Maye, 59 anos, especialista em Direito
de Família, e que de acordo com os seus colegas, possui “uma imparcialidade
divina e inteligência diabólica”. Tornou-se famosa devido a um caso de gémeos ao
aprovar a intervenção cirúrgica que iria separar uns irmãos siameses,
provocando o sacrifício de um deles em benefício da sobrevivência do outro.
Apesar de lidar diariamente com a
razão em detrimento da emoção, decidindo conflitos e dilemas morais através das
suas sentenças, a sua vida pessoal está a passar por uma crise: arrepende-se de não ter
tido filhos e o marido, professor universitário de História, coloca-a numa
posição de escolha entre uma posição passiva sobre um caso extraconjugal com
uma colega do trabalho e o fim do casamento de 35 anos (justificando-se com as suas
necessidades sexuais não atendidas nos últimos tempos por Fiona, obcecada pelo
trabalho).
É neste ambiente que vai parar às
suas mãos um caso de um rapaz, prestes a completar 18 anos, que precisa de uma transfusão
de sangue para o tratamento de leucemia. Este rapaz, Adam Henry, cujos pais são
Testemunhas de Jeová, não aceita aquela solução e está disposto a “morrer como
mártir” pela religião. O momento familiar complicado pelo qual Fiona está a passar
faz com que ignore a necessidade de afastamento emocional na batalha jurídica
que chamará a atenção da sociedade para um debate sobre o bem-estar do
adolescente em confronto com os dogmas religiosos da sua família e assim ela decide
ir visitar o jovem Adam ao hospital. Aqui, constata que este tem uma
compreensão parcial da situação precária da sua saúde e dos riscos associados
e, ao mesmo tempo, uma visão romântica da fatalidade dos efeitos decorrentes da
sua orientação religiosa. Escreve poesias que encantam a equipa médica e
despertam na experiente juíza um sentimento ambíguo de compaixão maternal (ela decidiu
não ter filhos devido à sua carreira) e carência sentimental. Para Adam, “a
religião dos meus pais era um veneno e a Fiona foi o antídoto”.
A música erudita tem um lugar de
destaque neste romance, constituindo uma válvula de escape para Fiona, uma
exímia pianista de peças clássicas de Berlioz e Mahler (no seu belíssimo apartamento
tem um piano Fazioli), e também um ponto de aproximação entre ela e o sensível
Adam Henry. Também se encontram referências a Bach, Schubert e Scriabin e a dois
discos: “Facing You” de Keth Jarrett e “Round Midnight” de Thelonius Monk. Fundamental também é o poema de William
Butler Yeats, “Down By the Salley Gardens”.
Para quem nunca leu nada deste
autor recomendo a leitura de “Amesterdão”, “Expiação” e “Sábado” (preferencialmente
por esta ordem).
Quanto ao filme, de 2017, que tem
como nome alternativo “My Lady” e segue quase à risca o livro com uma
realização muito segura e fiável de Richard Eyre, cenários clássicos, guarda-roupa
irrepreensível, tudo “very british” incluindo as cabeleiras dos juízes e uma
casa maravilhosamente decorada… Rigor britânico num filme jurídico denso e belo
onde a paixão da juventude, que tudo arrebata, coloca as convicções morais e
uma vida emocional esfrangalhada em enorme turbação. Quem realmente brilha são
os atores que encarnam os diferentes pólos de interesse: a sublime Emma
Thompson, mostrando na perfeição as oscilações de Fiona, entre a firmeza da sua
racionalidade e a insegurança da sua vida interior (o realizador aproveita para
abrir a porta aos sentimentos mais profundos de Fiona); Fionn Whitehead, como
Adam Henry, ao conseguir exprimir as suas angústias e desejos, os seus dramas e
ambições e a precoce mas encantadora maturidade que tanto encantou a Honourable
Mrs Justice Maye e, por fim, Stanley Tucci, ator sóbrio a deslizar naquilo
que por vezes se designa classe.
O nome original do filme, “The
Children Act” (e também do livro), é uma referência à legislação britânica, de
1989, acerca da proteção de menores. É citando essa lei que Fiona fundamenta a sua
decisão: “o bem-estar da criança deve ser o principal fator na ponderação do
tribunal”.
Um filme que nos deixa
desassossegados e cúmplices e esse é o poder que só os grandes filmes possuem.