quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Ken Follett - O Preço do Dinheiro



Se há autor que tem galgado posições no meu top pessoal de preferências, esse autor é Ken Follett.

O grande senhor de "Os Pilares da Terra" e da "Trilogia o Século" é, aos 73 anos, um dos mais versáteis dos grandes ficcionistas contemporâneos. Poucos como Follett exploram universos ficcionais tão distintos. Depois de ter descoberto o imenso manancial proporcionado pelo romance histórico, Follett parece ter fixado aí o seu foco. No entanto, ao longo da carreira navegou por vários outros universos. E foi por isso que empreendi esta leitura com grande expetativa, tendo em conta que se trata de uma da primeiras obras de Follett. Aliás, este livro foi publicado em 1977 sob um pseudónimo diferente: Zachary Stone.
O caráter pioneiro deste livro fica bem patente numa abordagem algo ingénua, de um tema muito explorado: a criminalidade da alta finança, por oposição a uma pequena criminalidade quase desculpável e mesmo apresentada com alguma simpatia.

No entanto, este livro, escrito por Follett aos 28 anos, denota já alguns nítidos traços de génio. O primeiro desses aspetos é a visão bem nítida de uma comunicação social poderosa mas ao mesmo tempo sensível e exposta ao mundo da grande criminalidade. Fica claro que a Comunicação Social constitui um poder extraordinário na divulgação de factos e mesmo no desmascarar de criminosos mas, ao mesmo tempo, ela é o alvo prioritário dos grandes malfeitores; a grande criminalidade sabe que tem de controlar a comunicação social. O segundo aspeto interessante desse jovem escritor de 1977 é a análise psicológica e sociológica da pequena criminalidade, organizada em grupos de criminosos que não passam de “peões” perante os grandes criminosos de colarinho branco.

Globalmente, é um livro que se lê com muito agrado, uma daquelas obras que nos faz passar uma insónia agradável mas que, mesmo assim, nos pode explicar algo sobre o lado negro do sistema capitalista liberal; está em causa o poder das grandes finanças mas também a falta de ética de alguns senhores da grande finança que não hesitam em recorrer aos meios mais criminosos para atingir os seus objetivos.



domingo, 16 de janeiro de 2022

No-Vax DjoCovid: No Challenges Remaining

No-Vax: My Body, My Choice!

Australia: Our Country, Our Rules! Cheers!

 

 Game, Set and Dispatch! (CLICAR)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Leituras do Mês

- Jø Nesbo - O Reino 
- Hugo Van Der Ding - Vamos Todos Morrer 
- Ken Follett - O Preço Do Dinheiro 
- Paulo Ferreira - Miscelânea De Factos Essenciais E Curiosidades Inúteis Do Senhor Lubbock

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Sons de Inverno


1. Nick Cave & Warren EllisWe Are Not Alone 
2. Wet LegChaise Longue 
3. PlaceboSurrounded By Spies 
4. Baby Queen & May-AAmerican Dream 
5. The LumineersBrightside 
6. Nilüfer YanyaStabilise 
7. Manic Street Preachers (Ft. Julia Cumming)The Secret He Had Missed 
8. Brad Pitt 
9. BastilleNo Bad Days 
10. The WombatsIf You Ever Leave, I’m Coming With You 
11. Sea PowerFolly 
12. Tears For FearsThe Tipping Point 
13. Franz FerdinandBilly Goodbye 
14. St. VicentDown 
15. Dave Gahan & SoulsaversMetal Heart 
16. Heartless BastardsWent Around The World 
17. LowWhite Horses 
18. Hamilton Leithauser & Kevin MorbyVirginia Beach 
19. GoatQueen Of Underground 
20. James Blake & Slowthai - Funeral


 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

As Melhores Séries de 2021


Com 2021 a chegar ao fim, volto a fazer um balanço daquilo que mais gostei de ver na televisão e no streaming.




- Mare Of Easttown

- Maid

- The White Lotus

- Nine Perfect Strangers

- The Chair

- It’s A Sin

- The Morning Show (Season 2)

- The Great (Season 2)

- Lupin (Season 1 & 2)

- The Underground Railroad

- Only Murders In The Building (Season 1)

- The Kominsky Method (Season 3)

- Scenes From A Marriage

- Foundation

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Os Melhores Discos do Ano 2021


A pandemia ainda não acabou, os conflitos políticos e sociais continuaram mas no que à música diz respeito e depois de um período de forte instabilidade vivido no ano passado, 2021 foi um ano de fortes emoções. Foi um ano com menos isolamento o que não significou um regresso à normalidade, mas houve muita música nova, com grandes sentimentos e alguma catarse. Segue a lista de discos que mais ouvi bem como uma seleção de músicas memoráveis:


- Nick Cave & Warren Ellis - Carnage
- Wolf Alice - Blue Weekend
- Idles - Crawler
- Dry Cleaning - New Long Leg
- The War On Drugs - I Don't Live Here Anymore
- Julien Baker - Little Oblivions
- Low - Hey What
- Billie Eilish - Happier Than Ever
- Altin Gün - Yol
- Nell Smith & The Flaming Lips - Where The Viaduct Looms
- The Weather Station - Ignorance
- Black Country, New Road - For The First Time



terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Os Melhores Filmes de 2021


Após um ano que não deixa muitas saudades devido à COVID-19, os grandes filmes voltaram a ser lançados nos cinemas, enquanto outros chegaram às nossas casas através das plataformas de streaming. Há diversos filmes que deverão ficar por muito tempo na minha memória.




1. The Power Of The Dog (O Poder do Cão), de Jane Campion

2. Doraibu Mai Kâ (Drive My Car), de Ryûsuke Hamaguchi

3. King Richard (Para Além do Jogo), de Reinaldo Marcus Green

4. Madres Paralelas (Mães Paralelas), de Pedro Almodóvar

5. Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson

6. Tre Piani (Três Andares), de Nanni Moretti

7. CODA (No Ritmo do Coração), de Sian Heder

8. The French Dispatch (Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun), de Wes Anderson

9. The Card Counter (O Jogador), de Paul Schrader

10. Cry Macho (A Redenção), de Clint Eastwood   

11. The Last Duel (O Último Duelo), de Ridley Scott

12. State Funeral (Funeral de Estado), de Sergey Loznitsa


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

As Minhas Melhores Leituras de 2021

1. Ali Smith – Verão 
2. Jon Fosse – Trilogia 
3. Manuel Monteiro – O Funambulista, O Ateu Intolerante E Outras Histórias Reais 
4. Simon Jerkins – Breve História De Inglaterra 
5. Jo Nesbø – Macbeth 
6. Olga Tokarczuk – Conduz O Teu Arado Sobre Os Ossos Dos Mortos 
7. José Eduardo Agualusa – O Mais Belo Fim Do Mundo 
8. Richard Osman – O Clube Do Crime Das Quintas-Feiras 
9. Roger Crowley – Conquistadores – Como Portugal Criou O Primeiro Império Global 
10. Ken Follett – Uma Coluna De Fogo 
11. Han Kang – A Vegetariana 
12. Oyinkan Braithwaite – A Minha Irmã É Uma Serial Killer

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Oyinkan Braithwaite – A Minha Irmã É Uma Serial Killer


O amor não é uma erva daninha,
Não pode crescer onde bem quiser…
(página 130)


A Minha Irmã É Uma Serial Killer, o romance de estreia da jovem nigeriana Oyinkan Braithwaite, que também é ilustradora, retrata o modo de vida dos jovens nigerianos, a presença nas redes sociais e as aspirações e sonhos que os motivam. Trata-se de uma leitura breve, com humor e alguns momentos um pouco bizarros, mas que passa com clareza a sua mensagem: no final do dia, o que é que é mais importante para nós? Qual é o valor que atribuímos à família? Onde estaríamos dispostos a ir pelas pessoas que amamos? E do que é que abdicaríamos sem pensar duas vezes?

Provenientes de uma família da classe média de Lagos (Nigéria), Ayoola e Korede são irmãs, que tiveram a infância marcada pela presença de um pai violento, agora já falecido.

Korede, que narra a história, é uma mulher pouco atraente, pragmática e amargurada, uma enfermeira cuja maior paixão é cuidar dos outros, incluindo de Ayoola.

Ayoola, a irmã mais nova e a preferida da mãe, é uma mulher bela e sexy, que gosta de se divertir e de acordar tarde e que é… uma sociopata, uma serial killer (que matou os seus três últimos namorados). É uma personagem mimada e atrevida, é extremamente manipuladora e usa a sua beleza e capacidade de persuasão para conseguir tudo o que quer. É uma assassina que traz uma grande dose de humor negro à história. A delicada relação entre ambas é abordada entre intrigas, ressentimentos e um passado tortuoso, revelado pouco a pouco.

Surpreendente, macabro, divertido. Este livro, que apresenta um pouco da cultura da Nigéria, com a sua escrita ágil e bem desenvolvida, devora-se, agarra o leitor sem pudores, é uma leitura empolgante e apaixonante mas tem um final brusco e previsível e por isso um pouco dececionante...

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Drive My Car


Belíssimo filme do realizador japonês Ryûsuke Hamaguchi: do país do sol nascente, Tchekov (“O Tio Vânia”) visto pelos olhos rasgados das novas cinematografias orientais, um mergulho profundo no coração de cada um. Sem sorrisos, com palavras não verbalizadas e a condição humana e a solidão. A vida que não se repete e a amizade… Um filme a roçar a obra-prima.

Acabado de nos presentear com outra excelente longa-metragem, Wheel of Fortune and Fantasy, Drive My Car é adaptado de um conto com o mesmo nome publicado no livro de 2014 "Homens Sem Mulheres" de Haruki Murakami. Ou melhor, também se baseia no conto “Xerazade” da mesma obra, quando a esposa do protagonista lhe conta a história da lampreia…


O filme inicia-se com um longo prólogo (40 minutos), que dá conta de um acontecimento dramático que irá mudar a rotina automatizada de Yûzuke Kafufu, um conceituado autor e cenógrafo de teatro cujo universo relacional se cinge quase exclusivamente à sua mulher (uma atípica argumentista com a qual partilha um desgosto que os une numa vivência algo melancólica). 

O tempo passa e voltamos a encontrá-lo dois anos mais tarde, ao volante do seu fiel e inseparável amigo de quatro rodas, um Saab 900 Turbo (no qual tem por hábito ouvir longos diálogos, verbalizados pela voz da sua amada, gravados em cassete, como forma de memorizar os textos das peças), a caminho de uma residência artista em Hiroshima, onde irá partilhar com uma audiência de atores de diversas nacionalidades o seu pouco convencional modus operandi enquanto encenador (curiosamente, no filme o Saab é vermelho e não amarelo e não é descapotável, contrariando o conto original). Aí chegado, por motivos de segurança, é confrontado com a proibição de conduzir, pelo que passará a ser transportado por uma jovem motorista enigmática e de "poucas falas" (tal como ele próprio), com a qual irá estabelecer gradualmente uma relação de confiança e partilha de emoções.
Hamaguchi é um autêntico arquiteto de palavras, que desenha um melodrama contido dotado de um arco narrativo fluido e subtil (recorrendo frequentemente a uma espécie de inteligentes jogos de espelhos entre o conteúdo das peças e a vida real), que nos expõe perante um modo diferenciado de lidar com sentimentos como a perda, o ciúme, a vingança e a culpa. Os seus "diálogos não verbais" e os subentendidos, que vão descascando as várias camadas dos seus personagens, são, igualmente, sublimes (pura poesia!). E não menos líricas se revelam as (aparentemente banais) filmagens que se cingem à condução do icónico carro encarnado pelas enormes estradas e túneis do Japão. Um autêntico deleite visual!


 

domingo, 10 de outubro de 2021

Sons de Outono


1. Ela MinusThey Told Us It Was Hard, But They Were Wrong 
2. MåneskinI Wanna Be Your Slave 
3. RVGI Used To Love You 
4. WidowspeakAmy 
5. The Twist ConnectionFake 
6. Alison MosshartRise 
7. At Freddy’s HouseThe Lamplight 
8. Black FoxxesSwim 
9. Black MidiJohn L 
10. Sault Wildfires 
11. Kim GordonHungry Baby 
12. Nothing But ThievesReal Love Song 
13. Indochine & Christine And The Queens3Sex 
14. James BlakeBefore 
15. CultsShoulders To My Feet 
16. The 1975Guys 
17. Orla GartlandMore Like You 
18. AuroraRunaway 
19. Bring Me The HorizonParasite Eve 
20. Phoebe BridgersNothing Else Matters


domingo, 3 de outubro de 2021

Leituras do Mês


- Ken Follett - O Escândalo Modigliani 
- J. M. G. Le Clézio - Deserto 
- Manuel Monteiro - O Funambulista, O Ateu Intolerante E outras Histórias Reais 
- Roger Crowley - Conquistadores - Como Portugal Criou O Primeiro Império Global

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Dia Mundial do Sorriso (Best Stand-Up Comedy Specials)

“O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica.”
Eça de Queirós




- Hannah Gadsby: Nanette (2018)

- Hari Kondabolu: Warn Your Relatives (2018)

- John Mulaney: Kid Gorgeous at Radio City (2018)

- Michelle Wolf: Joke Show (2019)

- Wanda Sykes: Not Normal (2019)

- Chris Rock: Tamborine (2018)

- Ricky Gervais: Humanity (2018)

- Dave Chapelle: The Age of Spin (2017)

- Jim Jefferies: Alcoholocaust Live (2010)

- Tig Notaro: Happy to Be Here (2018)



Dia Mundial da Música

domingo, 15 de agosto de 2021

Tribunais de Braga, Barcelos e Guimarães criticam facilitismo de Escola Secundária

Um professor da Escola Secundária de Barcelos, do grupo 430 - Economia e Contabilidade, apresentou uma denúncia via email à Inspeção Geral da Educação e Ciência com a intenção de comunicar condutas éticas e regulamentares inapropriadas, tais como o facto de um elemento (não identificado) da direção da escola ter ido à sala de aula de algumas turmas do 11º ano, incluindo a Direção de Turma do denunciante, solicitar a escolha da disciplina de Direito no ano letivo seguinte por ser fácil obter a classificação de 20 (vinte) valores no final do ano ou o facto dos professores da escola faltarem diversas semanas para acompanharem alunos em programas de Intercâmbios sem que se respeite o nº 3 do art.º 43 do Regulamento Interno da escola (que menciona que os docentes devem ser substituídos e assim os alunos que ficassem em Barcelos continuariam a ter aulas), queixa esta apresentada pelos Encarregados de Educação dos alunos. Quando ouvido, este docente de Economia informou que 25 dos 28 alunos da turma de Direito obtiveram 20 valores nessa disciplina no final do ano letivo (os restantes alunos da turma obtiveram 19 valores; mencionou também que na disciplina de Sociologia o cenário é semelhante), e ainda enumerou diversas atitudes da direção da escola que considerava que o lesavam a si ou aos alunos. A título de exemplo: a inação perante as queixas de Encarregados de Educação sobre o comportamento e desempenho de alguns docentes na sala de aula; a falta de computadores e projetores na sua sala de aula; a atribuição a si de serviço de apoio a várias disciplinas do 3º Ciclo, incluindo até a disciplina de Matemática, sendo um professor colocado pelo grupo 430 – Economia, que leciona exclusivamente no Ensino Secundário.

Um dos professores auxiliares da direção, contratado pela escola para o grupo disciplinar 420 – Geografia –, que terá sido o professor que visitou as turmas do 11º ano para convencer os alunos a escolherem a disciplina de Direito no ano letivo seguinte, acionou um processo judicial contra aquele whistleblower mas o Tribunal de Barcelos considerou não haver razão para o punir. Não contente com este desfecho, o professor de Geografia, considerado um expert em Direito pela direção da sua escola, remeteu a ação para o Tribunal de Braga, que concordou com o Tribunal de Barcelos. Aqui, perante o juiz, o reclamante declarou não se recordar se nesse ano letivo atribuiu a algum aluno a classificação de 20 valores na disciplina de Direito! Insatisfeito com esta segunda resolução, o reclamante especialista em Direito solicitou recurso para o Tribunal da Relação de Guimarães que também não atendeu ao que este expert em Direito pretendia.

Os processos, de onde foram extraídas as afirmações seguintes, podem ser consultados nos respetivos tribunais. Em nenhum dos 3 acórdãos é proferida uma palavra de censura ao whistleblower. Todos foram arquivados e resultaram numa decisão de Não Pronúncia.  


Tribunal de Barcelos:

“...entendemos que os dizeres escritos e enviados pelo denunciante, não constituem uma conduta a reclamar tutela penal...os factos denunciados não são aptos a ofender a dignidade ou o bom nome do reclamante, nos termos exigidos pelo direito penal.”

“...o teor do email não imputa ao seu autor a prática de crime, de contra-ordenação ou falta disciplinar, razão pela qual não se mostra preenchido o tipo de denúncia caluniosa”.



Tribunal de Braga:

“...a aluna V. Silva (folhas 245/247 do processo) afirma que o reclamante «explicou que a média de notas dos seus alunos naquele ano rondava os 19 a 20 valores». Só uma ideia de apresentar a disciplina pela vantagem de tirar notas altas justifica esses dizeres... não se vislumbra no texto da denúncia «convencer os alunos a escolherem a disciplina de Direito no 12º ano pois nessa disciplina é fácil tirar vintes» qualquer falsidade. O convencimento, mais a mais quanto a uma disciplina opcional, pode fazer-se lançando aparência de facilidade.”

“...do que decorre não haver qualquer indício que contrarie o facto de o denunciante ter fundamento sério para, em boa fé, reputar como verdadeiro o conteúdo comunicacional do reclamante perante os alunos, tal como relatou no email.”

“Ademais, quanto ao propósito de dar a conhecer a disciplina de Direito aos alunos resulta dos autos que os alunos estavam muito bem informados quanto ao que queriam em termos de disciplinas de opção. Pois os que foram ouvidos são categóricos nessa afirmação. Daí que estando os alunos já informados não se encontre fundamento sério para adicionar informação. A não ser avançar com um incentivo adicional: notas altas.

“Assim, concluindo, de uma forma directa, sintética e abstraindo das motivações subjacentes à actuação de cada um, o denunciante apresenta-se contra o facilitismo e o reclamante evidenciou na sua acção aspectos de facilitismo, já que em circunstância alguma pode um professor ao dar a conhecer a disciplina que pretende lecionar, enquanto opcional, falar em notas altas, passadas, futuras, o que quer que seja. E o reclamante falou. Procurou e evidenciou este aspecto, o que é censurável num sistema de ensino que se reclama de excelência.”

Sobre o Crime de Denúncia Caluniosa (pretendido pelo reclamante): “...ao não terem sido denunciados factos falsos, não pode haver consciência de uma falsidade que não se verifica. Como tal, logo ao nível dos elementos objectivos do tipo, claudica a pretensão de pronúncia”.

Sobre o Crime de Falsidade Informática (pretendido pelo reclamante): “...não se percebe qual o normativo, entende o reclamante estar em causa... Mas o que aconteceu, na sua simplicidade, foi o envio de correspondência”.

(custas: 5 UC para o reclamante; a valor de cada Unidade de Conta - UC - é de €102,00)



Tribunal de Guimarães (Recurso instaurado pelo reclamante expert em Direito): 

“...nenhuma censura merece o despacho recorrido, devendo ser confirmado, por não ter violado qualquer dos preceitos legais invocados pelo recorrente e assim manter-se a decisão de não pronúncia em causa.”

(custas: 1 UC para o reclamante)
 


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Cinema do Mundo


"Nenhuma arte simula a vida como o cinema. Todavia, não é uma vida. Também não é propriamente uma arte. Porque é uma acumulação, uma síntese de todas as artes. O cinema não existia sem a pintura, sem a literatura, sem a dança, sem a música, sem o som, sem a imagem, tudo isto é um conjunto de todas as artes, de todas sem exceção".
Manoel de Oliveira (1908-2015), cineasta



- Bir Zamanlar Anadolu'da (Era Uma Vez na Anatólia), de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (2011)

História policial sobre a reconstrução de um crime. Desenvolve-se desde o pôr do Sol ao meio dia seguinte. Os personagens, polícias, guardas, chefe da polícia, procurador, médico e suspeitos, à exceção do regedor da aldeia, podiam, com pequenas diferenças ser portugueses. É um filme sobre a morte e o seu impacto nos vivos.

A partir das suas habituais experimentações formais e estudos filosóficos, Nuri Bilge Ceylan construiu uma lancinante exploração sobre a moralidade humana onde os diálogos são explícitos ao ponto de serem literários, e onde a paisagem noturna rasgada pelas luzes dos automóveis policiais contém tanta importância conceptual como o mais complexo monólogo (e há bastantes neste filme).
 



- Les Innocentes (Agnus Dei – As Inocentes), de Anne Fontaine – França, Polónia (2016)

Filme passado num convento logo após o final da Segunda Guerra Mundial. É sobre um tema delicado, cheio de nervos sensíveis e propício a derrapagens facilmente melodramáticas ou a tropeções de simplismos piedosos. Fontaine mostra a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas, e as suas perplexidades, tensões, angústias e interrogações, da descrente e materialista médica, confrontada com o mundo e os valores das religiosas. O “happy ending”, talvez com açúcar em demasia, em nada colide com a profundidade e o dramatismo desta terrível história, contada com a segurança e a sensibilidade exigida por algo tão frágil.




- Oslo, 31. August (Oslo, 31 de Agosto), de Joachim Trier – Noruega (2011)

Filme belíssimo, que nos interroga sobre o que nos faz viver e o que nos faz desistir de viver. Sobre como é invisível a linha que nos faz sentir «em cima» ou «sentir em baixo».

A história de um dia na vida de um homem perdido que quer cometer suicídio parece ser a receita perfeita para uma obra de puro miserabilismo à boa moda do cinema europeu. Mas Joachim Trier não é um realizador qualquer e dessa premissa limitada, o cineasta norueguês faz um filme que funciona muito mais como uma celebração da experiência da vida humana do que como uma marcha fúnebre.
 



- Timbuktu, de Abderrahmane Sissako – Mauritânia (2014)

Timbuktu é cidade Património Mundial da UNESCO desde 1988. De pequena povoação perdida no deserto do Saara, o lugar transformou-se, ao longo dos séculos, em capital intelectual e espiritual de África, um oásis no deserto que foi despertando a atenção do mundo. Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico liderado por Iyad Ag Ghaly. O medo e a incerteza apoderam-se daquele lugar. Por ordem dos fundamentalistas religiosos, a música, o riso, os cigarros e o futebol são banidos. As mulheres são obrigadas a usar véu e a mostrar submissão total. A cada dia surgem novas leis para serem cumpridas e a vida de cada um dos habitantes vai sendo modificada tragicamente.

Na conjuntura atual, um filme sobre uma comunidade africana a enfrentar a opressão de invasores que impõe leis fundamentalistas islâmicas é uma preciosidade a ser considerada com admiração e respeito. Quando essa obra é, para além da sua importante temática, uma magnífica construção de cinema elegante, solene e esteticamente belíssimo, então temos um verdadeiro triunfo que deve ser visto por todos.




La Teta Asustada (A Teta Assustada), de Claudia Llosa – Peru (2009)

O filme inicia-se com uma cantiga inocente num testemunho de traumas e horrores que rompem pela escuridão da tela como um pesadelo do qual é impossível acordar. Começar um filme desta forma é arriscado e é um verdadeiro testamento à ousadia da cineasta peruana. É graças ao seu trabalho que um conto meio melodramático, sobre uma jovem que está “doente” devido à sua mãe ter sido violada durante os conflitos que assolaram o país nos anos 80, é representado com um bizarro, mas fascinante, estilo entre o realismo social e o artifício simbólico.


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Leituras do Mês

 

- Benjamin WikerDez Livros Que Estragaram O Mundo 
- Ófeigur SigurdssonO Livro de Jón 
- Mario Vargas LlosaA Cidade e os Cães 
- Nicole KraussA Grande Casa

sexta-feira, 30 de julho de 2021

domingo, 25 de julho de 2021

Sons de Verão


1. Sharon Van Etten & Angel OlsenLike I Used To
2. Manchester OrchestraTelepath
3. Billie EilishLost Cause
4. Tom Hodge ft. EivørNothing Less Nothing More
5. Alison MosshartIt Ain’t Water
6. Martin Garrix ft. Bono & The EdgeWe Are The People
7. CHVRCHES ft. Robert SmithHow Not To Drown
8. Yves TumorJackie
9. Final Song
10. The VaccinesHeadphones Baby
11. Girl In RedBad Idea!
12. Japanese BreakfastPosing In Bondage
13. MåneskinZitti E Buoni
14. Nothing But ThievesFutureproof
15. LordeSolar Power
16. 070 ShakeGuilty Conscience
17.The Divine ComedyInfernal Machines / You’ll Never Work In This Town Again
18. Antony & The JohnsonsThank You For Your Love
19. Fiona AppleThe Whole Of The Moon
20. The Head And The HeartRivers & Roads


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Factos Escondidos da História de Portugal - José Gomes Ferreira

 



Após a leitura das 477 páginas desta obra, cheguei à conclusão que o seu ator tortura os factos históricos, espezinha a verdade, mata a probidade e estrangula a independência intelectual e principalmente a nossa portugalidade. Pura perda de tempo, exemplo do que não deve ser uma obra didática e útil para quem quer aprender algo sobre a História do nosso país.

José Gomes Ferreira não tem qualquer formação em História, assegura que se trata de um livro de política (apesar de na contracapa destacar que “obriga a repensar a História”). Insinua que não estamos a ensinar corretamente a História de Portugal nas nossas escolas alegando que há uma História oficial e outra não oficial e que para ele os historiadores seguem uma “cartilha” oficial.

Trata-se de uma autêntica compilação de pseudo-factos secretos onde demonstra uma ignorância enciclopédica sobre os estudos que são feitos e publicados em Portugal por investigadores, apresenta um conjunto de teorias mirabolantes sem qualquer fundamentação científica, pejado de erros factuais. Não há análise de fontes, recorre a páginas avulsas da internet, cita meia dúzia de livros de autores e tenta adaptar as fontes à sua teoria não mencionando autores mais credíveis que não confirmem a sua tese. O último capítulo do livro, “Só não vemos o que não queremos ver” devia chamar-se “O autor só vê o que quer ver” tal é o número de imprecisões e de ideias feitas sem qualquer fundamentação.

O próprio título do livro é enganador: não apresenta Factos Escondidos da História de Portugal mas apenas factos relativos aos séculos XV e XVI. É errado considerar que em Portugal há uma História oficial: mesmo entre os historiadores há muitas opiniões e versões diferentes. A História não oficial de José Gomes Ferreira é baseada em fontes que não têm qualquer validade ou fundamentação científica. Sobre cartografia apresenta algumas deduções e ideias soltas mas todas as suas ideias não são novas, já foram apresentadas por outros autores. Faz uma escolha muito seletiva da bibliografia: chega a citar um artigo de João Paulo Oliveira e Costa mas não segue as conclusões do autor mas sim as suas próprias conclusões e ignora o resto da bibliografia deste investigador. Baseia-se em indícios, artigos desatualizados (1926 e 1934), introduz factos errados sobre o pau-brasil e a sua origem e apresenta uma mixórdia de temáticas com teorias controversas: Américas, Canadá, Brasil, Austrália, Antártida, Califórnia, Colombo, Fernão de Magalhães, os portugueses em Marrocos, a origem do nome Portugal (atribuída à Ordem dos Templários, quando existe consenso entre os historiadores quanto à sua origem) e os Painéis de S. Vicente.

Existe muita bibliografia que contradiz o autor, alguma até disponível online. Por exemplo, no que diz respeito aos portugueses em Marrocos pode-se ler este artigo de António Dias Farinha AQUI; sobre Cristóvão Colombo, ESTE artigo de Luís Filipe Thomaz (página 483) ou ESTE de Francisco Contente Domingues e sobre os portugueses na Austrália, ESTE de Carlota Simões e Francisco Contente Domingues.

Esta edição só tem explicação por se tratar de uma figura pública. Infelizmente, o mercado literário em Portugal privilegia essencialmente autores que sejam reconhecidos facilmente pelo público (como apresentadores de televisão, atores, participantes em reality shows, jornalistas, desportistas ou familiares de celebridades). Além disso, as editoras tendem a procurar material sensacionalista. O trabalho sério de investigação é muitas vezes preterido por este tipo de publicação.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Wolf Alice – Blue Weekend (2021)


Desde 2015 que os Wolf Alice têm merecido a minha atenção quando editaram o aclamado álbum My Love is Cool, confirmada dois anos depois com Visions of a Life, onde a banda mistura elementos do indie rock com músicas mais introspetivas e calmas, com faixas mais pesadas e cheias de energia.

Depois de quatro silenciosos anos, acabam de regressar às edições com o ambicioso, potente e excelente Blue Weekend que promete tornar-se épico. O álbum move-se em terrenos familiares, algures entre o rock de feição mais clássica, misturado com elementos shoegaze, riffs de guitarra que, muitas vezes, remetem para o grunge do início dos anos 90, aqui e ali, um pouco de psicadelismo à mistura e uma incorporação bastante acentuada, em certos momentos, de elementos eletrónicos. As letras são reflexivas, discutem como relacionamentos começam e terminam e abordam a pandemia e as crises intermináveis que estamos a viver.


“The Last Man On Earth”, primeiro single do álbum, tem tudo para ser apenas uma balada, vai-se lenta e subtilmente metamorfoseando noutra coisa graças ao cunho pessoal dos Wolf Alice. Se a primeira parte da canção nos dá a voz crua de Ellie Rowsell, em solitária conversa com o piano, enfatizando-se cada palavra proferida, a ponte assinala uma viragem inesperada, introduzindo uma mescla de coros épicos e guitarras psicadélicas da década de 60.

Seja cinema ou sonho (“Lipstick On The Glass” e “Feeling Myself”), dream pop (“Delicious Things” e “No Hard Feeling”) ou riffs distorcidos (“The Beach”), punk (“Play The Greatest Hits” e “Smile”), folk (“Safe From Heartbreak – If You Never Fall In Love”) ou anos 80 (“How Can I Make It OK?”), Blue Weekend soa como um disco de consolidação, com arranjos impecáveis em cada música e que em apenas 40 minutos mostra uma das joias da música inglesa de 2021.

Os Wolf Alice acabam de anunciar a Tour Europeia com passagem por Lisboa a 3 de março de 2022. Os bilhetes já estão à venda...

Wolf Alice Mixtape:

terça-feira, 15 de junho de 2021

David Owen - Na Doença e no Poder



No seu livro de 503 páginas sobre as doenças dos grandes estadistas do século passado, “Na Doença e no Poder – Os Problemas de Saúde dos Grandes Estadistas nos Últimos 100 Anos”, David Owen (neurologista e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico) considera que o que motivou a decisão de invadir o Iraque, tomada por George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar durante a célebre cimeira dos Açores em 2003, não foi a existência de armas de destruição maciça, nem a ambição de controlar o petróleo iraquiano mas sim um transtorno comum entre os políticos no poder, a síndrome de Hubris.

Esta síndrome, não reconhecida pela Medicina, equivaleria a uma “embriaguez de poder” caracterizada pela perda do sentido da realidade, soberba, presunção, persistência perversa em políticas que não funcionam e desrespeito pelos conselhos daqueles que os rodeiam. Os “pacientes” quando as decisões se revelam erradas, nunca reconhecem o equívoco e continuam convencidos que tomaram a decisão certa.

A sua dimensão é catastrófica quando se manifesta num pequeno grupo, fechado sobre si próprio, que desconsidera as pessoas e as instituições que promovem ideias contrárias, rejeitando-as e excluindo-as do seu núcleo decisor.

O exemplo do Iraque é o mais recente, mas ao longo da obra são apresentados muitos outros “doentes” afetados pela mesma síndrome como, por exemplo, Neville Chamberlain (primeiro ministro britânico entre 1937 e 1940, Adolf Hitler, François Mitterrand, Mao Tse-Tung, John F. Kennedy e até Margaret Thatcher nos seus últimos anos no poder. Todos eles foram atingidos por este transtorno psicológico. Aliás, Owen reconhece que também ele, no início da sua carreira política, deixou que o poder lhe subisse à cabeça - foi o mais novo ministro inglês dos Negócios Estrangeiros - embora sem nunca chegar aos extremos de alguns líderes históricos.

O fenómeno foi batizado com o nome da palavra grega “Hubris” que designava o herói que, uma vez alcançada a glória, deixava-se embriagar pelo êxito e comportava-se como um Deus capaz de tudo. Em consequência, começava a acumular erros, encontrando a sua Némesis, que o devolvia à realidade.  Não há tradução exata para a palavra Hubris que sintetiza o significado de outras: “arrogância”, “desprezo”, “superioridade”, “excesso de confiança” ou até alguma coisa semelhante a “autismo”, perda do sentido da realidade.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Leituras do Mês


- Daphne du MaurierO Outro Eu 
- Laura RestrepoA Noiva Obscura 
- Knut HamsonMistérios 
- John BanvilleA Guitarra Azul

sexta-feira, 23 de abril de 2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Leituras do Mês

- Jon FosseTrilogia 
- Italo SvevoA Consciência De Zeno 
- Aravind AdigaO Último Homem Da Torre 
- José Eduardo AgualusaO Mais Belo Fim Do Mundo

quinta-feira, 25 de março de 2021

Sons da Primavera


1. Dry CleaningScratchcard Lanyard 
2. Nick Cave & Warren EllisHand Of God 
3. Cassandra JenkinsHard Drive 
4. King Gizzard & The Lizzard WizardO.N.E. 
5. The CoralFaceless Angel 
6. Wolf AliceThe Last Man On Earth 
7. The Flaming LipsWill You Return / When You Come Down 
8. Olivia RodrigoDrivers Licence 
9. Lael NealeEvery Star Shivers In The Dark 
10. Arab StrapHere Comes Comus! 
11. Pom PokoLike A Lady 
12. Tate McRaeYou Broke Me First 
13. Shame Snow Day 
14. Fiona AppleShameika 
15. The ChillsMonolith 
16. Midnight SisterDoctor Says 
17. Fleet Foxes – Can I Believe You
18. Billie Eilish Everything I Wanted 
19. UnionsSex & Candy 
20. TindersticksMan Alone (Can’t Stop The Fadin’)


 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Leituras do Mês


- Gonçalo M. TavaresUma Menina Está perdida No Seu Século à Procura Do Pai
- Jo NesboMacBeth
- João Ubaldo RibeiroA Casa Dos Budas Ditosos
- Zadie SmithO Homem Dos Autógrafos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Os Melhores Filmes de 2020

2020 terá sido, provavelmente, um dos anos mais estranhos da história do cinema, mas não foi por isso que deixou de haver bom cinema para ver. 

A pandemia veio baralhar as contas a todos, e a indústria cinematográfica atravessou um ano atípico mas desafiador, com rodagens e estreias canceladas ou adiadas. Este cenário acabou por possibilitar o fortalecimento dos serviços de streaming. 

O cinema, nos melhores e piores momentos, é um modo de viajarmos sem sair do lugar e descobrirmos outras histórias e realidades possíveis. Na minha opinião, os filmes de 2020 que me proporcionaram as "viagens" mais fascinantes foram:

1. Better Days

Shaonian de ni”, título deste filme de Hong-Kong, realizado por Derek Tsang, onde uma adolescente que sofre de bullying forma uma amizade inesperada com um jovem misterioso que a protege de agressores, enquanto tem de lidar com a pressão dos exames finais do ensino secundário para entrar na universidade. Apesar da excessiva manipulação sentimental, trata-se de uma acutilante história sobre bullying levada à violência extrema. “This used to be our playground”... 
  
 


2. Druk 

Conhecido também por “Another Round” este filme dinamarquês de Thomas Vinterberg também é ambientado numa escola secundária onde quatro professores parecem ter chegado à crise de meia-idade e, numa noite, enquanto afogam as mágoas e partilham as suas histórias infelizes, decidem experimentar um estado de embriaguez (crescente) mesmo quando dão as suas aulas. O filme termina magistralmente ao som de “What a Life” de Scarlet Pleasure.

 


3. Promising Young Woman 

A excelente Cary Mulligan é uma ex-estudante de medicina que, traumatizada por algo que aconteceu à melhor amiga no passado, decidiu largar tudo e ainda não sabe o que fazer da própria vida, exceto aterrorizar homens que tentam abusar dela, fingindo-se de bêbada em bares da cidade. Filme feminista de Emerald Fenell, com um humor sóbrio, por vezes desconcertante mas no final, que é excelente, há uma reviravolta deliciosa de contemplar, tal e qual uma ópera que atinge o seu ápice supremo nos momentos finais...

 


4. Sound Of Metal 

Com uma prestação arrebatadora de Riz Ahmed, este filme de Darius Marder, leva-nos numa viagem sensorial que nos desperta para um mundo pouco representado no cinema onde não há nada mais revelador que o próprio silêncio. Um baterista de uma banda de metal que, subitamente, começa a perder a audição e tem de mudar completamente a sua vida até perceber que existem outras formas de viver...



5. Quo Vadis, Aida?

Co-produção entre nove países europeus, este filme desconcertante de Jasmila Zbanic, baseado em factos verídicos, acompanha a vida de uma professora (a soberba Jasna Djuricic), que também é tradutora das Nações Unidas, e que tenta salvar o marido e os filhos durante o massacre de Srebrenica, em julho de 1995. O filme não é fácil de suportar e só quem se sente mentalmente preparado deve aventurar-se neste flagelo cinematográfico que mostra os horrores do genocídio num dos períodos mais negros na História Europeia após a 2ª Guerra Mundial (neste caso com a inação criminosa das Nações Unidas).

 


6. First Cow 

Belíssimo filme realizado por Kelly Reichardt que conta a história de uma amizade no século XIX, construída nos detalhes e silêncios da rotina de dois homens, Otis “Cookie” Figowitz (John Magaro), padeiro que viaja com um grupo de caçadores e King-Lu (Orion Lee), que decidem roubar o leite da única vaca da região para a produção de doces e que acabam por encontrar, um no outro, o conforto que o verdadeiro companheirismo pode trazer. Construída com a calma do cinema mais contemplativo e “natural”, tanto no sentido de naturalista quanto de ligado à natureza (os animais, as plantas e os humanos), o que poderá afastar muitos espectadores, a longa-metragem logo na imagem inicial revela o destino que aqueles dois homens terão, restando apenas a descoberta das suas circunstâncias exatas. Uma obra profunda ao conseguir debater as injustiças do capitalismo que são refletidas no mundo moderno.

 


7. Corpus Christi 

Filme polaco realizado por Jan Komasa e baseado em factos reais que aborda a religião católica e que investiga em detalhe questões como as vocações e celibato sacerdotal, além da estranha dinâmica social de uma pequena comunidade, que incorpora um novo sacerdote (fabulosa interpretação do jovem protagonista Bartosz Bielenia), que esconde a sua verdadeira identidade.

 


8. I Care A Lot 

O que mais apreciei neste filme de J Blakeson foi a impressionante prestação de Rosamund Pike (aqui é Marla Grayson, uma guardiã do estado que cuida dos mais idosos) e do seu argumento: um médico seleciona um paciente mais idoso, de preferência doente (se for demência melhor ainda), no entanto com sólidas poupanças e bens materiais; depois um juiz assina uma ordem do tribunal que afirma que este idoso não é mais capaz de cuidar dele próprio e é necessário nomear alguém para o fazer; por fim, uma guardiã entra em contacto com o idoso, com a ordem do tribunal a dizer que terá de ir para um lar, mas que a sua casa e os seus bens vão ficar bem entregues. O que menos apreciei foi o fim da história...

 


9. Listen 

Filme muito realista, aborda o drama de um casal português emigrado, a quem os serviços sociais retiram, injustamente, os filhos por suspeitas de maus tratos. O filme de Ana Rocha de Sousa espelha a luta pela união de uma família após um erro irreversível mas também é um filme que tornar-se-ia ainda mais envolvente se adotasse uma estrutura mais complexa. O tema final “Hold My Hand”, cantado por Nessi Gomes, traz toda uma nostalgia que realça os momentos mais duros do filme.

 


10. Never Rarely Sometimes Always 

Este filme sobre amizade, machismo e aborto, constitui uma crítica social contada de uma forma única, crua e transparente. Autumn (Sidney Flanigan), é uma jovem de 17 anos que decide abortar aos 17 anos e conta com o apoio da prima e amiga incondicional Skylar (Talia Ryder). O título do filme de Eliza Hittman corresponde às respostas a um questionário de escolha múltipla sobre experiências potencialmente marcadas pela violência sexual, física ou psicológica, pronunciadas no interrogatório devagar e pesarosamente como uma facada no coração e é quando percebemos o motivo da gravidez ser indesejada. O preenchimento do questionário constitui o momento principal do filme ao revelar todos os medos, aflições e dores da protagonista. Sharon Van Etten participa como atriz (é a mãe de Autumn) e também se ouve na parte final do filme em “Staring At A Montain”.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Os Melhores Discos do Ano 2020


E chegámos ao fim de 2020 (finalmente), o ano que vai ser recordado durante bastante tempo e, infelizmente, pelas piores razões. O ano da pandemia dinamitou todos os quadrantes da sociedade e o da cultura foi, claramente, dos mais atingidos. Concertos e festivais cancelados e adiados, músicos sem lugar para ensaiar, gravar e tocar, e um público sem ter acesso aos seus artistas favoritos. Um ano totalmente atípico que, esperamos, não venha a ser igualado no futuro. 

Num ano de muitos discos (e tempo passado em casa para os escutar), aqui fica uma lista dos 20 discos que mais gostei de escutar este ano.


   


- JARV IS... - Beyond the Pale 
- Porridge Radio - Every Bad 
- Fontaines DC - A Hero’s Death 
- Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters 
- Baxter Dury - The Night Chancers 
- Phoebe Bridgers - Punisher 
- Thurston Moore - By the Fire 
- Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways 
- Haim - Women in Music Pt. III 
- Moses Sumney - Græ 
- Laura Marling - Song For Our Daughter 
- Bill Callahan - Gold Record 
- Waxahatchee - Saint Cloud 
- Fleet Foxes - Shore 
- The Flaming Lips - American Head 
- Dua Lipa - Future Nostalgia 
- Rufus Wainwright - Unfollow The Rules 
- B Fachada - Rapazes e Raposas 
- Samuel Úria - Canções do Pós-Guerra 
Matt Berninger - Serpentine Prison


 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

As Minhas Melhores Leituras de 2020

1. Elena Ferrante – A Vida Mentirosa dos Adultos 
2. Celeste Ng – Pequenos Fogos em Todo o Lado 
3. Vladimir Nabokov – Contos Completos – Volume 1 
4. Haruki Murakami  Norwegian Wood 
5. Ian McEwan – A Balada de Adam Henry 
6. Javier Cercas – O Impostor 
7. Annie Ernaux – Os Anos 
8. Aravind Adiga – O Tigre Branco 
9. Irene Vallejo – O Infinito Num Junco 
10. Jerry Seinfeld – Isto Tem Piada? 
11. Jón Kalman Stefánsson – Aproximadamente do Tamanho do Infinito 
12. Woody Allen – A Propósito De Nada

domingo, 27 de dezembro de 2020

As Melhores Séries de 2020

Thriller, drama, comédia e ficção científica. Há de tudo nesta seleção das melhores séries. Creio que nunca vi tantas séries de televisão e nunca senti que ficou tanto por ver. É impossível ver tudo. Todos os dias saem novas séries nas várias plataformas de streaming disponíveis em Portugal e foram várias as histórias interessantes que chegaram à televisão nos últimos meses. Esta é a lista (possível) das melhores séries de 2020 a que assisti:


 


1) The Unorthodox

2) Small Axe

3) Pátria

4) Curb Your Enthusiasm (Temporada 10)

5) The Crown (Season 4)

6) Normal People

7) Better Call Saul (Season 5)

8) The Queen’s Gambit

9) Ozark (Season 3)

10) Mrs. America

11) A Teacher

12) The Undoing

13) High Fidelity

14) A Very English Scandal

15) Little Fires Everywhere

16) Ramy (Season 2)

17) The Mandalorian

18) Dave

19) My Brilliant Friend (Season 2)

20) Bridgerton

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Jesus aguentaria ser professor nos dias de hoje?!



O Sermão da Montanha

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele preparava-os para serem os educadores capazes de transmitir a Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:


- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; Felizes os misericordiosos, porque eles...?

Pedro interrompeu-o: 
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
 
André perguntou:
- É pra copiar?
 
Filipe lamentou-se:
- Esqueci-me do meu papiro!
 
Bartolomeu quis saber:
- Vai sair no teste?
 
João levantou a mão:
- Posso ir à casa de banho?
 
Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
 
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
 
Tomé questionou:
- Há alguma fórmula pra provar que isso tá certo?
 
Tiago Maior indagou:
- Vai contar pra nota?
 
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandalhão à minha frente!
 
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
 
Mateus queixou-se:
- Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!
 
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está a fazer é uma aula? Onde está a sua planificação e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
 
Caifás emendou:
- Fez uma planificação que inclua os temas transversais e as atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
 
 Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos, como aplicaram os critérios de avaliação e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E veja lá se não vai reprovar alguém!
 
E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, porque me abandonaste?"
 
(Nem Jesus aguentaria ser um professor nos dias de hoje...).

Texto (bastante) adaptado de um site da internet.