“Ninguém é tão grande que não aprenda; ninguém é tão pequeno que não ensine.”
sábado, 5 de agosto de 2023
terça-feira, 1 de agosto de 2023
Sons de Verão
1. PJ Harvey – A Child’s Question, August
2. Blur – The Narcissist
3. Slowdive – Kisses
4. The Legendary Tigerman (Ft. Asia Argento) – Good Girl
5. Everything But The Girl – Run A Red Light
6. Interpol – Something Changed
7. Caroline Polachek – Welcome To My Island
8. Bar Italia – Nurse!
9. Cigarettes After Sex – Pistol
10. Lana Del Rey – Did You Know That There’s A Tunner Under Ocean Blvd
11. Lightning Craft – My Way
12. Depeche Mode – Ghosts Again
13. Yeah Yeah Yeahs – Blacktop
14. The National – Eucalyptus
15. The Waeve – Can I Call You
16. Sparks – The Girl Is Crying In Her Latte
17. Warpaint – Love Is To Die
18. The Last Internationale – Wanted Man
19. The Last Dinner Party – Nothing Matters
20. Flipturn – Sad Disco
21. John Cale (Ft. Weyes Blood) – Story Of Blood
22. Anohni And The Johnsons – It Must Change
23. Girl In Red – October Passed Me By
24. The Smile – Bending Hectic
25. Boygenius – The Film
sábado, 8 de julho de 2023
Os telemóveis nas escolas
Será que o elevado consumo de conteúdos digitais pode estar na origem do declínio do desempenho escolar e da perda de certas competências que dependem do treino cognitivo? Há uma suspeita crescente de que não é apenas a distração que representam, mas também a forma como alteram a perceção e o processo de aprendizagem mental.
No entanto, ver apenas os perigos das novas tecnologias pode ser muito redutor. Qualquer medida deve evitar abordagens maniqueístas que contrastam as tecnologias digitais com o ensino tradicional, até porque estamos no início de um debate em que faltam provas científicas. O problema não está tanto nas tecnologias em si, mas no conteúdo e nos usos que delas se fazem.
Em geral, creio que uma proibição total como método para prevenir o uso indevido não é uma boa solução, porque impede o potencial educativo. O debate deve centrar-se em como e quando os meios digitais são introduzidos na sala de aula. Até porque o Governo não andou a gastar milhões para equipar os alunos com computadores para depois não se aproveitar o potencial num mundo onde as novas tecnologias serão essenciais para as sociedades. Infelizmente, na prática, os meus alunos não são recetivos à utilização desses computadores “emprestados” pelo Governo, tornando esta oferta inócua, pois quando solicitados a realizarem tarefas apenas utilizam o telemóvel.
quinta-feira, 6 de julho de 2023
Leituras do Mês
- John Steinbeck – O Inverno Do Nosso Descontentamento
- Toni Morrison – A Dádiva
- Rubem Fonseca – A Grande Arte
domingo, 28 de maio de 2023
Centenário do CNE
O Altice Forum Braga foi o local das comemorações deste Centenário, com a realização de jogos no pavilhão, ao longo do dia 27 de maio e, à noite, com a celebração da Eucaristia e a Festa do Centenário, na zona exterior.
São 100 anos de atividades, amizades, construções e acampamentos!
sábado, 27 de maio de 2023
Chemical Brothers (North Festival, Porto, 26 de Maio)
sábado, 20 de maio de 2023
Eduardo Mendoza – A Cidade Dos Prodígios
O enredo desta obra acompanha a cidade de Barcelona entre as duas Exposições Universais aí realizadas: de 1888 e 1929. O protagonista desta estória, Onofre Bouvila, é uma espécie de anti-herói que sobrevive e depois enriquece numa espécie de vida em “contramão”: a sua sorte é o azar dos outros. Toda a cidade de Barcelona acaba por ser vista também nessa perspetiva: uma cidade que enriqueceu com base na desgraça alheia, no sucesso de uma casta de patifes como Onofre Bouvila. A própria Grande Guerra ou a ditadura de Primo de Rivera são vistas em Barcelona como oportunidades de enriquecimento.
Ao longo do livro vamos assistindo também à afirmação do socialismo e do anarquismo como teorias da moda. Os malandrins de Barcelona, mais do que os operários e oprimidos, são o meio em que essas ideias ganham assento. Ao longo do livro vamos sorrindo com um sentido de humor alucinante: do sorriso discreto à gargalhada desabrida vão dois passos, num estilo original e muito fluido. Aliás, é incrível a capacidade de Mendoza para fazer “parêntesis” de duas ou três páginas sem que o leitor perca o fio à meada.
A análise do contexto histórico é excelente: dá-se conta da origem da moderna Barcelona a partir da exposição universal de 1888, num olhar irónico sobre o sucesso de toda a sorte de malandros e rufiões; eles podem ser o coração de uma cidade, mais do que os políticos.
O início do século XX é sempre uma época de eleição para qualquer escritor tais são as novidades; uma das mais espetaculares é o cinema, que Onofre ajudou a levar até Barcelona. Em 1923 dá-se o golpe fascista de Primo de Rivera; a ameaça do extremismo catalão foi uma das causas da instauração da ditadura; é a cidade condal no centro da contestação.
Esta faceta rebelde da Catalunha é o âmago da obra: “Nós, os pobres, só temos uma alternativa, dizia de si para si, a honestidade e a humilhação ou a maldade e o remorso. Isto era o que pensava o homem mais rico de Espanha” (página 292).
A Barcelona moderna surge com o genial Gaudi. No entanto, mesmo neste domínio, Mendoza não deixa de pintar a realidade com tons surreais, apresentando-nos o famoso arquiteto num estado de decadência e decrepitude.
Mas é a aviação que vem fornecer a vertigem dos novos tempos…
A exposição universal de 1929 era a oportunidade de afirmação de Primo de Rivera. Mas foi, pelo contrário, um sinal de falência do sistema capitalista, quatro meses depois do crash da bolsa de Nova Iorque.
A questão fundamental é esta: Vale a pena lutar pela glória? Vale a pena pagar preços tão altos? A questão é posta por Onofre mas podia ter sido posta pela cidade… implícita nesta estória está uma crítica mordaz ao individualismo burguês.
Ao individualismo, Mendoza contrapõe a cidade; um povo que lutou sempre contra a hegemonia da capital e fez da Catalunha um estado autónomo; não se trata da afirmação da cidade em termos económicos nem urbanísticos, mas da cidade como comunidade, com a sua identidade rebelde mas inquebrantável.
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Agnes Obel
Agnes Obel é uma cantora, compositora e pianista dinamarquesa que ajuda a tranquilizar e a viajar, pela forma como trata a música, proporcionando sonoridades únicas.
O seu primeiro álbum, “Philharmonics”, foi lançado em 2010 e confirmou uma nova voz na música que foge aos padrões da pop e consegue embalar-nos com uma melancolia serena e inabalável, confirmada pelos trabalhos seguintes, “Aventine” (2014), “Citizen Of Glass” (2016) e “Myopia” (2020).
As suas canções são despojadas, quase intimistas. Parece soprar uma chama que não quer apagar. Vale a pena descobri-la…
terça-feira, 2 de maio de 2023
Leituras do Mês
- Amos Oz – Não Chames Noite À Noite
- Nick Cave – A Morte De Bunny Munro
- Neil Jordan – Amanhecer Com Monstro Marinho
- Eduardo Mendoza – A Cidade Dos Prodígios
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Close, de Lukas Dhont
Filme poderoso, extremamente bem realizado e com excelentes interpretações. O ainda jovem realizador belga Lukas Dhont volta a emocionar-nos após a estreia em “Girl” de 2018, onde o jovem Victor Polster interpretava o papel de um adolescente que entrava numa escola de dança ao mesmo tempo que lidava com as questões da identidade de género.
Agora, em “Close”, faz uma reflexão comovente sobre a fragilidade das relações humanas e sobre a forma como as pressões sociais podem destruir a pureza das ligações na infância. Centra-se em Léo e Rémi, dois rapazes de 13 anos que partilham uma amizade muito próxima e intensa. Passam o verão juntos num ambiente rural idílico, inseparáveis e cheios de alegria. No entanto, quando regressam à escola, os colegas começam a questionar e comentar a natureza da sua relação, insinuando que existe algo “mais” entre eles. Confrontado com essa pressão social e com o medo do julgamento, Léo começa a distanciar-se de Rémi - um afastamento que terá consequências devastadoras.
“Close” é um retrato sensível de um momento na vida de dois adolescentes em que a sexualidade começa a revelar-se. Está ainda repleto de temas colaterais, como a perda, a culpa, os limites da amizade, o lugar do outro, a responsabilização, aqueles momentos, por vezes trágicos, em que se passa da adolescência a um estado praticamente adulto.
É um filme silencioso, poético e profundamente tocante. Seguramente um dos melhores do ano.
domingo, 23 de abril de 2023
sábado, 25 de março de 2023
Owen Pallett / The Hidden Cameras (GNRation, 24 de Março)
O espetáculo iniciou-se com Gibb a solo, todo vestido de branco, com guitarra e bateria e adereços, diz-nos, comprados à tarde numa loja chinesa de Braga, a tocar algumas das canções do disco “The Smell of Our Own”, que celebra agora 20 anos de existência (a primeira foi “Golden Streams” seguida por “A Miracle”, “Shame”, “Boys Of Melody” e “Ban Marriage”) e novas composições para o seu álbum previsto para 2024. Composições irreverentes e diversas influências, que vão desde o folk ao rock’n’roll.
O virtuoso do violino, compositor e produtor, Owen Pallett é um dos músicos mais aclamados no Canadá, com influências que vão desde o pop e rock à música eletrónica, sendo reconhecido pelo seu trabalho a solo e pelos arranjos de orquestra para alguns dos maiores músicos da atualidade. Em 2005 estreou-se a solo como Final Fantasy com o disco Has a Good Home, seguindo-se He Poos Clouds. O seu trabalho com os Arcade Fire, no disco The Suburbs (2011), foi distinguido com um “Grammy”. Esta noite aproveitou a ocasião para celebrar a reedição daqueles dois álbuns de estreia como Final Fantasy.
Á partida poderiam ser dois concertos distintos, mas não foi isso que aconteceu, pois por diversas ocasiões durante o espetáculo, atuaram em conjunto, misturando cumplicidade musical e uma amizade que vai resistindo ao tempo e à distância.
sexta-feira, 24 de março de 2023
Sons da Primavera
1. David Bowie – You Feel So Lonely You Could Die
2. PJ Harvey – Who By Fire
3. Son Lux, Mitski, David Byrne – This Is A Life
4. London Grammar – Lord It´s A Feeling
5. Belle and Sebastian – I Don’t Know What You See In Me
6. Daughter – Be On Your Way
7. Thus Love – Centerfield
8. Yeah Yeah Yeahs – Wolf
9. Yves Tumor – God Is A Circle
10. Dream Wife – Leech
11. Nothing But Thieves – Welcome To The DCC
12. Catbear – I Choose Love
13. The 1975 – I’m In Love With You
14. Emily Jane White – Washed Away
15. Beck – Old Man
16. Måneskin – The Loneliest
17. Miley Cyrus – Flowers
18. Trvstfall – Sing Louder
19. Boygenius – Not Strong Enough
20. The Regrettes – You’re So F**cking Pretty
sexta-feira, 10 de março de 2023
Nina Nastasia (GNRation, 10 de Março)
"I f*****g love Portugal"
A autora de “A Dog’s Life” trouxe consigo o novíssimo Riderless Horse, sétimo álbum de carreira que assinala o fim de um silêncio discográfico de doze anos. Trata-se do primeiro disco desde a morte do marido Kennan Gudjonsson, com quem travou uma longa e abusiva relação, amorosa e profissional, documentando a dor e o luto através de doze transformadoras canções. Assim, neste disco, Nina Nastasia não celebra um momento feliz e estável da sua vida, apenas tenta recuperá-la, salvando-a do momento mais triste e doloroso da sua existência.Riderless Horse é um despojado e arrepiante conjunto de canções que nos conta os diversos momentos da relação, dos mais sombrios aos mais esperançosos. Nas últimas palavras de Riderless Horse, diz-nos “I wanna live, I’m ready to live”, deixando-nos o coração aquecido de esperança. Há momentos em que dizemos que a arte salva, mas poucas as vezes isto foi tão evidente e tão profundamente emocionante.
Numa sala esgotada e sem direito a lamentos ou queixumes, a cantora folk norte-americana, uma talentosa cantora e compositora conhecida pela sua abordagem única e emocional na música, apresentou-se sozinha mas segura, criou uma atmosfera íntima e envolvente, e percorreu todos os seus sete discos com canções excelentes, destacando-se "This Is Love", "Nature" ou a arrepiante "The Two of Us". Pelo meio esqueceu-se de uma letra, que justificou com um "Brain Fart" e soltou um espontâneo "I f*****g love Portugal". O público compreendeu mostrando-se sempre recetivo e interessado e ainda participou em coro num "happy birthday", que a cantora registou no telemóvel e com destino a um tio nonagenário!
O espetáculo foi verdadeiramente especial e deixou uma marca indelével na minha memória.
quarta-feira, 8 de março de 2023
Ice Merchants
Este ano, pela primeira vez, um filme de produção portuguesa foi candidato aos Oscars, mais precisamente o de melhor curta-metragem de animação.
Intitula-se “Ice Merchants” (“Negociantes de Gelo”), tem 14 minutos e foi realizado por João Gonzalez, cineasta do Porto.
O resumo é fácil de fazer: um homem e o seu filho vivem num pequeno chalé pendurado na parede de uma imponente montanha. Lá, fabricam gelo que vendem numa vila a alguma distância do sopé da elevação. Para servirem os clientes, voam literalmente ao seu encontro.
Limitado nos tons cromáticos em que assenta, utilizados para diferenciar os dois centros da ação, mas também para simbolizar a união do pai e da mãe (ausente?, mas nem sempre...), “Ice Merchants” no minimalismo da sua conceção, na vertigem da sua narrativa com os mergulhos sem rede para o abismo, e no inesperado do seu tom, desconcerta pelo círculo vicioso, qual pescadinha de rabo na boca, que move e condiciona os mercadores.
Termina, de forma trágica, mais impactante dado o humor ligeiro que perpassa por todo ele e na cena final, com uma mensagem ecológica que alerta para a responsabilidade individual de cada um... porque – e quem assistir entenderá – para nós não haverá um paraquedas suplente nem uma almofada que nos ampare a queda.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
Leituras do Mês
- Giorgio Van Straten – Histórias de Livros Perdidos
- José Carlos Barros – As Pessoas Invisíveis
- Anna Politkovskaya – Um Diário Russo
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
Chris Cleave – A Pequena Abelha
domingo, 15 de janeiro de 2023
Sobre a Inteligência Artificial (AI)
Começou por ser uma brincadeira de nerds, evoluiu para uma ferramenta engenhosa usada por alunos cábulas, derivou para uma atrativa solução empresarial e industrial, afirmou-se como fonte fidedigna de órgãos de Comunicação Social, passou a integrar a máquina de propaganda e desinformação de algumas tribos e, hoje, é encarada como uma séria ameaça ao curso da História, potenciando teorias que anteveem que o fim da espécie humana pode, afinal, não ter causas naturais, mas baseadas na programação informática. A Inteligência Artificial (IA) veio para ficar. Não acabará com o Mundo (esperamos), mas ajudará certamente a mudá-lo. Tentar travá-la apenas porque temos medo terá, provavelmente, o mesmo efeito inconsequente produzido há umas décadas quando nos assustámos com o advento da Internet.
Não conhecemos ainda em profundidade todas as virtualidades desta revolução (e muito menos todos os perigos), mas a melhor forma de enquadrar esta parcela imparável do futuro é recorrendo às leis. E essas ainda são os homens a desenhar.
A União Europeia começou a redigir o “AI Act” há quase dois anos para regular a tecnologia que explodiu após o lançamento do ChatGPT, o aplicativo de consumo com o crescimento mais rápido da História (atingiu os 100 milhões de usuários ativos mensais em poucas semanas).
Neste momento, os legisladores estão a aperfeiçoar o quadro legal, para estabelecer barreiras em função dos níveis de risco: de mínimo a limitado, de alto a inaceitável, abrangendo áreas que vão da vigilância biométrica à disseminação de informação falsa ou ao uso de linguagem discriminatória. O Parlamento Europeu está a fazê-lo de forma sensata, procurando um justo equilíbrio entre os direitos dos cidadãos, o progresso tecnológico e o crescimento económico.
Não censurando o desconhecido, mas preparando as válvulas de escape que melhorem a aculturação de uma realidade que é tudo menos artificial.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2023
Shusaku Endo – Silêncio
Shusaku Endo, falecido em 1996 foi um dos mais conceituados escritores japoneses do século XX. Nesta obra, "Silêncio", aborda um tema polémico e profundo, que tem muito a ver com a nossa história: o trabalho dos missionários portugueses no Japão, nos séculos XVI e XVII. O livro narra a história do Padre Rodrigues, um jesuíta português que partiu para o país do sol nascente procurando um outro missionário, o padre Ferreira de quem se dizia ter apostatado, ou seja, renegado a fé cristã.
A época era de intolerância; enquanto em Portugal e noutros países cristãos se perseguiam e queimavam judeus nas fogueiras da Inquisição, no Japão eram os cristãos vítimas de perseguição impiedosa por parte das autoridades locais, que pretendiam manter o povo fiel ao Xintoísmo e ao Budismo vigentes.
No entanto, a questão fundamental não radicava apenas na falta de tolerância. A questão fundamental que Endo coloca ao narrar a incrível história do Padre Rodrigues é a incapacidade que os seres humanos revelam para enquadrar as crenças num espaço cultural próprio, sem o qual elas se revelam inférteis. Como afirma um samurai japonês, o cristianismo era como uma árvore transplantada para um terreno infértil. Impor, mesmo que por benevolência, uma determinada crença é um ato institucional, mais do que de consciência. A Igreja como Instituição nunca conseguiu compreender devidamente este fenómeno: o conceito de BEM, por mais universal que possa ser, não é compatível com normas institucionais que se pretendem universalizar.
Nessa medida, a obra de Endo não perde atualidade nos nossos dias; vemos com frequência governos atuais a tentar impor o nosso conceito de bem, de democracia e de liberdade, sem ter em conta as realidades culturais diversas com que nos deparamos. E nós, no nosso quotidiano, quantas vezes não recorremos a argumentos como estes: “isto é bom para ti”, sem ter minimamente em conta a realidade do outro? Até que ponto o nosso conceito de “bem” ou de “bom” deixa de ser uma ideia subjetiva?
Enfim, um livro que foi para mim uma excelente surpresa, pela sensibilidade que revela sobre um assunto tão complexo e intemporal. O estilo, bastante claro e acessível, faz deste livro um verdadeiro manual de tolerância universal.
No filme que Martin Scorsese adaptou ao cinema, os padres são interpretados pelos atores americanos Andrew Garfield e Adam Driver. Os dois vão ao Japão para procurar um dos seus líderes, o padre Ferreira, interpretado por Liam Neeson, que segundo rumores teria abandonado a sua fé no Japão.
Trata-se de um filme inquietante e perturbador, fiel à história e sem pretensões tendenciosas onde Scorsese faz uma reflexão radical sobre as relações entre o humano e o sagrado.
domingo, 8 de janeiro de 2023
Tindersticks (Theatro Circo, 7 de Janeiro)
O alinhamento do concerto inicia-se com "Willow" (da banda sonora do filme High Life) e "A Night So Still" (do álbum de 2012, The Something Rain).
Zero palavras para além das palavras escritas nas letras destas músicas, e, porém, a sensação de estar próximo do palco, dos membros da banda, é esmagadora.
Os Tindersticks continuam deliciosamente imemoriais, sem ligar a modas ou pressões externas, nem precisam de se dedicar a espetáculos de recordar é viver. Bastam serem eles próprios.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2023
Leituras do Mês
- Chris Cleave – Pequena Abelha
- Shusaku Endo – Silêncio
- Zoran Živković – O Grande Manuscrito
- Yrsa Sigurdardóttir – Cinza e Poeira
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
Os Melhores Discos do Ano 2022
“Tenho o mais simples dos gostos. Satisfaço-me com o melhor”, disse um dia Oscar Wilde. E dirão todos os melómanos de gosto também ele simples. Por isso regresso aqui à música que mais ouvi nos últimos doze meses e organizá-la hierarquicamente, ao meu bel-prazer, é inquestionavelmente uma prática hedonista (e claro está, altamente subjetiva).
O disco mais ouvido foi claramente do duo britânico Wet Leg, composto Rhian Teasdale e Hester Chambers e oriundo da ilha de Wight, que inclui canções como "Wet Dream", "Ur Mum", "Angelica", "Being In Love" ou a perfeita “Chaise Longue”, uma das mais trepidantes canções que o rock nos ofereceu nos últimos anos. Em tom infinitamente “blasé”, o duo canta com languidez sobre o malogro das notas escolares, a vontade escapista e a irreprimível vontade de se estender horas a fio numa “chaise longue”, o objeto mais adorado por qualquer preguiçoso que se preze.- Wet Leg - Wet Leg
- Black Country, New Road - Ants From Up There
- Angel Olsen - Big Time
- Spiritualized - Everything Was Beautiful
- The Smile - A Light for Attracting Attention
- Beach House - Once Twice Melody
- Oumou Sangaré - Timbuktu
- Weyes Blood - And in the Darkness, Hearts Aglow
- Yeah Yeah Yeahs - Cool It Down
- Vieux Farka Touré & Khruangbin - Ali
- Julia Jacklin - Pre Pleasure
- Fontaines D.C. - Skinty Fia
terça-feira, 27 de dezembro de 2022
As Melhores Séries de 2022
O ano foi rico em diversidade de estreias nas plataformas de streaming, do sci-fi à espionagem, das fraudes à fantasia. Com interpretações de luxo, argumentos de peso e histórias mirabolantes, estas são as séries que mais gostei de ver em 2022.
- The Bear – O título desta minissérie é a alcunha dada a Carmen Berzatto, um chef Michelin que se vê na posição de gerir a loja de sandes do irmão, depois de este falecer. É uma série caótica mas viciante, decorre numa atmosfera eletrizante, ao som de “New Noise” dos Refused, tem um elenco brilhante e capta o caos frenético que se apodera da cozinha de um restaurante durante o serviço. Os 8 (curtos) episódios devem ser degustados de enfiada…
- Pachinko – Baseada no bestseller de Min Jin Lee e adaptada por um filho de imigrantes coreanos, em “Pachinko” (uma máquina de flippers à japonesa, que aqui funciona como metáfora para a vida, ela própria uma espécie de montanha-russa diária), o espetador perde-se na belíssima fotografia deste retrato emocional e expressivo da história de todos os coreanos que foram afetados pela colonização japonesa da Coreia no séc. XX.
- Severance – Nesta espécie de comédia bizarra, tenta-se responder essencialmente a uma questão (que depois se desmultiplica): e se conseguíssemos separar a nossa vida pessoal da profissional através de consciências distintas? Independentemente dos motivos, se a tecnologia permitir separar o nosso “eu” pessoal do “eu” do trabalho, será que o fazíamos? Será que conseguíamos simplesmente esquecer oito horas do nosso dia? E, a ser possível, seria sequer ético? Onde é que encaixa aqui o nosso livre-arbítrio?
- The White Lotus (Season 2) – Depois de uma temporada inagural de sucesso, a segunda temporada repete a base satírica mas mudam os ingredientes. A exceção é Jennifer Coolidge, que volta a dar vida a Tanya McQuoid. Neste novo “White Lotus”, as personagens desembarcam na Sicília, num ambiente distópico que sufoca as suas relações interpessoais. Conduzido por um brilhantismo de autor, desta vez o enredo assenta na toxicidade e sexualidade. No desfecho, tudo corre bem porque tudo corre mal.
Momento impressionate da temporada: a dança de Wednesday ao som de “Goo Goo Muck”, dos Cramps, no baile do liceu. Aliás, toda a banda sonora é simplesmente arrepiante. Wednesday é um ás no violoncello e toca, por exemplo, “Winter” de Vivaldi, e uma versão da “Paint It Black”, dos Rolling Stones.
- Bad Sisters – É uma comédia negra sobre as irmãs Garvey. Desde muito cedo, as cinco irmãs tornaram-se inseparáveis devido à morte prematura dos pais. No entanto, quando uma deles, Grace, é vítima de violência doméstica pelo marido, as irmãs decidem resolver o problema com as próprias mãos, levando a consequências desastrosas.
- MO – É um divertido e comovente retrato da vida de um refugiado palestino nos EUA. Série criada por Mo Amer e Ramy Youssef (de outra excelente série, “Ramy”) e por isso autobiográfica: acompanha Mo e a sua família, refugiados do Iraque durante a Guerra do Golfo, no início dos anos 90, em busca da obtenção da cidadania americana.
- Hacks (Season 2) – Série hilariante sobre uma comediante lendária de Las Vegas, pioneira mas ultrapassada, Deborah Vance (Jean Smart). A história explora a relação de mentoria que Deborah estabelece com Ava Daniels (Hannah Einbinder), uma jovem escritora de comédia. Nesta segunda temporada, Deborah, no crepúsculo da sua carreira, decide retornar às suas raízes e fazer espetáculos itinerantes pelos E.U.A.
Menções honrosas para a minissérie The English (protagonizada por Emily Blunt), para a continuação de The Crown (Season 5), Reservation Dogs (Season 3) e Abbott Elementary (Season 2) e para o final da excelente Better Call Daul (Season 6), proveniente do universo Breaking Bad. No mundo da fantasia, além da já mencionada Wednesday é impossível não destacar as majestosas House of the Dragon e The Lord of the Rings: The Rings of Power.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
As Minhas Melhores Leituras de 2022
2. Bernardine Evaristo – Rapariga Mulher Outra
3. Gerrit Komrij – Um Almoço De Negócios Em Sintra
4. Salman Rushdie – Quichotte
5. Viet Tranh Nguyen – O Simpatizante
6. Juan Gabriel Vásquez – O Barulho Das Coisas Ao Cair
7. Margaret Atwood – Grace
8. António Mega Ferreira – Desamigados Ou Como Cancelar Amizades Sem Carregar No Botão
9. Michel Houellebecq – Serotonina
10. Marieke Lucas Rijneveld – O Desassossego da Noite
11. Irène Némirovski – Suite Francesa
Os Melhores Filmes de 2022
O cinema, nos melhores e piores momentos, é um modo de viajarmos sem sair do lugar e descobrirmos outras histórias e realidades possíveis. As minhas 10 melhores viagens em 2022 foram:
2. Tár, de Todd Field - filme sobre a fictícia Lydia Tár (mais uma excelente interpretação de Cate Blanchett), uma aclamada compositora que se torna a primeira maestrina feminina de uma orquestra alemã. Acompanha-se a sua vida quotidiana em Berlim, as relações abusivas, a gravação da sua última sinfonia e a sua decadência devido ao seu histórico de comportamentos controladores, abusivos e narcisistas. Excelente!
3. Onoda, 10 000 Nuits Dans La Jungle (Onoda - 10 000 Noites Na Selva), de Arthur Harari - história de um militar japonês da II Guerra Mundial, treinado por um programa secreto dos comandos do exército nipónico e enviado para as Filipinas, para uma ilha montanhosa do arquipélago de Lubang, escassamente povoada por camponeses. Durante quase três décadas manteve-se escondido, ignorando o fim do conflito. O filme levanta muitas questões ainda hoje difíceis de abordar no Japão: a guerra, a derrota, o patriotismo e o fim do Império.
6. All Quiet on the Western Front (A Oeste Nada de Novo), de Edward Berger - baseado no livro icónico de Erich Maria Remarque, publicado em 1929 e já adaptado ao cinema em 1930 e 1970. O filme foca-se num jovem soldado alemão durante a Primeira Guerra Mundial. É uma história sobre os horrores na linha da frente.
7. Argentina, 1985, de Santiago Mitre - filme político onde aspetos públicos e privados dos seus personagens alternam-se e complementam-se numa abordagem bastante ampla de dois grandes temas de uma enorme atualidade: os direitos humanos e a justiça. Inspira-se na história real de Julio Strassera, Luis Moreno Ocampo e a sua jovem equipa jurídica que se atreveram a acusar, contra todos os ventos e marés, a contrarelógio e debaixo de constantes ameaças, a sangrenta ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983.
8. Elvis, de Baz Luhrmann – história da carreira de Elvis Presley (Austin Butler) em pouco mais de duas horas e meia. Filme com boas interpretações, que nos dá uma boa panorâmica biográfica da vida de Elvis, proporciona bons momentos musicais e mostra-nos o lado sórdido da sua carreira, bem patente na exploração do seu agente que poucos devem conhecer, o coronel Tom Parker (Tom Hanks).
9. Triangle of Sadness (Triângulo da Tristeza), de Ruben Östlund - sátira ao capitalismo e aos jogos de poder que resulta num filme de chorar a rir do princípio ao fim e que por isso se revela uma sólida chamada de atenção ao capitalismo crescente e à sociedade do consumo.
10. An Cailín Ciúin (The Quiet Girl), de Colm Bairéad - história absurdamente triste passada na Irlanda em 1981. Cáit, de nove anos, a menina do título do filme, contraria as adversidades de uma vida pobre num meio rural ao ser uma observadora sensível da beleza das pequenas coisas ao seu redor. Quando é “despachada” pela sua família sobrecarregada, muitas vezes emocionalmente fria, para um casal mais velho e sem filhos, experimenta um profundo afeto, talvez pela primeira vez…
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
Leituras do Mês
- António Mega Ferreira – Desamigados Ou Como Cancelar Amizades Sem Carregar No Botão
- Gerrit Komrij – Um Almoço De Negócios Em Sintra
- Yukio Mishima – Vida À Venda
- Julian Barnes – O Ruído do Tempo
terça-feira, 15 de novembro de 2022
Cinema do Mundo
- L'Incroyable Histoire Du Facteur Cheval (A Incrível História do Carteiro Cheval), de Nils Tavernier – França (2018)
Esta longa-metragem é dedicada à vida real do carteiro francês Ferdinand Cheval (1836-1924), interpretado genialmente por Jacques Gamblin. Um carteiro solitário que encontra a mulher da sua vida, Philomène (a encantadora Laetitia Casta) e dessa união nasce Alice, que Ferdinand ama mais do que tudo e por ela lança-se numa tarefa de loucos: construir-lhe com as suas próprias mãos um incrível palácio. Não se deixando abater nunca pelos azares da vida, este homem banal não se deixará afetar e consagrará 33 anos da sua vida a esculpir esta obra extraordinária: “O Palácio Ideal”, em Châteauneuf-de-Galaure, na região de Drôme. Inteiramente construído de pedras que encontrou perta da sua casa, o gigantesco palácio é decorado com esculturas de animais, fadas e seres mitológicos. Um monumento que pode ser visitado em Hauterives, França.
- Verdens Verste Menneske (A Pior Pessoa do Mundo), de Joachim Trier – Noruega (2021)
Neste filme, Julie (Renate Reinsve) é uma norueguesa que está a chegar à casa dos 30 anos mas que tem dúvidas em assentar, como o namorado deseja. O encontro com outro homem, por quem se apaixona, vem ainda complicar os problemas existenciais de uma jovem mulher que se sente “a pior pessoa do mundo”, uma personagem secundária na sua própria vida que nunca soube muito bem o que quer da vida: quando a vemos pela primeira vez, somos informados de que é uma brilhante aluna de medicina; logo depois, muda para psicologia para, em seguida, saltar para fotografia, acabando a trabalhar numa livraria; vai tendo uns romances, incluindo com professores, até conhecer Aksel, autor de banda desenhada, com quem passa alguns anos até se apaixonar por Eivind, e onde a sua ideia sobre maternidade oscila entre a rejeição e o desejo.
Estruturado em 12 capítulos, como um livro, e com momentos mágicos de criação cinematográfica – como quando tudo para à volta de Julie e só ela se move – “A Pior Pessoa do Mundo” é uma forma divertida, simples e honesta de nos encontrarmos com nós próprios e recorda-nos que o cinema é ainda uma arte de contar histórias.
- È Stata La Mano Di Dio (A Mão de Deus), de Paolo Sorrentino – Itália (2021)
Filme com uma belíssima fotografia e profundamente autobiográfico pois Sorrentino evoca a sua juventude na Nápoles da década de 80, quando Diego Maradona foi jogar para o clube local, a sua vasta família, a tragédia que o deixou e aos irmãos órfãos e a sua decisão de ser cineasta. É o jovem Fabietto que representa a versão ficcionada do realizador nesta jornada existencialista. Além de Fellini, sempre citado, é inevitável recordar Ettore Scola e o seu filme "La Famiglia" (1987) no qual, mais do que contar a história de uma família, assistimos à declaração de amor incondicional e tolerância que devem ser (teoricamente) as principais características de uma família. Belíssimo filme!
- A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão), de Karim Aïnouz (Brasil, 2021)
Um filme baseado em factos reais sobre a Segunda Guerra Mundial onde Gilles um jovem judeu belga, é preso pela SS juntamente com outros judeus e enviado para um campo de concentração na Alemanha. Para escapar à execução, ele jura aos guardas que não é judeu, é persa. A mentira salva-o mas Gilles acaba por receber uma missão aparentemente impossível: ensinar Farsi a Koch, o oficial encarregue da cozinha do campo, que sonha abrir um restaurante no Irão depois da guerra terminar. Gilles tem agora de inventar uma língua que não conhece, palavra a palavra. Conforme a relação pouco habitual entre os dois floresce, começa um clima de suspeita e de medo pela descoberta da trama.
Apesar de poucos momentos mais contundentes em termos de violência, não somos poupados dos horrores da guerra e podemos senti-los ao longo de todo o filme, apenas pela observação dos acontecimentos dentro do campo de concentração.
O final do filme é algo que merece especial menção, pois, inesperado, é simplesmente emocionante e espetacular, dando inclusive um maior significado ao filme e resgatando qualquer deslize de roteiro. A derradeira cena (na verdade a penúltima) é uma pérola surpreendente e inesquecível, que coroa de profundidade atemporal esta bela obra.
domingo, 6 de novembro de 2022
RIP Mimi Parker (Low)
Low, a banda formada em 1993, que encena emoções à flor da pele num quase silêncio: melodias simples, harmonias vocais cheias e a bateria de Mimi Parker…
Inscritos numa tendência do rock alternativo que se convencionou chamar ‘slowcore’, assinaram discos importantes nos anos 90 como “I Could Live In Hope” e “Long Division”.
Em 2005, lançariam um dos discos mais marcantes da cena indie norte-americana da primeira década do século XXI, “The Great Destroyer”. Nos anos mais recentes, estenderam a passadeira do rock a territórios mais experimentais com “Double Negative” (2018) e “HEY WHAT”, lançado no ano passado.
sábado, 5 de novembro de 2022
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
Dia Mundial do Sorriso (Best Stand-Up Comedy Specials)
Dizem que sorrir faz bem ao corpo e também à alma e que é o melhor remédio. O sorriso é tão importante que até existe um dia só para ele: na primeira sexta-feira de outubro, é celebrado mundialmente o Dia do Sorriso. E os espetáculos especiais de stand-up que mais me fizeram sorrir no ultimo ano foram:
- Jerrod Carmichael: Rothaniel (2022)
- Natalie Palamides: Nate: A One Man Show (2020)
- Nate Bargatze: The Tennessee Kid (2019)
- Mike Birbiglia: The New One (2019)
- Taylor Tomlinson: Quarter-Life Crisis (2020)
- Sheng Wang: Sweet and Juicy (2022)
- David A. Arnold: It Ain’t For the Weak (2022)
- Hannah Gadsby: Douglas (2020)
- Bill Burr: Paper Tiger (2019)
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Sons de Outono
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Leituras do Mês
sábado, 1 de outubro de 2022
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
Roger Federer - O Ídolo Que Mudou O Desporto
Roger Federer, um dos desportistas mais icónicos dos primeiros 20 anos deste século e seguramente o que mais extravasou a esfera da história do ténis, pendurou as raquetes na Laver Cup no passado fim de semana.
O lendário tenista suíço despede-se dos courts com 310 semanas no topo do ranking, 20 títulos de Grand Slam, duas medalhas olímpicas, 103 títulos de singulares e 1251 vitórias em encontros individuais. E agora? O que será do ténis sem ele?
sábado, 24 de setembro de 2022
Good Luck To You, Leo Grande
"Boa Sorte, Leo Grande", filme da realizadora australiana Sophie Hyde e da argumentista e atriz britânica Katy Brand, oferece-nos um olhar íntimo sobre a sexualidade. Emma Thompson desempenha o papel principal (o que só por si já seria suficiente para ver o filme), de uma professora de Religião e Moral reformada, viúva e insatisfeita, que não tendo tido outro parceiro sexual na sua vida para além do marido (conservador e pouco preocupado com o prazer feminino), decide contratar um trabalhador do sexo que dá pelo nome de Leo Grande (Daryl McCormack). Leo é uma pessoa agradável e segura de si, e embora nem sempre diga a verdade, Nancy descobre que gosta dele e consegue efetivamente estabelecer uma relação íntima. O jovem que lhe entra no quarto de hotel acaba por ir contra os seus mais profundos preconceitos e a sua história de vida fá-la repensar a sua própria relação com os filhos.
Com diálogos magistrais e uma forte componente dramática, introspectiva e até humorística, "Boa Sorte, Leo Grande" é um filme que fala sobre desconstrução. Sobre como é libertador desfazermos os rígidos condicionamentos culturais, morais e patriarcais que nos apertam e reduzem. Como pode ser transformador olharmos ao espelho, despidos dos filtros de sempre, e olhar para o outro com as lentes limpas (de medo, de vergonha e de culpa). Como pode ser revolucionário que uma mulher madura se sinta no direito de sentir desejo, prazer e vontade de o dizer em voz alta. E como é surpreendente isso ser tão novo no cinema.
Esta comédia intimista dramática de exceção entra para a minha lista de filmes preferidos que decorrem num único cenário (neste caso um quarto de hotel e apenas dois atores) e que nem por isso deixam de ser excelentes. Os outros filmes que constam dessa lista e o respetivo cenário único são:
- Rear Window – Janela Indiscreta (1954) – apartamento;
- Carnage - O Deus da Carnificina (2011) – sala de jantar;
- Amour – Amor (2012) – apartamento;
- Locke (2013) – carro;
- Phone Booth (2002) – cabine telefónica;
- 12 Angry Men – Doze Homens em Fúria (1957) – sala de um tribunal;
- Den skyldige (2018) – central de chamadas de emergência;
- Buried – Enterrado (2010) – interior de um caixão;
- My Dinner with Andre (1981) – restaurante.
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
Delia Owens - Lá, Onde O Vento Chora
“- Bom, nesse caso, o melhor será escondermo-nos bem longe, onde o vento chora. (…)
– Onde o vento chora? O que queres dizer com isso? – A mãe costumava dizer isso. – Kya recordava-se que a mãe estava sempre a encorajá-la a explorar o pantanal. – Vai tão longe quanto puderes, até onde ouvires o vento chorar.
– Significa bem longe, no mato, onde ainda há criaturas selvagens e estas ainda se portam como tal.” (Página 120)
A narrativa retrata a história de Kya, nascida em 1945, uma menina que vive com os pais e os quatro irmãos num pântano. Aos seis anos a mãe abandona a casa, devido à violência do pai, e a partir daí a vida dela muda para sempre. Os restantes irmãos também acabam por fugir deixando-a sozinha com o pai. Este, vinha para casa às horas que lhe apetecia, geralmente bêbedo, seguido de períodos em que desaparecia durante dias. Kya tem que crescer à força, principalmente após o dia em que o pai também desaparece. Para sobreviver a pequena vende peixe, mexilhões e outras coisas para conseguir ter o que comer. Os anos passam, Kya é posta de parte pelos habitantes do vilarejo, Barkley Cove (Carolina do Norte), que a consideram um bicho do mato, uma selvagem a quem chamam a “miúda do pântano” e aos 24 anos é acusada de matar um jovem com quem teve uma relação íntima.
Os principais intervenientes nesta história são: o casal Saltos (Jumpin', no original) e Mabel, também vítimas do preconceito racial dos habitantes da vila, proprietários da loja onde Kya consegue algum proveito com as vendas que faz; Tate, o primeiro amor de Kya, que a ensina a ler e Chase Andrews, o tal jovem que apareceu morto, desportista, por quem sente mais tarde atração. Entre amores e desamores, aproximações e desilusões, Kya vai aprendendo a desconfiar até da ideia do amor romântico, acreditando que o pântano e o mundo natural (onde “o mar era tenor e as gaivotas soprano” – página 40) é a sua única e mais pura salvação.
O livro tem muito drama, intenso em sensações, pouca ação, que flutua entre o presente e o passado, mas muito bem escrito, de forma fluída e ritmada, envolvendo-nos nas descrições da natureza (fruto da experiência de Delia Owens enquanto zoóloga e cientista da vida selvagem, em África), do sofrimento e intensa solidão, do racismo (na década de 60 a discriminação com base na cor era ainda uma triste e dura realidade nos E.U.A.), da violência doméstica e alcoolismo do pai. Mostra como a personagem Kya, mesmo tendo uma vida agridoce, viu a sua sorte mudar, conseguindo superar obstáculos e sobrevivendo contra todas as expectativas, tornando-se (irrealisticamente) uma autora de renome ao publicar vários livros de Biologia. Para mim, o final da história foi bastante previsível. De lamentar o número escandaloso de erros gramaticais do livro o que é vergonhoso para a tradutora e para a editora.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
sexta-feira, 15 de julho de 2022
Irène Némirovski - Suite Francesa
A “Suite Francesa” foi escrito em segredo, quando os nazis ocuparam a França em plena Segunda Guerra Mundial. Nunca foi acabado pois a autora de origem judia, Irène Némirovsky, foi enviada para Auschwitz em 1942, onde foi morta à chegada. O manuscrito permaneceu ignorado durante quase sessenta anos, até ser redescoberto pela filha e acabou por ser publicado em 2004.
Irène Némirovsky pretendia criar um épico sobre o Holocausto. A obra seria composta por cinco volumes na sua totalidade (concebido segundo uma estrutura inspirada na quinta sinfonia de Beethoven). Concluiria apenas os dois primeiros, deixando notas manuscritas, contendo as linhas mestras para a compilação de um terceiro, pouco antes de ser deportada para Auschwitz.
A primeira parte do romance, intitulada “Tempestade em Junho” retrata, com uma lucidez espantosa, o panorama da desagregação económica francesa, como resultado da Grande Depressão dos anos 30, à escala global - uma situação que foi aproveitada pela demagogia ideológica subjacente à propaganda do partido nazi, o qual encontrou nessa fragilidade a oportunidade perfeita para dar largas aos seus objectivos expansionistas.
O local da acção, nesta primeira parte, situa-se na cidade de Paris, logo após ser declarada a guerra. Irène Némirovsky, descreve-nos alguns quadros do quotidiano doméstico em diversos lares – desde o abastado banqueiro Corbin, ao já idoso casal de classe média (funcionários bancários), os Michaud, passando pela família Péricand, situada no limiar que separa a classe média-alta da alta-baixa e pelo pretensioso escritor de massas especializado em folhetins, Gabriel Corte.
A maior parte das personagens de Némirovsky são, nesta primeira parte, não exactamente más, mas de carácter medíocre. A autora critica severamente a atitude hipócrita (colaboradores e delatores) da maior parte da população francesa.
Na segunda parte, “Dolce”, a história desenrola-se essencialmente em duas casas: a casa dos Angellier e a casa dos Labarie. Lucille Angellier é uma mulher que espera notícias do seu marido (a cumprir serviço militar), enquanto habita com a senhora Angellier, a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões e que procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais. A excepção é um alemão sensível, culto e educado – Bruno von Falk – que é utilizado como contraponto face a outras figuras do exército ocupante como, por exemplo, Kurt Bonnet, o tenente intérprete do Kommandantur fascinado por pintura flamenga.
Aquele facto não implica necessariamente que a autora simpatize com os alemães. Na realidade, na altura em que Némirovsky escreve estes capítulos, as pessoas ainda não têm consciência do perigo do nazismo, nem estão na posse da totalidade dos acontecimentos a nível global.
Esta edição de “Suite Francesa” (nome da partitura dedicada a Lucille e elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar) termina com as anotações da autora, para os volumes seguintes, seguida da troca de correspondência entre os membros da família e os amigos da escritora no sentido de mover influências para descobrir o seu paradeiro após ser deportada e proceder à sua libertação. Informação que só foi conseguida no pós-guerra, ao examinarem os registos do campo de concentração onde deu entrada.
O filme que adoptou esta obra ao cinema foca-se essencialmente na segunda parte do livro (“Dolce”) e na história de Lucille, com o marido ausente em combate e que se apaixona pelo “bom nazi” com quem é obrigada a partilhar a casa.
O elenco é admirável (especialmente Michelle Williams, Kristin Scott Thomas e Matthias Schoenaerts) mas, relativamente ao livro, o retrato não é tão realista, muitas personagens são esquecidas e a narração serve apenas para procurar o impacto emocional que as imagens não chegam a alcançar.
Sabendo tratar-se de uma forma viável de comercialização, o uso da língua inglesa em personagens francesas atribui o seu “quê” de artificialismo para os tempos que decorrem, enquanto o alemão é imaculado (involuntariamente dá a entender que é uma língua enraizada no Mal).
Trata-se claramente de uma situação em que o filme, que conta com a realização insípida de Saul Dibb, não consegue acompanhar a complexidade da obra original apesar dos valores de produção serem elevados.














