sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ildefonso Falcones - A Rainha Descalça


“Nunca confies na palavra de um cigano”

Depois de ter lido A Catedral (2006) e A Mão de Fátima (2009), adorei a leitura da (também) extensa obra que o espanhol Ildefonso Falcones acaba de publicar: A Rainha Descalça.

Neste magnífico romance histórico, onde sobressai essencialmente a importância da família, a amizade e a honra, fui cativado pelo tema - a raça e cultura cigana - e pelo ambiente: a acção decorre de 1748 a 1754, principalmente nas cidades de Sevilha e Madrid (mas a pequena vila alentejana de Barrancos também é palco da história). Trata-se de uma época onde subsistem a escravatura, um enorme fervor religioso e a guerra entre Espanha e Inglaterra. Além disso, o autor exibe um conhecimento profundo deste período do reinado de Fernando VI (casado com a portuguesa Maria Bárbara de Bragança) e da Inquisição e descreve com mestria todo um cenário que inclui bailes, nobres, vilões, preconceito, intolerância, miséria, crueldade, amores sofridos e vinganças.

Tudo começa em Janeiro de 1748 com o desembarque de uma mulher negra de 25 anos (Caridad) em Cádis, que deixou um passado de escravatura em Cuba, numa plantação de tabaco. O seu amo morreu durante a viagem mas concedeu-lhe a liberdade em testamento. Ao deambular por Sevilha, pois não sabe o que fazer com a sua liberdade, e após ter sido abusada sexualmente por um oleiro, o cigano Melchor Veja, contrabandista de tabaco, delicia-se a ouvi-la cantar e leva-a para o seu bairro em Triana onde lhe apresenta a sua neta de catorze anos, Milagros. De imediato uma amizade profunda é estabelecida entre as duas.

Caridad e Milagros são as personagens centrais, com maneiras de ser bem definidas e diferenciadas e por isso demorei a perceber qual era a “Rainha Descalça”. Milagros, tal como a sua mãe, é uma mulher cigana, orgulhosa, inconformada, rebelde e cheia de coragem. Caridad, escrava durante toda a sua vida, mãe de dois filhos que por circunstâncias da vida não estão ao seu lado, está habituada a ser abusada, a não olhar nos olhos de ninguém, a servidão está enraizada no seu ser.

Sempre juntas, Caridad e Milagros tornam-se confidentes e são inseparáveis. A ex-escrava passa a trabalhar com o tabaco contrabandeado por Melchor e percebe que está a desenvolver novos sentimentos pelo cigano que a acolheu.

Outras personagens da comunidade cigana vão surgindo: Ana Vega, mãe de Milagros; José Carmona, pai de Milagros; “Conde” Rafael Garcia, patriarca da família Garcia, odiada pelos Vega por terem sido responsáveis pela condenação de Melchor a 10 anos de trabalhos forçados nas galés do rei; Reyes, a “Trianeira”, mulher do “Conde”; Pedro Garcia, neto do “Conde”, futuro marido de Milagros e Alejandro Vargas, a quem o pai de Milagros prometeu casamento com a filha.

Em 1749 dá-se a grande rusga protagonizada pelo exército real, convertendo todos os ciganos em proscritos, tendo como objectivo eliminar a raça. Cerca de 130 famílias ciganas foram presas em Sevilha durante o mês de julho. Os familiares de Milagros foram todos presos. Só Milagros escapou. Caridad teve ajuda do religioso frei Joaquin, que a colocou temporariamente em casa de pescadores. Mais tarde, Milagros, Caridad e uma cigana anciã fogem para Portugal (Barrancos).

Pouco tempo depois, alguns ciganos foram libertados. Nem nas prisões os quiseram (“não valiam o que comiam”), por isso foram postos em liberdade desde que provassem que eram casados pela igreja e que seguiam os seus princípios. Ana não foi libertada por apelar constantemente à revolta das ciganas.

Contra a vontade da familia, Milagros casa com Pedro Garcia provocando a ira de Ana e Melchor. Este casamento foi muito incentivado pelo "Conde" e pela "Trianeira" pois viram na voz de Milagros uma forma de ganhar muito dinheiro. Efectivamente, Milagros começou a ter muito sucesso e em breve seria convidada para actuar em Madrid, cidade que conquistou em muito pouco tempo. No entanto, Pedro Garcia é que ficava com todo o dinheiro obtido nas actuações da mulher e com ele levava uma vida boémia, dormindo constantemente com outras mulheres.

Os acontecimentos vão-se sucedendo: a prisão de Caridad durante dois anos, o surgimento de Nicolasa, Herminia e do jovem Martín, o sucesso de Milagros nas comédias de Madrid, a perda da virgindade de Milagros da forma habitual na comunidade cigana, o sequestro de Melchor e consequente fuga, a queda em desgraça de Milagros e, finalmente, o regresso dos quatro personagens (Melchor, Caridad, Milagros e do frei Joaquin) a Triana onde se irá dar o desfecho da história.

Ildefonso Falcones revela uma capacidade extraordinária de nos transportar para outro tempo e permite-nos conhecer um pouco melhor a História de Espanha. Emociona pela descrição cruel da realidade que as pessoas viviam numa época de intolerância. No primeiro livro, apresentou-nos uma história de miséria e servidão, de um homem do povo, Arnau, na Barcelona do século XIV; no segundo livro, acompanhamos Hernando num conflito entre muçulmanos e cristãos na Espanha do século XVI e agora, neste terceiro título, descreve com minúcia a forma de viver do povo cigano, bastante diferente da forma de viver dos “gadjé”, em pleno século XVIII. “A Rainha Descalça” é a sua obra mais profunda, mais triste, mais melancólica, com uma quase total ausência de momentos de alegria e contentamento, onde aflição, mágoa, angústia envolvem o leitor e as próprias personagens nas canções repletas de lamentos e amarguras (queixa de galé).

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