sábado, 12 de julho de 2014

Philip Roth – O Animal Moribundo


Este é o décimo primeiro livro que leio de Philip Roth, e seria uma tarefa muito ingrata escolher aquele que me tocou mais profundamente. Para mim, Philip Roth é definitivamente um dos maiores escritores norte-americanos vivos.

Nesta história curta mas ampla nas reflexões que possibilita, é feita uma análise ao amor e erotismo na terceira idade. Passa-se em Nova Iorque e é narrada (a um ouvinte não identificado) por David Kepesh, sexagenário de cabelos brancos, professor universitário, crítico cultural da televisão (sobre o que há de melhor para ver, ouvir e ler) mas também divorciado, pai ausente de um único filho e a viver de modo indecoroso a liberdade sexual conquistada com a revolução cultural dos anos 60 pois considera-se muito vulnerável à beleza feminina. No fundo trata-se de um ser humano que não aceita a sua incoerência e que por isso se vulgariza numa consistência oca.

Kepesh, que sente a velhice aproximar-se e a morte a rondar, tem por hábito seleccionar uma aluna no primeiro dia de aulas para com ela ter um caso no final do ano lectivo. Aos 62 anos, a escolha recai sobre a bela Consuela Castillo, de 24 anos, de origem cubana. Apesar de se tratar de uma relação sem qualquer compromisso formal nem obrigações com o sexo oposto, que o satisfaz sexualmente de forma plena (apesar da quase crueldade que é sentir desejo por alguém tão mais novo), Kepesh vê a sua vida desmoronar-se pois torna-se uma vítima dos mais básicos instintos de posse e ciúme e assim despojou-se do seu realismo e pragmatismo e não pensava noutra coisa que não perder a sua amante. Um ano e meio após o seu início, a estudante seduzida termina a relação pois Kepesh não é capaz de enfrentar a família da sua amante no dia de celebrar o fim da sua licenciatura.

O tempo passa. A passagem do tempo torna Kepesh naquilo em que todos nós nos tornaremos: um animal moribundo. A relação conflituosa com o filho Kenny, que leva uma vida falsamente moral, continua (não faltando uma alusão aos “Irmãos Karamazov”), tal como os encontros com a eterna amante Carolyn e os desabafos com o seu amigo George, que acaba por falecer vítima de uma trombose. Continua a coleccionar namoradas, até que Consuela, já com 32 anos, volta-lhe a telefonar novamente, numa noite de passagem de ano, a pedir para terem uma conversa.

As referências culturais abundam, passando por diversos compositores de música clássica, por um manuscrito de Kafka (que impressionou Consuela), por uma ópera de Puccini, pelo Monte Rushmore, pelo relógio criado em 1812 para medir o andamento musical (metrónomo), pelas pinturas de Balthus, por um quadro de Velázquez (“As Meninas”, reproduzido na imagem abaixo) e um de Amedeo Modigliani (“Le Grand Nu”). Este último constava do postal ilustrado que Kepesh recebeu de Consuelo seis meses após terem terminado a relação e também consta da capa da edição que acabei de ler. Uma curiosidade: o título “The Dying Animal” foi retirado do poema “Death” de William Butler Yeats.


E termino com duas citações para aperitivo de tão lauta refeição:

A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. Aqui não resisti a consultar o original: “The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.”)

Será que os homens, uma vez excluído o sexo, continuariam a achar as mulheres assim tão encantadoras?

A adaptação ao cinema pela espanhola Isabel Coixet não me desiludiu. Pelo contrário, o seu filme de 2008, Elegy (“Elegia”) consiste numa adaptação inteligente da obra de Roth, baseada na portentosa interpretação de Ben Kingsley (o eterno Gandhi no papel de David Kepesh) e de Penélope Cruz (Consuela Castillo), com todo o esplendor da sua sensualidade (aqui comparada à figura do quadro "La Maja Vestida" de Goya). Com poucas alterações ao original (até o episódio do tampão é recordado!) e com uma ternura, graça irónica e intensidade erótica, “Elegia” explora o poder que a beleza tem em cegar, revelar e transformar as pessoas…




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