terça-feira, 14 de julho de 2015

Cees Nooteboom - Rituais


Esta foi a minha primeira incursão pela obra deste autor holandês. Inni Wintrop é a personagem principal que procura constantemente respostas para as diversas questões do mundo contemporâneo (principalmente sobre Deus, as religiões e o dinheiro), vivendo constantemente em insegurança, com medo, angustiado e deveras cético, pois “o epicentro da estatística parecia encontrar-se perto dele e as estatísticas eram infalíveis”.

Para ele, as convicções políticas “são uma ligeira doença da alma”. As suas crenças são postas em causa por duas pessoas que conhece ao longo da sua vida: Arnold Taads e Philip Taads (pai e filho). Aliás, o livro está dividido em três partes: em 1953 convive com o pai Arnold, em 1963 relata-se o pseudo-suicídio e em 1973 trava conhecimento com o filho Philip.

Na primeira parte, ficamos a saber que Inni, órfão, viveu num colégio interno, foi expulso de quatro escolas e entregue pela sua tia Thérèse a Arnold Taads, ateu e misantropo (gosta mais do seu cão do que das outras pessoas), durante alguns dias. O pai de Inni, que morreu em 1945 num bombardeamento, traiu a mãe com a empregada doméstica e abandonou-a. Era um homem “cujo relacionamento com o mundo tinha falhado”. Em relação a Philip, tratava-se de um monge solitário, que adoptou a reclusão como forma de vida. Sobre o suicídio apenas adianto que Inni foi traído pela mulher Zita, com um fotógrafo italiano.

A obra está carregada de referências a pintores e escritores holandeses, mas também são citados Virginia Woolf, Theodor Fontaine, Yasunari Kawabata, Kitagawa Utamaro, Jean-Paul Sartre e uma água-forte de Baccio Baldini (Sibila Líbia, na foto abaixo). Logo no início, Stendhal anuncia:

Personne n’ est, au fond, plus tolérant que moi. Je vois des raisons pour soutenir toutes les opinions; ce n’est pas que les miennes ne soient fort tranchées, mais je conçois comment un homme qui a vécu dans des circonstances contraires aux miennes a aussi des idées contraíres”.

(No fundo, ninguém é mais tolerante do que eu. Vejo razões para sustentar todas as opiniões; não porque as minhas não sejam mais nítidas, mas porque concebo que um homem que viveu em circunstâncias contrárias às minhas tenha ideias contrárias.)

A escrita é leve mas cativante e proporciona uma forma densa de pensar sobre os dilemas vitais do homem moderno sem apresentar qualquer panaceia, considerando apenas o homem como ser solitário, incomunicável e egoísta (“o homem é um triste mamífero que se penteia”). Na última página da obra é feita uma alusão a Rikyu, o maior mestre de chá de todos os tempos, que acaba por ser fundamental para a compreensão da história.

3 comentários:

Santos Sara disse...

Olá CCB

Não conhecia tal autor holandês. Mais uma vez fiquei curiosa sobre este livro.
Achei curioso o título, "Rituais". Faz-me lembrar alguns rituais de leitura dos quais não prescindo. Quais são os teus?

C. Barros disse...

Olá Sara

Se puderes lê este livro. Acho que vale a pena...
Claro que também tenho muitos rituais de leitura (atenção que o título do livro não se refere a rituais de leitura!). Assim de repente posso-te confessar algumas "manias":

- só leio um livro de cada vez (no entanto pelo meio posso ler parcialmente livros de contos ou similares);

- a partir do momento que começo a leitura de um livro, tenho de ler algumas páginas todos os dias até concluir – estabeleço objectivos (por exemplo, se o livro tem 400 páginas estabeleço que devo ler 80 páginas por dia e assim ao fim 5 dias termino a leitura);

- não faço qualquer anotação no livro, não gosto de ver livros maltratados. Trato-os de forma religiosa, sejam meus ou emprestados;

- uso um caderno de apontamentos onde destaco expressões, citações, referências diversas e transcrevo para um ficheiro do word (por vezes faço um pequeno texto para colocar aqui no blog);

- gosto de ter o Google e wikipédia por perto quando estou a ler – não deixo passar nada que não entenda (palavras, locais, referências a pessoas ou acontecimentos. Por exemplo há pouco estava a ler um livro que mencionava a Guerra dos 7 dias, como já não me recordava de datas e intervenientes constatei de imediato que decorreu no período 1756-1763 e que foi entre França e Inglaterra+Portugal;

- não gosto de saber demasiados pormenores da história, muito menos o final;

- quando descubro um novo autor e a sua leitura me entusiasma, não paro enquanto não devoro toda a sua obra (aconteceu há alguns anos com o Philip Roth e depois com o Murakami);

- registo os livros que leio ao longo do ano. Guardo as listagens religiosamente (aliás acho que sou fanático por listas), nos últimos anos li entre 50 a 60 livros por ano, o dá uma média de aproximadamente 1 por semana.

E as tuas taras, são muito diferentes?

Boas leituras.
Bjs

Capitu disse...

Acabei de ler há alguns minutos e fui buscar o autor da frase sobre o homem quando encontrei seu comentario. Gostei muito do livro. Lamentavelmente, o autor faleceu em abril desse ano. E curiosamente eu estava em Bruges há algumas semanas quando li o obituário num cartaz na Igreja de Nossa Senhora. É o fluxo da vida.